Match Point

34 ARCO 3 CONCRETO!- Capítulo 31 - A Batalha do Lixão: O Bug


Notas iniciais
Oi, corvos! Espero que estejam bem. Esse capítulo tá cheio de emoções intensas, reflexões e estratégias… do jeitinho que eu amo escrever. Se acomodem, respirem fundo e aproveitem a leitura. Boa leitura e até lá no final!

KENMA

O som dos gritos e tambores da torcida ainda reverberava como um zumbido abafado, como se o próprio ginásio tentasse prender a atenção do Nekoma em meio ao turbilhão. Mas, no canto da quadra, o silêncio imperava. Os jogadores se reuniam como sobreviventes de um primeiro embate, suados, ofegantes, com o gosto metálico da frustração misturado à água que descia pela garganta.

Alguns se sentavam, outros apenas se agachavam, tentando recuperar o fôlego e o foco. Yaku respirava de forma ritmada, os olhos fixos como lanças. Kuroo apoiava os cotovelos nos joelhos, o rosto tenso, mandíbula travada. Lev mexia os dedos, cabeça baixa, como se tentasse encontrar respostas no próprio suor. E Kenma... Kenma apenas se ajoelhava sobre os calcanhares, como sempre fazia, quieto, processando cada jogada como quadros acelerados de um vídeo antigo. O mundo lá fora sumia. Tudo era cálculo.

Então, a figura que carregava autoridade e história entrou no espaço com o mesmo peso de sempre. O treinador Nekomata. Ele andava com a leveza de um gato velho e a presença de um general. Os cabelos grisalhos penteados para trás, ainda que algumas mechas insistissem em cair e o agasalho vermelho com “NEKOMA” bordado em branco nas costas transformavam sua silhueta em um ícone vivo. Quando parou diante do grupo, o tempo pareceu suspenso. Nenhuma palavra foi dita. Nenhum movimento em falso. Só ele.

Na mente de Kenma, Nekomata sempre surgia com outro filtro. Como um personagem pixelado de jogo retrô. Um general tático, um mestre de xadrez em 8 bits, com olhos felinos que enxergavam além do visível.

E aquele general falava agora.

“Os saques deles estão destruindo a gente” começou, a voz rouca e grave, mas com clareza cirúrgica. “Tirando o Yaku, nossas recepções estão péssimas.”

Um desconforto percorreu o grupo. O silêncio era a mais ruidosa das confissões.

“Lev... lembre-se dos treinos. Você é alto, tem alcance, mas isso não é tudo. Precisa melhorar sua recepção. E seu saque está abaixo do que vimos nos treinos.”

Lev arregalou os olhos, como se tivesse levado um soco no estômago. Assentiu com a cabeça, encolhido.

“Kai e Yamamoto” continuou, os olhos afiados como facas. “As jogadas laterais de vocês precisam ser mais agressivas. Não me deem ataques fáceis de defender. Entenderam?”

“Sim, senhor!” responderam quase em uníssono.

Então, o olhar do treinador recaiu sobre Kuroo.

“E você... provoque menos e jogue mais.”

Não havia ironia, nem sorriso. Apenas um lembrete direto ao coração do capitão. Kuroo engoliu em seco e desviou o olhar por um instante. Aquilo doía mais do que qualquer grito. Kenma acreditava que aquilo era tudo. Que o general havia concluído sua inspeção.

Mas então...

“Kenma.”

O nome cortou o ar como uma espada. Ele ergueu os olhos devagar, puxado de dentro da própria mente.

“Filho, você pode se mexer mais, sabia?”

Kenma franziu os lábios, incomodado. Claro que sabia. Só não queria. Correr, suar, acelerar o coração... parecia esforço demais para um jogo que, às vezes, ele só queria observar. Mas Nekomata não havia terminado.

“Se quiser vencer o baixinho...” disse com um sorriso afiado “vai ter que dar seu melhor.”

O tempo parou.

“Ele percebeu.” Kenma sentiu o estalo interno.

Sim, o técnico havia notado. Notado o quanto Kenma observava Charlie Spring. Desde o primeiro saque. Desde o primeiro ponto. A forma como ele se movia, como se carregasse dor nos pés e asas nas costas. Ele era um bug no sistema. Um erro bonito. Um glitch.

E Kenma odiava bugs. Mas odiava mais ainda não entendê-los.

Ele soltou um leve suspiro, apoiou as mãos nos joelhos, e ergueu o olhar para a quadra.

“Ok. Vamos jogar então...” pensou Kenma se levantando

“Kuroo...” chamou, com a voz calma, mas clara.

E algo raro aconteceu. O Nekoma todo prestou atenção.

“Eu lembro que você disse que não existe uma solução absoluta para nenhuma jogada...”

Kuroo o encarou.

“O Charlie deve marcar uns 10 pontos no jogo. A gente só tem que impedir uns dois ou três desses.”

Kenma sentiu as bochechas esquentarem com a atenção que recebia. Mas continuou.

“Eu acho que a melhor coisa é acumular um ponto atrás do outro direto nos saques...” ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Devemos focar nossos saques no Charlie. Então ele não vai ter tempo de armar aquele ataque rápido com o Nick.”

“É isso aí, Kenma! Ele tem razão!” disse Kuroo, colocando a mão em volta dos ombros de Kenma com convicção.

Ver Kenma falar era como ver um monge levantar a voz. E, quando ele falava... todos ouviam. Porque no fim das contas, Kenma sabia. Não existe forma de vencer sem jogar de verdade. E agora... ele estava dentro do jogo. Corpo e mente.

O bug precisava ser decifrado. E o território, reconquistado.


CHARLIE

"VOE!"

O grito do Karasuno cortou o ar como um trovão — não apenas um som, mas um chamado. Uma convocação à guerra. Era a voz de um time que já havia caído, e aprendido a se erguer. Que não pedia passagem, mas avançava com as próprias asas abertas.

Em quadra, os jogadores se alinharam como soldados prestes ao impacto. Mãos firmes. Músculos tensionados. Olhos em brasa. Do outro lado, Kai se dirigiu à linha de fundo com passos calmos, quase cerimoniais. O silêncio antes do saque parecia segurar a respiração de todos. E então, com um movimento preciso, ele lançou a bola, curta, baixa, traiçoeira. Girando rente à rede, ela mergulhou com intenção cirúrgica, indo direto na direção de Charlie.

"Querem travar nosso ataque rápido…" pensou rapidamente Charlie, no exato instante em que sentiu o peso da bola bater nos antebraços. Mas então, a certeza se acendeu dentro dele como um raio. "Não vai funcionar."

A manchete foi firme. Precisa. A bola subiu limpa, no exato ponto onde precisava estar. Nick já estava lá. Como se fosse puxado por um fio invisível, como se o tempo tivesse sido dobrado para que chegasse antes de todos. Ele girou de costas, sem hesitar, e levantou com perfeição. Uma curva perfeita no ar, convidativa, como um cometa descrevendo seu próprio destino. Charlie disparou pela esquerda. O som dos seus passos foi engolido pelo rugido da torcida, mas ele só ouvia uma coisa: o silêncio dentro de si.

E então saltou.

Foi um salto feroz, mas controlado. Os pés deixaram o chão como se nunca tivessem pertencido a ele. No ar, Charlie enxergou o bloqueio do Nekoma se armando com pressa, mãos estendidas, olhos arregalados. Estavam atrasados. Um segundo. Talvez menos.

Mas era tudo o que ele precisava.

Seu braço girou com uma violência que não vinha da raiva, mas da certeza. Certeza de quem sabe quem é. De quem se quebrou e se refez, peça por peça. O cruzado rasgou o espaço entre os bloqueadores e atingiu o chão do Nekoma com um impacto seco, brutal, inegável.

O som foi ensurdecedor.

Charlie pousou como se o mundo abaixo dele tremesse e talvez tremesse mesmo, mas não pelo impacto da bola. Era o peso da presença dele naquele momento. O peso de um garoto que aprendeu a não fugir.

Ele ergueu os olhos. E o olhar que lançou aos adversários era de aço puro: queimação nos olhos, sorriso leve nos lábios e uma confiança que não pedia licença. Era como se dissesse com o corpo inteiro:

"Isso não vai funcionar, gatinhos."

E naquele instante... todos acreditaram.


KENMA

"O quê?"

A mente de Kenma explodiu em confusão silenciosa. Ele piscou lentamente, processando o que havia acabado de acontecer. "Não tinha necessidade de Charlie usar aquela jogada. Não era o momento. Era só o início do set… então por quê?"

Seus olhos, sem que percebesse, buscaram instintivamente os de Nick do outro lado da rede. Eles se encontraram. Verde contra âmbar. O gato e o corvo. Mas algo naquele olhar não tinha mais o gosto de rivalidade crua. Era... um espelho. Dois levantadores, um tentando ler o outro. Kenma leu Nick naquele instante como se estivesse lendo um código de jogo, linha por linha, entendendo sem palavras a mensagem que atravessava a quadra:

"Você vai precisar de muito mais que isso para quebrar nosso ataque rápido."

Nick sorriu. Não foi um sorriso largo, mas carregava aquele toque debochado, provocador. Um convite ao caos. O tipo de sorriso que quebrava padrões, que irritava quem precisava de lógica para respirar.

E Kenma sentiu.

No início, foi só uma faísca. Um calor leve, quase imperceptível, acendendo em algum canto adormecido dentro dele. Mas não desapareceu. Cresceu devagar, como uma chama teimosa tentando romper o véu da apatia.

"O que… é isso?"

A pergunta surgiu antes mesmo que pudesse processar.

"Será raiva?"

Mas não era raiva. Não era aquela irritação previsível de quando alguém errava uma jogada óbvia ou fugia do plano. Era outra coisa.

"Será… empolgação?"

A palavra soou esquisita em sua cabeça, como se não lhe pertencesse. Mas ele não a descartou. Porque, no fundo, fazia sentido. O coração batia um pouco mais rápido. As mãos pareciam mais vivas. E havia algo nos movimentos dele que não estava sendo calculado… estava sendo sentido. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, ele estivesse jogando não para vencer… mas para se divertir.

"Nick e Charlie…"

O pensamento veio como uma constatação, quase com espanto.

"O que é que vocês têm? Que tipo de código estranho vocês carregam, que quebra a lógica, desafia as regras… e transforma esse jogo numa coisa que eu não consigo parar de olhar?"

Era isso. Fascínio. Kenma estava fascinado. Não pelo resultado. Mas pelo que poderia descobrir se continuasse jogando.

Kai se aproximou rapidamente, a respiração ainda descompassada da última jogada.

"Foi mal, Kenma... o saque encaixou meio mal, né?"

Kenma piscou, voltando para a realidade. A quadra. As luzes. Os gritos da torcida.

"É..." ele respondeu, ainda meio absorto. "Eu achei que tínhamos uma chance decente sacando no Charlie."

Ele fez uma pausa, deixando Kai confuso.

"Mas eles..."

Kenma não terminou a frase. Em vez disso, ergueu o olhar para o outro lado da rede. Charlie ainda estava ali, com um leve sorriso no rosto, como se sentisse que algo tinha mudado. Como se soubesse que Kenma estava... começando a se divertir.

"Charlie!"

Kenma chamou, a voz não alta, mas firme. O atacante do Karasuno se endireitou e o olhou diretamente. Kenma levantou o polegar com uma seriedade quase solene.

"Continua deixando tudo divertido, tá?"

O silêncio que caiu foi quase ensurdecedor. Kuroo parou de se alongar e ficou pálido, arregalando levemente os olhos. Yaku franziu o cenho, como se tentasse decifrar uma equação impossível. Lev coçou a cabeça, completamente perdido. Até o treinador Nekomata, do alto da sua experiência, virou a cabeça como quem não acreditava no que tinha ouvido.

Charlie, do outro lado da quadra, deixou o sorriso cair por um segundo. Surpreso. E depois, lentamente, um novo sorriso apareceu. Mais genuíno. Menos provocador. Como se tivesse entendido que algo, ali, havia mudado.

Kenma sentia. Pela primeira vez, ele queria continuar jogando. Não apenas para vencer. Mas porque aquilo estava ficando realmente... divertido.


TREINADORA SINGH

O segundo set se desenrolava com a tensão de uma corda prestes a estourar. O placar marcava 14x16 para o Karasuno, mas Singh sabia que números eram apenas a superfície. A verdadeira batalha estava nos olhos dos jogadores, no peso de suas respirações, nos músculos que já não respondiam com a mesma velocidade.

Charlie saltou e cortou com precisão. Um ataque rápido, técnico. Mas Yaku... Yaku estava lá. De novo. Como um fantasma que não deixa a bola tocar o chão. Singh cruzou os braços e estreitou os olhos. Um canto de seu rosto se ergueu num meio sorriso cansado.

"Esses gatinhos são persistentes" pensou, observando a quadra. O Nekoma se firmava em sua essência defensiva. E o Karasuno, por outro lado, voava. Atacava. Cortava. Arriscava. O Nekoma sobrevivia no chão. O Karasuno, no ar.

“A batalha do lixão em toda sua glória.” A reflexão emergiu suave, como se dançasse com o som dos tambores ao fundo. “Mas é definitivamente mais difícil para os corvos. O voo exige mais. E meus meninos... estão exaustos. E eu tenho certeza... que os gatos já sabem disso.”

Seu olhar se desviou para o banco adversário. Lá estava o treinador Nekomata, sereno e atento, como se previsse cada movimento futuro com olhos felinos. Ele não falava alto. Não gesticulava. Mas seus jogadores o ouviam. Seguiam. Como se fosse um general vestido de vermelho no meio de um jogo de guerra.

Outro ataque sincronizado. O grito coletivo ecoou do outro lado: “Ataque sincronizado!”

Kenma armava mais uma de suas jogadas com frieza absoluta. Seus olhos não hesitavam. Não havia paixão ali, apenas lógica e leitura. Um cálculo perfeito disfarçado de quietude. A bola subiu. Kuroo avançou. Lev se posicionou. Yamamoto correu pela esquerda.

Tsukishima, Charlie e Harry saltaram juntos no bloqueio, mas foi em vão. 18x18. Mais um empate.

A jogada seguinte veio com força ainda maior. Kuroo cravou a bola no chão, rente aos pés de Daichi.

19x18. Nekoma à frente.

Singh ergueu a mão pedindo tempo técnico. O apito do juiz cortou o barulho da torcida. O time do Karasuno correu para o banco, ofegante, suado, os corpos curvados de cansaço. Alguns se jogaram no chão, outros apenas se ajoelharam com as mãos nos quadris.

Harry bufou e se jogou de costas.

"Em que set estamos mesmo?"

"Deve ser o quinto!" Asahi respondeu, esguichando água no rosto.

"Estamos na metade do segundo!" Daichi cortou, rindo, mas com firmeza. "Ainda tem muito jogo pela frente."

Singh observava em silêncio. Seu olhar varria cada um dos rostos com a precisão de quem não precisava de planilhas para saber a verdade: o Karasuno estava chegando no limite.

“Eles não têm energia infinita…” pensou. “Se levarmos isso para o terceiro set, a vantagem do Nekoma aumenta. Precisamos fechar agora.”

Ela ficou no meio do círculo e seu tom mudou. Não era autoritária, nem urgente. Era direto. Preciso.

“Às vezes, o caminho que parece mais difícil... é o mais fácil.”

Os olhos se voltaram para ela.

“Fechar esse set agora significa vitória. Significa semifinal. Mas para isso, vocês precisam entender o que está nos travando... o ataque sincronizado deles.”

"É muito difícil prever" murmurou Tsuki, ajeitando os óculos com a palma da mão.

"Porque vocês estão focando demais nos atacantes" ela respondeu com calma. "O segredo está no levantador. Kenma nunca levanta duas vezes para o mesmo jogador. Ele é frio, lógico, quase impossível de ler... mas mesmo ele tem padrões. Pequenos sinais. Um giro de pulso, uma leve inclinação do ombro. Se vocês prestarem atenção nele, vão ter uma chance."

Todos assentiram em silêncio, como se internalizassem cada sílaba. Singh sabia que era isso que os grandes times faziam, entendiam não só o jogo, mas a mente do adversário.

Seu olhar então pousou em Charlie.

O garoto estava de cócoras, tentando regular a respiração. O rosto corado demais. As mãos tremendo levemente, embora ele tentasse esconder. Nick estava ao lado, com o maxilar travado e um olhar inquieto.

“Charlie.” Singh chamou, em voz baixa, puxando-o de lado. “Está tudo bem?”

Ele se levantou, ofegante, e forçou um sorriso.

"Está tudo bem, treinadora."

Ela franziu a testa.

"Tem certeza?"

"É só cansaço. Nada demais."

"Quer descansar um pouco?"

Charlie arregalou os olhos, balançando a cabeça com mais pressa do que devia.

"E perder esse final de set? Nem pensar."

Ela o encarou. Não com reprovação, mas com um olhar agudo, profundo, de quem lia além da resposta. Singh era treinadora, mas também era estrategista, e sabia reconhecer uma mentira.

“Tudo bem.” disse ela, finalmente. “Mas estou te observando. E se perceber que você não está bem, vai sair. Com ou sem a sua permissão.”

Charlie assentiu, menos confiante dessa vez. Singh colocou a mão em seu ombro e apertou suavemente.

“Voar alto é bonito, Charlie, mas não vale a pena quebrar as asas.”

Ele não respondeu. Mas os olhos... eles diziam que entendia.

Singh voltou ao grupo, se levantando com postura firme. Bateu as palmas uma vez.

“Agora é com vocês. Se quiserem esse jogo, vão ter que arrancar o ponto deles com as garras. Eles são gatos... mas vocês são corvos.”

Todos se levantaram.

“VOE!” gritou Singh e o Karasuno voou de volta para a quadra.

CHARLIE

Os corvos voltaram à quadra como se tivessem renascido no tempo limite. O grito de "VOE!" ainda vibrava nos ouvidos, e a energia parecia fluir pelas linhas do ginásio como corrente elétrica. O Karasuno estava determinado. E ninguém estava mais do que Charlie Spring.

Mas enquanto seus companheiros de time se posicionavam com os olhos acesos e o sangue pulsando forte, Charlie sentia tudo ao contrário. O uniforme colava no corpo como se pesasse toneladas. O calor do ginásio, que antes o impulsionava, agora o sufocava. O peito queimava por dentro, não de emoção, mas como se ardesse por falta de ar. A respiração vinha em rajadas curtas, entrecortadas, e ele teve que inspirar pelo nariz bem devagar para tentar disfarçar.

Seu estômago se contraía. Uma dor surda, pontuda, latejava sob a pele fina do abdômen, como se ele estivesse vazio há dias. E estava. Os poucos bocados de comida que forçou na manhã e no refeitório mais cedo já haviam desaparecido, queimados pela ansiedade, pelo esforço físico e por aquela voz silenciosa que dizia: "Você precisa ser mais leve."

A dor subiu até o peito e transformou-se em náusea. Uma leve vertigem lhe roubou a visão por um segundo e o teto do ginásio pareceu girar. Ele piscou rápido, buscando equilíbrio. Tentou manter os olhos fixos no chão encerado, no brilho das luzes refletindo na madeira. Concentração. Foco. Controle.

Charlie sentiu um tremor sutil no calcanhar direito. Foi involuntário, mas suficiente para fazer seu corpo estremecer levemente. Imediatamente, ele pisou forte no chão, como quem tenta apagar um pensamento perigoso. Olhou ao redor rapidamente, ninguém havia notado. Ainda não.

Especialmente Nick.

Ele estava a poucos metros, com as mãos nos joelhos, concentrado, atento ao lado oposto da rede. Charlie sabia que, se Nick olhasse agora, bastaria um segundo para perceber. Então ele respirou fundo mais uma vez. Forçou o corpo a ficar ereto. Levantou o queixo. Fingiu firmeza. E, mais uma vez, decidiu ignorar a dor.

"Só mais um pouco."

"Só mais esse set."

"Depois disso... depois disso eu descanso."

E com isso ecoando em sua mente como um mantra torto, Charlie assumiu sua posição na quadra, pronto para continuar... mesmo que tudo dentro dele estivesse desabando em silêncio.

Kuroo caminhou até a linha de fundo com aquele sorriso torto que só ele sabia fazer. A bola girava entre os dedos enquanto ele encarava a quadra do Karasuno como um predador paciente. E então... o saque. Um disparo seco, rasante, violento. Cristian não tremeu. Estava pronto. Suas pernas flexionaram com perfeição, os braços firmes, e a recepção veio como uma sinfonia de reflexo e técnica. A bola subiu girando no ar e foi direto para a zona de ataque. Nick estava lá. Silencioso. Focado. Os olhos acompanharam o movimento de Charlie, que disparava pela direita.

Mas havia algo errado.

Charlie não explodiu como sempre. Seu corpo partiu com menor velocidade, os pés pareceram pesar mais que o normal, e cada impulso no chão exigiu mais do que deveria. Ainda assim, ele saltou. E o salto foi alto. Quase insano. No ar, ele encontrou Lev. Mesmo com 40 centímetros a menos, Charlie quase o igualava. Era o domínio do seu território: o céu.

Mas algo doía. Algo dentro dele cedia.

O mundo ao redor pareceu desacelerar. As luzes do ginásio vibraram mais do que deveriam. Tudo ao redor ficou ligeiramente borrado, e ele sentiu o sangue pulsando nos ouvidos como um tambor de guerra fora do ritmo. Ainda assim, ele girou o corpo e acertou o corte. A bola passou por Lev, mas saiu pela lateral.

O apito veio como um soco seco. 20x18 para o Nekoma.

O silêncio no Karasuno foi quase doloroso. Charlie caiu de pé, mas o chão parecia distante, como se não o sustentasse por completo. Kenma o observava do outro lado da rede com atenção rara. O olhar que antes era analítico, agora estava carregado de algo mais... suspeita.

"Será que ele percebeu?" pensou Charlie, engolindo seco, a visão ainda tremendo levemente.

"Ficou com medinho de mim, né!" provocou Lev com o entusiasmo de sempre, pousando a mão no ombro de Charlie de brincadeira.

"Foi sorte, só isso!" Charlie rebateu rápido, forçando um sorriso que se desfazia antes mesmo de terminar. Lev deu uma risada e voltou para sua posição, alheio ao cansaço que crescia no adversário.

Mas Nick... Nick não era alheio. Ele o encarou, os olhos verdes fixos, intensos.

"Tá tudo bem?" perguntou baixinho, quase como um sussurro entre gritos da torcida.

Charlie assentiu com a cabeça. Rápido. Quase automático. Porque ele sabia, se abrisse a boca, uma única palavra revelaria tudo.

A bola voltou ao jogo e o Karasuno tentou respirar.

Veio o ataque do Nekoma. Nick, Charlie e Daichi saltaram para o bloqueio triplo em perfeita sincronia. A bola ricocheteou nas mãos de Nick, subindo para trás. Cristian se lançou numa corrida desesperada, atravessando a linha de fundo, quase colidindo com os bancos.

E salvou.

A bola subiu girando, e Nick já estava lá, firme, determinado.

Charlie correu, mas algo não respondia como antes. O corpo ia, mas a mente parecia atrasada, como se sua alma estivesse lutando contra a densidade do próprio sangue. Ele saltou. Mais uma vez. Era o momento certo para o cruzado aberto. A jogada que ele dominava. A jogada que sempre funcionava.

Mas do outro lado...

Três sombras se ergueram. Lev, Kuroo e Kai. O bloqueio triplo se fechou como um portão blindado. Charlie cortou. A bola bateu forte no bloqueio e voltou com violência. Cristian se jogou mais uma vez, as pernas tremendo do esforço. A bola ainda tocou a rede e... caiu. Entre Charlie e a linha.

O som do apito foi seco. 21x18 para o Nekoma.

Charlie baixou a cabeça. O suor escorria pelas têmporas como lágrimas disfarçadas. As pernas tremiam levemente. As mãos estavam úmidas. O ar entrava em pequenos soluços silenciosos. Ele piscava para manter o foco. Mas a verdade era que... tudo começava a girar.


KENMA

Do outro lado, a treinadora do Karasuno pediu seu último tempo no set. O Nekoma se reunia com intensidade discreta. O banco estava cercado por garrafas d’água, toalhas e o som abafado da torcida distante. Kenma permanecia sentado, calado, o olhar perdido por alguns segundos. Ele passou a toalha no pescoço, tirando o suor que grudava seus cabelos longos, e então falou.

"Já deu pra perceber que o Charlie está acertando bem menos nesse set..." A voz saiu baixa, mas firme. Todos se calaram, atentos. Kenma não era de falar à toa. "Quando mandamos o saque nele, ele precisa fazer mais esforço pra receber e ainda correr pra cortar. No começo ele tirava isso de letra, mas agora..." Ele ergueu os olhos e olhou para o time. "Ele está cansado."

Nenhum dos outros havia notado ainda. Mas a precisão de Kenma era fria como um código bem programado. Ele tomou um gole de água, ainda com os olhos distantes.

"O território dele é o ar... e quando começarmos a vencer ele ali..." Um sorriso quase imperceptível surgiu em seu rosto. "Ele vai ficar assustado. Aqueles dois ataques que ele perdeu seguidos provam isso."

"E se o melhor atacante deles começar a errar..." a voz do treinador Nekomata cortou o silêncio com admiração contida "...o levantador vai começar a usar ataques mais fáceis e previsíveis." O velho treinador sorriu com os olhos. "Parabéns, Kenma. Você conseguiu anular o baixinho."

"Caralho Kenma, você é um monstrinho!" disse Lev, os olhos arregalados.

"Esse é meu Kenma!" Kuroo completou com um sorriso lento.

"Mandou bem!" Kai assentiu, sério.

Kenma parecia alheio aos elogios. Estava em outro lugar, como se enxergasse linhas invisíveis conectando cada peça do jogo.

"Não precisamos de muito..." disse com uma calma quase melancólica. "Eu já disse isso antes. É praticamente impossível impedir cada ataque. O negócio é tirar alguns pontos chave dos corvos. Os que eles estão acostumados a marcar. Se cada ponto perdido deixar o Karasuno mais tenso, isso se acumula... e pode levar a um erro fatal."

Todos o observavam. Era como se tivessem diante de si não apenas um estrategista, mas um jogador que enxergava o jogo por dentro.

"Então é simples..." ele continuou. "Fazemos isso umas duas ou três vezes. Não falo só dos pontos... mas das linhas. Vamos cortar cada aproximação do Charlie. O movimento de aproximação com o levantador é o que sempre dá asas pra ele. Se tirarmos isso..."

"Vamos ter um corvo enjaulado" concluiu o treinador Nekomata, o olhar entre admirado e divertido diante da frieza estratégica de Kenma.

"Game over..." sussurrou Kenma, encarando o chão como se visualizasse a tela final de um jogo prestes a ser vencido.

"Ele dá medo às vezes..." murmurou Lev, se benzendo de forma exagerada, arrancando risos contidos do time.

Mas por trás das risadas... havia algo mais. Respeito. Porque naquela quadra... O verdadeiro cérebro do Nekoma tinha acabado de apertar Start.


NICK

Kenma Kozume...

Era difícil imaginá-lo como alguém perigoso à primeira vista. Nick o observava do outro lado da rede com atenção. Cabelo loiro tingido, olhos semicerrados, ombros levemente curvados, postura desinteressada. Kenma parecia sempre... alheio. Como se estivesse ali por engano. Como se estivesse num jogo do qual não queria fazer parte.

Mas ele estava. E estava dominando.

Nick já havia jogado contra adversários velozes. Contra levantadores geniais. Contra atacantes brutais. Mas havia algo em Kenma que era diferente. Algo que incomodava não pela força, mas pelo silêncio. Ele não precisava berrar ordens ou inflamar o time. Bastava um olhar, um toque, uma mudança de direção no último segundo. E tudo mudava.

Kenma jogava como quem estivesse lendo um código secreto que só ele conhecia. E isso era assustador.

Charlie estava sendo sugado. Não de forma visível. Ainda voava, ainda cortava, ainda lutava, mas o brilho nos olhos estava menos aceso. E Nick percebia. Porque conhecia cada expressão de Charlie. Cada gesto, cada pausa, cada respiração. E ver esse brilho se apagando, ainda que devagar, o fazia se sentir impotente.

Ele encarou Kenma de novo. Era como olhar para o espelho invertido de si mesmo. Kenma não jogava com o corpo, jogava com a mente. Cada jogada era uma variável. Cada jogador, uma peça de um jogo de lógica. Ele não atacava os pontos fortes. Atacava as fissuras. Os detalhes. E Nick sentia que ele havia descoberto a maior fissura do Karasuno: Charlie.

Com a bola em mãos, Nick buscou um ponto de fuga no ginásio. E o encontrou.

Oikawa...

Lá estava ele. Sentado na arquibancada com sua postura impecável, braços cruzados, olhos âmbar atentos. O capitão da Seijoh. O ex-rival. O mentor acidental. Oikawa era tudo o que Nick tentou não ser por tanto tempo. E, mesmo assim, foi com ele que aprendeu algumas das lições mais duras. Não sobre vôlei. Mas sobre si. Oikawa sempre foi brilhante. Tático. Afiado. Quase cruel. Kenma era igual, mas diferente. Mais sutil. Mais perigoso por ser... invisível.

Nick se perguntou, por um instante, quem ele era entre os dois. Não tinha a resiliência de Oikawa. Não tinha o cérebro de gelo de Kenma.

Como vencer alguém como Kenma? Seu martela em sua cabeça.

Nick segurava a bola, os olhos fixos na quadra. Ele não conseguia parar de pensar na resposta. Kenma estava desmontando o Karasuno peça por peça. Não era agressivo. Não era explosivo. Era como um jogador de xadrez silencioso, avançando casas enquanto ninguém percebia. E agora... eles estavam em cheque.

Charlie estava mais lento. Os ataques não tinham a mesma força. O tempo entre os saltos aumentava. E Kenma percebia. Claro que percebia. Bastava um saque bem posicionado e Charlie precisava cruzar a quadra inteira para cortar. A muralha adversária já o esperava antes mesmo de ele chegar ao topo do salto.

Nick sentia a culpa se infiltrando pelas costelas. Ele sabia que Charlie estava no limite. Mas também sabia que se parassem agora... não haveria volta. Ele ergueu o olhar para a lateral da quadra, como num instinto. E então pensou em Suga. Não era o mais forte. Nem o mais rápido. Mas era a peça que faltava às vezes. A engrenagem que girava em silêncio, sem pedir protagonismo.

Nick levantou discretamente dois dedos na direção do banco. Era um gesto que a treinadora Singh conhecia bem. Não era um pedido de ajuda. Era uma estratégia acionada no momento exato.

Ela não hesitou.

Se levantou devagar, seu olhar atravessando a quadra com firmeza. Caminhou até a beirada da linha lateral e pegou a prancheta. Sem pressa, se virou para o banco, onde Sugawara já havia se levantado por instinto. Ela entregou a placa de substituição. O número 11 subiu no ar, os números pretos sobre o fundo branco.

Suga ajeitou os joelhos com um leve estalar e ajeitou o short. Tsuki olhou para o lado, um pouco surpreso, mas não discutiu. Apenas suspirou, bateu na própria coxa e correu em direção à linha de saída.

Troca autorizada.

Suga cruzou a quadra com sua habitual tranquilidade. Quando passou por Nick, só trocou um olhar breve. Havia compreensão ali. Conexão silenciosa. Nick apenas assentiu com a cabeça e Suga piscou. Era hora. A engrenagem secreta do Karasuno estava em jogo.

Era a formação.

Aquela que tinham treinado em silêncio, longe dos olhos curiosos dos adversários. Uma linha com Suga, Nick e Charlie. Três corações batendo como um só. Talvez fosse isso...

A resposta.

Não vencer Kenma com lógica. Mas tirando dele a chance de prever. Criando algo fora do padrão. Nick respirou fundo. Com Suga em quadra, o jogo ganhava uma nova métrica. Não era mais só o ataque rápido que definia tudo. Era a confiança. A leitura. O improviso de quem já viveu o bastante para entender que vôlei não é só técnica é tempo, intuição e vínculo.

Charlie se aproximou. Os olhos estavam cansados, mas ainda brilhavam.


KENMA

Kenma estava na rede, posicionado bem à frente, quando sentiu os olhos de Charlie colidirem com os seus. Era como um puxão. Um fio invisível que se esticava entre eles, tenso, firme, inquebrável. Os olhos castanhos de Kenma, normalmente opacos, preguiçosos, absortos em alguma outra dimensão, agora estavam fixos. Fixos em Charlie.

Do outro lado, os olhos azul-acinzentados do corvo ardiam com algo mais do que competitividade. Havia dor ali. Havia cansaço. Mas também havia algo que Kenma conhecia bem: uma necessidade silenciosa de provar que ainda valia a pena estar em quadra.

Eles não piscaram. Nenhum dos dois.

O mundo ao redor pareceu desacelerar. As vozes das torcidas sumiram num zumbido abafado. O barulho das quadras ao redor, os gritos dos técnicos, até os sons dos tênis deslizando pelo piso encerado, tudo se dissolveu naquele momento de suspensão. Para Kenma, a expressão de Charlie era quase desconfortável de encarar. Intensa demais. Real demais. Parecia pedir para ser decifrada, como um código em um jogo que ele ainda não dominava completamente. Não era apenas um rival que estava ali. Ele não conseguia ler Charlie como lia os outros jogadores. A lógica do corpo dele era falha, dissonante. Um bug, talvez. Ou um glitch que escapava da tela e ganhava vida própria. Ali, frente a frente na rede, eram dois mundos colidindo.

O saque de Yamamoto riscou o ar como uma linha reta e tensa. Kenma observou em silêncio, seus olhos seguindo o movimento da bola como se estivesse assistindo a uma animação que já tinha visto mil vezes. Ele sabia para onde ela iria. E foi. Charlie Spring. O garoto recebeu com firmeza. Uma recepção limpa, técnica. Mas foi o que aconteceu depois que prendeu de verdade a atenção de Kenma. Charlie correu para a direita como se cada célula do seu corpo soubesse exatamente o que fazer. E quando ele saltou… foi como assistir alguém tentando voar. Mesmo cansado, mesmo com os ombros pesando, ele ainda se jogava no ar com tudo o que tinha.

Mas a bola… não veio.

Kenma desviou os olhos e viu Nick. O levantador do Karasuno fez um movimento brusco, quase doloroso, e lançou o passe para a esquerda, longe de Charlie. O corte veio com força. Asahi atacou como uma avalanche. Kenma nem precisou se mover. Kuroo e Lev estavam lá. O bloqueio foi perfeito. A bola explodiu no chão.

22x18 para o Nekoma.

O ginásio gritou. Kenma continuou parado, os olhos voltando para o centro da quadra.

Para Charlie.

O garoto tinha pousado no chão, mas seu olhar estava preso em Nick. Era um daqueles olhares que diz tudo sem dizer nada. Uma pergunta silenciosa. Uma ferida que acabava de se abrir. Kenma observou com atenção. Viu como Charlie mordeu levemente o lábio. Como as sobrancelhas se franziram por um segundo. Como os olhos pareceram perder o foco, mesmo que só por um instante.

"Por que ele não levantou pra você?" Kenma pensou, como se lesse a mente do oponente.

Ele não tinha a resposta, mas viu a rachadura surgir. Uma pequena fissura na conexão dos dois corvos. E isso... isso era um dado que Kenma guardaria. Porque um jogador frustrado se fecha. E um corvo desacompanhado não voa longe.

O saque seguinte veio certeiro mais uma vez em Charlie.

Kenma não ficou surpreso. Era uma escolha estratégica. Forçar o garoto a recepcionar e depois correr para atacar. Testar seu fôlego, seu tempo de resposta. Charlie, para crédito dele, respondeu bem. A manchete saiu limpa, quase impecável. Mas Kenma percebeu o atraso sutil no movimento das pernas, o leve atraso na impulsão para a corrida. Coisas que a maioria não veria. Mas ele via.

Charlie disparou para a direita, o mesmo caminho de antes. Uma repetição? Ou insistência? Kenma estreitou os olhos, atento ao que viria, mas dessa vez o passe não foi para ele. De novo. Nick fez o levantamento para Suga, que entrou no ataque em um movimento limpo, simples e direto. Kenma já estava ajustando o corpo. Não era o ataque mais forte do Karasuno, mas era preciso. Yaku estava lá, como sempre. Um fantasma ágil no fundo da quadra. Sua recepção foi firme, controlada, e a bola subiu suave como se estivesse obedecendo a uma coreografia invisível.

Kenma estava pronto.

Com os olhos em Kuroo, ele fez o levantamento com exatidão. Era um passe quase silencioso, sem esforço, mas letal. Kuroo entendeu na hora. Ele saltou com toda a confiança de quem conhecia o levantador que tinha por trás. O corte foi limpo. Direto. Sem bloqueio eficiente do outro lado. A bola explodiu no chão da quadra do Karasuno.

23x18.

Kenma não celebrou. Apenas olhou para o outro lado e observou o caos se instalando. A desconexão entre o que Charlie esperava... e o que recebeu. Era ali que se vencia o jogo. Não apenas no placar. Mas nas brechas silenciosas que se abriam dentro dos jogadores. E Charlie estava se enchendo delas.

“Se conseguirmos desestabilizar o melhor chamariz do Karasuno, nossos bloqueadores terão muito mais liberdade para reagir em quadra.” O pensamento de Kenma era calmo, mas certeiro. “Não precisamos impedir o Charlie de tocar na bola o tempo todo. Talvez nem seja possível. Mas não é isso que quero.”

Seu olhar se estreitou, observando cada pequeno movimento do adversário. “O que precisamos... é fazê-lo duvidar. Se o Charlie hesitar, mesmo que por um segundo, já basta. Um segundo de incerteza entre avançar ou recuar. Entre ir na bola ou deixá-la para o companheiro atrás dele. Uma fração de indecisão pode transformar qualquer jogada em erro.”

O saque foi direto nele, mais uma vez. E como Kenma já esperava, Charlie se lançou inteiro. O corpo esticado, o gesto quase automático, puro instinto.

“É isso...” pensou Kenma, atento ao menor tremor no corpo do outro. “Não importa aonde a bola vá, o Charlie vai atrás. Ele sempre vai com tudo. Seja recebendo, cortando ou se aproximando do Nick para um ataque rápido.”

Mas então, Kenma completou seu pensamento com frieza:

“Só que ir com tudo... não significa que ele pode fazer tudo.”

Ele observou o salto de Charlie com um ar clínico. O tempo ainda estava bom. Mas algo em sua postura, em seu retorno ao chão, já não era o mesmo de antes. E Kenma, sem sorrir, apenas entendeu:

“Ele está vacilando. E eu só preciso mais alguns vacilos para vencer esse jogo.”

A bola retornou para o Nekoma.

Kenma se posicionou no centro da quadra, a mente já dois segundos à frente do presente. Os olhos analisaram o bloqueio do Karasuno, a leve hesitação de Charlie tentando se recuperar da última jogada. Ele percebeu o desequilíbrio. A respiração curta, o peito subindo e descendo num ritmo rápido demais. Charlie estava acelerado, e não no bom sentido. Era como um código rodando em sobrecarga. Um erro prestes a aparecer na tela.

Sem hesitar, Kenma levantou para Lev. Um passe limpo, rápido, que rasgou o ar como uma linha de comando. O gigante saltou e, com uma explosão de potência, mandou um corte seco direto para o fundo da quadra do Karasuno. Não havia quem salvasse. A bola explodiu no chão.

24x18. Set point para o Nekoma.

A torcida vermelha reagiu como se já tivesse vencido. Gritos, bandeiras, uma onda vibrante de apoio se espalhou nas arquibancadas. Kenma, no entanto, manteve os olhos fixos em Charlie. Ele estava parado no fundo da quadra. As mãos sobre os joelhos, tentando normalizar a respiração. A boca entreaberta, o olhar fixo no chão. Era visível agora, Charlie estava quase no limite. Não físico apenas, mas mental. O tipo de exaustão que quebra decisões e abre falhas.

Lev foi para o saque, animado, como sempre. Mas talvez... demais. O movimento foi impaciente. A bola subiu mal e saiu direto pela linha de fundo.

Erro.

24x19. Ainda era set point, mas Kenma fechou os olhos por um segundo. Um pequeno suspiro. Lev era talento bruto. Mas ainda era cru. Um filete de oportunidade se abria para o Karasuno. E Kenma sabia que com Nick e Charlie, qualquer brecha poderia ser fatal.

Kenma observava em silêncio quando Sugawara entrou em quadra. Os olhos sem pressa, mas profundamente atentos, analisavam como quem estivesse montando um quebra-cabeça. A entrada do jogador veterano não era por acaso. Nada no Karasuno era.

“Suga…” pensou, enquanto ajeitava a posição dos dedos na rede. “O substituto confiável. O coringa. Quando ele entra, algo muda.”

A formação do Karasuno se reajustava sutilmente. Para a maioria, parecia só uma troca de jogadores cansados. Mas Kenma via além. Ele sempre via.

“Não é uma substituição comum…”

Suga se posicionou para o saque. A expressão tranquila, quase afável, escondia a precisão de um jogador que conhecia bem a cadência do time. O saque veio firme, direto nas mãos de Yaku. O líbero do Nekoma recebeu com maestria, amortecendo a bola com um movimento limpo. A jogada fluiu para Kenma, que levantou imediatamente para Lev, seu central. O gigante atacou com brutalidade. Mas então, algo brilhou na quadra do Karasuno.

Cristian.

O guardião mergulhou com a velocidade de rasante de um corvo, e a bola, por um milagre de reflexo, subiu viva. Kenma viu. E arquivou.

“Eles ainda têm fôlego.”

Foi então que o inesperado aconteceu. Nick e Suga trocaram de posição, discretamente, rápido demais para a maioria perceber. Mas não para Kenma.

“O levantador recuou?” seus olhos se estreitaram. “Eles mudaram para um sistema com dois levantadores? Não… é mais do que isso. São quatro opções de ataque.”

A mente de Kenma fervia em silêncio, fria como um cálculo, rápida como um processador. “Eles estão ampliando o leque ofensivo para confundir nosso bloqueio. E estão usando o Suga como distração…”

Seus olhos procuraram Charlie quase instintivamente. Lá estava ele, recuado, respirando fundo, calculando cada passo para sua aproximação. Ele parecia prestes a receber a bola. E o bloqueio do Nekoma começou a se preparar para isso.

Erro.

No instante seguinte, Nick e Suga se cruzaram na movimentação. Foi Nick quem se aproximou da rede, e Suga, com o toque mais suave e preciso que Kenma já tinha visto, levantou para ele. O golpe de Nick foi limpo, inesperado e rápido. A bola rasgou o ar, escapando por centímetros da manchete desesperada de Yaku e estourando no chão do Nekoma.

Ponto para o Karasuno. 24x20.

Kenma não disse nada. Mas por dentro, admirou.

Eles reinventaram a jogada no meio da partida. Não era só técnica. Era adaptação. Era... criatividade.”

Ele ajeitou a postura, mais concentrado do que antes.

“O Karasuno ainda está vivo. E sabe surpreender.”

Um saque violento saiu das mãos de Nick. A trajetória era afiada, curvada com precisão milimétrica. A bola atravessou a quadra como uma lâmina de vento, rasgando o ar com o som seco de força pura.

Yamamoto tentou a recepção, mas o tempo de reação foi curto demais. Ele se posicionou mal, e o impacto da bola fez com que ela subisse torta, desgovernada. Yaku, como sempre, foi o primeiro a reagir. Kenma mal precisou olhar. Sentiu o movimento no ar, como se pudesse prever cada passo do companheiro.

Yaku mergulhou para salvar, conseguindo devolver a bola com um toque baixo, mas ainda dentro do controle. A bola subiu lenta, morna, como uma oportunidade que não podia ser desperdiçada.

E então Kenma viu. Charlie e Suga recuavam juntos.

“Interessante...”

A dupla estava afastando o ponto de aproximação. Não era um ataque rápido. Não era o Karasuno tradicional. Eles estavam tentando algo diferente, uma movimentação mais profunda, provavelmente para pegar o bloqueio desprevenido ou confundir a leitura da defesa.

Kenma estreitou os olhos.

“Mas por que os dois?”

Suga parecia calmo, como sempre, mas Kenma sabia que por trás daquele sorriso havia alguém que lia o jogo como ele. E Charlie...

“Ele tá confuso.”

O corpo de Charlie não mentia. A aproximação parecia hesitante, como se ele ainda estivesse decidindo se iria para a esquerda ou para a diagonal. Suas pernas, normalmente tão explosivas, estavam mais pesadas. O salto não tinha o mesmo tempo de antes. Não era técnico, era emocional.

“Ele está questionando o próprio instinto. Isso é perigoso para um atacante. Isso é perigoso para o Karasuno.”

Kenma não desviou os olhos.

“Confiança é como código-fonte. Quando tem um erro, o sistema inteiro trava. E agora... tem um bug no Charlie.”

Suga percebeu. Mudou o plano no último segundo e levantou para o lado oposto. Nick correu, mas o movimento parecia forçado. Charlie parou no meio da aproximação, recalculando o posicionamento, e não chegou a tempo de se ajustar. O ataque falhou. A bola subiu fraca demais, e Kuroo, como se tivesse lido a hesitação no ar, cravou o ponto em um contra-ataque rápido.

Kenma ficou ali, parado, observando o lado do Karasuno se desorganizar por um segundo. Foi só um erro. Só um ponto. Mas para Kenma, cada falha era uma janela. E agora, ele via a rachadura.

“Charlie está tentando encontrar sua função em uma engrenagem que ele mesmo desregulou. E quando o motor trava... o jogo muda.”

Kenma aproveita o vazio deixado na frente e apenas manda uma bola curta de manchete que mal passa por cima da rede e vai direto pro chão.

“Aquele salto que pode atravessar até os bloqueadores mais altos...” pensa Kenma

Charlie se estica e com um peixinho impressionante consegue salvar a bola e o set. Charlie se levanta com dificuldade e corre um pouco mais lento para a direita pronto para cortar, mas Nick levanta para Suga. Charlie foi ignorado mais uma vez.

“...estar um só passo atras faz com que tudo desmorone e ele perca sua chance. Se faltar só 1% já era, acabou tudo.”

O corte de Suga sai forte, mas Yaku consegue receber, mas a bola sobe muito e volta para a quadra do Karasuno...


CHARLIE

Tudo doía.

Não era apenas o corpo, era a alma, a mente, o orgulho. O peito queimava, cada inspiração era um esforço, um lembrete cruel de que havia algo errado. As pernas pesavam como se estivessem presas em blocos de concreto, os músculos já não respondiam com a mesma precisão, e a cabeça... a cabeça era um tambor incessante, latejando a cada grito da torcida, a cada toque de bola, a cada erro seu.

O estômago se revirava em ondas de náusea. Ele sentia como se cada passo, cada salto, fosse feito em câmera lenta. A quadra às vezes girava ao seu redor, as linhas brancas se desfocando, os sons se embolando como se estivesse submerso. Por várias vezes pensou que iria cair ali mesmo. Que seu corpo o trairia no meio da partida mais importante de sua vida.

E o pior... ele não cortava mais. Não finalizava. Não era mais um atacante. Essa era a dor mais cruel. A dor de se sentir inútil. De saber que o time dependia dele e ele não estava conseguindo entregar. A cada erro, a cada ponto perdido, uma voz dentro dele sussurrava:

“Você falhou. Você está acabando com tudo.”

Mas então, como um sopro de lembrança, algo emergia do caos.

“Eu sou Charlie Spring e brotei do concreto.”

Ele repetia isso como se cada palavra fosse um tijolo reconstruindo sua muralha interna. Como se aquele mantra fosse a única âncora que o impedia de se afogar naquele mar de exaustão e desespero.

Mas até o concreto trinca.

Charlie buscava forças onde já não havia mais. Vasculhava o fundo de um poço seco, desesperado por uma gota de coragem. E ainda assim, se levantava. Não com firmeza. Não com glória. Mas com teimosia. Porque por mais que sentisse que estava desmoronando por dentro, por fora, ele ainda era um corvo. E corvos, mesmo feridos, continuam voando. A bola voltava. Voltava para o nosso lado. Suga se lançou e a recebeu com firmeza, uma manchete rápida, precisa. A bola voou para Nick. Charlie viu. Sentiu. Aquilo era sua jogada.

"Agora é a minha chance!" ele pensou, como se cada fibra do seu ser gritasse por redenção. O sangue pulsava nos ouvidos. O coração batia descompassado, mas forte. Ele se inclinou para correr. O pé deslizou no chão, pronto para impulsionar.

Mas o corpo...

O corpo não respondeu. Um segundo de atraso. Um milímetro de hesitação. Foi o suficiente para tudo desabar. Seus joelhos cederam. Como se fossem feitos de vidro. Como se o peso de tudo, do jogo, das expectativas, da dor, tivesse esmagado suas pernas de dentro pra fora. A quadra veio rápido demais.

Os tênis de Charlie escorregaram e caiu de joelhos.

O impacto seco ecoou em sua espinha. A dor se espalhou como eletricidade. O rosto abaixado olhando o chão. O mundo girava. As vozes ao redor se tornaram ecos distantes. Não havia glória ali. Só falha.

Falha pura.

Ele tentou se erguer, mas os braços tremiam. Tudo parecia pesado demais. Longe demais. Do outro lado, Nick teve que improvisar. Levantou para Harry. O golpe veio seco, afobado, e Kuroo estava lá. Esperando. O bloqueio foi preciso. Implacável. A bola explodiu no chão do Karasuno com violência.

Fim do set. 25x20.

O Nekoma empatava o jogo. Charlie ainda estava no chão. Não havia força. Não havia fala. Apenas o vazio. A bola deslizou até parar ao lado de Charlie. Ele ainda estava de joelhos, o corpo trêmulo, o peito arfando como se cada respiração viesse de um lugar muito fundo e dolorido. O coração apertava no peito como se quisesse fugir dali. Seus olhos estavam marejados, a garganta seca, e a vontade de gritar ou chutar aquela bola para longe quase o dominava.

Mas então, ele sentiu. Uma mão pousou em seu ombro. Firme. Quente. Suave. Cheia de cuidado.

Era Nick.

O toque dele não exigia, não pressionava. Era um convite silencioso para respirar, para voltar. A mão escorregou com leveza pelo braço de Charlie até alcançar a sua mão e os dedos entrelaçaram-se devagar, com um carinho que dizia tudo sem dizer uma só palavra.

"Vem, levanta." disse Nick, a voz baixa, doce, como um bálsamo num coração machucado.

Charlie fechou os olhos por um instante, puxou o ar como se fosse a última vez, e reuniu o que restava de forças dentro de si. Ele se ergueu com o apoio de Nick, os dois lado a lado, e caminharam juntos até o banco. Se sentaram. Os sons do ginásio se apagaram por um momento.

"Tá sentindo o quê?" perguntou Nick, olhando fundo nos olhos de Charlie. "E não mente pra mim."

Charlie desviou o olhar, mas não conseguiu fugir.

"Me sinto muito fraco... e com muita dor de cabeça."

Nick assentiu com serenidade, mas os olhos estavam carregados de preocupação.

"Char, o que você comeu hoje?" perguntou, com uma voz cheia de cuidado.

Charlie hesitou.

"Não me lembro..."

"Não se lembra o que comeu ou se comeu?"

Charlie mordeu o lábio inferior.

"As duas coisas..." disse baixinho, envergonhado.

Sem dizer nada, Nick abriu a mochila, revirou por dentro e pegou uma barrinha de proteína e cereais. Estendeu para Charlie, que recuou com as mãos.

"Char, por favor."

Charlie respirou fundo, pegou a barrinha e rasgou a embalagem. A primeira mordida foi como engolir areia. O estômago se revirou, a náusea bateu, mas ele engoliu sem nem mastigar direito.

"Mais um pedacinho..." insistiu Nick, gentil.

Charlie obedeceu. Uma mordida pequena. O gosto era doce, mas a culpa ainda pesava mais do que qualquer coisa.

"Obrigado por ser tão cuidadoso e paciente comigo." disse, com um olhar terno.

"Eu faria qualquer coisa por você."

O rubor subiu pelas bochechas de Charlie, quente, inesperado, mas reconfortante.

"Char..." começou Nick, com aquele tom calmo que só antecedia algo difícil. "Acho melhor você não jogar o terceiro set. Você está muito fraco."

"Não... eu já tô me sentindo melhor." disse Charlie, apressado, enfiando o resto da barrinha inteira na boca como se aquilo provasse algo.

"Char, você me prometeu que se cuidaria."

Charlie se aproximou mais de Nick, os olhos mais claros do que nunca.

"Depois desse jogo eu vou buscar ajuda. Confie em mim."

Nick não respondeu com palavras. Apenas o envolveu num abraço firme, profundo, cheio de amor e medo.

"Eu só quero que você fique bem." sussurrou, a voz embargada, o coração nas entrelinhas.

E naquele instante, mesmo com todas as incertezas, Charlie sentiu algo quase esquecido: segurança.

Notas finais
Obrigada por ler até aqui! Espero que tenham sentido cada momento com o coração. É sempre especial dividir essa história com vocês. Até o próximo capítulo!