Match Point

31 ARCO 3 CONCRETO! - Capítulo 28 - O Silêncio Dentro


Notas iniciais
Antes de você seguir para o capítulo, queria deixar um aviso importante: este capítulo contém descrições detalhadas sobre distúrbios alimentares, incluindo pensamentos intrusivos, restrição alimentar, compulsões, sintomas físicos e emocionais. Escrevê-lo exigiu muito cuidado e pesquisa, pois eu sei o quanto esse tema é sensível — e real. Se você está em um momento delicado ou sente que isso pode te afetar, por favor, se priorize. Pule esse capítulo, leia com alguém de confiança ou volte quando se sentir mais forte. Nada é mais importante do que a sua saúde emocional. Esse não é um capítulo sobre dor pelo choque, é sobre dor como verdade, e sobre o amor como ponto de apoio. E se você já viveu algo parecido: você não está sozinho. Nem errado. Nem fraco. Você é forte por estar aqui. Boa leitura, com todo meu carinho.

CHARLIE

O quarto estava mergulhado em silêncio absoluto. Nenhum ruído além do suave farfalhar das folhas das árvores, agitadas delicadamente por um vento leve que soprava lá fora, alcançava o ambiente tranquilo. As luzes permaneciam apagadas, conferindo ao espaço uma penumbra suave, pontuada apenas pela luminosidade pálida da manhã, que começava a atravessar as frestas estreitas das persianas fechadas.

Sentado na beirada da cama, Charlie estava imóvel, com os cabelos escuros ainda desalinhados pelo sono e o uniforme da noite anterior cuidadosamente dobrado sobre o colo. Os dedos tocavam o tecido leve do uniforme de jogo com um carinho quase reverente, enquanto seu olhar permanecia perdido em algum ponto indefinido do chão, absorto em pensamentos profundos.

Então, de repente, ele sorriu.

Era um sorriso discreto, espontâneo, nascido de uma lembrança que parecia se desenrolar lentamente diante de seus olhos, tão nítida e clara quanto uma repetição em câmera lenta. A jogada voltou à sua mente com uma riqueza surpreendente de detalhes, cada movimento, cada reação gravada com perfeição em sua memória.

Ele lembrou do instante exato em que decidiu pela finta, um impulso rápido e decidido, desafiando a lógica fria que sempre insistia em manter os olhos fechados na hora do ataque. Lembrou-se da sensação quase vertiginosa do ar contra o rosto enquanto saltava e da visão perfeita do bloqueio adversário, subindo com confiança, acreditando já ter lido completamente sua jogada.

Mas não haviam lido.

O som seco e definitivo da bola tocando o chão atrás dos defensores ainda ecoava nos ouvidos de Charlie como música, a confirmação sonora e irrefutável de sua vitória pessoal. Naquele momento, algo se encaixara dentro dele, algo que há muito tempo estava fora do lugar, desalinhado, perdido.

Recordou o olhar de Yusuke, aquele sorriso discreto e satisfeito surgindo no canto da boca do veterano, quase como um sussurro silencioso dizendo "agora sim, garoto". Lembrou-se especialmente dos olhos de Nick, arregalando-se por uma fração de segundo antes de se encherem de um brilho profundo e antigo, aquele mesmo brilho que só surgia quando eles encontravam um ponto perfeito de sintonia, quando suas engrenagens giravam novamente em harmonia absoluta.

E havia a treinadora Singh...

A lembrança dela, talvez, fosse a mais significativa. Charlie não via aquele sorriso há muito tempo, aquele gesto tão raro quanto precioso. Singh havia sorrido não com condescendência, nem por cortesia, mas com uma satisfação genuína, verdadeira, que transparecia toda a esperança que ela ainda depositava nele. Em todos eles.

Charlie respirou fundo, deixando que aquelas memórias preenchessem seu peito com uma nova força, um calor que dissipava aos poucos a insegurança que o dominara nos últimos dias. Aquela jogada, aquela simples finta, não era apenas um ponto a mais no placar, era a prova concreta de que ele estava ali, vivo, lutando e vencendo suas próprias batalhas. Não sozinho, mas como parte de algo maior, mais forte e completo.

Charlie se levantou lentamente, sentindo ainda um leve calor da lembrança recente aquecer o peito. Seus passos eram quase automáticos enquanto se dirigia até o espelho pendurado na porta do armário. A princípio, sua intenção era simples, apenas ajeitar o cabelo, lavar o rosto e deixar a claridade da manhã despertar seus sentidos. Mas quando seus olhos encontraram o reflexo à sua frente, foi como se tivesse colidido violentamente contra um muro invisível.

Algo dentro dele desmoronou, despencando para um abismo profundo e escuro, onde a luz não chegava.

O sorriso sumiu rapidamente, como um erro apagado de um quadro-negro. No lugar dele surgiu uma expressão dura, quase assombrada, enquanto seus olhos percorriam devagar o próprio rosto refletido no vidro frio. As olheiras profundas sob os olhos eram evidentes demais, escuras como hematomas antigos. O rosto estava mais fino, o maxilar marcado com rigidez, delineado por uma tensão constante que parecia nunca o abandonar.

Charlie puxou devagar a camiseta pelos ombros, expondo os braços magros sob o tecido. O olhar crítico se intensificou ao observar os músculos retraídos, mais fracos, quase recolhidos para dentro da pele como se fugissem da própria luz. O peito parecia vazio, a respiração rasa fazia os ossos discretos das costelas se destacarem, visíveis de maneira incômoda.

Seus olhos se fixaram ali.

E permaneceram ali por um longo tempo, imóveis, enquanto o silêncio absoluto do quarto parecia aumentar, preenchido apenas pelo barulho surdo de seus pensamentos pesados.

“Eu ainda não tô pronto” pensou com amargura.

Aquela sensação boa que há pouco tempo preenchia seu peito se desfazia depressa demais, como água escorrendo por entre os dedos. Ele sentiu que não merecia aquilo. Sentiu que aquela jogada contra a Associação do Bairro, tão bonita, tão certeira, não passava de sorte, um instante de alívio que logo seria destruído pela realidade.

A culpa voltou feroz, implacável, cravando suas garras afiadas dentro de Charlie como uma fera faminta. As imagens do jogo contra o Seijoh vieram imediatamente, claras demais, dolorosas demais: a subida do bloqueio triplo, a bola tocando no chão, pesada e definitiva. O olhar decepcionado dos companheiros, o rosto tenso de Nick, a frustração disfarçada no semblante rígido de Singh, a preocupação silenciosa de Tao. Eles tinham tentado esconder, mas ele havia visto tudo. Cada expressão, cada desapontamento não-dito.

“Eles dependiam de mim... e eu falhei.”

Charlie levou as mãos lentamente até o abdômen, levantando ainda mais a barra da blusa, apertando suavemente a pele exposta. Os dedos finos, trêmulos, pareciam tentar resolver um cálculo complexo, como se aquele corpo fosse um problema a ser consertado. A pressão dos dedos aumentou aos poucos, dolorosa, revelando a exigência implacável que sua mente repetia como uma sentença cruel.

"Eu preciso melhorar mais. Preciso ser mais rápido. Saltar mais alto. Ser mais leve. Leve o suficiente para não falhar nunca mais."

As palavras distorcidas e perigosas ecoavam na mente de Charlie como verdades absolutas. Ele acreditava nelas, cada vez mais convencido de que seu peso, seu corpo, eram obstáculos reais a serem vencidos.

"Se eu for mais leve, posso saltar mais. Chegar mais rápido na bola. Cortar de qualquer ângulo. Posso ser confiável outra vez."

Ele passou os dedos devagar pelo pulso, apertando levemente, sentindo o pulso acelerado sob a pele fina. A culpa voltou a golpear com ainda mais força, implacável.

"Nick tá tentando me ajudar. Eu não posso falhar com ele de novo" a mente martelava com uma urgência brutal.

Charlie voltou o olhar mais uma vez para o espelho, encarando a própria imagem com uma expressão que beirava a obsessão, a ansiedade, o medo.

"Eu não posso errar mais..." sussurrou, lembrando do hábito de fechar os olhos nos momentos decisivos. O coração acelerava dentro do peito, batendo com tanta força que ele quase podia ouvi-lo em seus ouvidos.

Ali, parado diante do próprio reflexo, vulnerável à crueldade de sua própria cobrança, Charlie se deu conta de algo perturbador:

A técnica estava voltando, sim.

O treino rigoroso de Ukai começava a dar frutos.

Mas ele... ele mesmo estava desaparecendo lentamente por dentro, como uma vela queimando até o fim, desgastando-se lentamente até não restar quase nada. E ninguém via. Por enquanto, nem ele mesmo queria enxergar. Era mais fácil fingir.

Seus olhos endureceram, firmes e decididos, enquanto soltava lentamente a blusa, deixando-a cair novamente sobre o corpo. Ele respirou fundo, como se tentasse reunir força e coragem suficientes para se convencer daquilo que repetia a si mesmo, baixinho, quase num mantra sombrio e perigoso:

"Só mais um pouco... eu preciso voar mais alto."

Charlie ainda estava parado em frente ao espelho quando ouviu os passos suaves e inconfundíveis se aproximando pelo corredor. A porta entreaberta rangeu delicadamente antes de uma voz familiar romper o silêncio:

"Charlie? Tá acordado?"

Ele não respondeu de imediato. Respirou fundo, ajeitando rapidamente a camiseta, como se tentasse esconder todos os pensamentos difíceis que ainda pairavam em sua mente. Com um esforço sutil, colocou um tom leve na voz ao finalmente responder:

"Tô, Tori. Já tô indo."

Sua irmã mais velha empurrou a porta um pouco mais, surgindo com uma expressão sonolenta, os olhos semicerrados, ainda claramente se ajustando à luz suave do quarto. O coque improvisado no topo da cabeça estava torto e bagunçado, enquanto o moletom grande demais, com o nome de uma universidade já quase apagado pelo tempo, pendia confortavelmente sobre os ombros estreitos. Nas mãos, segurava um copo grande de chá quente, deixando um leve vapor dançar preguiçosamente no ar.

"Fiz um café da manhã decente hoje," disse ela, abrindo um sorriso lento e acolhedor. "Ovos mexidos, tomate grelhado e torradas com manteiga. Tem até salsichas vegetarianas. E chá, claro. Seu favorito."

Charlie devolveu o sorriso, embora um pouco mais fraco do que Tori estivesse acostumada a ver nele. Os olhos dela, sempre atentos, captaram essa sutileza imediatamente.

"Valeu. Eu só vou trocar de roupa e já desço," ele respondeu com um leve aceno, tentando disfarçar o cansaço na voz.

Tori não desviou o olhar. Continuou ali, observando o irmão mais novo por alguns segundos a mais do que normalmente faria. Sem dizer nada, deixou que seus olhos corressem discretamente pelo rosto dele, notando com preocupação silenciosa como as linhas do rosto estavam mais nítidas, como o olhar parecia um pouco mais distante.

Ela escolheu não comentar diretamente. Apenas tomou um pequeno gole do chá quente, segurando o copo com as duas mãos antes de dizer em tom casual:

"Você sonhou com o jogo de novo, né?"

Charlie hesitou brevemente, o olhar fugindo um pouco do dela. Depois, forçou um sorriso pequeno e desviou os olhos, como se tivesse sido flagrado em algo que tentava esconder.

"Mais ou menos. Mas foi um bom sonho, dessa vez."

Ela assentiu lentamente, sem fazer perguntas. Não precisava perguntar mais. Ela entendia.

"Então aproveita e começa o dia com alguma coisa no estômago," continuou, sem mudar o tom de voz calmo e acolhedor. "Porque se você for treinar com a Singh sem comer, ela vai perceber."

Charlie soltou uma risada fraca, mas verdadeira, tentando afastar a tensão que ainda sentia pairando no ar.

"Não sou tão previsível assim."

Tori arqueou uma sobrancelha, divertindo-se um pouco agora enquanto entrava mais no quarto, sentando-se suavemente na beirada da cama. Com uma expressão de irmã mais velha que sabe demais, cutucou delicadamente o ombro dele com o cotovelo.

"Você é o rei dos previsíveis. Você acha que esconde bem quando tá nervoso, mas sua cara te entrega."

"Minha cara é ótima!" retrucou Charlie, tentando manter a dignidade enquanto segurava um sorriso verdadeiro.

"Mentira. Você tem a mesma expressão desde os seis anos quando não quer comer legumes."

Charlie finalmente riu, dessa vez genuinamente, sentindo um pouco da leveza retornar lentamente.

"Ok. Eu desço," disse por fim, admitindo a pequena derrota com um aceno divertido da cabeça.

Tori se levantou e parou novamente na porta, virando-se suavemente para ele antes de sair.

"Não é só pela comida, tá?" Sua voz se tornou um pouco mais séria, porém ainda leve. "É só... bom te ver jogando com aquele brilho de novo."

Charlie levantou o olhar imediatamente, surpreso e tocado pela sensibilidade inesperada dela.

"Você reparou?"

Ela sorriu de leve, quase como se fosse óbvio demais.

"Claro que reparei. Eu sou sua irmã mais velha. É meu trabalho reparar."

Ele não respondeu com palavras. Apenas assentiu suavemente, deixando um sorriso tímido escapar, consciente do quanto aquele pequeno gesto significava para ambos.

"Cinco minutos," disse Tori, já se afastando pela porta aberta. "Ou eu como tudo."

"Não ouse!" ele respondeu rapidamente, agora com mais energia.

"Então se apressa."

A porta se fechou delicadamente atrás dela, deixando o quarto novamente em silêncio. Desta vez, entretanto, o silêncio parecia um pouco mais leve, um pouco mais confortável.

Charlie ficou mais um tempo parado ali, encarando o espaço vazio deixado por Tori após sua saída. O sorriso ainda permanecia discretamente nos lábios, mas agora tinha perdido toda sua leveza inicial. Por dentro, uma sensação desconfortável o corroía aos poucos, aquela voz familiar que sempre retornava, insistindo que ele ainda não era suficiente. Que aquele brilho que Tori dizia ter visto em quadra não passava de um truque da luz, uma ilusão momentânea.

Mas, mesmo assim, ele respirou fundo, ajeitou novamente a camiseta e decidiu descer.

Quando chegou à cozinha, Charlie parou por um instante na porta. O cômodo estava banhado por uma luz dourada suave, o sol da manhã entrando com gentileza pelas janelas, iluminando a mesa cuidadosamente preparada por Tori. Era um cenário que, em qualquer outro dia, lhe traria conforto. Os ovos mexidos ainda soltavam vapor, colocados no prato com perfeição ao lado de tomates grelhados e pequenas torradas douradas, cobertas por manteiga derretendo devagar. Duas xícaras de chá fumegante repousavam sobre pequenas bases redondas de cortiça.

Mas naquele momento, o cheiro aconchegante, que antes significava casa e acolhimento, agora parecia sufocá-lo. Seu coração acelerou um pouco e uma ansiedade crescente começou a comprimir seu peito.

Do outro lado da mesa, Tori estava sentada despreocupadamente, mexendo seu chá com suavidade, o olhar distraído em algo no celular. Ao perceber Charlie na porta, ergueu o rosto lentamente e abriu um sorriso acolhedor, tentando não demonstrar que já havia percebido algo errado.

"Senta aí" disse com tranquilidade.

Charlie se moveu com uma lentidão exagerada, como se cada passo fosse difícil demais, pesado demais. Ao sentar-se, o prato à sua frente pareceu maior, mais ameaçador do que deveria. Ele observou cada detalhe. Os ovos mexidos pareciam densos, os tomates brilhavam intensamente com azeite demais, as torradas tostadas tinham uma cor escura demais, quase queimadas. E o cheiro do chá, do pão, da comida quente… tudo se misturava num aroma confuso e esmagador.

Então vieram as vozes, baixas, sussurradas, perversas.

“Você não precisa disso agora.”

“Você não treinou ainda.”

“Vai te deixar pesado. Devagar.”

“Lembra do bloqueio contra o Seijoh?”

“Você não vai conseguir voar!”

Charlie tentou manter a expressão calma, relaxada, enquanto pegava o garfo. Com movimentos calculados, cortou o menor pedaço possível da torrada e levou à boca. O sabor lhe pareceu exagerado, quase insuportável: salgado demais, manteiga demais, quente demais. O estômago imediatamente protestou, revirando-se lentamente enquanto uma leve náusea subia pela garganta. Mas ele engoliu. Engoliu porque Tori estava ali, observando-o com olhos cuidadosos e discretos, esperando alguma reação.

"Boa né?" perguntou ela casualmente.

Charlie assentiu rápido demais, o sorriso forçado parecendo plástico.

"Muito."

Ele percebeu imediatamente que Tori notou. Ela sempre percebia, mesmo que não dissesse. Ele sentia seu olhar atento, preocupado, mesmo com o semblante gentil e tranquilo. Charlie cortou outro pedaço minúsculo da torrada. Dessa vez, porém, não levou à boca imediatamente.

A voz voltou, mais agressiva agora, mais urgente.

“Vai atrapalhar seu salto.”

“Sua velocidade.”

“Vai fazer Nick te abandonar no meio do jogo de novo.”

Charlie encarou o pedaço de comida preso no garfo, imóvel no ar, pesado como chumbo. Não era só falta de apetite, ele pensava. Não era simples assim. Era algo mais profundo, enraizado em seu peito como um veneno. Era medo. Era culpa. Era controle. De repente, algo que sempre amou, algo que sempre foi parte das suas melhores memórias, tinha se tornado uma ameaça camuflada.

E sua mente não parava de martelar perguntas doloridas, incansáveis:

“Por que isso tá tão difícil?”

“Por que é tão difícil comer?”

“Por que é tão difícil simplesmente… ser normal?”

Charlie soltou o garfo lentamente, sem comer o segundo pedaço, e apoiou as mãos sobre os joelhos, tentando disfarçar o desconforto. Mas Tori já percebera tudo.

"Você não gostou?" perguntou ela, com uma voz leve, cuidadosamente gentil.

Charlie não conseguiu sustentar o olhar. Encarou a mesa por um instante, apertando suavemente o tecido da calça com as mãos trêmulas.

"Gostei sim… só tô meio sem fome. Comi uma banana antes de descer," respondeu, numa tentativa frágil e desesperada de afastar a atenção dela.

Tori não insistiu. Ela tomou um pequeno gole do chá, permitindo que o silêncio voltasse a ocupar o espaço entre eles, agora mais pesado e carregado de significados não ditos. O único ruído que restava era o som suave da colher contra a xícara e a respiração discreta de Charlie, que tentava inutilmente parecer natural.

Por dentro dele, uma guerra silenciosa se travava com violência, uma batalha entre o garoto que sempre adorou aquele café da manhã preparado por Tori e o garoto que sentia que precisava merecê-lo, como se precisasse provar algo para si mesmo, para o time, para Nick.

E, por enquanto, era a segunda voz que estava vencendo.

Charlie fechou o zíper da mochila com uma força involuntária, produzindo um som seco que ecoou pelo quarto vazio. Respirou fundo, sentindo o peito apertado enquanto ajeitava o uniforme sobre os ombros, notando pela primeira vez como o tecido parecia folgado demais, estranho em sua própria pele. Antes de sair, lançou uma última olhada ao redor do quarto, e o prato ainda intacto sobre a mesa, marcado apenas por dois pequenos cortes no pão que ele fingira comer, provocou-lhe um incômodo profundo. Uma culpa amarga subiu à garganta, fazendo-o engolir em seco.

Ao atravessar o portão, o ar da manhã o recebeu com um frescor leve e familiar, que em outros dias significaria paz. O céu estava azul claro, límpido e convidativo, e a rua silenciosa transmitia uma tranquilidade quase perfeita demais para acreditar que algo pudesse dar errado.

Ele começou a correr.

Inicialmente, seus passos eram leves, automáticos, ritmados com a respiração que conhecia tão bem. A cada passada, reconhecia as pequenas marcas do caminho: a curva estreita perto da padaria, a lombada desgastada diante da banca de jornais, a linha invisível pintada na memória, onde ele sempre acelerava. Cada detalhe era parte de sua rotina, gravada profundamente em seus músculos e pensamentos.

Mas hoje, algo estava estranhamente diferente.

Ainda nos primeiros metros, antes mesmo de alcançar a primeira esquina, sentiu um ardor desconfortável subir pelas panturrilhas, subitamente rígidas como pedra. O peito apertou-se com força, como se mãos invisíveis pressionassem seus pulmões por dentro. O ar que antes fluía tão fácil agora entrava com esforço, rasgando sua garganta como fragmentos de vidro. Charlie tentou inspirar mais profundamente, mas parecia impossível encher completamente os pulmões.

O coração disparou num ritmo desconexo, forte demais, alto demais. Os dedos das mãos formigaram intensamente, enquanto uma tontura leve nublava sua visão, borrando os limites da rua à sua frente. Piscou rápido, tentando afastar o embaçamento, mas as imagens continuaram se distorcendo, incertas e trêmulas.

Ele tentou seguir. Forçou os músculos, que antes obedeciam prontamente a cada ordem, a avançarem só mais um pouco. “Só até a próxima rua” insistia mentalmente, “até a árvore que sempre marca o final da primeira volta.”

Mas seu corpo não obedeceu. Algo estava errado. Algo dentro dele parecia ter se rompido, se desgastado. As forças, antes abundantes, haviam se dissolvido como areia escapando pelos dedos. Cada passada agora exigia um esforço desproporcional, insuportável.

Charlie diminuiu o ritmo até parar completamente, o corpo dobrando-se para frente enquanto suas mãos tremiam sobre os joelhos, tentando inutilmente se apoiar. O suor escorria frio pela testa, um contraste estranho com o clima fresco da manhã. A respiração saía em arfadas curtas, quase dolorosas, e ele sentia o gosto metálico da exaustão em sua língua.

Ele amava correr.

Correr sempre tinha sido sua fuga, seu lugar de paz. Era o momento em que todas as inseguranças ficavam para trás, enquanto ele deslizava pela cidade, apenas ele e o vento. Correr era como voar. Como ser livre. Mas agora, até isso estava escapando, diluindo na angústia que tomava cada parte de seu corpo.

Endireitou lentamente a postura, sentindo as pernas tremerem sob seu peso. As coxas, que antes o impulsionavam com energia e orgulho, agora mal o sustentavam. Seus pulmões, antes elásticos e resistentes, pareciam pequenos demais, incapazes de acolher todo o ar que ele precisava desesperadamente.

Charlie começou a caminhar devagar, cada passo soando em sua mente como uma pequena derrota. Tentava disfarçar, fixando-se em detalhes insignificantes: nos muros cobertos por trepadeiras, nas janelas acesas com cortinas entreabertas, nas bicicletas estacionadas nas calçadas. A cidade permanecia igual. O céu continuava calmo, azul, indiferente.

Mas ele não era o mesmo.

Enquanto caminhava, Charlie percebeu, com uma clareza dolorosa, que não reconhecia mais o próprio corpo. Aquele corpo, que sempre fora seu aliado mais leal, agora parecia traí-lo com uma crueldade silenciosa. Não havia mais leveza. Não havia mais força. Ali, no meio de ruas tão familiares, ele percebeu que já não sabia exatamente quem era. O corredor, o jogador, a irmã, o amigo, tudo parecia distante demais, inatingível.

Quando Charlie chegou à entrada do colégio, seu corpo ainda ecoava silenciosamente a frustração daquela corrida interrompida. Os músculos pareciam pesar, as pernas tremiam levemente, e o peito carregava o desconforto sutil de uma respiração que ainda não se recuperara completamente. Mas assim que viu Tao parado junto ao portão, sorriu rápido e armou uma expressão casual, soltando uma piada qualquer sobre ter dormido pouco. Tao riu com aquele mesmo jeito de sempre, sincero e despretensioso, cutucando-o no ombro com um carinho que não percebia ser necessário. Aquele gesto tão simples quase aliviou a dor silenciosa por um instante.

As aulas começaram em sequência, sem que Charlie as sentisse realmente. Matemática veio primeiro, o professor explicando gráficos e equações com gestos largos e entusiasmados, enquanto os números e palavras apenas escorregavam por sua mente, não encontrando espaço para permanecer. Literatura passou logo depois, com análises de poemas que falavam de dor e perda, e Charlie anotou frases soltas, mecanicamente, sem captar verdadeiramente seus significados. Por fim, biologia surgiu, com explicações detalhadas sobre células e tecidos que pareciam complexos demais para sua concentração reduzida. Em cada aula, fingia interesse, ria das mesmas piadas repetidas dos colegas, fazia perguntas pontuais com energia artificial, mantendo a ilusão intacta para quem olhasse de fora.

Mas por dentro, seu mundo era imenso e vazio, tomado por um silêncio ensurdecedor. Nenhuma voz externa conseguia penetrar naquele espaço. Tudo parecia distante, nebuloso, desfocado, como se estivesse preso num sonho estranho do qual não conseguia acordar.

Quando o intervalo finalmente chegou, recusou o lanche com um sorriso rápido, dizendo casualmente aos colegas que precisava se concentrar para o treino. Eles concordaram sem questionar, afinal, Charlie sempre fazia aquilo antes dos jogos importantes. Ninguém percebeu a leve tremedeira das mãos, nem o brilho opaco em seus olhos cansados.

Ao final das aulas, Charlie pegou a mochila e seguiu automaticamente pelo corredor principal, em direção ao ginásio do Karasuno. Era um trajeto que seu corpo conhecia tão profundamente quanto sua mente. Os mesmos passos firmes, os mesmos tênis gastos. Mas ao empurrar a porta dupla do ginásio, algo inesperado o atingiu com força arrebatadora.

O cheiro característico invadiu os sentidos imediatamente: o aroma penetrante e acolhedor do chão recém encerado, misturando-se com o toque áspero das redes de vôlei, o aroma adocicado e envelhecido da madeira das arquibancadas, e o leve perfume do pó de magnésio flutuando no ar. Eram odores familiares, que carregavam memórias profundas e emocionais. Aquele cheiro não era apenas agradável, era o próprio cheiro da casa, do lar onde seu coração encontrava descanso, da quadra onde descobriu quem realmente era.

Charlie sentiu uma emoção estranha subir pela garganta, apertando-a até se transformar num nó difícil de engolir. Por um instante, fechou os olhos, deixando aquela mistura poderosa de cheiros, sons e lembranças inundá-lo, como uma onda morna que ameaçava derrubar a muralha que ele vinha erguendo desde cedo.

Naquele momento, mesmo com o corpo exausto, mesmo com a culpa ainda martelando seus pensamentos, Charlie percebeu algo importante: precisava continuar. Precisava seguir em frente, lutar mais um pouco, mesmo que por fora tudo aparentasse estar normal, mesmo que ninguém pudesse ver a tempestade silenciosa que se desenrolava em seu interior.

Porque ali, naquela quadra, cercado por tudo que ele amava e conhecia, ele ainda tinha uma chance de se reencontrar, mesmo que por dentro estivesse lentamente desmoronando em silêncio.

Charlie mal havia terminado de colocar a mochila cuidadosamente no canto habitual da quadra quando sentiu uma presença familiar se aproximando lentamente por trás dele. Antes mesmo de escutar a voz, reconheceu aquele cheiro único e reconfortante, uma mistura sutil de sabonete fresco com o aroma da resina recém passada no chão da quadra. Seu coração reagiu antes que pudesse controlar, acelerando levemente enquanto ele tentava manter-se calmo.

"Oi."

Era Nick.

Charlie virou-se lentamente, num esforço consciente para parecer natural, para parecer leve. Os olhos encontraram imediatamente o rosto preocupado de Nick, que o observava com aquele olhar penetrante e gentil, ao mesmo tempo calmo e intenso, que parecia enxergar muito além do que ele próprio estava disposto a mostrar.

"Oi" respondeu Charlie suavemente, esforçando-se para esconder qualquer sinal de vulnerabilidade na voz.

Nick permaneceu imóvel por um instante, analisando-o com uma atenção silenciosa que parecia atravessar cada camada de defesa que Charlie construíra cuidadosamente naquela manhã.

"Você tá bem?" perguntou Nick diretamente, sem rodeios, mantendo o olhar firme sobre ele.

Charlie sentiu a garganta apertar levemente. Por um segundo, dois talvez, ele hesitou. Então abriu um pequeno sorriso, um pouco trêmulo nas pontas, mas que tentava mascarar o que sentia por dentro.

"Tô sim. Só cansado da aula."

Nick não mudou a postura. Apenas cruzou os braços lentamente sobre o peito, estreitando os olhos com delicadeza, como quem via uma fenda em sua defesa. Charlie sentia o peso daquele silêncio, não era um silêncio de conforto, mas sim aquele silêncio carregado, que gritava silenciosamente algo como "eu sei que você não tá dizendo a verdade".

Antes que Nick pudesse insistir, Charlie tentou rapidamente inverter a conversa:

"Você tá bem?"

"Eu tô, mas… você não me respondeu de verdade."

Charlie desviou o olhar para o lado, fugindo daquele exame cuidadoso que Nick fazia. Sentia-se exposto, frágil, como se bastasse uma palavra errada para desmontar tudo que estava tentando sustentar.

"Já disse. Só tô cansado."

A voz saiu leve, quase convincente. Mas Nick não se deixava enganar tão facilmente.

"Você sabe que pode falar comigo, né?" perguntou Nick, com uma suavidade que escondia firmeza e sinceridade profundas.

Charlie sentiu aquela frase atravessar diretamente seu peito. Queria acreditar nisso desesperadamente. Queria abrir-se ali mesmo, deixar toda a dor sair, mas algo invisível travava sua garganta.

"Claro que sei" respondeu, ainda tentando sustentar aquela fachada.

Nick então deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles com cuidado, como se não quisesse assustá-lo. Charlie ergueu o rosto lentamente e sentiu o olhar intenso e caloroso de Nick percorrendo suas feições com atenção delicada, como quem nota detalhes pequenos e significativos em uma obra de arte.

"Você... anda diferente" disse Nick baixinho, com um cuidado imenso nas palavras, como se estivesse pisando em algo muito delicado. "Tipo, mais quieto. Mais leve... fisicamente, eu quero dizer."

Charlie soltou uma risada fraca, desconfortável. Sem perceber, passou automaticamente a mão pelo próprio maxilar, sentindo as pontas afiadas dos ossos sob a pele fina, um gesto involuntário que entregava mais do que queria revelar.

"Ah, é só... treino. Coisa de atacante, sabe? Preciso estar mais rápido."

Nick franziu levemente a testa, deixando claro que não acreditava naquilo.

"Eu te abracei ontem. E... eu senti. Você tá mais magro, Char."

Aquelas palavras o atingiram como gelo, congelando cada centímetro por dentro, enquanto o coração acelerava ainda mais. Por fora, Charlie manteve o sorriso firme, embora seus olhos piscassem mais rápido, denunciando o desconforto profundo que sentia.

"Você me acha feio agora?"

Nick respirou fundo, sério.

"Não brinca com isso."

Um silêncio intenso se estendeu entre eles, pesado e incômodo como uma névoa difícil de atravessar. Ambos ficaram imóveis, presos naquele vazio desconfortável. Finalmente, Nick desviou os olhos por um segundo, como se estivesse buscando algo em seu interior, antes de voltar a encarar Charlie com determinação renovada.

"Vem almoçar comigo hoje? A gente podia ir naquela lojinha de curry perto do colégio."

Charlie sentiu o estômago se contrair imediatamente só de imaginar aquela comida: quente, densa, pesada. A textura do arroz empapado, o aroma intenso dos temperos, tudo aquilo que antes ele adorava agora soava ameaçador demais, difícil demais.

"Ah, hoje eu… tenho umas anotações pra passar a limpo. E preciso estudar pra biologia."

Nick não respondeu imediatamente. Ficou parado, sustentando aquele olhar silencioso e profundo que via mais fundo do que qualquer palavra poderia expressar.

"Você comeu hoje?" perguntou Nick, num tom calmo e cauteloso.

"Claro que sim."

"O que?"

Charlie sentiu a garganta travar. Engoliu em seco, tentando não desviar o olhar.

"Ovos... de manhã."

Nick manteve-se ali, imóvel, olhando-o em silêncio. Não era raiva ou acusação o que havia em seu rosto, era tristeza. Uma tristeza que machucava muito mais do que qualquer bronca ou grito poderia fazer.

"Char… se tem alguma coisa errada, você pode me contar."

Naquele instante, Charlie quis desesperadamente abrir-se para ele. Queria contar tudo: as vozes, o medo, a culpa sufocante, o peso insuportável em seus ombros. Mas seu corpo se recusava, travava, como se admitir aquilo fosse confirmar que ele realmente falhara. Forçando outro sorriso fraco, Charlie recuou lentamente um passo, aumentando novamente a distância que Nick havia tentado diminuir.

"Tô bem, Nick. De verdade."

Dessa vez, Nick não insistiu. Apenas permaneceu quieto, e aquele silêncio falou muito mais alto que qualquer palavra que pudesse dizer.

Charlie virou-se lentamente e seguiu para o centro da quadra. Seu coração batia violentamente no peito, descompassado e doloroso, enquanto o peito permanecia apertado, sufocado pelas palavras não ditas que queimavam intensamente em sua garganta.

Mas ele seguiu em frente, pois ainda era mais fácil fingir estar forte do que admitir o peso esmagador daquilo que o consumia silenciosamente por dentro.


NICK

Nick sabia que algo estava errado. Não conseguia identificar exatamente o quê, mas sentia com uma clareza desconcertante, como um alarme interno que tocava incessantemente em sua cabeça. Por fora, tudo parecia normal, o ataque rápido estava voltando a funcionar, o time treinava com determinação e Charlie sorria sempre que olhava para ele. Mas Nick percebia os detalhes que passavam despercebidos aos outros, detalhes sutis que, somados, formavam um quadro preocupante.

Eram pequenas coisas. Silêncios prolongados demais após perguntas simples, o jeito como Charlie evitava o corredor da cantina, alegando já ter comido mesmo quando era evidente que não havia passado pela fila do almoço. Nick percebia também o modo como Charlie tocava discretamente o próprio maxilar, quase inconscientemente, como se tentasse checar algo ali. Seu salto, antes tão leve e cheio de energia, agora parecia frágil, como se pudesse quebrar a qualquer momento.

Nick não queria acreditar no que sua mente começava a sugerir. Repetia para si mesmo que talvez estivesse exagerando, vendo coisas onde não existiam, interpretando mal os gestos inocentes de Charlie. Afinal, perguntar diretamente era sempre arriscado, todas as vezes que tentara abordar o assunto com cautela, Charlie reagia na defensiva. Suas respostas vinham evasivas, com sorrisos que Nick reconhecia imediatamente como falsos, ou até com uma irritação inesperada, como se admitir qualquer problema fosse uma fraqueza imperdoável.

Com o tempo, Nick desistiu das perguntas diretas, mas não de observar. Começou a prestar atenção com mais intensidade: o quanto Charlie colocava no prato, o que deixava intocado, quanto tempo ficava mexendo na comida sem realmente comê-la. Observava como ele alongava os músculos com movimentos mais lentos, quase hesitantes, como se cada gesto exigisse um esforço maior do que deveria. Notava que Charlie raramente tirava a blusa ao fim dos treinos, mesmo com o suor escorrendo pelo rosto. Sentia claramente, ao abraçá-lo, o relevo das costelas sob o tecido, e aquilo o assustava profundamente.

A dúvida começou a corroê-lo por dentro, transformando-se em uma angústia constante. Certa noite, incapaz de dormir com aquela inquietação apertando seu peito, Nick cedeu e pegou o notebook. Com as mãos trêmulas, digitou no navegador uma busca sobre aqueles sintomas, aqueles comportamentos estranhos que não paravam de atormentá-lo. Uma parte dele não queria fazer aquilo, parecia invasivo, assustador. Mas ele precisava saber.

O que encontrou não foi fácil de aceitar. A tela fria do notebook exibia uma lista de sintomas, comportamentos e alertas que pareciam gritar silenciosamente o nome de Charlie. Padrões alimentares alterados, perda rápida e inexplicável de peso, cansaço extremo constante, obsessão com desempenho e perfeição física, isolamento emocional, preocupação exagerada com o corpo, distorção severa da própria imagem, medo irracional e crescente de comer.

Cada linha que lia parecia descrever Charlie perfeitamente, como se alguém tivesse escrito um relato detalhado sobre ele. Nick sentiu o estômago afundar lentamente, uma náusea sutil tomando conta do seu corpo. Ele releu cada sintoma, cada descrição, como se sua vida dependesse daquilo, como se entender fosse suficiente para evitar algo pior.

Uma voz interna tentou convencê-lo de que era só paranoia, de que talvez estivesse dramatizando demais. Talvez fosse apenas uma fase de treino intenso, um estresse passageiro, algo que acabaria logo. Mas no fundo, Nick sabia que não podia mais negar o óbvio. Havia algo muito mais sério acontecendo com Charlie. Algo que ia além dos jogos, dos treinos, dos cortes perfeitos que ele sempre buscava executar com maestria. Algo que se escondia nas sombras mais profundas de sua mente, longe dos olhares atentos do time e da família.

Charlie estava travando uma batalha silenciosa, devastadora. E Nick percebeu, com uma mistura sufocante de tristeza e medo, que não sabia exatamente como ajudá-lo. A sensação de impotência era esmagadora, assustadora. Era como estar diante de um furacão, observando tudo que amava sendo lentamente arrastado pela tempestade enquanto ele próprio permanecia imóvel, sem forças para reagir.

Mas Nick também sabia que não desistiria. Não importava quão difícil fosse alcançar Charlie naquele espaço escuro e silencioso, ele encontraria uma maneira. Ele precisava. Não podia deixar o garoto que amava lutar sozinho contra algo tão destrutivo, tão cruel. Nick decidiu naquele instante que faria o que fosse preciso, que descobriria uma forma de chegar até Charlie antes que fosse tarde demais. Porque deixar Charlie cair sozinho nunca seria uma opção.

No dia seguinte, quando o treino chegou ao fim, a quadra estava tomada pela luz suave e dourada da tarde, como se o tempo tivesse decidido fazer uma pausa tranquila antes de seguir adiante. Os jogadores do Karasuno haviam se dispersado pelo ginásio, alguns sentados no chão, esticando preguiçosamente as pernas cansadas, outros conversando e rindo enquanto tomavam água, aliviados após mais um dia intenso de exercícios.

Nick caminhou calmamente pelo espaço, procurando Charlie com os olhos. Não demorou para encontrá-lo: Charlie estava encostado confortavelmente na parede, as mãos enfiadas nos bolsos largos do agasalho, observando distraidamente o movimento ao seu redor. Seus olhos ainda carregavam um leve cansaço, mas agora havia também um brilho tranquilo, quase satisfeito, resultado evidente de um treino que tinha sido particularmente bom.

"Char" disse Nick, aproximando-se com um sorriso tranquilo, a voz leve e casual. "Quer ir lá pra casa hoje depois do treino?"

Charlie virou o rosto rapidamente, surpreso e instantaneamente curioso, como uma criança diante de uma surpresa inesperada.

"Sério?"

"É. Tô precisando de alguém pra me ajudar a desestressar..." Nick fez uma pausa dramática, antes de completar com um tom provocador "...e perder no Mario Kart."

Os olhos de Charlie se acenderam imediatamente, como pequenas luzes piscando em empolgação. A expressão cansada que ele trazia foi substituída instantaneamente por um sorriso largo, animado e competitivo.

"Você tem Mario Kart?!"

"Claro que tenho" respondeu Nick, orgulhoso, divertindo-se com a reação instantânea e entusiasmada de Charlie.

Charlie avançou um passo à frente, olhando fixamente para Nick, como quem se preparava para um grande duelo, exibindo uma confiança exagerada e cômica que Nick não via há dias.

"Então se prepara pra ser humilhado!"

Nick arqueou uma sobrancelha, fingindo surpresa diante daquela provocação divertida, enquanto cruzava os braços num desafio bem-humorado.

"Ah é? Tá se achando demais pra quem perdeu no Ping Pong no último fim de semana."

Charlie imediatamente adotou uma expressão teatralmente indignada, colocando uma mão no peito como quem se sentia gravemente ofendido.

"Foi porque sua mesa é torta!" rebateu com um tom dramático, fazendo Nick rir baixinho. "Aquilo foi sabotagem."

Nick riu com leveza, sentindo o peso dos últimos dias se dissolver momentaneamente naquela conversa tão leve e agradável.

"Tá bom então. Hoje você vai poder provar se é bom mesmo... ou perder de novo."

Charlie abriu um sorriso confiante, desafiando com um tom solene e decidido.

"Não vou perder. Vou destruir você na Rainbow Road."

Nick balançou a cabeça, claramente divertido pela segurança exagerada dele.

"Duvido," respondeu Nick, provocativo. "Você nem sabe fazer o drift direito."

Charlie estreitou os olhos com fingida ameaça, aproximando-se como quem revelava um grande segredo de batalha.

"Você vai engolir poeira de casco vermelho, Nick Nelson."

Nick manteve a expressão desafiadora, sustentando o olhar com uma falsa seriedade, embora estivesse achando tudo aquilo absurdamente engraçado.

"Você fala bonito, mas não joga bonito."

Charlie ergueu o queixo, triunfante.

"Veremos."

Nick parou por um segundo e apenas olhou para Charlie, aproveitando aquela sensação rara e especial. Pela primeira vez em muito tempo, percebia algo verdadeiro no rosto dele: entusiasmo genuíno, aquela felicidade quase infantil que vinha sem esforço, sem precisar se esconder atrás de sorrisos falsos ou silêncios preocupantes. E naquele instante, ele entendeu que era exatamente disso que Charlie precisava. Não mais cobranças, não mais peso. Apenas momentos leves, respiros, pausas para lembrar que ele era mais do que apenas um atleta, mais do que suas inseguranças e medos.

"Então tá combinado?" perguntou Nick, agora com um tom de voz animado e cúmplice.

Charlie assentiu imediatamente, o rosto iluminado por aquele sorriso que Nick tanto gostava.

"Fechado."

"Beleza," confirmou Nick, devolvendo o sorriso com leveza, já antecipando uma noite divertida. "Mas já vou preparar meu Donkey Kong, porque hoje ele vai dar aula."

Charlie arregalou os olhos com uma falsa expressão de choque, fazendo um drama exagerado.

"Você joga com o Donkey Kong? Nossa, a derrota vem dobrada."

Ambos caíram na risada ao mesmo tempo, e o som leve das gargalhadas ecoou pelo ginásio, criando uma atmosfera alegre e descontraída que há muito tempo eles não sentiam juntos.​

O quarto de Nick era o reflexo perfeito da sua personalidade: organizado, esportivo e repleto de pequenos toques de nostalgia. As paredes, pintadas em um suave tom de cinza, exibiam orgulhosamente pôsteres de jogadores famosos de vôlei, além de bandeiras e camisas de times internacionais que ele admirava desde criança. Próxima à escrivaninha impecavelmente organizada, havia uma estante robusta, cheia de troféus brilhantes enfileirados lado a lado, com pequenas placas douradas destacando as datas e torneios juvenis que ele havia vencido ao longo dos anos. Medalhas, organizadas cuidadosamente, penduravam-se num gancho improvisado ao lado, cintilando levemente sob a iluminação suave do abajur desligado.

Na mesinha de cabeceira, ao lado da cama arrumada com precisão, repousava uma fotografia já meio desbotada pelo tempo, protegida por um porta-retrato simples. A imagem mostrava dois garotos mais jovens sorrindo sob o céu alaranjado da Quadra do Rio, no fim de uma tarde qualquer. Nick, mais novo, abraçava uma bola de vôlei junto ao peito, sorrindo largo e despreocupado, seus cabelos loiros bagunçados pelo vento do entardecer. Ao seu lado, um garoto de cabelos castanhos claros e olhos brilhantes ria travesso, jogando o braço com naturalidade sobre os ombros de Nick, como se naquele instante, nada no mundo pudesse separá-los. Charlie reconheceu imediatamente Oikawa naquela imagem, o concreto rachado da quadra, as linhas já gastas pelo uso constante, o brilho dourado do rio ao fundo, tudo parecia preservar eternamente aquele momento feliz.

Charlie se sentou animado na beira da cama, agarrando o controle com confiança absoluta e selecionando rapidamente seu personagem favorito: Yoshi, aquele dinossauro verde que sempre parecia acelerar mais do que todos os outros. Nick cumpriu sua promessa com uma expressão divertida, escolhendo sem hesitar o musculoso Donkey Kong, fazendo questão de anunciar com orgulho exagerado:

"É só pra provar que dá pra ser bruto e elegante ao mesmo tempo."

Charlie riu baixinho e lançou a Nick um olhar provocador, cheio de confiança divertida:

"Você sabe que vai perder, né?"

"Veremos..." respondeu Nick, arqueando uma sobrancelha de desafio, tentando fingir mais segurança do que realmente sentia naquele momento.

O jogo começou e imediatamente a velocidade frenética tomou conta da tela da televisão. Pistas coloridas e obstáculos surgiram num piscar de olhos. Charlie dominava cada curva e cada drift com tanta facilidade que parecia ter nascido para jogar Mario Kart. Em poucos segundos, ele já estava à frente, desviando habilmente de cascos verdes, pulando rampas de velocidade e até fazendo pequenos saltos ousados sobre obstáculos quase impossíveis.

Nick se esforçava ao máximo para acompanhá-lo, mas era constantemente atingido por cascos vermelhos traiçoeiros, escorregava em cascas de banana estrategicamente deixadas por Charlie e era jogado impiedosamente para fora da pista a cada curva perigosa da Rainbow Road. Nick gritava dramático, balançando o controle, enquanto Charlie ria alto, radiante com cada vitória.

"Você é invencível!" exclamou Nick finalmente, jogando o controle teatralmente para cima e empurrando Charlie com o ombro de brincadeira, enquanto soltava uma gargalhada alta e genuína.

"Eu te disse!" rebateu Charlie, com um sorriso largo e vitorioso, tão sincero e iluminado que parecia clarear cada cantinho do quarto.

Nick parou por um instante, completamente hipnotizado por aquele sorriso tão bonito e espontâneo. Era o tipo de sorriso que começava timidamente nos olhos, tomava conta das bochechas e terminava nos lábios de forma natural e encantadora. Nick se aproximou devagar, com um olhar carinhoso e admirado.

"Já te falei que amo seu sorriso?" perguntou suavemente.

Charlie parou imediatamente, surpreso, sentindo as bochechas esquentarem e adquirirem um tom rosado irresistível. Não respondeu com palavras, apenas ficou ali, um pouco tímido e encantado pela sinceridade repentina de Nick.

Com um movimento cuidadoso, quase lento, Nick reduziu a distância entre eles, como se cada centímetro importasse muito mais do que ele ousaria admitir em voz alta. Seus olhos fixaram-se nos de Charlie por um segundo, antes de ele inclinar-se gentilmente para frente e beijá-lo.

Foi um beijo doce e carinhoso, curto, mas repleto de significado. Um toque suave dos lábios que dizia mais do que qualquer palavra poderia expressar naquele momento. Sem cobranças, sem pressa apenas eles dois ali, naquele quarto aconchegante, com aroma suave de sabonete, pipoca recém-estourada e o menu do Mario Kart tocando baixinho, como uma trilha sonora alegre e distante.

Charlie fechou os olhos lentamente, sorrindo contra os lábios de Nick antes de encostar delicadamente a testa na dele, sentindo pela primeira vez em dias uma leveza gostosa tomar conta do seu peito. A respiração dos dois era tranquila, e o coração de Charlie parecia flutuar num ritmo perfeito.

E, naquele momento simples e tão precioso, tudo pareceu finalmente certo outra vez.

Nick não resistiu e se aproximou, seus lábios encontrando os de Charlie em um beijo suave e terno. As mãos de Nick deslizaram para a cintura de Charlie, subindo lentamente, explorando o contorno de seu corpo com delicadeza. No entanto, antes que pudesse tocar o abdômen de Charlie, este segurou sua mão abruptamente, interrompendo o movimento.​

"Me desculpe!" Nick disse, surpreso e recuando imediatamente.

"Só não estou pronto ainda" Charlie respondeu, sentando-se na cama e evitando o olhar de Nick.

"Ai meu Deus, eu não ia tirar sua roupa..." Nick tentou aliviar o clima com um sorriso.

"Não deixe isso pior..." Charlie disse, cobrindo o rosto com as mãos, claramente envergonhado.

"Você ficou vermelho" Nick observou, abaixando as mãos de Charlie para ver seu rosto.

"Não que eu não quisesse fazer isso com você, mas não acho que seja a hora ainda," Charlie admitiu, sua voz suave.

Agora foi Nick quem ficou vermelho, desviando o olhar por um momento.​

Charlie sorriu e apontou para as bochechas coradas de Nick. "Você também ficou com vergonha!" disse, fazendo cócegas em Nick, que riu e tentou se afastar.

A brincadeira foi interrompida pelo som de uma notificação no celular de Nick. Ele pegou o aparelho e leu a mensagem que acabara de chegar.​

Pai: Salut mon fils, comment vas-tu ? Estou na cidade, podemos conversar?

O semblante de Nick mudou instantaneamente, sua expressão se fechando.​

"O que foi?" Charlie perguntou, notando a mudança.

"É meu pai, ele está na cidade e quer me ver" Nick respondeu, sua voz tensa.

"Você não fala muito dele" Charlie comentou, preocupado.

"Não tem nada de bom para saber dele" Nick disse, olhando para o chão.

Charlie segurou a mão de Nick e a apertou, oferecendo apoio. "Quer falar sobre isso?" perguntou gentilmente.

"Promete não ter segredos entre nós?" Nick perguntou, sua voz séria, como se estivesse falando de outra coisa.

"Prometo" Charlie respondeu, entendendo a profundidade da pergunta.

Nick respirou fundo e começou a contar sobre sua infância, relembrando os momentos difíceis que vivera com o pai. Charlie já sabia de parte da história, mas agora ouvia os detalhes que Nick nunca havia compartilhado antes. Nick contou sobre o divórcio dos pais e como o pai se mudara para a França.​

"Você sabe falar francês?" Charlie perguntou, tentando aliviar o clima.

"Je connais mon amour" Nick respondeu em francês.

"Ai meu Deus, você ficou muito mais gostoso agora" Charlie disse, beijando levemente o pescoço de Nick.

"Mon amour..." Nick sussurrou e Charlie fingiu um desmaio.

"Você vai ter que falar francês comigo todo dia!" Charlie impôs, brincando.

Nick sorriu, mas logo ficou sério novamente. "Ele odiava que eu jogasse vôlei" disse sério "Dizia que era jogo de mulherzinha."

"Tenho certeza de que ele nunca viu um jogo de vôlei para dizer isso!" Charlie respondeu, indignado.

"Ele nunca foi a um jogo meu" Nick disse, encarando os troféus na estante.

"Você tem muitos deles" Charlie comentou, pegando um troféu com uma rede e mãos levantadas banhadas em ouro.

"Esse foi da colônia de férias" Nick explicou.

"Você foi em uma colônia de férias de vôlei?" Charlie brincou e Nick assentiu com um sorriso.

"Foi aos 11 anos" Nick puxou da memória. "Eu acho que tinha um crush no instrutor..."

"Ai meu Deus" Charlie reagiu, surpreso.

"Eu não entendia isso na época..." Nick refletiu. "Mas pensando agora, eu era obcecado por ele, mas meu preconceito não deixava entender na época" Nick bufou "Eu ganhei esse troféu por ser o melhor levantador infantil da colônia."

"Isso é tão fofo" Charlie disse, sorrindo.

Nick ficou mais sério e olhou para Charlie com ternura. "Agora é sua vez..." disse.

"De quê?" Charlie perguntou, confuso.

"De me contar alguma coisa" Nick respondeu.

Charlie ficou sério, como se soubesse onde Nick queria chegar. "Você nunca me contou sobre como saiu do armário publicamente..." Nick propôs e Charlie se encolheu e respirou fundo, preparando-se para se abrir.


CHARLIE

Charlie respirou fundo. Seus ombros subiram lentamente, como se o ar que entrasse em seus pulmões estivesse carregando todo o peso do mundo. Ele hesitou por um segundo, tentando encontrar uma brecha de coragem no meio da vergonha.

"A gente não precisa falar disso."

O sorriso que ele deu logo em seguida não era dele. Era uma máscara frágil, costurada às pressas com o medo de se expor. A voz, por mais firme que tentasse soar, parecia trêmula, como se lutasse contra a verdade.

"Tá tudo bem agora."

Mas era mentira. Ele sabia disso. E Nick também.

"Tá tudo bem mesmo?" Nick perguntou com a voz baixa, mas carregada de uma dor que não sabia mais como disfarçar. "Olha, eu sei que você quer que tudo seja bom, feliz e perfeito o tempo todo..."

Ele o encarou. A expressão serena, mas firme. Os olhos verdes segurando tanto amor quanto inquietação.

"Mas... você não tem que ser perfeito comigo."

Os olhos de Charlie se encheram de lágrimas no mesmo instante. O rosto se contorceu como se aquilo o tivesse atingido por dentro, num lugar que ele evitava tocar há muito tempo. Ele se aproximou de Nick devagar, quase com medo de que o abraço que procurava fosse recusado, e segurou sua mão com força, como se agarrá-la fosse a única coisa que o impedia de afundar.

"Char..." Nick sussurrou, com ternura. Um alento. Um porto seguro. "Pode me dizer tudo. Eu estou aqui pra você."

Charlie fechou os olhos e sentiu a primeira lágrima deslizar por sua bochecha. Ela queimava. Doía mais do que qualquer treino. Mais do que qualquer bloqueio. Mais do que a última derrota.

"Alguém da escola ouviu o Tao dizendo que eu ia me assumir..."

Nick, com um gesto delicado, secou a lágrima com o polegar. Os olhos dele já começavam a brilhar também, mas ele não disse nada. Não ainda.

"Eu acho que fiquei surpreso com tantas pessoas homofóbicas..." Charlie encarou os olhos verdes de Nick, como se procurasse neles um lugar onde pudesse existir em paz. "Eu achei que era melhor hoje em dia."

Ele fechou os olhos novamente, como se estivesse puxando uma memória sufocada de algum porão escuro da mente.

"As pessoas me chamavam de nojento... bem na minha cara."

Nick não conseguia se mover. Ele sentia os próprios olhos se encherem de lágrimas, mas permanecia em silêncio.

"E isso durou tanto tempo..." Charlie continuou, a voz agora quebrada, quase infantil. "Que eu acreditei no que eles estavam falando..."

As lágrimas agora vinham sem parar. Desciam pesadas, silenciosas, queimando cada palavra dita como se fossem cicatrizes expostas.

"Eu comecei a me odiar de verdade..." Ele abaixou a cabeça, a vergonha escorrendo dos olhos, da boca, do silêncio entre as frases. "Tanto que eu..." Ele respirou fundo, tentando terminar. A garganta apertava. A voz falhava. O medo de ser rejeitado, mesmo por Nick, ainda ecoava em sua mente.

"Comecei..." Ele encarou Nick com uma vulnerabilidade devastadora, como quem está nu diante de alguém que ama e teme ao mesmo tempo.

"Eu... eu... eu meio que me cortava às vezes."

E então ele quebrou.

O choro veio sem defesa. Veio inteiro, bruto, desesperado. Como se anos de dor estivessem sendo vomitados de uma vez. Nick não hesitou. Puxou Charlie para perto e o envolveu com os dois braços, apertando forte, como se aquele abraço pudesse segurá-lo no mundo. Como se pudesse colar cada parte partida de volta no lugar.

"Eu sinto muito, Char..." ele sussurrou, com a voz embargada, os olhos fechados com força. “Você ainda faz isso agora?”

“Não” Charlie diz e sente o alívio na respiração de Nick

Charlie respira fundo.

“E aí... veio o Ben.”

Charlie desviou o olhar, e algo em sua postura mudou. Como se, ao mencionar aquele nome, uma parte dele encolhesse por dentro, um reflexo involuntário de quem ainda sentia as marcas invisíveis de um passado que doía lembrar.

"Eu realmente gostei dele" disse, a voz baixa, quase engolida pelo silêncio do quarto.

Não era um gostar qualquer. Era aquele tipo de afeto que nasce num momento frágil, quando tudo dentro de você está confuso e solitário, e qualquer migalha de atenção parece um banquete. Charlie não precisava explicar, Nick sentia nas entrelinhas. Mas ele continuou, com os olhos fixos em um ponto qualquer do edredom, como se aquilo fosse mais fácil do que encarar Nick naquele instante.

"Ele chegou em um momento em que eu estava vulnerável."

As palavras saíam devagar, pesadas, como se cada uma abrisse uma porta enferrujada dentro de si.

"Eu achava que merecia ser tratado do jeito que ele me tratou."

Uma pausa longa. Doída.

"Achava que... que aquilo era o máximo que eu conseguiria."

Ele engoliu em seco, os olhos marejados mais uma vez. A vergonha era palpável. Não por ter sentido o que sentiu, mas por ter acreditado que aquilo era amor. Por ter aceitado menos, porque não sabia que merecia mais.

"Que eu nunca seria amado."

Aquela última frase quebrou algo no ar. Era simples. Mas tão devastadora. Porque Nick podia ouvir, nas entrelinhas, todas as vezes que Charlie engoliu o choro sozinho, todos os dias que acordou se sentindo insuficiente, todos os momentos em que confundiu abuso com afeto... só porque não conhecia algo melhor.

Nick apertou a mão de Charlie com mais força. E ali, naquele silêncio carregado, os dois entenderam que certas feridas não precisam de respostas, só de presença.

"Logo depois... eu fui aceito no Karasuno."

Charlie sorriu com suavidade ao dizer isso, como se aquela lembrança aquecesse algo dentro dele. "E conheci você."

Ele levantou os olhos para Nick e havia um brilho ali, não de euforia, mas de gratidão genuína.

"O sol brilhou naquele dia nublado."

Sua voz saiu com um tom nostálgico, quase como se estivesse narrando um milagre silencioso.

"Até então, eu nunca tinha me sentido realmente aceito. Nunca tinha sentido que pertencia a algum lugar. Sempre era o estranho, o que precisava se esconder. Mas... naquele ginásio, pela primeira vez, eu senti que podia fazer parte de algo."

Ele apertou levemente a mão de Nick.

"O vôlei me salvou, Nick. De verdade. Me mostrou que eu tinha valor. Que eu tinha potencial. Que eu podia ir longe. Me mostrou... que eu podia voar."

Charlie respirou fundo, mas o sorriso continuava ali, firme, mesmo que emocionado.

"No jogo contra o Muro de Ferro... eu não derrubei só o Aone. Eu derrubei minhas dúvidas. Minhas inseguranças. Meus medos. O velho Charlie que acreditava que não era suficiente ficou pra trás naquele jogo."

Ele pausou e levou a mão até o próprio peito.

"E eu brotei do concreto. Como uma flor, sabe? Mais forte, mais alto, mais confiante. Pela primeira vez, eu não senti que estava fugindo de algo. Eu senti que estava indo em direção a algo."

Charlie riu baixinho, quase envergonhado.

"E foi aí que você me beijou pela primeira vez. E eu juro, Nick… eu vi a Visão do Topo. Não só na quadra. Mas aqui."

Ele levou a mão até a lateral da cabeça e depois até o coração.

"Foi o melhor dia da minha vida."

Os olhos de Charlie brilhavam agora, não só pelas memórias, mas pelo que ele sentia naquele momento.

"Te conhecer foi a melhor coisa que me aconteceu."

E quando disse isso, não havia hesitação. Nenhuma dúvida. Só verdade. Só amor.

"Aí chegou o Seijoh..."

A voz de Charlie soou abafada, como se tivesse sido engolida por algo maior dentro dele. Ele respirou fundo antes de continuar, os olhos perdidos em algum lugar além das paredes do quarto.

"Eu estava tão confiante. Eu sabia que poderia passar por eles."

Ele olhou para Nick, os olhos começando a brilhar com lágrimas contidas.

"Eu tinha o Karasuno e eu tinha você. Nada poderia me derrubar de lá."

Havia tanto peso naquelas palavras. Tanto arrependimento misturado com a pureza de uma fé que ele realmente teve.

"Eu estava tão errado..."

As lágrimas finalmente escaparam, descendo silenciosas pelas bochechas. Nick permaneceu quieto, absorvendo cada palavra, cada rachadura na voz de Charlie como se sentisse também a dor que vinha junto.

"A queda foi tão forte, Nick..." Charlie disse entre lágrimas. "Eu me sentia um nada de novo. E tudo voltou."

Ele olhou diretamente nos olhos de Nick agora. Sem escudo. Sem filtro.

"Eu não quero mais comer. Tudo me causa enjoo. Ver a comida me traz repulsa. Eu queria estar mais leve... pra pular mais alto."

Charlie apertou com força as mãos de Nick, como se aquilo fosse a única âncora entre ele e o fundo do mar.

"Eu tenho um distúrbio alimentar, Nick."

Nick o encarou sem piscar. Sem julgamento. Só com amor. Um amor profundo, presente, inteiro.

"Eu estou tão cansado..." Charlie fungou, o nariz vermelho. "É como se fosse uma onda que passa por mim sem parar."

Mais uma lágrima caiu.

"Ela me derruba e... quando eu tento me levantar, ela passa por mim outra vez..."

Nick engoliu o choro e apertou ainda mais a mão de Charlie. A dor do outro era quase insuportável de assistir.

"E eu não..." Charlie olhou pro vazio, os olhos cheios d’água, mas a voz cada vez mais fraca, mais crua.

"Ela vai me afogar..."

"Não." Nick disse, apertando com força as mãos de Charlie.

"Vai sim."

"Não. Não vai!" Nick o encarou com toda a coragem que ainda restava em seu peito.

"Como você sabe?"

Nick respirou fundo. O corpo tremia. A emoção transbordava.

"Porque nem tudo pode ser tristeza, né?" Ele encarou os olhos marejados de Charlie. "Eu nunca passei pelo que você tá passando. Eu nunca conheci essa dor. Eu sempre fui tão egoísta e só pensava em mim, que nunca me preocupei em perder..."

A voz dele falhou por um instante. O peito arfou. Uma lágrima escorreu por sua bochecha.

"Até agora."

Ele encostou a testa na de Charlie, os olhos fechados, a respiração trêmula.

"Eu não quero te perder pra isso, Char. Você é minha pessoa favorita."

Ele puxou Nick para um beijo leve, delicado, um encontro de lábios que dizia tudo o que ainda doía e tudo o que precisava ser curado. Quando os dois se afastaram, o abraço veio e foi intenso. Nick o envolveu como se quisesse protegê-lo do mundo inteiro. Charlie se agarrou a ele como se aquele abraço fosse o único lugar seguro da Terra. Ambos choravam. Mas era um choro de desabafo. De dor partilhada. De promessas silenciosas.

"Nick..." Charlie murmurou, ainda colado ao peito do namorado. "Eu nunca mais quero me sentir daquele jeito de novo."

"Char..." Nick respirou fundo, buscando as palavras certas. "Você precisa de ajuda profissional. Eu... eu não sei se posso te ajudar adequadamente."

Charlie assentiu devagar, os olhos baixos.

"Eu tenho pensado nisso." Ele confessou. "Mas temos o Torneio da Primavera."

"Não pensa nisso agora."

"O vôlei é a única coisa que não me faz pensar em tudo isso." Charlie disse. "Depois da Batalha do Lixão, eu vou procurar ajuda. Mas até lá... deixa isso entre nós, por favor."

Nick hesitou. Mas então assentiu.

"Char, isso é muito sério."

"Por favor."

Nick abaixou a cabeça e balançou afirmativamente, mesmo que seu coração gritasse por mais.

"Só até o jogo contra o Nekoma."

Charlie sorriu pequeno. Um riso tímido. Cansado, mas grato.

"Me desculpa por tudo isso."

Nick ergueu as sobrancelhas.

"Achei que a gente tinha banido essa palavra."

Charlie riu de leve, mais verdadeiro.

“Me promete me contar se as coisas chegarem nesse ponto de novo?” Nick diz

“Eu só não quero te incomodar com isso” Charlie pausa “não quero que pense que sou uma bagunça frágil e traumatizada e que tem me concertar. Eu odiaria isso.”

“Você não é. E eu não faria isso. Mas eu fiz muitas coisas assustadoras nesses últimos tempos porque você tava la segurando a minha mão e eu quero ta la para você tambem. Porque você é meu namorado e eu... ”

"Eu te amo, Char."

O coração de Charlie disparou. Ele piscou algumas vezes, como se aquilo fosse tão grande que não coubesse direito dentro dele. Então sorriu. Um sorriso trêmulo, mas cheio de verdade.

"Eu também te amo."

E no silêncio que seguiu, havia algo que finalmente se encaixava. Não era a solução de todos os problemas. Mas era o início da cura. Juntos.

Notas finais
Se você chegou até aqui, de verdade… obrigada. Esse capítulo não foi fácil de escrever. Foi íntimo, pesado, delicado. Mas também foi necessário. Porque o silêncio machuca, e eu acredito no poder das histórias pra romper esse silêncio. A jornada do Charlie nesse capítulo é sobre dor, sim — mas também é sobre coragem. Sobre confiar. Sobre encontrar apoio mesmo quando tudo dentro da gente grita o contrário. Se você se viu um pouco nele, quero que saiba que não está sozinho(a). E que existe saída, existe ajuda, e existe amor, mesmo nos dias em que parece que não. Obrigada por confiar em mim pra contar essa parte da história. Com carinho e respeito, Bia 🧡