Match Point
30 ARCO 3 CONCRETO! - Capítulo 27 - Engrenagem
Notas iniciais
TREINADORA SINGH
O leve clique do mouse ecoou pela sala silenciosa enquanto a treinadora Singh abria um novo e-mail. Na penumbra suave do fim da tarde, apenas o brilho frio do monitor iluminava seu rosto cansado, lançando sombras sutis sobre as paredes revestidas de troféus e pôsteres antigos do Karasuno. A tela do computador piscou brevemente antes de revelar as palavras cuidadosamente organizadas diante dela. Singh ajustou os óculos, seus olhos escuros deslizando pelas linhas do texto sem pressa, absorvendo cada palavra até que algo capturou sua atenção.
Ela parou. Voltou ao início da frase, releu uma segunda vez. O pulso acelerou levemente, enquanto um frio repentino e desconfortável descia por sua coluna. Lentamente, pousou a caneca de café ainda quente sobre a mesa, o som abafado quase ensurdecedor na quietude absoluta da sala.
"Karasuno entra direto nas quartas de final pelo desempenho no Intercolegial."
"Primeiro adversário: Nekoma."
Essas palavras, simples e diretas, reverberaram dentro dela com uma intensidade inesperada, tão claramente quanto se tivessem sido gritadas pelos alto-falantes de um ginásio lotado, onde milhares de olhares convergiam para a quadra.
Nekoma.
Ela permaneceu imóvel por um longo momento, absorvendo o impacto daquela notícia. Seu coração batia um pouco mais rápido, e a respiração parecia presa no peito. Aquela rivalidade antiga, quase lendária, ressurgia com uma força avassaladora em sua mente, despertando memórias vívidas que há tempos estavam adormecidas.
Ela podia quase sentir a energia elétrica dos antigos confrontos, o ruído das torcidas rivais se misturando, os gritos frenéticos e a tensão pairando no ar como uma tempestade iminente. Karasuno contra Nekoma era mais do que apenas um jogo: era uma colisão de filosofias, de estilos de jogo, de estratégias opostas que se complementavam perfeitamente em quadra.
Dois animais lutando pela sobrevivência até o último instante: o corvo, ousado, intenso, instintivo, pronto para atacar com uma voracidade imprevisível; e o gato, paciente, observador, calculista, sempre encontrando um caminho para sair de situações aparentemente impossíveis.
Não por acaso, aqueles duelos haviam recebido o nome de "Batalha do Lixão". Era exatamente ali, entre as jogadas consideradas inúteis, descartadas, abandonadas pelos outros, que esses dois times se enfrentavam com mais garra, mais paixão, disputando cada ponto como se fosse o último pedaço disponível de algo vital.
Singh respirou fundo, tirou os óculos lentamente e esfregou o rosto com as mãos por alguns segundos, tentando se reorganizar internamente. Quando voltou a encarar o monitor, uma nova determinação brilhava em seu olhar.
Ela sabia exatamente o que significava enfrentar o Nekoma. Sabia exatamente o que precisava fazer agora.
E, principalmente, sabia que os corvos do Karasuno estavam prestes a enfrentar, mais uma vez, o teste definitivo de sua coragem, habilidade e força de vontade.
A treinadora Singh lembrou-se imediatamente de seu avô, Ukai, e das histórias intermináveis que ele contava sobre seus antigos duelos contra o treinador Nekomata. Naquelas lembranças, seu avô narrava os confrontos com uma curiosa mistura de fascínio e frustração; havia respeito genuíno em sua voz, mas também o incômodo claro por sempre esbarrar no mesmo obstáculo. Mesmo em seus melhores anos, quando o Karasuno contava com jogadores lendários e brilhantes, derrotar o Nekoma era uma tarefa monumental. E isso ocorria porque, mais do que um time, o Nekoma era uma filosofia em quadra: a filosofia da sobrevivência, da resistência, da paciência estratégica.
O Karasuno sempre gostou de jogar no ar. Acreditavam que, quanto mais alto e veloz, melhor. Viviam para ataques ágeis, rápidos e mortais, confiando na capacidade explosiva dos atacantes que saltavam com fúria e precisão. Para os corvos, cada bola no ar era uma chance de atacar primeiro, antes que o adversário pudesse reagir. O ataque perfeito era aquele que rasgava o bloqueio antes mesmo que as mãos pudessem subir, que tocava o chão adversário antes que eles pudessem entender o que havia acontecido. Para o Karasuno, o céu era o limite, e o voo era o caminho mais curto para a vitória.
Já o Nekoma... eles prosperavam no chão, nas sombras. Preferiam o território firme, o jogo controlado, as defesas impressionantes que desgastavam lentamente o adversário até ele perder a paciência e errar. Como um gato espreitando na escuridão, aguardavam pacientemente a oportunidade exata para um contra-ataque brutal, aproveitando cada mínimo erro para desferir um golpe certeiro. Para eles, cada bola defendida era um triunfo silencioso, uma pequena vitória que lentamente drenava a energia emocional e física do adversário, até que ele, exausto, se entregasse. Não era um jogo espetacular, não era chamativo, mas era implacável, meticuloso, quase cruel na sua eficiência.
Singh recostou-se lentamente na cadeira, sentindo o couro frio contra suas costas enquanto encarava aquele nome agora pulsando na tela com intensidade renovada:
Nekoma.
Uma palavra que carregava tantas histórias, tanta rivalidade, tanto significado. Ela respirou fundo, sentindo o peso da tradição e da responsabilidade em seus ombros. A próxima batalha contra o Nekoma não seria apenas mais um jogo—seria mais um capítulo decisivo em uma longa história de rivalidade lendária.
E, por mais difícil que fosse, Singh sabia: seu avô acreditava em corvos que sabiam voar mais alto que qualquer obstáculo. Era hora do Karasuno mostrar que, dessa vez, seus voos seriam mais altos do que nunca.
Não era apenas um adversário. Era um lembrete poderoso da verdadeira identidade do Karasuno, um retorno à essência mais profunda do time: lutar juntos, voar juntos, vencer juntos. Seus pensamentos se voltaram para a quadra, onde seu grupo lutava diariamente para reencontrar aquele ritmo perfeito, aquele equilíbrio natural, abalado após a amarga derrota contra o Seijoh.
O ataque rápido entre Charlie e Nick estava desalinhado, como peças de um mecanismo que perderam sua sincronia. Não importava quanto eles insistissem: se as engrenagens não estivessem alinhadas, o movimento não aconteceria. Cada tentativa frustrada era como um giro em falso, duas peças tentando desesperadamente se encaixar em ritmos diferentes, atritando-se, travando todo o restante da máquina.
Singh sabia exatamente a causa. Aquela derrota não tinha apenas quebrado o ritmo; havia aberto feridas profundas, especialmente em Charlie. Agora, ele lutava para provar seu valor, tentando criar novas formas de atacar, caminhos próprios que o afastavam, involuntariamente, do resto da equipe. Cada jogador estava ali, empenhado em se reconstruir individualmente, tentando moldar uma engrenagem própria, acreditando que, ao fazê-la perfeita isoladamente, tudo funcionaria.
Mas a verdade era outra: engrenagens solitárias jamais poderiam impulsionar um mecanismo completo.
Para enfrentar e vencer o Seijoh, o Nekoma ou o temível Shiratorizawa, aquelas peças precisavam se unir, precisavam redescobrir seu encaixe natural. Precisavam voltar a girar juntas, como uma única máquina viva.
E algo, lá no fundo do peito, dizia que eles estavam perto disso. Mais perto do que nunca.
Singh respirou fundo, levantou-se lentamente da cadeira e caminhou até a janela da sala. A luz dourada do fim da tarde pintava o ginásio com tons quentes e intensos, lançando sombras alongadas sobre a quadra brilhante. Ainda faltava mais de uma hora para o treino oficial, mas ali estavam eles, cada um já entregue a uma dedicação silenciosa e incansável.
Nick, completamente concentrado, repetia levantamentos meticulosos, os olhos fixos no movimento exato de cada bola. Ele buscava obsessivamente aquela precisão absoluta, aquele ponto exato em que o levantamento se tornaria imbatível.
Charlie, um pouco mais distante, saltava repetidas vezes em silêncio, simulando cortes no vazio, o rosto sério e determinado. Ele buscava aquele instante perfeito, o exato momento em que o corpo entenderia, finalmente, a mensagem da mente e do coração.
Tao e Suga treinavam passes constantes num ritmo harmônico, cada toque preciso e silencioso criando uma coreografia quase invisível, refinando a comunicação entre eles até que se tornasse algo quase instintivo.
Cristian, ajoelhado no chão, treinava recepções difíceis e bruscas, ignorando o impacto no corpo para aperfeiçoar os reflexos, disciplinado e metódico, determinado a nunca mais deixar uma bola passar.
Nenhum deles buscava aplausos. Nenhum deles esperava reconhecimento. Não era ego, não era vaidade, era algo mais profundo, mais puro. Era aquela necessidade genuína e incontrolável de evoluir, de superar a si mesmos.
E então Singh percebeu, finalmente, qual era a verdadeira primeira engrenagem. Não era apenas o desejo individual, não era apenas a vitória em si mesma, mas sim a absoluta vontade de transcender limites, de buscar incansavelmente algo maior.
Aquela engrenagem se encaixava suavemente, silenciosamente, e ela sabia que, a partir daquele primeiro encaixe, todas as outras engrenagens poderiam começar lentamente a girar em sincronia novamente. A máquina do Karasuno poderia voltar a funcionar. Porque a primeira e mais poderosa engrenagem acabava de se conectar, perfeita e implacável: O DESEJO INCONTROLÁVEL DE VENCER JUNTOS.
CHARLIE
Charlie respirou fundo, os olhos fechados por alguns instantes enquanto tentava se concentrar na técnica rigorosa que aprendera com o treinador Ukai. As palavras do velho treinador ainda ecoavam com clareza em sua mente: três tempos, três momentos cruciais e caberia a ele, Charlie Spring, liderar cada ataque. Essa responsabilidade pesava sobre seus ombros de forma quase física, como um fardo invisível que tornava cada movimento mais significativo, mais difícil.
Ao abrir os olhos, retomou os movimentos lentamente, repetindo cada salto e simulando cortes no ar com precisão quase mecânica. Seu corpo conhecia o ritmo, mas sua mente permanecia inquieta, agitada por pensamentos que teimavam em fugir do controle.
Ele não conseguia evitar olhar para Nick, parado próximo à rede, com aquela postura rígida, o olhar introspectivo e distante. O semblante sério do levantador o perturbava mais do que ele gostaria de admitir. Desde a amarga derrota contra o Seijoh, algo havia mudado entre eles. O cruzado aberto, que antes fluía tão naturalmente quanto respirar, agora parecia fora de lugar, desajustado, como se faltasse aquela conexão invisível que antes os unia perfeitamente.
Charlie sentia um aperto no peito sempre que pensava nisso. Não era só sobre o jogo perdido era sobre algo mais profundo. Era sobre confiança. Sobre estarem ou não alinhados novamente.
Mas será que Nick aceitaria aquela nova estratégia? Aceitaria deixar Charlie guiar o ataque, assumir o protagonismo do time em quadra? Essa dúvida pesava em sua mente quase tanto quanto as cobranças internas que fazia a si mesmo. A verdade é que Charlie temia aquela mudança tanto quanto a desejava. Queria provar que podia ser forte, rápido, implacável; queria provar que merecia aquele papel de liderança. Mas também queria que Nick acreditasse nele, que o apoiasse, que estivesse ao seu lado não atrás nem à frente, mas exatamente ao seu lado.
Charlie parou por um momento, respirando fundo novamente, tentando controlar os pensamentos. Sabia que não podia decidir por Nick. Mas podia, sim, dar seu máximo. Podia se dedicar, mostrar a ele que estava pronto para ser o que o Karasuno precisava não só por si mesmo, mas por eles dois.
E no fundo, apesar de toda a distância que parecia existir entre eles, havia momentos em que Charlie encontrava os olhos de Nick e via ali uma centelha familiar, aquele brilho caloroso, aquela promessa silenciosa de que as coisas poderiam voltar ao lugar, de que eles poderiam voar juntos novamente. E era justamente nesses momentos que Charlie sentia algo se renovar dentro dele, uma chama discreta de esperança e coragem.
Respirando fundo mais uma vez, ele retomou os movimentos. Dessa vez com mais confiança, mais leveza. Porque, no fim, ele sabia que não precisava carregar aquele peso sozinho. Sabia que, se pudesse reconquistar aquela conexão, tudo voltaria a fazer sentido.
A voz da treinadora Singh ressoou com força pelo ginásio, interrompendo seus pensamentos.
"Atenção, pessoal," chamou ela, fazendo todos os jogadores se virarem imediatamente. "Hoje vamos treinar contra o time de vôlei da Associação do Bairro."
Tao, que estava logo ao seu lado, aproximou-se com um sorriso debochado.
"Devem ser só um bando de velhotes enferrujados," cochichou, provocando um sorriso breve em Charlie.
Mas, no instante seguinte, o sorriso de Tao desvaneceu-se quando quatro homens entraram pela porta do ginásio, caminhando com uma segurança imponente e surpreendente.
O primeiro deles, apresentado como Shimada, tinha cabelos negros perfeitamente repartidos no meio e óculos discretos, que ele ajeitava constantemente com um ar um pouco nervoso.
Logo atrás, estava Yusuke, o mais alto do grupo. Loiro, com um sorriso confiante e passos largos, ele observava os jogadores do Karasuno com um interesse casual e tranquilo, como se estivesse avaliando sua qualidade em poucos segundos.
Ao lado dele caminhava Mori, um homem de cabelos castanhos desalinhados e um sorriso amistoso, que distribuía acenos animados para todos da equipe.
Por último, Uchizawa, robusto e com rosto quadrado, mantinha uma expressão séria, postura imponente e olhos atentos, transmitindo respeito e força em cada movimento que fazia.
"Esses são Shimada, Yusuke, Mori e Uchizawa," explicou Singh, indicando cada um claramente. "Eles vão nos ajudar hoje em nosso treino. Sejam educados e deem o melhor."
Os jogadores do Karasuno cumprimentaram cordialmente o grupo visitante. Shimada foi o primeiro a falar, ajustando os óculos timidamente.
"Espero que tenhamos um bom treino," disse educadamente, inclinando ligeiramente a cabeça em respeito.
Yusuke abriu um sorriso largo e divertido. "Não peguem leve só porque somos um pouco mais velhos, hein?"
Mori riu suavemente, acenando para Charlie e Tao com uma expressão amigável. Uchizawa apenas assentiu em silêncio, reforçando com um gesto firme sua seriedade.
A treinadora Singh então virou-se para a própria equipe. "Tao e Suga, vocês completarão o time da Associação do Bairro hoje," anunciou, entregando-lhes coletes azuis. "Será bom para vocês observarem nosso time de outro ângulo."
Tao arregalou os olhos, exagerando dramaticamente sua reação. "Como é que é? Tá me dispensando assim, treinadora? Isso é traição!"
Suga não conseguiu conter o riso, dando um tapinha nas costas de Tao com carinho. "Vê se não estraga tudo, hein? Tô contando com você."
"Eu estragar? Jamais!" respondeu Tao, fingindo indignação enquanto colocava o colete. Virou-se para os homens da Associação, acrescentando em tom brincalhão: "Vou mostrar para esses velhotes que até o banco do Karasuno tem qualidade."
Yusuke gargalhou, claramente gostando da provocação. "Gostei da atitude, garoto! Vamos ver se aguenta até o fim do treino."
“Vamos ganhar isso!” disse Suga
“Vocês jogam em que posição” pergunta Shimada
“Eu sou do saque” diz Tao
“Eu tambem!” Shimada diz entusiasmado
“Eu sou levantador” Suga diz
“Uau” Shimada diz encarando “Estamos bem servidos”
Charlie aproveitou a pequena pausa para se aproximar discretamente de Nick. Sentiu o coração acelerar ao encarar aqueles olhos verdes, tão familiares e agora tão misteriosos.
"Nick…" ele começou com voz tímida, buscando as palavras certas. "Tá tudo bem com você?"
Nick piscou por um instante, surpreso pela abordagem repentina, mas logo seu rosto suavizou-se naquele sorriso conhecido e caloroso, dissipando um pouco da tensão visível em seus ombros.
"Tô bem, Char. Só pensando em algumas coisas," respondeu suavemente, fazendo uma breve pausa. "Mas fica tranquilo, a gente vai se acertar. Eu prometo."
Charlie sentiu o peito aliviar-se um pouco, respirando mais tranquilamente. Retribuiu o sorriso com uma confiança renovada.
"Certo..." disse ele, assentindo lentamente. "Eu confio em você."
Nick tocou rapidamente o ombro de Charlie, um gesto sutil, mas profundamente reconfortante. Logo depois, voltou a seu lugar na quadra, deixando Charlie com o coração ainda acelerado, mas agora por motivos diferentes. Aquela breve troca havia lhe devolvido um pouco da segurança perdida.
A voz firme de Singh ecoou novamente pelo ginásio, trazendo todos de volta ao treino.
"Vamos começar, pessoal! Organizem-se!"
Charlie posicionou-se com firmeza, sentindo um novo entusiasmo surgindo dentro dele. Sabia que o treino não seria fácil, especialmente com jogadores tão experientes do outro lado. Mas ele tinha algo valioso que não havia percebido antes: a certeza de que não precisava enfrentar aquilo sozinho.
E enquanto estivesse ali, ao lado de Nick e do restante do Karasuno, seguiria tentando, lutando, até que todas as engrenagens finalmente se encaixassem novamente.
Daichi reuniu o time do Karasuno no centro da quadra. O som da quadra ainda estava cheio de ecos dos aquecimentos, mas quando ele falou, sua voz cortou o ar como uma lâmina.
"No meio pessoal!" disse, seco. Não era uma convocação comum. Era um chamado à responsabilidade.
Todos se aproximaram, alguns ainda em silêncio absoluto, outros trocando olhares tensos. Era o primeiro jogo contra outro time desde a queda diante do Seijoh, e o gosto daquela derrota ainda não havia sido esquecido. Estava na garganta de cada um deles. Estava no jeito como as mãos tremiam levemente durante o aquecimento. Estava no silêncio entre Nick e Charlie. No olhar vazio de Asahi. No ranger de dentes de Harry. O Karasuno ainda estava ferido.
Daichi parou por um segundo, observando cada rosto, como se estivesse tentando capturar a alma de cada jogador ali. Quando falou, sua voz não era só firme, era pesada.
"Vamos manter o foco," começou, e cada palavra parecia pesar uma tonelada. "Hoje é o primeiro jogo desde o Intercolegial. E vocês sabem o que isso significa."
O silêncio foi total.
"Eles são experientes. Jogadores adultos, com anos de quadra. E não vão pegar leve com a gente. Isso não é só um treino."
Seu olhar percorreu o grupo. Ninguém desviou os olhos.
"Depois da derrota para o Seijoh, nós carregamos um fardo. Não somos mais os corvos que surpreenderam. Não somos mais os que ninguém conhecia. Agora, somos os que caíram. E todos querem ver se a gente consegue se levantar."
As palavras ressoaram com força nos peitos apertados dos jogadores.
"Defendam bem. Bloqueiem juntos. Não importa se errarmos, contanto que lutemos como um time. Quero ver sincronia, quero ver coragem."
Ele fez uma breve pausa.
"Quero ver orgulho." Ele coloca a mão no meio do círculo e grita: “VOE!”
“VOE!” todos respondem
Daichi então virou-se lentamente, indo para sua posição.
Enquanto o jogo não começava, Nick se aproximou de Charlie de maneira tranquila, mas determinada. A tensão entre eles parecia ter se dissolvido em silêncio desde a breve conversa anterior, e agora, algo novo pairava no ar, algo mais íntimo, mais leve.
Sem dizer nada no início, Nick estendeu a mão. Charlie hesitou por uma fração de segundo, mas logo entrelaçou os dedos com os dele. O gesto foi natural, como se já pertencesse à rotina dos dois. Quando seus olhares se encontraram, Charlie sentiu o mundo ficar em silêncio por um instante. O ginásio desapareceu, as vozes ao redor se apagaram, e só havia o oceano verde dos olhos de Nick, calmo e profundo, como se contivessem um universo inteiro esperando para ser decifrado.
Nick desviou o olhar brevemente, coçando a nuca com a mão livre, visivelmente sem jeito.
"Eu tenho treinado umas jogadas diferentes..." Nick começou, sua voz baixa e sincera. "Coisas novas que... acho que podem ajudar nos nossos ataques."
Charlie o observou com curiosidade crescente, sentindo o coração acelerar, mas respondeu com suavidade:
"Eu também tenho treinado muito," disse, com um sorriso pequeno e tímido. "Tentando encontrar meu tempo... o meu melhor tempo."
Nick olhou para ele com uma intensidade inesperada. Seus dedos ainda entrelaçados apertaram levemente os de Charlie.
"Vou dar meu melhor para te servir as melhores bolas" disse com firmeza, como quem faz uma promessa, não só de jogo, mas de confiança.
Charlie se surpreendeu. Aquelas palavras, tão simples, carregavam mais do que tática. Carregavam cuidado. Apoio. Presença. Ele abriu um sorriso verdadeiro, brilhando como o sol que entrava pelas janelas altas do ginásio.
"E eu vou honrar seus levantamentos com os melhores cortes que conseguir," respondeu, a voz firme e segura, como se aquilo também fosse uma promessa de parceria, de entrega, de reciprocidade.
Nick sorriu de volta. Um sorriso tranquilo, quase orgulhoso e então soltou a mão de Charlie devagar, como quem sabia que o jogo estava prestes a começar, mas algo importante já tinha acontecido ali. Cada um caminhou para sua posição com passos decididos, carregando consigo mais do que técnica. Carregando conexão.
NICK
O jogo começou mais rápido do que Nick esperava. O silêncio tenso do início foi quebrado com o apito e logo substituído pelo som das bolas sendo cortadas, das chamadas entre os jogadores e das palmas secas da equipe adversária.
Asahi foi o primeiro a sacar... e mandou direto para fora.
Uma falha. Pequena, mas o suficiente para desestabilizar o clima.
Cristian tentou receber o saque seguinte, mas a bola escorregou de seus braços e foi parar na parede. O som do impacto ecoou pelo ginásio como um aviso. A Associação do Bairro ou TAB, como chamavam entre eles, jogava como uma equipe sincronizada, madura. Eles sabiam onde mirar, sabiam quem pressionar. E Cristian se tornou o alvo.
Nick correu o máximo que pôde para cobrir os passes ruins, mas mesmo quando conseguia tocar na bola, ela raramente ia com a precisão que desejava. E, quando conseguia acertar o levantamento, o bloqueio adversário já estava posicionado. Eram rápidos. Altos. Cirúrgicos.
Charlie tentou cortar várias vezes. Seus pulos estavam melhores. O tempo, mais afiado. Mas o toque não encaixava como antes. Faltava sintonia. Faltava confiança. Faltava... ele.
Nick.
A bola parecia pesada em suas mãos. Como se cada levantamento fosse uma tentativa de reconstruir algo que havia quebrado e cada erro, um lembrete de que talvez ele não soubesse mais como fazer isso.
Quando o placar piscou 25x11 para o TAB, o silêncio foi ensurdecedor.
Os jogadores do Karasuno voltaram ao banco com as expressões fechadas, respirando ofegantes. Charlie se sentou calado, o rosto pingando suor. Tao e Suga, que estavam jogando pelo TAB naquele treino, conversavam discretamente com seus novos companheiros de colete. Cristian escondia o rosto nas mãos. Asahi mantinha-se imóvel, de braços cruzados. Nick apenas olhava para o chão.
Foi quando Daichi se colocou de pé.
"Chega!" ele gritou, a voz cortando o ar com mais força que o apito do árbitro. "O que foi isso?"
Todos se viraram para ele.
"Estamos errando o básico! Passe, cobertura, atenção! Cristian, não precisa salvar tudo sozinho, só precisa respirar e se posicionar. Asahi, cadê a sua segurança de sempre? E, Harry..."
Harry levantou a cabeça, o maxilar travado.
"Você tá fora de posição há quatro pontos e ainda quer levantar o braço pra protestar com o juiz? Isso aqui não é show, Harry. É jogo!"
Harry bufou.
"Tá bom, pai. Já entendi."
O tom foi ácido, e os olhos de Daichi endureceram.
"O que você disse?"
Harry se levantou, os punhos fechados. "Que você fica cobrando todo mundo como se fosse dono do time! Eu erro e você berra comigo. Mas quando o Nick erra, ninguém fala nada!"
O clima congelou. Todos olharam para Nick, que permanecia sentado, imóvel. O coração martelando no peito.
"Harry, senta," disse Singh, finalmente quebrando o silêncio. Sua voz era firme, mas contida. "Agora."
"Ele também erra!" insistiu Harry. "Mas ninguém..."
"Harry. Banco," interrompeu Singh, apontando para o fim do banco de reservas. "Você vai assistir o segundo set sentado. E, se abrir a boca de novo, vai pra arquibancada."
Harry virou o rosto, bufando alto, mas obedeceu. Jogou o colete no chão e se afastou, se sentando com raiva.
Nick abaixou a cabeça. Ele não precisava daquelas palavras para saber que estavam verdadeiras.
Se com o time completo já estava difícil… agora, com um a menos, parecia impossível.
O segundo set começou com ainda mais pressão. Suga, jogando no TAB, levantava com calma e frieza, como sempre fazia e Mori respondia com ataques cirúrgicos. O Karasuno parecia incompleto. Faltava o brilho. Faltava o fogo. E o TAB aproveitava cada brecha como um time que conhecia bem a dor de ser subestimado.
Charlie tentou mais uma vez o ataque rápido. Nick tentou fazer como a treinadora Singh havia ensinado: um levantamento que parasse no ar, no ponto exato da mão do atacante. Mas a bola passou do ponto. De novo. Charlie precisou ajustar o braço no ar. O corte perdeu força e o TAB defendeu com facilidade.
Nick apertou os olhos, os dentes cerrados. O coração estava pesado. Os pensamentos, embaralhados.
"Tá mesmo dando 100% dos levantamentos que o Tampinha quer? Você já tentou fazer isso de verdade?"
As palavras de Oikawa ecoaram com força em sua mente. Ele olhou para Charlie do outro lado da rede. O olhar dele dizia mais que qualquer bronca. Não havia raiva. Havia esforço. Havia entrega. Havia confiança.
"Como eu faço isso?" A voz em sua cabeça gritou. "Como eu levanto para alguém que eu... gosto? Como eu levanto pra ele como Oikawa levanta pro Iwaizumi? Como eu me conecto de novo?"
Nick respirou fundo. Sua mente fervilhava, os erros pesando nas costas. Mas ali, naquele momento, no meio do jogo, algo começou a mudar. Ele não queria ser o “garoto talentoso” que todo mundo esperava que resolvesse tudo sozinho. Ele queria ser o levantador que fazia os outros voarem. Ele queria fazer Charlie voar. E, talvez, ali começasse a mudança.
O segundo set começou com um ritmo diferente. O TAB, talvez confiante pelo domínio no primeiro, passou a ousar. Não era mais só força e experiência. Eles agora experimentavam velocidade.
Suga, jogando com o colete azul da Associação do Bairro, parecia completamente integrado ao novo time. Seus levantamentos vinham precisos, limpos, frios como bisturis. Mori, recebendo as bolas no tempo certo, começava a aplicar cortes rápidos e angulados, surpreendendo a defesa do Karasuno. A bola parecia desaparecer das mãos de Suga e reaparecer no chão do Karasuno em questão de segundos.
Nick observava tudo de sua posição, sentindo o estômago se apertar a cada jogada bem-sucedida do outro lado da rede. Ver Suga executar com tanta naturalidade os levantamentos que ele mesmo ainda tentava dominar... ver os atacantes adversários sincronizados como um relógio... doía. Mas doía ainda mais olhar para Charlie e saber que eles não conseguiam mais fazer funcionar.
Nick havia tentado. Várias vezes. Mas o ataque rápido entre eles, aquele cruzado que antes parecia mágico, agora parecia... forçado. Sem ritmo. Sem brilho. Como se algo essencial estivesse faltando. Como se os dois estivessem correndo em linhas paralelas sem nunca se encontrarem.
E, por isso, Nick começou a mudar. Começou a procurar outros caminhos.
Levantou para Asahi em bolas mais abertas. Usou Tsukishima para ataques rápidos pelo meio. Ensaiou combinações com Daichi em bolas de segurança. E, pouco a pouco, alguns pontos começaram a sair. Nada espetacular. Mas pelo menos... o placar se movia.
No entanto, Charlie ficou em silêncio.
Nick percebeu. Desde que começou a distribuir mais as bolas, Charlie não disse uma palavra. Seu olhar, antes ansioso e determinado, agora estava tenso, sério, sombrio. E mais do que o olhar... foi o maxilar.
Nick viu. Viu Charlie trincando os dentes, engolindo a frustração. Viu quando ele abaixou a cabeça após uma jogada e apertou com força o elástico da munhequeira, como se aquilo pudesse conter o que ele estava sentindo. Viu quando ele recusou a garrafa de água que Tao ofereceu no banco.
E foi nesse momento que algo o atingiu. Com força.
Charlie estava... mais magro. Não só a postura parecia mais leve. O rosto também. O maxilar mais evidente, os braços um pouco mais finos sob o uniforme largo. Seus olhos, mesmo enquanto pulava e tentava alcançar o tempo certo, pareciam mais fundos. Cansados.
Nick sentiu o coração afundar por um segundo.
Ele não sabia explicar o porquê, mas algo dentro dele dizia que aquilo não era só treino. Não era só frustração. Charlie estava carregando algo além do jogo. Além das quadras. E Nick se odiou por não ter notado antes.
Uma bola veio torta, e ele quase perdeu o tempo do levantamento.
"Concentra" murmurou para si mesmo, puxando o ar pelos dentes.
Mas era impossível se concentrar com aquela imagem de Charlie trincando os dentes e tentando disfarçar os próprios limites. Com o peso do olhar dele, cheio de dor, como se dissesse: por que você não confia mais em mim?
Nick sabia que estava tentando manter o time vivo. Mas, ao fazer isso, talvez estivesse machucando a pessoa que mais queria proteger.
E no fundo... talvez ele soubesse que parte da culpa por tudo aquilo era sua.
CHARLIE
O segundo set terminou com mais uma derrota. O placar final — 25x16 — parecia doer mais do que o anterior. Não foi só a diferença de pontos, mas a sensação de impotência. De que, mesmo tentando, mesmo forçando o corpo ao limite, eles ainda não eram o suficiente. Charlie havia marcado apenas três pontos em todo o set e cada um parecia ter custado mais do que deveria.
Sentado no banco, ainda ofegante, ele passou a toalha no rosto, mas não era suor que o incomodava. Era a frustração. A raiva de si mesmo. O vazio entre o que ele queria fazer e o que conseguia realizar. Sua mente foi tomada pelas palavras do velho Ukai, ditas semanas antes, durante aquele treino empoeirado na escolinha de vôlei:
"Por mais extraordinário que seja o levantador, quando se trata de ataques rápidos, quem lidera mesmo é você."
Charlie apertou os olhos e abaixou a cabeça. A imagem de Nick veio em sua mente. A forma como ele parecia se afastar. Como seus levantamentos haviam perdido o brilho que tinham antes. Talvez Nick ainda estivesse tentando encontrar o próprio ritmo... mas ele não podia mais esperar por isso.
"Eu tenho que tomar a iniciativa," pensou. "Eu tenho que liderar esse ataque. Não posso mais hesitar."
Enquanto lutava com esses pensamentos, sentiu um peso se acomodar ao seu lado no banco. Era Yusuke, um dos jogadores do time da Associação do Bairro. O rosto sereno, mas atento. Ele se sentou com as mãos apoiadas nos joelhos, olhando para frente antes de falar, com a voz tranquila.
"Dia difícil?"
Charlie soltou um riso curto, cansado. "Tá mais pra semana difícil."
Yusuke riu também. "Eu assisti os jogos de vocês contra o Dateko e o Seijoh."
"Sério?"
"Uhum. Vocês jogaram muito bem."
Charlie soltou o ar devagar. "Vencer o Muro de Ferro foi... incrível." Seus olhos se perderam por um instante, lembrando do ponto final contra o Aone. "Mas... o Seijoh jogou a gente no chão."
"Somente se vocês permitirem..." respondeu Yusuke sem nem olhar para ele. O tom não era acusatório, era sóbrio. Quase fraternal.
Charlie abaixou o olhar. "Tô com dificuldades pra engatar nosso melhor ataque."
Yusuke fez que sim com a cabeça, pensativo. "Na minha época no Karasuno, sempre que perdíamos jogos importantes, como aquele contra o Aoba Jōsai, demorava um pouco pra gente se recuperar."
Charlie ergueu os olhos rapidamente, surpreso. "Você jogou no Karasuno?"
"Sim. Central, como você."
Charlie ergueu as sobrancelhas, dando uma olhada no físico de Yusuke. "Só que com uns quinze centímetros a mais, né?"
Yusuke riu de verdade agora. "Já tá provado que tamanho não é problema pra você."
"Eu consigo pular bem alto," disse Charlie com um meio sorriso.
"Consegue mesmo. Sem contar sua velocidade."
O sorriso de Charlie desapareceu aos poucos. "Mas nada disso tá sendo suficiente. A gente não consegue nem ganhar da Associação do Bairro..."
"Ei," Yusuke o interrompeu, rindo. "É meu time, tá?"
Charlie levou a mão à boca, constrangido. "Me desculpa."
"Tá tranquilo." Yusuke olhou para ele com um olhar mais sério agora. "A ferida só precisa fechar. Uma pele nova vai crescer por cima."
Charlie respirou fundo. "Mas a cicatriz fica."
"E o aprendizado também, Charlie."
Ele ficou em silêncio. Os olhos de Charlie vagaram pelo chão polido, até encontrarem os tênis de Nick, parados do outro lado da quadra.
"Você lembra como o Tsukishima conseguiu fazer umas fintas no jogo contra o Seijoh?"
Charlie assentiu lentamente. "Ele fez muitos pontos com essa jogada."
"Exatamente!" disse Yusuke, agora mais animado, o rosto se iluminando. "Não tem só um jeito de marcar pontos. Você precisa de um ataque especial."
Charlie franziu as sobrancelhas. "Ataque especial?"
"Isso!" Yusuke se inclinou um pouco mais, os olhos brilhando de empolgação. "A gente pode dizer que esse ataque surge abalando o equilíbrio entre o movimento e a imobilidade."
Charlie arregalou um pouco os olhos. Aquela frase soava quase poética.
"Pega a visão..." continuou Yusuke, se aproximando como se fosse revelar um segredo. "Não é uma jogada que você faz pra fugir do bloqueio. Não é covardia. É controle."
Charlie sentiu um arrepio subir pelas costas. "Entendi."
"Você precisa acertar o tempo perfeitamente. Fazer o levantamento vir na medida. E aí, mostrar pro mundo inteiro que você vai fazer a cortada perfeita."
Ele fez um movimento com a mão, simulando um golpe forte. Então pigarreou, encostando o ombro em Charlie.
"E se liga... é ainda melhor quando até você acredita que tá prestes a cravar um ataque monstruoso."
Charlie prendeu a respiração.
"Mas aí, no último instante... você para o tempo e tira uma onda do bloqueio.” Um sorriso malicioso cresce “Ai você da um toquinho sutil e ela passa por cima do bloqueio."
Os olhos de Charlie brilharam. Literalmente. Ele podia ver a jogada se formando em sua cabeça, sentia a adrenalina de uma jogada leve que enganava todo mundo.
"Quando você marca com finta, a satisfação é diferente de uma cortada monstra" disse Yusuke, a voz embargada de emoção.
"Por quê?"
"Você tá ligado quando os líberos vão de peixinho atrás da bola?"
Charlie assentiu. "Uhum."
"Normalmente você tá no mesmo nível deles, ou olha pra cima. Mas quando eles erram o peixinho e olham pra cima..."
Yusuke fechou os olhos, como se revivesse a cena. "Cara... a sensação é maravilhosa."
Charlie riu, mas o sorriso logo deu lugar a uma expressão pensativa. As palavras de Yusuke reverberavam dentro dele com mais força do que ele imaginava. O jogo, a frustração, a distância de Nick, tudo parecia dar lugar a uma nova ideia, uma nova possibilidade. Como se algo sempre estivesse ali, bem na sua frente, esperando para ser percebido.
Um ataque especial.
Ele não precisava repetir o passado. Precisava encontrar algo só dele.
Algo que só Charlie pudesse fazer.
NICK
O apito soou mais uma vez, cortando o ar pesado do ginásio. O terceiro set do amistoso contra o TAB começavaNick respirou fundo ao caminhar para a quadra. Suas pernas estavam pesadas, o corpo já começava a sentir o desgaste, mas o que pesava mais era a desorganização do próprio time.
O Karasuno estava desordenado.
Daichi corria de um lado para o outro, tentando reestruturar a formação, organizando as marcações e gritando instruções com a voz embargada de frustração. Mesmo com a postura firme, o capitão estava visivelmente tenso, os olhos varrendo a quadra em busca de soluções. Cristian estava hesitando nas recepções. Tsuki ainda errava no tempo do bloqueio. Harry de volta ao jogo, resmungava a cada jogada quebrada. O clima estava longe de leve.
Nick fazia o possível para manter o controle. Levantou para Asahi algumas vezes, buscando aproveitar sua potência de ataque, e também tentou envolver Harry, forçando combinações rápidas e jogadas pelo meio. Mas havia um detalhe que o incomodava mais do que qualquer outro.
Ele quase não levantava para Charlie.
Era estranho. Frustrante. E totalmente contra o que seu coração mandava. Charlie era, sem dúvida, o melhor atacante do time. A jogada rápida entre eles, o cruzado aberto, sempre fora uma das armas mais poderosas do Karasuno. Mas nos últimos treinos… não estava funcionando. O tempo não encaixava. A bola não parava onde devia. Nick sentia como se algo estivesse... quebrado entre eles.
E por isso, ele começou a evitar. Sem admitir, claro. Era inconsciente no começo. Mas agora, ele sabia o que estava fazendo.
Fugindo.
A chance veio.
Uma recepção limpa de Cristian subiu perfeita para a posição três. Nick já estava ali, a bola estava na altura certa, era a jogada clássica para Charlie. O tipo de bola que, antes, ele teria levantado de olhos fechados.
Mas ele hesitou.
E em vez de levantar, decidiu atacar de segunda. Saltou, girou o tronco e usou o toque rápido para surpreender o adversário. A bola passou rente à rede e caiu direto no chão do TAB.
Ponto para o Karasuno.
O time gritou. Daichi fez sinal de positivo, mas Nick não sorriu.
Porque, no instante seguinte, seus olhos cruzaram com os de Charlie. Ele não estava vibrando. Charlie o encarava em silêncio. Os olhos fixos, intensos. Não havia raiva ali, mas algo ainda mais cortante, frustração e... tristeza?
Charlie caminhou até ele no intervalo do ponto, os passos decididos, os olhos fixos como se a quadra inteira tivesse desaparecido ao redor deles.
"Isso tem que parar."
Nick franziu o cenho, fingindo não entender. "O quê?"
"Você sabe do que eu tô falando..." Charlie respondeu, a voz baixa, firme. "Não tenha medo de levantar pra mim."
Nick sentiu o peito apertar. Olhou para o chão, sem conseguir sustentar o olhar. "Me desculpa, Char. Não conseguir fazer esse ataque contigo me mata."
Charlie deu um passo à frente. "Não importa se a gente não conseguir."
Nick ergueu os olhos.
"Só manda a bola pra mim!" disse Charlie, encarando-o com firmeza, os olhos faiscando como se toda a força do Karasuno estivesse concentrada ali.
Nick ficou mudo por um instante. Aquela intensidade... a fé que Charlie tinha nele mesmo quando tudo parecia fora do lugar... o fez se envergonhar por estar fugindo. Ele não era o tipo de levantador que recuava. Mas era o que estava sendo. E Charlie via isso com clareza.
"Me desculpa," disse Nick, quase num sussurro. "Na próxima oportunidade, eu mando."
Charlie apenas assentiu, voltando para sua posição com o queixo erguido. Mesmo sem palavras, deixava claro: ele estava pronto.
E Nick queria estar também.
O set seguiu. Mais disputado. O Karasuno finalmente parecia despertar. A tensão se transformava em ritmo. Cristian acertou duas boas recepções seguidas. Daichi coordenava a defesa com mais voz. Tsuki encaixou um bloqueio que fez a bola estourar no chão e comemorou com um grito que sacudiu a quadra.
Nick, agora, começava a distribuir com mais confiança. Alternava entre Asahi e Tsukishima, usava Daichi em bolas de segurança, mas mantinha Charlie sempre à vista. Sentia quando ele saltava. Quando seu tempo batia com o dele. Quando o olhar voltava a brilhar.
E quando o placar marcava 14x14, Nick soube.
Era a hora.
A recepção veio baixa, mas limpa. Nick correu para o levantamento. Charlie já corria pela diagonal, seu corpo fluido como uma flecha lançada.
Nick levantou.
A bola parou, no tempo certo.
Charlie saltou.
CHARLIE
A bola subiu. Alta, precisa, perfeita. O toque de Nick estava limpo, redondo, no tempo exato. Era o tipo de levantamento que pedia um corte brutal, uma finalização avassaladora que cravasse a bola no chão e silenciasse o ginásio.
Charlie voou.
Seus pés deixaram o chão com firmeza e fluidez, como se já conhecessem o caminho. Seu corpo se esticou no ar com leveza, o braço armado para um golpe poderoso. Mas, naquele segundo suspenso entre o impulso e a gravidade, tudo desacelerou.
Ele viu. A defesa do TAB já estava armada. Suga, mesmo no outro time, lia o movimento. Os líberos estavam posicionados. E o bloqueio, três jogadores subiam à sua frente como uma muralha, cravando os olhos nele. Estavam esperando a pancada. Esperando o ataque que sempre vinha.
E então, no silêncio do voo, ele lembrou.
"Não tem só um jeito de marcar pontos. Você precisa de um ataque especial."
A voz de Yusuke ecoou na mente de Charlie como um mantra. Seus olhos se fixaram no bloqueio à frente. Estavam duros, tensionados, preparados. E era exatamente isso que ele precisava.
"Não é uma jogada que você faz pra fugir do bloqueio. Não é covardia. É controle."
A mão de Charlie se preparou para o corte. Mas não houve força. Não houve violência.
Houve intenção.
Ele abriu os dedos, girou o punho, e com um leve toque de precisão, a bola subiu sutilmente. Um toque suave. Calculado. Um balé em câmera lenta que pairou acima do bloqueio, elegante e provocador.
O bloqueio triplo arregalou os olhos.
Yusuke, do outro lado da quadra, abriu um sorriso. Ele sabia. Ele reconheceu o instante exato em que Charlie entendeu.
A bola passou flutuando por cima das mãos erguidas como lanças e caiu lentamente, sem pressa, quase com delicadeza, bem no espaço vazio atrás do muro humano. Suga e mais dois jogadores do TAB se lançaram no chão num movimento desesperado. As mãos abertas se esticaram como se pudessem puxar o tempo de volta.
Mas era tarde demais.
"Quando você marca com finta, a satisfação é diferente de uma cortada monstra."
Charlie pousou no chão com os joelhos flexionados e a respiração firme. Um calor explodiu em seu peito, não o calor da força, mas o da precisão. O da superação.
Ele viu os três jogadores ainda estendidos no chão, encarando para cima, surpresos, frustrados. Seus olhos cruzaram com os de Charlie, que agora permanecia de pé. Firme. Sereno. Vitorioso.
"Você tá ligado quando os líberos vão de peixinho atrás da bola? Normalmente você tá no mesmo nível deles, ou olha pra cima. Mas quando eles erram o peixinho e olham pra cima..."
Charlie ficou ali, parado, os ombros relaxados, os olhos brilhando. Pela primeira vez, não era só sobre pontuar. Era sobre dominar. Sobre entender o jogo. Sobre mudar a maré com inteligência, não só com instinto.
Ele respirou fundo, sentindo o coração bater forte no peito. Era um tipo diferente de força. Uma que não vinha dos músculos, mas da mente.
Yusuke o observava, assentindo com os olhos apertados em orgulho. Ele não precisava dizer nada. Charlie tinha entendido tudo.
"Cara... a sensação é maravilhosa."
E era mesmo.
TREINADORA SINGH
Da beira da quadra, com os braços cruzados e os olhos atentos, Singh observava a movimentação como quem lê um mapa complexo. Cada jogador era uma peça, e ela aprendia a ler o tempo e o peso de cada uma.
Mas naquele momento, seus olhos estavam fixos em Charlie.
O garoto saltou. E por um instante, o tempo pareceu segui-lo.
Ela o viu se elevar com precisão, o corpo totalmente alinhado, o braço armado como se fosse executar um de seus cortes característicos. Tudo indicava que ele esmagaria aquela bola com força.
Mas então... não.
Naquele breve segundo algo mudou.
A postura de Charlie se suavizou. O movimento de corte se dissolveu no ar. Em vez do impacto, houve leveza. Um toque delicado, preciso, calculado. Uma finta.
E foi como se algo dentro de Singh estalasse, com um arrepio correndo por sua espinha.
"Mas quando eu tô bem, quando eu tô lá em cima... eu vejo tudo em câmera lenta."
As palavras de Charlie, ditas com aquela sinceridade frágil e intensa dias antes, retornaram à mente dela com uma clareza cortante.
Ele estava certo.
Com os olhos semicerrados, Singh analisou cada detalhe. O ajuste no quadril, o relaxamento do pulso, a leitura perfeita do bloqueio adversário, tudo feito no ar. A tomada de decisão. A execução limpa. A escolha. Charlie tinha criado aquela jogada não com os pés no chão, mas no ápice do seu voo.
"Ele tinha razão…" ela pensou, sentindo o pensamento reverberar no fundo da mente como um trovão silencioso.
A visão do topo.
Charlie conseguia mesmo enxergar lá de cima. Não era metáfora. Não era exagero. Era real. Ele armava, decidia, executava... no ar.
Singh sentiu o peito se aquecer de uma forma que poucas vezes sentira desde que assumiu o Karasuno. Um tipo raro de orgulho que vinha não apenas da técnica, mas da coragem. Charlie não era só força. Ele era criatividade. Era ousadia. Era... instinto lapidado.
Ao lado oposto da quadra, Yusuke virou o rosto e encontrou seu olhar. Ele ergueu o polegar, sorrindo com aprovação silenciosa.
Singh não precisou responder. Apenas assentiu de leve, com um brilho nos olhos, sentindo o coração acelerar como se tivesse acabado de ganhar um ponto também.
A segunda engrenagem se encaixava: A CRIATIVIDADE PARA SE SUPERAR.
NICK
Nick estava em êxtase. O coração batia acelerado, mas não de cansaço, de alívio, de alegria, de algo mais profundo que ele não conseguia nomear com facilidade. Ver Charlie sorrindo de novo... aquele sorriso de verdade, cheio de brilho, sem sombra de tensão nos olhos, foi como um raio de sol atravessando dias nublados. Quase não acreditava no que via. Há quanto tempo ele não via aquele sorriso? Aquele que vinha do fundo, sem armadura, sem culpa. Era mágico.
Os aplausos ecoaram pela quadra, uma onda espontânea de reconhecimento. Não foram só os companheiros de Karasuno que bateram palmas, mas os veteranos do TAB também. Shimada sorriu com um aceno de cabeça respeitoso. Mori murmurou algo como "Belo toque..." com admiração. Yusuke, no canto da quadra, levou as mãos ao rosto num gesto teatral, balançando a cabeça em descrença, e depois sorriu largo, aplaudindo como se tivesse acabado de ver uma obra de arte. Até Uchizawa, sempre o mais sério, assentiu com a cabeça, cruzando os braços diante do peito com aprovação silenciosa.
E foi então que Charlie se aproximou.
Nick não conseguiu conter. Com a ponta dos dedos, tocou o rosto dele com suavidade, sentindo o calor da pele, a textura leve de suor, o sorriso ainda tremendo no canto dos lábios.
“Seu sorriso é tão lindo” disse, a voz quase falhando. “Estava com saudade dele.”
Charlie corou imediatamente. O vermelho subiu pelas bochechas e espalhou-se até as orelhas, mas ele não desviou o olhar. A voz saiu baixa, mas cheia de verdade:
“Eu também.”
O momento durou apenas alguns segundos, mas pareceu muito mais. E então, Charlie se afastou devagar, voltando à sua posição com o queixo erguido, os ombros relaxados, o corpo leve como quem finalmente se libertou de um peso invisível. Os outros jogadores se alinharam para o próximo ponto, e o set seguiu.
Nick respirou fundo, fechando brevemente os olhos.
“Parece que eu já gastei toda minha energia.”
Mas... ele não estava cansado. O corpo se mexia com fluidez, as pernas respondiam com precisão, e sua visão... sua visão estava mais clara do que nunca. Ele conseguia ver a movimentação de todos onde estavam, para onde iam, onde falhariam. Como se estivesse assistindo o jogo de fora, mas ainda dentro dele.
“E eu sei que eu tô jogando bem.”
E o mesmo valia para os outros. Nick virou o rosto no exato instante em que Daichi se jogava no chão para salvar uma bola impossível, o corpo deslizando sobre o piso, a mão se esticando como se a quadra fosse pequena demais para a vontade que o movia.
“O Karasuno estava voltando a jogar bem. Será que foi a finta do Charlie?”
“Será que agora… agora a gente consegue usar aquele novo ataque rápido?”
Charlie estava jogando de forma absurda naquele set. Não desperdiçava nenhum passo. Nenhum salto em vão. Era como se ele dançasse na quadra, cada movimento exatamente onde precisava estar.
Mas...
Se a gente errar agora... esse clima bom do time pode acabar em um segundo.
A bola veio. Rente, limpa. Perfeita!
Nick ajeitou os pés com firmeza, os olhos rastreando tudo com precisão milimétrica. E então viu Charlie disparando pela direita, como uma flecha viva cortando o espaço da quadra.
O coração de Nick bateu com força.
“Ele quer usar o novo rápido?”
Os olhos de Charlie encontraram os seus. E naquele olhar, havia uma ordem muda, vibrante, impossível de ignorar:
“Manda pra mim agora!”
Nick hesitou.
“Talvez devêssemos esperar até ter mais confiança...”
Mas então, como um sussurro vindo da memória, ele ouviu:
“Eu consegui ver do outro lado, eu vi a visão do topo!”
Era isso. Charlie estava pronto. Nick lançou a bola.
“A bola está indo...” A mente gritou. O peito apertou. “E.… parou!”
O tempo pareceu congelar por um instante. A bola pairou no ar, e seu ápice... seu ápice estava exatamente onde deveria estar, no tempo certo, na altura certa, no ponto exato para Charlie.
E então, como um meteoro, Charlie cortou a bola. Foi como fogo atravessando a atmosfera. Uma explosão de som e impacto. A bola desceu com uma força brutal, atravessando o bloqueio e cravando-se no chão da quadra do TAB. O som ecoou como um trovão seco. Um segundo de silêncio absoluto se seguiu.
E então, ninguém reagiu.
Os jogadores do TAB estavam parados, de boca aberta. A bola ainda girava no chão. Yusuke arregalou os olhos. Shimada abriu um meio sorriso. Suga e Tao se entreolharam, as sobrancelhas erguidas, como se tivessem testemunhado um milagre esportivo. E a treinadora Singh... Ela sorriu. Um sorriso largo, orgulhoso, carregado de emoção.
Charlie virou-se lentamente, ainda incrédulo. Encontrou os olhos de Nick e nesse momento, nenhuma palavra era suficiente. Nenhuma explicação faria jus.
E foi então que, como uma descarga elétrica, os dois gritaram:
“AHHHHHHHHHHHHHH!!!”
E se jogaram um nos braços do outro.
O impacto do abraço foi forte, cheio de riso, suor e alívio. E no meio da gritaria da quadra, da euforia generalizada, do Karasuno vibrando com o ponto, Nick só conseguia pensar em uma coisa:
“Esse é o nosso ataque.”
E finalmente... eles estavam de volta.
TREINADORA SINGH
Singh permaneceu parada à beira da quadra, em silêncio, enquanto os gritos de comemoração ecoavam ao redor. Tao vibrava com Cristian, Daichi chamava atenção de Harry mesmo sorrindo, e Asahi soltava um suspiro de alívio depois de um bom ponto. Mas os olhos dela estavam fixos em apenas dois jogadores.
Nick e Charlie.
Não era só a jogada que tinha dado certo. Não era apenas o ponto conquistado. Era o instante seguinte, quando Nick correu até Charlie e os dois se abraçaram. Um gesto sutil. Mas ela conhecia aquele tipo de toque. Era mais do que parceria em quadra. Era confiança reconstruída. Era uma promessa muda entre dois jogadores que haviam se perdido um no outro... e agora se reencontravam.
Ver os dois ali, se conectando novamente, trocando olhares que diziam tudo sem precisar de palavras, fez algo dentro dela se acalmar.
Desde a derrota contra o Seijoh, Singh sabia que algo estava desalinhado. Os talentos estavam todos ali, as peças espalhadas, mas o motor do Karasuno parecia emperrado. A frustração de Charlie, o silêncio de Nick, as bolas que não paravam na mão certa... era como se o coração do time estivesse batendo fora de ritmo.
Mas agora... agora era diferente.
Charlie tomava a iniciativa. Nick ouvia. Um levantava com intenção, o outro atacava com coragem. O medo havia dado espaço para algo novo, maturidade, confiança, entrega.
A engrenagem mais importante de todas não era física. Era emocional. Era relacional. E ela finalmente se movia outra vez. Singh sentiu um sorriso surgir no canto dos lábios, discreto, quase imperceptível, mas sincero. Não havia como negar.
“Meu velho avô tem que ver isso!” Singh murmura
A última engrenagem finalmente se encaixou: NARLIE ESTAVA DE VOLTA.
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