Match Point
26 ARCO 3 CONCRETO! – Capítulo 23 – Concreto
Notas iniciais
CHARLIE
O silêncio na quadra era quase absoluto, apenas o som dos passos ecoando no piso polido, o farfalhar distante da rede balançando levemente com a brisa que entrava pela porta entreaberta. Charlie parou, seus olhos fixos na malha branca que dividia o espaço, e sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A quadra do Karasuno sempre fora um lugar de crescimento, de progresso, onde ele descobriu que podia mais, que podia saltar mais alto, desafiar os limites do próprio corpo. Mas agora, olhando para a rede, ela parecia algo distante, inalcançável.
E então tudo voltou. O último set contra o Seijoh. O instante em que ele saltou, os olhos fechados, confiando plenamente no levantamento de Nick. A certeza absoluta de que a bola encontraria sua mão, que ele sentiria o impacto vibrar em seu braço e veria o placar virar a favor do Karasuno. A sensação de que aquele seria o ponto decisivo. O momento da vitória. Mas o que veio em seguida foi o som seco da bola sendo bloqueada, o choque do impacto, e então, a queda. O Seijoh não apenas os derrotou, eles os arrancaram do céu e os jogaram ao chão, no concreto e Charlie ainda sentia a dor desse tombo.
Seu estômago revirou, o ar ficou mais pesado. Ele desviou o olhar da rede e encarou a bandeira preta do Karasuno.
VOE!
As letras estampadas pareciam zombar dele. Antes, aquela palavra lhe dava forças. Ele lembrou da sensação de voar contra o Muro de Ferro do Date Tech, de desafiar a gravidade e superar os bloqueios intransponíveis. Ele lembrou de quando saltou mais alto do que jamais imaginou ser capaz, quando finalmente viu tudo do topo, ao lado de Nick, mas Oikawa e o Seijoh os puxaram de volta. A queda foi brutal.
Agora, olhando para a rede, ela parecia diferente. Nunca havia sido tão alta. Nunca havia parecido tão impossível.
"Diante dos meus olhos, algo bloqueia meu caminho. Um muro alto, muito, muito alto." A voz dentro dele ecoava como se estivesse sendo narrada de algum lugar distante. "Que tipo de cena está do outro lado? O que eu poderei ver lá? A visão do topo. Um cenário que nunca poderei ver por conta própria..."
Seu coração apertou. E se nunca fosse bom o suficiente? E se aquela vitória contra o Dateko tivesse sido um acaso? Se ele estivesse condenado a ficar ali, no chão, enquanto os verdadeiros campeões subiam cada vez mais alto? Seus dedos tremeram ao tocar a rede, os olhos azuis acinzentados presos naquele obstáculo. Mas, de repente, um calor percorreu sua pele. Nick segurou suas mãos.
Charlie ergueu o olhar e encontrou os olhos verdes de Nick o encarando com uma confiança inabalável. Não havia dúvida ali. Não havia hesitação. Nick nunca deixava espaço para incertezas quando se tratava de Charlie. Era como se, para ele, a vitória fosse uma questão de tempo, não de possibilidade.
"Mas se eu não estiver sozinho, então... talvez eu consiga vê-la de novo. A visão do topo.” Charlie respirou fundo e apertou as mãos de Nick de volta. Ele não estava sozinho.
Os jogadores do Karasuno foram chegando ao ginásio um a um, os passos ecoando no piso de madeira como uma lembrança incômoda da última batalha perdida. O ar parecia pesado, carregado com o amargor da derrota contra o Seijoh. Mesmo tentando seguir em frente, era impossível ignorar a sombra que pairava sobre eles — como uma marca silenciosa em cada gesto hesitante, em cada olhar trocado.
Mas havia algo diferente naquele dia.
No centro da quadra, com os braços cruzados e a postura firme como uma muralha, a treinadora Singh os esperava. Seus olhos varriam o time com uma intensidade que não deixava espaço para dúvidas: eles não estavam ali para reviver o passado, mas para transformá-lo. Assim que todos se agruparam, ainda ajustando as joelheiras e amarrando os tênis, Singh deu um passo à frente. Sua voz cortou o silêncio com firmeza e promessa.
"Hoje será diferente."
As palavras flutuaram no ar, pesadas, sólidas, como pedras jogadas na água parada.
"Hoje, vamos dividir o Karasuno em dois times," continuou ela, o olhar aceso. "Um treino para nos lembrar de algo que muitos esqueceram: nós somos mais do que um time cansado de perder. Somos corvos. E corvos não desistem. Eles aprendem. Eles se adaptam. Eles voam."
Alguns rostos se iluminaram discretamente. Tao ajeitou a meia com renovada energia. Asahi fechou os punhos devagar, como quem reencontrava sua força. Nick e Charlie trocaram um breve olhar — silencioso, firme, cheio de uma esperança tímida que ainda queimava no fundo.
Era o começo de algo novo. Ainda machucados, ainda cambaleantes, mas prontos para lutar.
Mesmo sobre o concreto. Mesmo com asas partidas.
Nick e Charlie se entreolharam, e sem precisar dizer nada, ambos sentiram o peso das palavras. Charlie pensou nas últimas noites mal dormidas, nas náuseas, nas lembranças do bloqueio triplo do Seijoh e da sensação de estar preso sob aquela rede que parecia inalcançável.
Singh apontou com o apito. “Time branco: Nick, Charlie, Tsukishima, Harry e Tao.”
Os nomes foram sendo chamados com a clareza de quem sabia exatamente o que queria construir.
“Time vermelho: Daichi, Suga, Asahi e Cristian.”
Nick respirou fundo ao perceber a distribuição. Sua mente já calculava combinações e estratégias, mas havia também uma tensão ali – enfrentar Suga, Daichi, Asahi e Cristian em quadra seria tudo, menos simples. Cada time pegou seus coletes com suas respectivas cores.
“Será um jogo de cinco sets,” continuou Singh. “Sem misericórdia. Quero que cada um de vocês use tudo que tem aprendido até agora. Sem segurar nada.”
Charlie olhou ao redor. Tao parecia nervoso ao lado de Harry, que sorria com aquele ar típico de provocação. Tsukishima ajeitava os óculos com um suspiro entediado, mas o brilho nos olhos mostrava que ele estava mais atento do que deixava transparecer.
Do outro lado, Daichi ajustava a braçadeira de capitão, Asahi estalava os ombros e Cristian já analisava silenciosamente cada rosto do time branco. E Suga... apenas sorria de canto, com aquele olhar sereno de quem sabia exatamente quando virar o jogo.
A treinadora apitou. “Vamos ver quem realmente quer voar.”
A bola foi lançada no alto e, pela primeira vez desde a semifinal, todos sentiram algo diferente: sede. Sede de superação.
O jogo fervia dentro do ginásio. A bola cortava o ar em movimentos rápidos, cada saque e recepção ecoando como um tambor no chão de madeira polida. O Karasuno parecia, pouco a pouco, reencontrar seu ritmo. Cada ponto arrancado era uma vitória contra o peso daquela semifinal com o Seijoh, e mesmo o ar carregado começava a dissipar, dando lugar a sorrisos, gritos e uma energia vibrante.
Mas não para Charlie.
Ele sentia como se fosse o único nadando contra a corrente. Cada salto fazia seu coração bater mais rápido do que o necessário, cada movimento parecia calculado demais. Oikawa e o Seijoh ainda estavam ali, como um fantasma que não o deixava descansar.
Nick, no centro da rede, levantou a bola para um rápido. Era a jogada que sempre funcionava entre os dois. Charlie pulou, mas dessa vez, manteve os olhos abertos. Ele olhou diretamente para a bola. Um milésimo de hesitação – apenas um milésimo – e o tempo se quebrou. A bola passou direto por suas mãos e caiu pela lateral.
“Droga!” Charlie pensa
Nick não escondeu a preocupação quando caminhou até ele. “Relaxa. Na próxima você pega,” disse colocando a mão em seu ombro, mas seu tom carregava algo mais denso. A voz era suave, mas o olhar estava nítido: Nick sabia que aquilo não era só um erro comum.
O jogo continuou. Mais tarde, outra chance. Nick fez um novo levantamento rápido para Charlie, a jogada perfeita. Mas novamente, olhos abertos, tempo desajustado. A bola tocou apenas a ponta dos dedos de Charlie antes de cair no vazio da quadra. Ele sentiu o peito apertar.
Charlie fechou os punhos, as unhas cravando na palma da mão. Estava frustrado. Irritado consigo mesmo.
Nick se aproximou devagar. “Tá tudo bem, Char?” perguntou, a preocupação agora evidente.
Charlie sacudiu a cabeça com força, como se quisesse arrancar a frustração do próprio corpo. O peito subia e descia rápido demais. Seus olhos, fixos na rede, brilhavam com algo denso — algo que parecia raiva e medo misturados.
"Eu não vou mais fechar os olhos," disse ele, a voz rouca e cortante, como uma lâmina cega tentando atravessar o concreto. Não era só uma promessa. Era uma ordem desesperada dirigida a si mesmo.
Nick piscou, pego de surpresa. Havia algo diferente ali. Algo que doía.
"Mas..." ele tentou argumentar, medindo as palavras, "não podemos mudar isso de uma hora pra outra no meio do jogo."
"Vai ser assim agora," insistiu Charlie, sem desviar o olhar. A obstinação endurecia seu rosto jovem, como se cada palavra fosse um prego sendo fincado na própria pele.
Nick franziu o cenho, sentindo um nó desconfortável no peito. "Char... calma. Tá acontecendo alguma coisa?"
Por um segundo, Charlie hesitou, os olhos vacilando. Mas então ergueu o queixo, como quem se recusa a ser visto quebrando.
"Eu não posso mais errar em momentos decisivos," ele disse, e cada sílaba parecia pesar o dobro. "Eu preciso ver a jogada, decidir onde cortar. Não posso mais depender só do seu levantamento pra sempre."
Nick sentiu como se algo dentro dele tivesse se quebrado em silêncio.
"Char..." começou ele, a voz quase implorando, "eu sempre tento fazer o melhor levantamento possível pra você..."
"Eu sei!" Charlie respondeu de imediato, alto demais, abrupto demais, a voz falhando levemente no final. Era como se ele também estivesse tentando se proteger. "Mas eu tô ficando mal acostumado." Ele respirou fundo, tentando conter a maré dentro do peito. "Todo mundo tá evoluindo. Tao, Cristian, Asahi... até o Tsukishima. E eu... eu continuo o mesmo de sempre."
Nick recuou um passo, como se as palavras o tivessem empurrado para trás. O peso da culpa e da impotência murchava em seus ombros.
"Eu não acho isso, Char..." murmurou ele, mas até ele sabia que a frase parecia frágil demais diante daquela confissão crua.
Charlie mordeu o lábio até quase machucá-lo, desviando o olhar. Os olhos ardiam, mas ele se recusava a piscar. Se recusava a parecer mais fraco do que já se sentia.
"Mas é assim que eu me sinto, Nick."
O som abafado das bolas quicando no chão preenchia o ginásio como um ruído distante, como se viesse de outro mundo. Para Charlie, tudo ao redor parecia embaçado, como se ele e Nick estivessem isolados numa bolha silenciosa, onde o ar era pesado demais para respirar direito.
Ele sentia o estômago queimar. Uma dor seca, corrosiva, como se algo por dentro implorasse por descanso e alimento — e ele ignorasse. O corpo inteiro protestava de forma silenciosa, mas a mente de Charlie estava ocupada demais para ouvir.
Nick estava à sua frente, apertando as mãos em punhos, os ombros tensos, o olhar cheio daquela preocupação silenciosa que Charlie já conhecia tão bem. Nick queria dizer algo. Queria aliviar o peso que via estampado no rosto dele. Mas Charlie sabia que não adiantaria.
Algumas dores não se curam com promessas. Charlie desviou os olhos, porque encarar Nick era como pressionar um machucado aberto.
“Por que Nick parecia tão resistente a mudanças? Por que parecia querer que tudo continuasse igual? O mesmo ataque rápido, os mesmos levantamentos fáceis, como se eu fosse frágil demais para tentar algo novo?
Seu peito doía mais do que os músculos cansados. A dúvida ecoava:
"Será que ele não acredita que eu posso crescer?"
A sensação era sufocante. Como se, mesmo sem querer, Nick estivesse segurando suas asas. Como se, na tentativa de protegê-lo, estivesse, na verdade, o prendendo.
Charlie cerrou os punhos, sentindo a pele úmida e fria. Seu corpo tremia levemente, mas não era apenas de cansaço.
Era da luta interna. Era da necessidade de provar — para Nick, para si mesmo — que ele podia mais. Ele respirou fundo, encarando o chão de madeira abaixo de seus pés. E, naquele momento, a sensação foi clara, dolorosa, inegável.
Era como estar em uma gaiola.
Uma gaiola feita de boas intenções, de amor, de medo. Mas ainda assim... uma gaiola.
E Charlie, mesmo amando Nick não queria mais viver dentro dela.
NICK
Nick percebeu desde o primeiro toque na bola. Havia algo diferente no jeito de Charlie se mover pela quadra. À primeira vista, parecia apenas mais energia, mais garra — seus saltos eram altos, suas aproximações rápidas, seus cortes vinham com um brilho feroz. Mas Nick conhecia Charlie bem demais para se deixar enganar pela superfície.
Era o modo como ele pousava depois de cada salto, como seus ombros ficavam tensos demais após cada ataque. Era a maneira como demorava meio segundo a mais para se reposicionar, como se estivesse forçando o corpo a obedecer a uma mente inquieta. E principalmente... era o olhar. Um olhar que Nick não via desde os dias em que ele mesmo se afundava tentando ser perfeito.
Charlie não jogava como parte do time.
Jogava como alguém tentando provar alguma coisa — para si mesmo, para os outros, talvez para ele, Nick.
Nick, parado atrás da linha de defesa, observava tudo com atenção crescente. Cada tentativa de rápido que não encaixava direito. Cada aproximação feita no limite. Cada erro disfarçado por um sorriso tenso. O Karasuno parecia inteiro em quadra, mas Charlie... Charlie estava jogando um jogo particular. Um duelo silencioso contra seus próprios limites.
E Nick sabia exatamente o que estava vendo.
Já tinha estado ali, naquele lugar solitário, apertado, sufocante. Oikawa também já tinha passado por isso — o mesmo desejo cego de ser melhor, de não ficar para trás, de carregar nas costas um peso que ninguém mais via. A diferença é que agora Nick estava do outro lado, vendo acontecer.
E doía.
Doía porque ele reconhecia a rigidez, o cansaço mal disfarçado, o olhar que buscava algo além da quadra. Charlie não queria só acertar a bola. Queria voar mais alto. Queria ser mais. Mas Nick também sabia o que vinha depois. Sabia que aquela ânsia de se provar podia quebrar alguém. Que o salto mais alto podia vir acompanhado da queda mais dura.
Seu peito apertou. As mãos suavam dentro das proteções. Ele queria chamar Charlie de lado, queria pedir para ele respirar, queria lembrá-lo de que ninguém ali o cobrava mais do que ele mesmo. Que ele já era suficiente. Mas Charlie parecia longe demais naquele momento. Distante, como um corvo olhando para o topo de um céu que ninguém mais conseguia alcançar. E Nick, com o coração pesado, sabia que só podia observar. Sabia que, às vezes, a gente só aprende a força das asas... quando elas quase se quebram.
No fim do treino, quando a quadra já começava a se esvaziar e o barulho das bolas quicando diminuía, Nick não perdeu tempo. Chamou Charlie com um olhar firme, sem dar espaço para recusas. Guiou-o até um dos cantos mais silenciosos do ginásio, onde a luz dourada do fim de tarde entrava pelas janelas, criando manchas quentes no chão de madeira riscada. Charlie veio sem resistir, o rosto cansado e os ombros pesados. Ainda segurava a toalha contra a nuca, tentando disfarçar o quanto estava esgotado.
"Quer me dizer o que tá acontecendo de verdade?" Nick perguntou, a voz baixa, mas firme. Não era uma cobrança — era um pedido.
Charlie soltou um suspiro longo, como se estivesse carregando o mundo no peito. Passou a mão pelos cabelos desgrenhados e olhou para o chão por alguns segundos antes de encarar Nick nos olhos.
"Nick... eu amo o vôlei," disse, a voz falhando levemente. "Amo cada parte disso. A sensação de acertar um corte, o barulho da quadra, o peso da bola nas mãos. Amo o que esse esporte fez por mim... quem ele me deixou ser."
Ele fez uma pausa, os olhos brilhando com algo entre frustração e tristeza.
"Mas ultimamente... eu sinto que tô ficando pra trás," confessou, a voz um pouco rouca. "Que todo mundo tá subindo... e eu tô preso no mesmo lugar."
Nick franziu levemente a testa, o peito apertando com cada palavra.
"Quando a gente derrubou o Muro de Ferro, eu pensei que tava tudo mudando. Que eu tava crescendo. Mas foi tão difícil, Nick... e no jogo contra o Seijoh..." Charlie mordeu o lábio, tentando conter a onda de emoção. "Eu dei tudo de mim. Eu confiei de olhos fechados no seu levantamento. Sem pensar, sem hesitar."
Nick segurou seu olhar, sentindo a intensidade daquilo tudo atravessá-lo.
"Foi mágico," Charlie continuou, um sorriso breve passando pelo rosto — um sorriso bonito, mas que logo desapareceu como uma sombra varrida pelo vento. "Nós estamos super entrosados, eu sinto isso. Mas... eu também percebi que eu me acostumei a depender de você."
Charlie abaixou o olhar, como se carregasse culpa por isso.
"Eu confio em você, Nick. Confio de verdade," disse, voltando a olhar nos olhos dele. "Mas eu preciso crescer. Preciso tomar decisões em quadra. Preciso ver o que tá acontecendo, sentir a jogada... decidir por mim mesmo."
As palavras vinham como um desabafo. Como uma necessidade.
"Eu quero ir mais alto," Charlie sussurrou, com uma convicção crua, sincera. "E não é porque você não seja incrível. Você é. É porquê... se eu continuar dependendo de você pra tudo, eu nunca vou ser quem eu quero ser de verdade."
Nick sentiu a garganta apertar, o peso das palavras de Charlie batendo forte demais para simplesmente ignorar. Não era rejeição. Não era raiva. Era algo pior. Era um pedido silencioso para ser livre. Para crescer. Para mudar.
E Nick, por mais que admirasse a coragem de Charlie, não conseguia deixar de sentir um medo amargo crescer dentro do peito.
"Char..." começou, a voz rouca, pesada. "O ataque rápido e o cruzado aberto são nossas armas mais fortes. Elas são parte do que somos em quadra. Mudar isso agora, a poucas semanas do Torneio de Primavera, é..." ele procurou uma palavra que não soasse como um golpe, "...é arriscado."
"Arriscado?” Charlie ergueu as sobrancelhas, os olhos brilhando de indignação. “Arriscado é eu tentar ser melhor?"
"Não foi isso que eu quis dizer," Nick retrucou imediatamente, sentindo a tensão crescer entre eles como um fio esticado demais.
"Mas foi o que pareceu," disse Charlie, a voz agora baixa, quase tremendo de ressentimento. "Parece que você não quer que eu evolua. Que quer me manter do jeito que é confortável pra você."
Nick fechou os olhos por um instante, tentando acalmar a pressão no peito. Quando abriu, deu um passo à frente e segurou a mão de Charlie, como se quisesse ancorá-lo ali.
"Char, eu sou o que mais quer te ver crescer," disse com sinceridade crua. "Mas não é só sobre você agora. A gente é um time. E o Karasuno tá contando com a nossa conexão. Você... é o coração do nosso ataque."
Charlie puxou a mão para longe devagar, como se o simples toque doesse. "Eu sei disso, Nick. Mas eu não quero ser só uma peça de ataque perfeita. Eu quero ser mais. Eu preciso ser mais."
Nick engoliu em seco, o medo e a frustração batendo juntos no fundo da garganta. "Só... pensa no que estamos arriscando. Perder pro Seijoh já foi ruim o suficiente. Agora... é o nosso último torneio nesse ano. Você quer jogar tudo fora assim?"
Charlie desviou o olhar, o maxilar trincado, os ombros rígidos. Ele respirou fundo e então disse, numa voz decidida, quase cruel de tão fria:
"Eu já me decidi, Nick. Se você não quiser me ajudar... eu vou fazer isso sozinho."
Nick ficou parado, vendo a sombra de Charlie se afastar lentamente. Sentiu o calor da mão dele desaparecer da sua, deixando só o vazio.
"Char, por favor..." tentou, sem força. “Pensa no que eu te falei...”
Charlie parou na porta do vestiário, sem se virar completamente, apenas olhando por cima do ombro, os olhos azuis acinzentados frios como o inverno.
"Talvez você devesse pensar no que eu falei."
E então ele se foi, a porta rangendo suavemente ao fechar, deixando Nick sozinho na quadra vazia — e com um peso esmagador no peito que ele não sabia se conseguiria tirar a tempo.
O silêncio o envolveu enquanto ele olhava para a rede à sua frente. Nick sabia como aquela derrota afetou Charlie. Sabia como a culpa estava corroendo-o por dentro. Mas também sabia que, se Charlie continuasse naquele ritmo, tentando resolver tudo sozinho, não era só ele que poderia quebrar. Era o Karasuno inteiro.
Na saída do ginásio, ainda sob a luz pálida do entardecer, Daichi reuniu o time e anunciou com um sorriso que não deixava espaço para discussão:
"Treino de resistência. Agora."
Os olhares dos jogadores se voltaram para o conhecido inimigo à frente: a ladeira do Karasuno. Uma estrada estreita e cruel, ladeada por árvores antigas, cujos galhos tortos se entrelaçavam no alto, formando túneis de sombras escuras sobre o asfalto rachado. A subida era íngreme, mais do que parecia à primeira vista, e, à medida que avançava, a inclinação parecia dobrar como se a própria montanha desafiasse quem ousasse enfrentá-la.
Era um lugar lendário para o Karasuno. Gerações e gerações de corvos já haviam se arrastado, corrido e desmoronado naquela subida, fortalecendo seus corpos e suas vontades sob o peso da tradição. A ladeira era o batismo de fogo — onde as fraquezas eram expostas e onde a verdadeira força começava a nascer.
Ali, passos se tornavam luta. E a simples tarefa de seguir em frente era, para o Karasuno, um ritual de crescimento.
Daichi dividiu o time em duplas, e logo as corridas começaram.
Cristian e Asahi partiram primeiro, seus passos sincronizados como a batida de tambores de guerra, os dois cortando o início da subida com força impressionante. Suga e Harry vieram em seguida — Suga, paciente e constante, praticamente arrastando Harry, que tropeçava a cada poucos metros, bufando como se estivesse carregando o mundo nas costas.
Tao e Tsukishima largaram logo depois. Tsukishima, com sua típica expressão de tédio existencial, parecia correr apenas porque seria mais cansativo discutir. Tao, por outro lado, apertava o passo com seriedade, como se a cada metro vencesse uma batalha pessoal contra seus próprios limites.
Então chegou a vez deles.
Nick e Charlie.
Daichi se posicionou ao lado da treinadora Singh na base da ladeira, apitou o sinal, e os dois partiram.
Assim que Daichi deu o sinal, Charlie disparou. Nem esperou Nick. Apenas explodiu à frente, como uma flecha lançada sem aviso. Ele sempre fora rápido, ágil como o vento nas pernas finas, mas havia algo diferente naquela corrida. Não era apenas velocidade — era raiva. Era urgência. Nick o viu abrir distância com facilidade, o corpo mergulhado num esforço quase desesperado. Nick partiu logo atrás, sem correr a toda força de imediato. Observava. Sentia a tensão no ar como eletricidade entre eles. Algo não estava certo.
Quando a ladeira começou a se inclinar de verdade, a gravidade se tornou quase uma entidade física, agarrando seus tornozelos, pesando nas costas. Era ali que normalmente Charlie se destacaria, deslizando para cima com aquela leveza quase natural. Mas agora...
Nick viu.
Charlie arfava cedo demais. Seu peito subia e descia como se o ar fosse um inimigo difícil de capturar. O suor escorria em rios pelo rosto, empapando a camiseta no peito e nas costas. Cada passo parecia exigir dele o triplo da força. O rosto, normalmente concentrado, agora estava contraído em dor, os olhos semicerrados.
Nick apertou o passo e emparelhou com ele.
"Tá tudo bem?" tentou perguntar com naturalidade, sem soar preocupado demais.
Charlie apenas balançou a cabeça, teimoso, sem sequer abrir a boca para responder. Seus dentes cerrados, as mãos em punhos. Como se seu orgulho fosse a única coisa mantendo-o de pé. E então, como se irritado com a própria fragilidade, ele forçou o ritmo e disparou à frente de novo.
Nick sentiu o coração apertar. Mas também sentiu algo mais. Uma raiva silenciosa. Não de Charlie. Mas da distância que parecia se abrir entre eles — não só física, mas também emocional. Como se Charlie estivesse tentando provar, a qualquer custo, que podia seguir sozinho.
Nick aumentou o ritmo. Não ia deixá-lo naquela corrida sozinho.
A ladeira se estendia como uma parede à frente, e o mundo ao redor se apagou. As vozes dos companheiros atrás deles — Tao, Suga, Cristian — gritavam para que parassem, que já tinham chegado no ponto combinado. Mas a corrida já tinha deixado de ser sobre isso. Não era mais um treino. Era pessoal.
Era orgulho. Era teimosia. Era dor.
O asfalto irregular parecia escorregar sob seus pés. O ar rarefeito queimava a garganta. O suor cegava. E ainda assim eles subiam, subiam como se fugir da dor fosse possível apenas rompendo os próprios limites.
O topo da ladeira finalmente se revelou — e junto com ele, o contraste brutal.
O bairro acima da subida era um outro mundo. As ruas eram largas e planas, o chão liso como vidro. Árvores podadas perfeitamente alinhadas formavam corredores verdes entre casas modernas, com muros impecáveis e fachadas limpas, de vidros altos e jardins meticulosamente desenhados. Era um bairro de elite, elegante e calmo — o oposto da luta silenciosa e feia que eles travavam na alma.
Charlie se apoiou nos joelhos, respirando como se tivesse corrido uma maratona. Seu rosto estava pálido, o suor escorria em filetes grossos pelas têmporas. Por um momento, Nick achou que ele fosse vomitar.
"Você tá bem?" Nick perguntou, a voz baixa, cuidadosa, respeitando o espaço de Charlie, mas com o coração martelando no peito.
"Sim... só me dá um minuto," Charlie respondeu entre arfadas, tentando soar firme, mas sua respiração entrecortada e o tremor leve nas mãos traíam sua real condição.
Nick olhou ao redor, forçando-se a não encarar Charlie por muito tempo. O bairro onde estavam parecia de outro mundo. As ruas largas, o asfalto perfeito, as casas grandes e modernas, os portões altos. Tudo era limpo, ordenado, bonito demais. Um contraste brutal com as ladeiras irregulares e o ginásio gasto do Karasuno. E então percebeu. Um detalhe familiar.
"Acho que estamos no bairro do Shiratorizawa," Nick comentou, tentando dar um tom despreocupado, quase brincalhão, mesmo com a preocupação roendo seu estômago.
Charlie ergueu os olhos, surpreso, ainda ofegante. "O do Ushijima?"
Nick abriu um sorriso travesso, meio torto, tentando aliviar a tensão que ainda pairava entre eles. "Quer dar uma espiada no treino deles?"
Charlie riu — fraco, mas sincero — e, naquele riso, Nick sentiu um fio de esperança. Como se, apesar de todo o peso que Charlie carregava, ainda houvesse dentro dele aquela centelha que o fazia querer seguir em frente.
"Claro," respondeu Charlie, endireitando o corpo com esforço e dando um passo adiante.
Nick acompanhou, o ritmo lento, mas constante. Lado a lado, começaram a caminhar pelas ruas calmas do bairro rival, os tênis ainda pesados da corrida brutal, o suor escorrendo pelas costas, mas a curiosidade — e o velho espírito competitivo que os unia — empurrando-os para seguir adiante.
CHARLIE
Charlie e Nick continuaram caminhando pelas ruas impecáveis até que, ao dobrar uma esquina ladeada por árvores perfeitamente podadas, a visão surgiu diante deles como uma muralha intransponível.
O Colégio Shiratorizawa.
Era ainda maior do que Charlie imaginava. O prédio principal parecia um castelo moderno, com paredes de concreto claro e janelas largas que refletiam o céu cinzento. Em frente à entrada principal, uma enorme escultura de uma águia branca com as asas abertas dominava o pátio, tão realista que parecia pronta para alçar voo. Bandeiras roxas, bordadas com o símbolo do colégio, tremulavam vigorosamente no vento, exibindo orgulho e tradição.
Charlie parou sem perceber, o olhar preso àquela cena.
“Que diferença do Karasuno...”
Enquanto o ginásio deles era velho, com marcas de bolas nas paredes e piso de madeira arranhado, ali, o Shiratorizawa parecia outro universo. Ao lado do prédio principal, havia uma pista de atletismo impecável, com raias recém-pintadas, e mais além, um pequeno estábulo onde alguns cavalos pastavam calmamente. Até o cheiro era diferente — grama cortada, produtos de limpeza fortes, uma sensação de luxo e disciplina no ar.
Estacionado ao lado do ginásio estava um ônibus particular, enorme e reluzente, com o emblema da águia branca estampado nas laterais. Charlie quase podia ouvir o barulho abafado do motor em repouso, como se a qualquer momento fosse levar os jogadores para outra vitória. Nick cutucou seu ombro discretamente e indicou um caminho estreito entre algumas árvores. Silenciosos como sombras, os dois se esgueiraram até se aproximarem do ginásio.
E então viram.
O ginásio do Shiratorizawa era colossal, muito maior do que o do Karasuno. Sua fachada brilhava sob o sol fraco da tarde. E o mais impressionante: não havia apenas uma quadra lá dentro. Havia quatro. Quatro quadras inteiras — todas à disposição do time de vôlei. Eles encontraram uma janela aberta, suficiente para que pudessem espiar sem serem vistos. Charlie se inclinou ligeiramente, com o coração batendo forte.
Dentro do ginásio, o treino era uma dança brutal de força e precisão. Jogadores dividiam as quadras com atletas mais velhos — alguns, provavelmente, do time adulto de preparação da escola. Os cortes eram pesados, quase brutais. A rede parecia vibrar a cada ataque, a cada bloqueio. Nenhuma bola era desperdiçada. A defesa era afiada, quase mecânica, e os berros de incentivo ecoavam como comandos militares.
Charlie sentiu um arrepio. Era outra realidade. Aqui, não havia espaço para fraqueza. Era como se a Shiratorizawa fosse feita para esmagar qualquer um que ousasse desafiar sua supremacia.
Ele trocou um olhar rápido com Nick.
Nick não dizia nada. Mas seus olhos verdes também estavam sérios, atentos. Charlie se afastou um pouco da janela, o coração ainda acelerado. Dentro dele, algo se misturava — medo e excitação. Se eles quisessem voar até o topo... precisariam passar por ali. Precisariam enfrentar aquele exército.
Precisariam vencer as águias.
“Caramba...” Nick sussurrou, abaixado. “Eles estão treinando com universitários.”
“Universitários?” Charlie piscou incrédulo. “Nenhum time da região faz isso.”
“Eles não tem adversários à altura,” Nick murmurou.
“Deixa eu ver também!” Charlie se espremeu ao lado de Nick, quase tropeçando.
Ambos sorriram, cúmplices, rindo em voz baixa enquanto compartilhavam aquela aventura. Mas o clima leve foi interrompido por uma voz firme e grave que soou atrás deles.
“O que estão fazendo aqui?”
Os dois congelaram.
Ushijima estava ali, observando-os de cima. Alto, de ombros largos, cabelos escuros penteados para o lado e olhar impassível. Seu uniforme branco com mangas roxas destacava ainda mais sua figura imponente. Nick sentiu a espinha gelar — a presença de Ushijima era esmagadora.
“Estão nos espionando?” ele perguntou, a voz grave ecoando.
“Somos do Karasuno,” Nick respondeu, firme. “Podemos observar seu time?”
“Karasuno...” Ushijima analisou os dois. “...o time com aquele ataque rápido bizarro?”
Charlie sorriu com orgulho. “Sim! Somos nós dois!” disse animado, até levar uma cotovelada discreta de Nick, que o alertou para se conter.
Ushijima ergueu as sobrancelhas, levemente desinteressado.
“Façam como quiserem. Não importa o quanto nos observem, não ficaremos mais fracos por isso.”
Nick respirou fundo e deu um passo à frente.
“Sou Nick Nelson, do Karasuno.”
“Nick Nelson...” Ushijima repetiu, pensativo. “O Rei da Quadra?”
O rosto de Nick corou, mas manteve o olhar firme.
“Eu já joguei aqui, mas...” Nick faz uma pausa “eu fui expulso do Shiratorizawa Juvenil...” admitiu Nick.
“Eu me lembro de uma de suas partidas no fundamental...” disse Ushijima sem hesitação, os olhos fixos em Nick. “Não precisamos de um levantador que não saiba servir um Ace aqui.”
O semblante de Nick se fechou, a mandíbula tensa.
Charlie interveio.
“O mesmo deve valer para o Oikawa, já que ele é o melhor levantador da região...”
Ushijima respirou fundo, cruzando os braços.
“Oikawa é um excelente levantador. Ele deveria ter aceitado o convite para jogar no nosso time.”
Nick ficou boquiaberto.
“O quê? Quer dizer que o Oikawa conseguiria levantar para você?”
“Não importa onde ele esteja,” continuou Ushijima, inabalável, “Oikawa é um levantador capaz de fazer aflorar o melhor do time.”
Ushijima se aproximou mais.
“Se a capacidade máxima do time for baixa, não há nada a ser feito. Mas se for alta, ele o levará o mais alto possível. Essa é a habilidade dele.”
Ele abriu os braços, apontando para o ginásio repleto de jogadores do Shiratorizawa.
“Mudas boas sempre devem ser plantadas em solo fértil. Solo estéril não fará com que germinem bons frutos.”
“Solo estéril?” Charlie repetiu, com indignação. “Como assim?”
“O Aoba Jōsai...” Ushijima encarou Charlie. “Todos lá são mais fracos que Oikawa. É isso que estou dizendo.”
Charlie sentiu o sangue ferver nas veias, como se todo o seu corpo tivesse sido incendiado por uma indignação súbita. Sua mente disparou para os rostos que conhecia bem: Watari, com suas defesas que pareciam desafiar a gravidade, pegando bolas impossíveis como se fosse natural; Kindaichi, com seus bloqueios firmes, sempre um obstáculo difícil de transpor; Iwaizumi, o Ace incansável do Seijoh, cujos cortes devastavam qualquer linha de defesa. E, acima de tudo, Oikawa — o estrategista, o gênio —, com seus saques quase cruéis e levantamentos que moldavam o jogo ao seu bel-prazer.
“Fracos?”
Charlie apertou os punhos. Aquilo era inadmissível.
Sem nem perceber, Charlie deu um passo à frente, o coração batendo forte como tambores de guerra em seu peito. E então ficou frente a frente com Ushijima Wakatoshi. A cabeça de Charlie mal alcançava os ombros largos do Ace do Shiratorizawa. De perto, Ushijima parecia ainda mais imponente — um monumento vivo de força, disciplina e poder absoluto. Seus olhos eram inabaláveis, sem dúvida ou hesitação. Um predador que não precisava rugir para impor respeito. Mas Charlie não recuou. Ele ergueu o queixo. Olhou diretamente para o gigante à sua frente.
“Se o Seijoh for um solo estéril...” Charlie disse firme. “Nós somos o quê? Concreto por acaso?”
Os olhos de Ushijima brilharam brevemente, admirando a coragem do rapaz.
“Peço desculpas caso tenha ofendido,” respondeu com sua frieza habitual. “Mas palavras de quem perdeu para o Aoba Jōsai e nem chegou à final não significam nada para mim.”
Nesse instante, uma bola escapou do ginásio, quicando desgovernada pelo pátio aberto. O som ecoou como um disparo no silêncio carregado entre eles. Ushijima se moveu primeiro, o corpo imenso deslizando com uma precisão quase mecânica em direção à bola.
Mas Charlie já estava se preparando.
Sem pensar, sem hesitar, ele impulsionou o corpo para frente, sentindo os músculos gritarem em protesto. Seus pés bateram forte no chão e, em um único movimento explosivo, Charlie saltou.
Alto.
Mais alto do que ele jamais imaginou ser possível naquele estado de exaustão. Por um segundo que pareceu eternizar-se, Charlie voou. O vento cortou seu rosto. As árvores ao redor borraram-se em manchas verdes e douradas. A gravidade, que tantas vezes o arrastara para baixo, parecia incapaz de alcançá-lo agora. Sua mão se estendeu, firme, decidida — e ele agarrou a bola com uma única mão, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O impacto do salto fez seu corpo balançar no ar antes de cair com leveza controlada no chão, a bola segura contra o peito. Charlie endireitou a postura, os olhos azuis-acinzentados brilhando com uma chama feroz.
E então, o impossível aconteceu.
Ushijima Wakatoshi, o monólito inabalável do Shiratorizawa, o homem que encarava adversários como quem encara uma pedra no caminho... arregalou os olhos. Um breve instante. Uma quebra imperceptível na fachada de aço do Ace.
Ele não esperava aquilo.
Não esperava que alguém tão pequeno, tão aparentemente frágil, pudesse ultrapassá-lo naquilo que sempre considerou seu domínio absoluto: a força. O impulso. A capacidade de dominar o espaço acima do chão.
Charlie avançou, os passos ecoando no chão como batidas de um tambor de guerra. Cada movimento parecia vibrar com o peso de tudo o que havia passado: as derrotas, as dores, as muralhas, as batalhas invisíveis contra si mesmo. E ainda assim, ele andava. Pé sobre pé, enfrentando a força esmagadora que era Ushijima Wakatoshi, como se a diferença de altura, força e fama não significasse nada.
Charlie parou diante dele.
O ar entre eles parecia vibrar, como antes de uma tempestade. Ushijima o encarava de cima, impassível. Mas seus olhos — aqueles olhos frios e calculistas — agora estavam atentos. Interessados. Reconhecendo algo. Charlie ergueu a bola com as duas mãos. Sentiu seu peso. Seu calor. E então, com um gesto firme e decidido, encostou a bola contra o peito de Ushijima, sem desviar o olhar nem por um segundo.
"EU SOU CHARLIE SPRING E EU BROTEI DO CONCRETO!" sua voz cortou o ar como uma lâmina, firme, inquebrável, carregada de algo mais forte do que pura vontade: fé. As palavras ressoaram no pátio vazio como um trovão. E então, com o coração batendo no ritmo da coragem que tinha aprendido a construir pedra por pedra, ele completou, a voz baixa mas cheia de poder:
"E nós vamos te vencer no Torneio de Primavera."
Por um instante, o mundo pareceu prender a respiração. A tensão era quase tangível, eletrizando o ar entre eles. O vento ergueu levemente as pontas da jaqueta de treino de Ushijima. A bandeira roxa e branca do Shiratorizawa, ao fundo, ondulava como um estandarte de guerra.
Ushijima, imóvel, apenas inclinou a cabeça — um gesto quase imperceptível, mas que carregava o peso de um reconhecimento raro. Sem esperar resposta, Charlie virou as costas e caminhou de volta.
Nick o esperava à distância, de braços cruzados, um sorriso orgulhoso surgindo lentamente nos lábios. Seus olhos brilhavam, cheios de algo que palavras não podiam nomear: admiração, fé, amor.
Charlie não precisava dizer mais nada. Ali, sob o céu frio daquele fim de tarde, entre a sombra da águia e as raízes do concreto, Charlie Spring estava crescendo e o Karasuno, aqueles corvos teimosos e persistentes, estavam prontos para desafiar o impossível.
Porque o concreto não era mais um obstáculo.
Era o solo de onde eles nasciam para voar.
Enquanto caminhavam de volta, Charlie lançou um último olhar para o portão monumental do Shiratorizawa. No alto, esculpido em pedra e orgulho, brilhava o brasão da escola: uma águia branca de asas abertas, soberana, como se dominasse o próprio céu.
"Uma águia e um corvo..." murmurou, a voz carregada de significado. "Duas aves destinadas a lutar pelo mesmo pedaço de céu."
Nick, ao seu lado, sorriu — um sorriso calmo, quase desafiador.
"Então vamos descobrir," respondeu ele, sem hesitar, "qual delas vai voar mais alto no Torneio de Primavera."
E assim, sob o olhar frio da águia esculpida em pedra, dois corvos seguiram firmes, suas asas invisíveis batendo contra o vento. Eles não tinham o tamanho da águia. Nem a força.
Mas tinham algo que ela não tinha.
A coragem de brotar do concreto... e desafiar o próprio céu.
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