Match Point

29 ARCO 3 CONCRETO! - Capítulo 26 - Tempo


Notas iniciais
Oi, oi! Se você chegou até aqui, respira fundo — porque esse capítulo mexe. Tempo é sobre fraturas, reconexões e aquela sensação de estar por um fio… mas ainda assim, seguir. Nick e Charlie vão se confrontar, se machucar, mas também descobrir o que significa voar juntos — de verdade. Espero que você sinta cada linha como um pulso, cada silêncio como um grito e, principalmente, que você torça por eles com o coração inteiro. Boa leitura 💛

CHARLIE

O treino seguia puxado, cada repetição mais intensa que a anterior. Os comandos da treinadora cortavam o ar, e o som seco das bolas ecoava no ginásio como batidas de um tambor vivo. Era como se o Karasuno tivesse um único coração e ele batesse ali, na quadra, no ritmo dos saltos, das manchetes, dos cortes e das defesas. Charlie sentia o próprio peito pulsar em sincronia com aquele som, como se fosse parte da batida que mantinha o time em movimento.

Estava ofegante. Os pulmões ardiam. Os músculos pesavam como se tivessem areia por dentro. Mas ele não parava. Não queria parar.

A dor era bem-vinda. O esforço, necessário. Ele precisava sentir que estava inteiro de novo. Que podia ir até o fim.

Sob a gola úmida do uniforme, colado à pele quente de suor, o pequeno pingente balançava a cada movimento. Era discreto, quase imperceptível para quem olhasse de fora. Mas para Charlie, era tudo. Uma corrente fina, quase leve demais, com um pingente dourado em forma de uma bola de vôlei — o presente de Nick no dia do seu aniversário.

Simples, sim. Mas também... perfeito.

E na parte de trás, gravado com precisão em letras pequenas, a palavra que sempre o fazia engolir seco quando estava sozinho: CHAR.

Era mais do que um apelido. Era um gesto. Um cuidado. Um “eu te vejo” em forma de metal. Algo que dizia: mesmo quando você se perde, alguém ainda sabe quem você é.

Charlie nunca tirava aquele pingente. Dormia com ele. Treinava com ele. Tomava banho com ele, às vezes esquecia, às vezes não se importava. Estava sempre ali. Como se fosse um fio invisível que o mantinha conectado a quem ele amava e por extensão, a quem ele queria continuar sendo.

Durante uma pausa para hidratação, ele se afastou dos outros. Se encostou na parede de concreto do ginásio, onde a sombra era mais fria, e puxou levemente a gola do uniforme. Só o suficiente para tocar o pingente com os dedos. O metal estava quente, como se tivesse absorvido toda a energia de seu corpo. Mas, ao mesmo tempo, havia algo reconfortante ali. Quase sagrado.

Charlie fechou os olhos.

Era como ouvir a voz de Nick sem que ele dissesse nada. Um silêncio cheio de significados. Aquele toque sutil no ombro. O jeito como ele dizia “tá tudo bem” com um olhar. O calor de seus braços quando o mundo parecia desmoronar.

E ali, naquele instante calmo no meio do caos, Charlie sentiu algo firme dentro de si. Uma certeza nova, ainda frágil, mas viva.

Ele abriu os olhos devagar, sentindo o suor arder um pouco na pálpebra. O coração ainda batia rápido, mas de um jeito bom. Forte. Determinado.

Passou o polegar uma última vez sobre o pingente.

“Eu não vou quebrar. Não mais,” sussurrou, apenas para si.

E então voltou para a quadra. De cabeça erguida. De olhar em linha reta. Porque às vezes, tudo o que se precisa é de algo pequeno. Algo dourado, quente, com o seu nome gravado. Algo que diga: você está aqui. E isso basta.

O treino seguia puxado. Intenso demais. A cada repetição, o corpo de Charlie gritava mais alto. Os comandos da treinadora vinham como tiros, curtos, diretos, exigentes e o som seco das bolas quicando na quadra soava como um relógio batendo contra o tempo que ele sentia escorrer entre os dedos. Tudo parecia girar em torno de força, foco, resistência. Mas o que Charlie sentia era um cansaço que vinha de dentro. Um cansaço antigo. Queimando.

Os pulmões já não obedeciam. O suor ardia nos olhos. Os músculos pesavam como ferro fundido. E mesmo assim, ele não parava.

Não podia parar.

Parar seria admitir que ainda estava quebrado. Que ainda era fraco. Que aquele Charlie da última semifinal ainda vivia dentro dele.

Mas a cada erro, a cada bola mal colocada, a raiva crescia. Não dos outros. De si. Do próprio corpo. Da mente que não esquecia. Das pernas que hesitavam. Das mãos que tremiam.

O pingente sob a gola do uniforme balançava a cada movimento — colado à pele, quente de tanto contato. Era discreto, pequeno. Mas naquele momento, parecia pesar uma tonelada.

CHAR...

Aquela palavra gravada no ouro. Um lembrete de amor. De tudo que ele tinha. De tudo que poderia perder se continuasse falhando.

Durante a pausa, ele se afastou, os passos pesados, quase tropeçados, como se os tênis fossem de concreto. Encostou-se na parede do ginásio e puxou a gola com força, os dedos trêmulos agarrando o pingente. Sentia o metal quente queimando entre os dedos suados.

Fechou os olhos.

Respirou fundo.

Mas a respiração veio entrecortada. A raiva subia como uma maré. Ele queria gritar. Quebrar. Sumir. Queria acertar uma bola tão forte que atravessasse a quadra. Queria não sentir que tudo ainda doía. Queria que o peito parasse de apertar. Queria ser melhor. Agora. Já.

“Merda...” sussurrou com os dentes cerrados.

Apertou o pingente com força, como se aquilo fosse impedir que ele se despedaçasse por completo.

Ele não ia cair. Não de novo.

Mas naquela hora, naquela pausa sufocante… Charlie sentia que estava à beira. Entre o amor e a falha. Entre a memória e o agora. Entre o que quer ser — e o que ainda não consegue alcançar.

Voltou para a quadra com o maxilar travado. O olhar duro. O corpo em chamas.

Se fosse pra quebrar, que fosse gritando. Lutando. Atacando.

Porque a única coisa pior do que cair…

Seria não tentar voar.

Charlie girou o corpo bruscamente, o suor escorrendo pelas têmporas. Seus olhos buscaram Nick na quadra como uma mira, e ali estava ele — o levantador, parado, com o semblante fechado, o olhar baixo. Silencioso. Triste.

Mas não era tristeza que Charlie enxergou.

Era pena.

Pena.

O sangue ferveu. Um calor violento subiu pela espinha, batendo na nuca como uma labareda. O estômago revirou. Os punhos cerraram sem ele perceber.

"Isso é pena? Ele tá com pena de mim?" pensou

Uma raiva surda, brutal, tomou conta. Não era só raiva de Nick. Era de si mesmo. Do corpo que falhava. Da bola que caía. Dos olhos que não viam. Do silêncio ao redor. Era tudo demais. Era tudo ao mesmo tempo.

A próxima bola veio. Charlie correu como se o chão estivesse desabando atrás dele. O corpo doía — músculos rasgando, pulmões em chamas — mas ele ignorou. Saltou com força demais, impulso demais, raiva demais. Tentou buscar o topo do mundo e...

Errou.

De novo.

A bola escapou pelos dedos, bateu na fita da rede e caiu fora da linha. O som seco do erro ecoou como um tapa no rosto. Nick se aproximou, devagar, como quem pisa em cacos de vidro.

"Desculpa, Char..." murmurou.

"Não precisa sentir pena de mim," Charlie cuspiu as palavras. Frias. Cortantes.

Nick piscou, confuso. Ferido.

"Da onde você tirou isso?"

"Eu vi como você tava me olhando." A voz de Charlie saiu entre os dentes, quase trêmula de tanta tensão. "Tipo como se eu fosse frágil. Como se tivesse... dó."

"Eu olhei pra você normalmente, Char." Nick respondeu com calma, mas o tom já carregava mágoa. "Tá tudo bem com você?"

"Obviamente não!" Charlie gritou, a voz embargada pela frustração. "Nada tá bem! Eu não acerto nada, meu corpo parece que vai desmontar, e você vem me olhar como se eu fosse quebrar a qualquer segundo!"

Nick tentou se aproximar de novo. "Char... a gente vai conseguir na próxima."

"Eu não quero que você me trate diferente dos outros jogadores!" Charlie explodiu. "Eu sou parte do time, Nick! Não sou um enfeite, não sou um favor em quadra!"

Nick franziu a testa, confuso. "O quê?"

"Não fique com pena de levantar pra mim só porque eu errei!" Ele avançou um passo, o peito arfando.

"Eu não fiquei com pena!" Nick já se defendia, agora mais firme. "Você acha mesmo que eu..."

"Não pense que levantar pra mim é um erro, Nick!"

"Eu não pensei nisso!" Nick disse alto, a voz oscilando entre raiva e preocupação. "Eu só achei que talvez... você quisesse descansar um pouco!"

Charlie deu uma risada amarga, sufocada por fúria. "Ah, claro. Descansar. Porque eu sou o pobrezinho do Charlie, né?"

"Char..." Nick tentou, mas não conseguiu completar.

"Você mandaria o Asahi descansar? Ou o Daichi? Hein?"

Nick endureceu o olhar. "Ei. Calma. Eu só tô preocupado com você, ok?"

Mas já era tarde. A próxima frase de Charlie veio como uma flecha envenenada. Sem filtro. Sem freio. Tudo o que ele estava segurando explodiu de vez.

"Você devia se preocupar com os seus levantamentos. Porque, se não percebeu, eu não acertei nenhum hoje. E talvez nem seja culpa minha!"

Silêncio.

Um silêncio seco. Duro. Insuportável.

Nick congelou. Os olhos perderam o brilho por um segundo. O rosto ficou pálido. Tudo em seu corpo pareceu encolher, não de medo, mas de decepção profunda.

"Uau, Char..." ele disse, com a voz vazia. "Isso foi... bem rude."

Charlie baixou a cabeça. Os olhos fecharam com força, como se quisessem impedir as lágrimas de escapar. Mas já estavam ali. Quentes. Pesadas.

"Me desculpa," sussurrou, a voz embargada. "Eu só... eu só quero ser tratado como todo mundo. Eu tô tentando. De verdade. E dói ver você me olhando daquele jeito."

Nick respirou fundo, os olhos fixos em um ponto qualquer da quadra. Engoliu o orgulho junto com a dor.

"Eu entendi."

Eles voltaram para suas posições. Em silêncio. Mas a quadra não era mais a mesma.

Estava carregada. Fraturada.

O vínculo entre eles, ainda pulsante, agora tremia. E mesmo que continuassem jogando, os dois sabiam: algo tinha rachado ali. E reconstruir... não seria simples, nem rápido, mas talvez necessário.


NICK

"Você deveria estar preocupado com seus levantamentos. Caso não tenha notado, eu não acertei nenhum hoje. E talvez nem seja culpa minha!"

As palavras ainda estavam presas na mente de Nick, ecoando com uma força que ele não conseguia silenciar. Eram como farpas disfarçadas de argumento, ditas no calor do treino, mas afiadas o suficiente para sangrar.

Nick se movia pela quadra, devolvendo bolas, posicionando-se, levantando, mas sua mente... estava distante. Correndo em círculos em volta de Charlie. Cada levantamento que ele fazia era automático. O corpo sabia o que fazer, mas o coração estava pesado. Ele conhecia o Charlie demais. E aquele que estava ali na quadra não era o mesmo garoto do aniversário no boliche, ou da tarde na praia, com os pés na areia e o riso leve no ar. Não. O Charlie de agora estava em guerra. E Nick não sabia se era contra ele... ou contra si mesmo.

Ele observava com olhos treinados. O cruzado aberto. De novo. E de novo. Charlie insistia na mesma jogada como se fosse a única que o definiria como jogador. Como se cada acerto fosse redenção. E cada erro, uma sentença. Ele não fechava os olhos. Saltava mais forte do que o necessário. O corpo exigido ao limite. O rosto franzido. A respiração pesada. Era mais que teimosia, era desespero mascarado de disciplina.

E então veio mais um erro.

Mais uma bola para fora.

“AHHHHHH PORRA!” o grito cortou a quadra como um raio.

Charlie girou o corpo e chutou o chão com força, o pingente no pescoço balançando como se também estivesse exausto.

Nick deu um passo à frente, o impulso o guiando. Ele queria estar lá. Queria ajudá-lo, segurá-lo, puxá-lo de volta. Mas uma mão em seu braço o parou.

“Deixa ele...” disse Suga, calmo, mas firme.

“Mas...” Nick tentou, os olhos fixos em Charlie, que estava com as mãos nos joelhos, a cabeça baixa, os ombros tremendo.

“Só deixa, Nick. Ele precisa desabafar.” Suga diz com calma sabia

Nick hesitou. Seus dedos se fecharam em punho. Aquilo doía. Ver Charlie naquele estado, naquela prisão emocional, e não poder fazer nada... era tortura. Mas ele assentiu com a cabeça, resignado.

Suga soltou seu braço e acrescentou com suavidade:

“Posso falar com vocês dois depois do treino?”

“Sim... claro,” respondeu Nick, a voz saindo mais baixa do que pretendia.

Ele voltou à sua posição, mas a concentração estava em frangalhos. Porque mesmo sem dizer, ele sabia. Charlie não estava lutando contra o cruzado aberto. Charlie estava lutando para provar que ainda era ele mesmo. E Nick... ainda estava tentando entender se o ajudar significava levantar para ele ou saber a hora de não fazer isso.

A treinadora Singh finalmente deu cinco minutos de descanso, mas Nick sabia que aquilo não era uma trégua de verdade. Ela continuava por perto, braços cruzados, olhar atento como se conseguisse ver além das expressões cansadas. Como se lesse o peso emocional que cada um arrastava pelas quadras.

Nick se afastou alguns passos, sentindo o corpo latejar de cansaço, mas era o coração que doía de verdade. Ainda ouvia o eco da discussão com Charlie. Aquelas palavras duras, cuspidas no calor do momento, ainda ressoavam dentro dele. As mãos ainda tremiam um pouco, como se a tensão quisesse se alojar ali para não deixar que ele esquecesse.

O olhar de Charlie estava distante agora, fixo em algum ponto do chão, com os ombros arqueados e o peito subindo e descendo num ritmo irregular. Nick queria ir até ele. Queria dizer algo, fazer algo. Mas tudo parecia frágil demais. Como se um toque fosse suficiente para quebrar o que ainda restava entre eles.

Foi quando Suga apareceu, surgindo como uma presença firme e sóbria no meio daquela bagunça emocional. Ele parou na frente dos dois, braços cruzados, olhar sério, mas não duro. Ele era sempre assim, direto, mas justo. Era impossível ignorá-lo quando falava.

"Precisamos arrumar esse cruzado aberto," ele disse, sem rodeios. "O que de verdade está acontecendo?"

Nick desviou o olhar. Aquilo não era só sobre o cruzado. Suga sabia. Estava perguntando outra coisa. Estava perguntando por que o jogo deles, que costumava ser tão fluido, agora parecia travado. Por que os dois estavam errando justamente onde antes tinham mais confiança: um no outro.

Nick respirou fundo, o ar entrando pesado nos pulmões, como se cada respiração exigisse esforço. O treino tinha sido exaustivo, mas não era o corpo que o incomodava naquele momento — era o silêncio entre ele e Charlie, que parecia maior do que a quadra inteira.

Ele olhou para o lado. Charlie estava ao seu lado, os braços cruzados, o olhar fixo em algum ponto invisível do chão. Havia tensão em cada traço do rosto dele, nos ombros travados, na rigidez do maxilar. Nick esperou. Esperou que Charlie dissesse alguma coisa. Qualquer coisa.

Mas ele permaneceu em silêncio.

Então, engolindo o receio, Nick decidiu assumir a conversa.

“Eu acho arriscado trocarmos nossa melhor jogada a poucos dias da estreia no Torneio da Primavera.”

A resposta veio na hora, como um estalo.

“Você já deixou isso claro, Nick” Charlie rebateu, seco, sem nem olhar para ele.

Nick franziu a testa, surpreso com o tom. Aquilo doía mais do que ele queria admitir. Por um instante, ele se sentiu atacado sem saber por quê.

“Por que você tá tão na defensiva, Char?”

A pergunta escapou num tom mais baixo, mas carregado de frustração. Ele só queria entender. Só queria que Charlie falasse com ele de verdade, como fazia antes. Mas agora tudo era tensão e distância.

Antes que a coisa escalasse, uma terceira voz cortou o clima com precisão cirúrgica:

“Calma, casal” disse Suga, levantando as mãos como quem separa dois irmãos brigando.

Os dois viraram o rosto ao mesmo tempo, como se só então se dessem conta de que havia alguém ali. Nick piscou, confuso. Charlie ergueu uma sobrancelha, surpreso.

“O quê? Casal?” Charlie repetiu, com a voz um pouco mais alta.

“Vocês dois são um casal, né?”

Nick coçou a cabeça, um pouco encabulado. A tensão que sentia agora era de outro tipo. Mais íntima. Mais exposta.

“Eu não sabia que você sabia” respondeu, quase num murmúrio, olhando para Suga com um sorriso tímido.

“Sério? Meio que todo mundo já sabe” Suga respondeu, dando de ombros, como quem diz “vocês não são nada discretos”.

“O quê?!” Charlie exclamou, a voz quase em pânico, como se tivesse levado um choque.

Nick viu quando ele fechou os olhos com força, o rosto um pouco corado, respirando fundo como quem tentava desaparecer ou retroceder no tempo.

Suga continuou, tentando aliviar o constrangimento com seu tom calmo e afetuoso:

“Vocês não foram os mais sutis da Terra. Ficam de conversinha o tempo todo, se sentam juntos no ônibus, se abraçam nos jogos... E sem contar que vocês literalmente se beijaram na frente do ginásio todo.”

Nick baixou o olhar, tentando esconder o riso nervoso que ameaçava escapar. Era como estar preso entre o constrangimento e o alívio. Parte dele queria desaparecer, outra parte queria rir de tudo aquilo.

Charlie parecia dividido entre rir e entrar em combustão espontânea.

“Mas ninguém liga pra isso” Suga completou com um sorriso leve. “Aliás, vocês são um casal fofo.”

Nick retribuiu com um sorriso curto, quase automático, ainda digerindo o quanto de tudo aquilo era novo — mesmo que não fosse surpresa. O time sabia. Todo mundo sabia. E, de certo modo, aquilo não era ruim. Era só... mais real agora.

Suga então retomou, mais sério, voltando ao motivo pelo qual tinha se aproximado.

“Voltando ao assunto...” ele disse, com a voz voltando ao tom de veterano experiente. “Para o bem do Karasuno, vocês precisam acertar isso. O time precisa de vocês funcionando juntos. O vôlei é feito de conexões. E vocês dois sempre foram bons nisso.”

Nick assentiu devagar, sentindo o peso daquelas palavras. Sentia a respiração voltando ao ritmo normal, mas o coração ainda parecia bater em outro tempo. Ele se virou para Charlie, mais calmo agora, com o olhar firme.

“Char... o que você quer fazer?”

Charlie hesitou. Os olhos vacilaram entre Nick e Suga, e então sua voz saiu mais baixa, como se viesse de algum lugar fundo dentro dele.

“O último set contra o Seijoh... quando eu me dei conta, a gente perdeu...” Charlie fez uma pausa dolorida, os ombros encolhendo como se quisesse desaparecer. “Quando eu percebi, a bola que eu cortei já tava no chão, atrás de mim.”

Nick sentiu um nó apertar em sua garganta. Aquilo ainda doía em Charlie muito mais do que ele imaginava — e a culpa doía em Nick também, agora, como um peso que ele não sabia que carregava.

“Aí você veio me pedir desculpas, como se levantar pra mim tivesse sido um erro.”

“Char, não foi isso...” tentou explicar, mas Charlie continuou, sem parar, como se precisasse soltar tudo de uma vez.

“Eu quero lutar no ar e dar meu melhor até o último instante. Eu quero me superar. Quero superar o Oikawa e o Ushijima, mas eu não posso mais ficar fechando meus olhos.”

Nick deu um passo à frente. Sem pensar muito, pegou na mão de Charlie. O contato foi leve, mas cheio de urgência. Era o tipo de gesto que dizia mais que qualquer frase. Ele precisava que Charlie ouvisse. De verdade.

“Eu percebi uma coisa contra o Seijoh e na conversa com o Ushijima. O Oikawa fazia aflorar o melhor de cada atacante. O cruzado aberto é sua arma suprema. E qualquer desvio dele, por mínimo que seja, se torna um erro fatal. E a sua vontade, por mais forte que seja, não é necessária naquele cruzado.”

As palavras saíram de Nick mais firmes do que ele esperava. Diretas. Cortantes. Mas verdadeiras. Era aquilo que ele pensava há muito tempo. Ver Charlie recebê-las foi duro, mas necessário. E Nick sabia que, se não dissesse agora, tudo desmoronaria depois.

Suga colocou a mão no ombro de Charlie, com aquele equilíbrio raro entre firmeza e carinho.

“Charlie, eu acho que o Nick tem razão. Temos que usá-lo como nosso melhor ataque e refinar os outros ataques.”

“Mas...” Charlie começou a resmungar, quase num sussurro tenso.

“Eles têm razão!”

A voz da treinadora Singh cortou o ar. Eles se viraram ao mesmo tempo. Ela estava ali. Tinha estado ali o tempo todo. O olhar atento. Postura reta. Mas agora, havia algo mais nos olhos dela: decisão.

“Charlie, você diz que quer lutar por conta própria, mas aquele cruzado dura um piscar de olhos. E eu acho que é muito difícil tomar uma decisão nesse intervalo de tempo, no ar.”

Nick olhou para Charlie, esperando que ele finalmente cedesse. Mas o que veio foi inesperado. Algo mudou no olhar de Charlie, não só resistência, mas revelação.

“Treinadora... quando eu tô bem, quando eu tô lá em cima... eu vejo tudo em câmera lenta.”

Ele disse aquilo com tanta certeza, tanta clareza, que os três à sua frente ficaram em silêncio. As sobrancelhas de Singh se ergueram, incrédulas.

“Charlie...” disse ela, mais suave agora, como se pisasse em solo desconhecido. “Você teve a impressão de que viu assim.”

Charlie ergueu o rosto. A voz saiu firme, quase límpida.

“No jogo contra o Date Tech, no último ponto, eu vi o Aone. Eu olhei nos olhos dele e sabia que poderia quebrar aquele muro. No jogo contra o Seijoh, eu vi claramente o bloqueio e a quadra adversária. Eu vi... a visão do topo!”

Nick ficou completamente imóvel. Aquelas palavras o atravessaram. Não eram só bonitas. Eram verdadeiras. Ele conhecia Charlie o suficiente para reconhecer quando ele estava falando com o coração. E agora... agora havia fogo nos olhos dele. Um brilho quase sobrenatural. Como se Charlie estivesse enxergando algo que nenhum deles podia ver.

A treinadora Singh ficou em silêncio. Nick observou os olhos dela estreitarem levemente, como se o cérebro dela estivesse disparando pensamentos em velocidade máxima. O olhar vagou de Charlie para o chão, depois voltou a ele. Havia algo diferente em sua postura. E então, pela primeira vez naquele dia... ela sorriu.

“Você viu mesmo, não viu?”

Charlie assentiu.

E o sorriso que surgiu no rosto dele não foi de vaidade, nem de provocação. Foi de alívio. De descoberta. De libertação. Nick sentiu o peito aquecer, como se por um instante o mundo tivesse parado apenas para dar espaço àquele momento.

“Ok!” disse Singh, com autoridade. Ela olhou Charlie de cima a baixo, como quem acabava de confirmar uma hipótese que mal sabia que existia. “Depois do treino, quero te levar a um lugar que poderá te ajudar.”

Charlie assentiu de novo, mais confiante. Nick não tirou os olhos dele. Algo ali tinha mudado. Era invisível, mas inegável. Não era apenas o corpo de Charlie que estava voltando a jogar.

Era ele inteiro.

E no meio de todo aquele caos, Nick teve a certeza silenciosa de que, dessa vez... eles iriam voar. Juntos.

TREINADORA SINGH

O eco ritmado das bolas de vôlei batendo no chão se misturava aos sons dos tênis arrastando, da respiração pesada dos garotos e dos gritos esporádicos de orientação vindos de Suga. Do fundo da quadra, a treinadora Singh observava em silêncio. Os olhos afiados acompanhavam cada movimento. Charlie estava no centro, como de costume, girando em torno do ritmo do time, tentando encontrar o tempo perfeito para o cruzado aberto. E falhando.

Mas havia algo mais ali.

“Eu consegui ver do outro lado, eu vi a visão do topo!”

As palavras de Charlie, ditas momentos antes, martelavam em sua mente como um tambor distante que se aproximava a cada batida. Singh revia mentalmente o olhar de Charlie, não um olhar perdido ou vacilante, mas um olhar concentrado, quase hipnotizado. Como se, por um breve instante, ele realmente tivesse visto tudo.

O ápice de um salto é um suspiro. Um fragmento de segundo. É ali que tudo acontece, o levantamento, a leitura do bloqueio, o ajuste do braço, o impacto. A maioria dos atacantes, mesmo os bons, vê apenas borrões no ar. Um amontoado de corpos, sombras, braços erguidos. Só o instinto guia. Mas de tempos em tempos, em vozes antigas de treinadores, lendas quase esquecidas, ela ouvira falar de atacantes que conseguiam ver tudo. Com clareza. Como se o mundo desacelerasse só para eles.

"Será que...” ela para de escrever “...Charlie consegue mesmo ver isso?"

A dúvida invadiu seus pensamentos como uma corrente elétrica. Singh cruzou os braços e fixou os olhos nele outra vez. Imaginou um levantamento perfeito, um ataque rápido, em sincronia absoluta. Charlie, no meio do ar, escolhendo com exatidão o ponto fraco do bloqueio. Não por sorte, não por tentativa e erro, mas por decisão consciente. Por visão. Seria possível?

"Não...” Ela balançou a cabeça, tentando afastar a ideia. “...é só uma hipótese boba."

Era fantasiosa demais. Um sonho de treinador. Mas e se…? E se fosse verdade? Se Charlie tivesse mesmo esse dom? Ele e Nick, juntos, poderiam se tornar uma dupla inquebrável. Imbatíveis.

Ela estava tão mergulhada em seus pensamentos que não percebeu a aproximação dele. Charlie agora estava parado bem na sua frente. Suado, com as mãos nos quadris e o peito subindo e descendo rapidamente, mas os olhos... os olhos estavam vivos. Quase brilhando.

"Treinadora... que tipo de treino eu preciso fazer?"

Havia uma mistura de urgência e esperança na voz dele. Singh encarou o garoto por alguns segundos, o silêncio pairando entre eles como uma promessa ainda não dita. Ela viu ali não só o desejo de vencer, mas de transcender. E então, sem perceber, ela mesma começou a sorrir.

Charlie estava pronto. Ela sabia disso. E agora ela teria que prepará-lo para voar mais alto.


CHARLIE

O carro da treinadora Singh deslizava pela estrada, afastando-se do centro da cidade em direção a um bairro mais calmo e afastado. Charlie, sentado no banco do carona, deixava o vento entrar pela janela entreaberta, sentindo o cheiro fresco do campo. A paisagem ia mudando aos poucos, os prédios altos desapareciam e davam lugar a casas simples, árvores espaçadas, campos abertos e plantações modestas que se estendiam até o horizonte. Era como se o tempo ali tivesse desacelerado.

Os olhos de Charlie percorriam tudo com uma estranha mistura de curiosidade e paz. A tensão do treino, as palavras de Nick, a conversa com Suga... tudo parecia ficar um pouco mais leve à medida que se afastavam da escola e se aproximavam de um mundo diferente. Quando Singh finalmente estacionou, estavam diante de uma estrutura modesta: um pequeno ginásio de bairro com paredes descascadas e uma placa de madeira meio torta na entrada, onde se lia, em letras gastas: "Escolinha de Vôlei".

Charlie franziu a testa.

“Ali?” sussurrou.

Singh saiu do carro com tranquilidade, como se aquele lugar fosse um santuário. Charlie a seguiu, hesitante, até a parte dos fundos, onde uma quadra de terra batida servia de campo de treinamento para uma dúzia de garotinhos, todos com cerca de dez anos, suados e sorridentes, correndo atrás de bolas com mais vontade do que técnica.

Foi aí que Charlie o viu.

Um senhor de idade, encurvado, mas de postura firme. Os cabelos, completamente brancos, eram penteados para trás, revelando um rosto cheio de rugas, mas com olhos vivos e atentos. Ele usava uma camiseta preta e vestia um casaco esportivo velho com as mangas enroladas até os cotovelos. Mesmo com a idade avançada, cortava bolas com uma precisão impressionante, cada movimento medido, certeiro. Seu apito pendia do pescoço, mas ele raramente precisava usá-lo. A autoridade era natural. Inquestionável.

A treinadora se aproximou dele com Charlie logo atrás.

“Ta tudo bem ficar se movimentando assim depois da cirurgia?" ela perguntou, num tom mais cuidadoso do que de costume.

"Ahhh, não enche!" resmungou o velho, sem parar de cortar bolas. "Se eles me deram alta do hospital é porque tá tudo bem!"

Charlie olhou confuso para Singh, sem entender a intimidade daquela conversa.

"Esse aí é meu avô, Ukai."

"O quê? Ukai... a lenda?" Charlie quase engasgou. "Ele é seu avô?"

Ela apenas assentiu, como se não fosse grande coisa. Mas para Charlie, era. Ele já ouvira falar do grande treinador Ukai, o homem que havia moldado gerações, um dos responsáveis pela tradição feroz do Karasuno.

Singh então se virou para o avô e começou a explicar com calma.

"Ele é Charlie, um dos nossos titulares. Tem um ataque incomum. Rápido. Instintivo. O tipo de jogada que ninguém mais do time consegue replicar. Mas ele tá travado... e eu achei que o adestrador dos corvos raivosos quisesse dar uma olhada."

Charlie piscou confuso. “Adestrador dos corvos raivosos?” pensou

Ukai parou de cortar as bolas, ajeitou a camiseta e olhou diretamente para ele, como se pudesse enxergar mais do que o garoto queria mostrar.

"Então você não soube o que fazer com esse ataque rápido bizarro e fugiu com o rabo entre as pernas?" Ukai encarou Singh sem cerimônia. "Você é a treinadora! O time é seu!"

"Sempre tão delicado, vovô..." Singh suspirou, cruzando os braços. "Charlie é um caso raro. E eu achei que você, com essa sua língua afiada, poderia ser útil."

Charlie respirou fundo, envergonhado, mas determinado. Deu um passo à frente.

"Por favor, treinador Ukai... o senhor pode me ajudar com meu cruzado aberto?"

Ukai franziu os olhos e o observou de cima a baixo. Charlie sentiu aquele olhar pesar sobre sua altura, sobre seus ombros magros e corpo franzino.

"Cruzado aberto?" repetiu Ukai, o tom carregado de dúvida. "Você quer vencer disputas aéreas com essa altura?"

"É exatamente isso!" Charlie respondeu com firmeza. Por mais que soubesse como aquilo soava, seu coração batia com convicção. "Eu sei que pode parecer estranho... mas..."

"Estranho por quê?" Ukai o interrompeu, com um brilho nos olhos. "Por mais extraordinário que seja o levantador, quando se trata de ataques rápidos, quem lidera mesmo é você pequenino!"

Ele apontou diretamente para Charlie, com firmeza, e então se virou para a neta com a testa franzida.

"Ela nunca te falou isso? Fala sério, Priya. Achei que tinha te ensinado melhor."

"Vovô!" Singh rebateu, envergonhada.

Charlie sentiu o coração acelerar. Por mais ríspido e direto que Ukai fosse, aquelas palavras eram um tipo raro de encorajamento. Talvez o mais honesto que já ouvira. E, de repente, aquele pequeno ginásio de bairro, com sua quadra de terra e garotos com joelhos ralados, se transformava no cenário mais importante do mundo.

Ele queria aprender. Queria ver de novo aquela visão do topo. E, com Ukai por perto, algo lhe dizia que estava no lugar certo.


NICK

O céu começava a escurecer quando Nick deixou o ginásio. A cidade ao redor parecia respirar em silêncio, como se estivesse poupando fôlego para o que viria. Ele caminhava sem pressa, os ombros curvados, o corpo exausto do treino, mas a mente ainda mais. As palavras de Charlie ecoavam como um trovão dentro dele: a visão do topo... eu vi tudo em câmera lenta.

Nick passava por calçadas rachadas, por bicicletas encostadas em postes, por janelas acesas com famílias jantando... mas não via nada. Pensava só em Charlie. Em como ele estava travado. Em como ele, Nick, era o levantador do time, o maestro, e mesmo assim... seu melhor atacante parecia perdido. Desconectado. Sozinho.

Eu deveria saber o que fazer.

Eu sou o levantador.

Eu devia guiá-lo de volta até lá.

Mas tudo o que sentia era impotência.

Por impulso, os passos o levaram até a Quadra do Rio — um daqueles cantos da cidade que parecia parado no tempo, com postes de luz antigos, cercas meio enferrujadas e uma quadra aberta voltada para o céu. Um lugar onde muitos vinham jogar depois da escola, à noite, quando o mundo ficava mais silencioso.

Ele não esperava ver ninguém. Queria ficar sozinho. Mas então... viu duas figuras conhecidas.

Oikawa e Iwaizumi.

Estavam ali, rindo baixinho, trocando um beijo calmo no centro da quadra. Sem medo, sem esconder. Havia algo na naturalidade da cena que doeu em Nick — não de ciúmes, mas de reconhecimento. Eles eram livres. E ele… se sentia preso por dentro.

Tentou disfarçar o desconforto e se aproximou devagar.

"Vai usar a quadra?" Oikawa perguntou, a voz ríspida de sempre, mas sem veneno.

"Não." Nick respondeu, um pouco engasgado. "Preciso de um conselho seu."

Oikawa franziu a testa, surpreso. Nick quase pôde ouvir o estalo de um sorriso sarcástico se formando.

"O que a vossa majestade deseja do seu súdito?" provocou, teatral.

Iwaizumi beliscou o braço dele sem dó. "Não seja um babaca. Otário-kawa."

"Ai, ai, Iwa!" Oikawa passou a mão sobre o local do beliscão, fazendo manha. Mas então virou os olhos para Nick, com mais seriedade. "Desculpa, Niko. O que quer?"

Nick respirou fundo e se aproximou mais um pouco, coçando a cabeça.

"Éhhh… então... digamos que um torneio esteja prestes a começar… e o Iwaizumi quisesse tentar um ataque que é quase impossível."

"Espera aí." Oikawa levantou a mão. "Para com essa enrolação e manda a real."

Nick engoliu em seco. A noite estava mais fria do que ele lembrava.

"O Charlie sempre cortou o cruzado de olhos fechados. E agora ele disse que quer cortar por vontade própria."

Oikawa abriu um sorriso torto, quase admirado. "É mesmo? Seria impressionante se ele conseguisse. Por que não?"

"Não fala como se fosse tão fácil assim!" Nick disparou, a voz trêmula de raiva. Depois abaixou o olhar, mais envergonhado do que bravo. "O Charlie… ele não tem tanta técnica assim."

"Então você só forçou ele a fazer o que você mandava?" Oikawa disse seco, mirando Nick com frieza. "Olha lá, parece até um ditador!"

Aquelas palavras bateram como um soco no estômago. Os olhos de Nick se inflamaram, mas ele não conseguiu reagir. Só olhou para baixo, sentindo uma vergonha que queimava por dentro.

"Já chegou a pensar nisso?" Oikawa continuou, sua voz agora firme, direta, sem ironia. "Tá mesmo dando 100% dos levantamentos que o Tampinha quer? Você já tentou fazer isso de verdade?"

Ele encostou o dedo no peito de Nick.

"Porque, se tiver pensado nisso pra valer e ainda estiver na defensiva... é porque você é um covarde, Niko."

Nick sentiu o sangue gelar.

"Olha só, e não se engana, tá? Porque quem assume a liderança do ataque... não é você. É o Tampinha!"

Os olhos verdes de Nick se arregalaram. Aquilo foi como uma chave virando dentro dele. De repente, tudo fazia sentido. Era ele que estava travando Charlie. Era ele que, com medo de errar, guiava tudo com a mão firme demais. Como se Charlie fosse apenas uma peça no seu tabuleiro — quando, na verdade, ele era o próprio ataque.

"E caso não tenha entendido isso... tá voltando a ser o mesmo Rei da Quadra de antes."

Oikawa virou-se para Iwaizumi e, sem olhar pra trás, disse:

"Vamos, Iwa."

Nick ficou parado, como uma estátua quebrada no centro da quadra. Só quando Oikawa já estava longe, ele teve forças pra dizer:

"Oikawa!"

O outro parou, mas não se virou.

"Parabéns... pelo prêmio de melhor levantador."

Oikawa sorriu. Um daqueles sorrisos raros, sinceros.

"Obrigado, Niko."

E então se foi.

Nick ficou ali, encarando a quadra vazia. O coração pesado. Mas pela primeira vez, em muito tempo, ele entendeu algo importante. Não se tratava apenas de dar levantamentos perfeitos. Não era sobre controle, nem sobre ordem.

Ser um verdadeiro levantador era ter a coragem de soltar a corda. De confiar no instinto do outro. De abrir espaço pra que o atacante voe — mesmo que isso signifique não ter o controle de tudo.

E Charlie...

Charlie só precisava disso.

De liberdade.

Nick olhou para o céu noturno, e jurou a si mesmo que o levaria de volta à visão do topo. Não como um rei guiando um peão. Mas como alguém disposto a saltar junto com ele.


CHARLIE

A quadra de terra batida nos fundos tinha marcas irregulares no chão, e uma rede um pouco gasta balançava com o vento. A sombra das árvores projetava desenhos tortos sobre os garotos que treinavam. A simplicidade daquele cenário o tocava profundamente. Estava longe dos grandes ginásios, das luzes, do peso das expectativas. Era puro. Era real.

Ukai o encarou, direto, sem amenidades.

"Antes da técnica tem a questão da consciência."

Charlie sentiu um leve frio no estômago.

"Me fala com sinceridade. O que você acha desse seu ataque rápido?"

Charlie respirou fundo. Os olhos desviaram por um instante para a quadra, as crianças, a rede. Então, com um pouco de timidez, mas tentando ser honesto, respondeu:

"Bom... eu... vou a toda velocidade e aí eu pulo o máximo que eu consigo e a bola vem cortando assim pra mim. Daí eu jogo o braço pra baixo e a minha mão golpeia a bola assim certinho."

Charlie fez um gesto exagerado com os braços, quase teatral, arrancando um olhar divertido da treinadora Singh. Ela tentou explicar:

"O que ele quer dizer é que, quando ele pula com os olhos fechados, um levantador chamado Nick Nelson manda uma bola certeira pra ele."

"Eu entendi", resmungou Ukai. "Não precisa me explicar de novo."

Charlie ia abrir a boca para falar algo, mas Ukai o cortou com firmeza.

"Mas você está enganado, pequenino."

Os olhos de Charlie se arregalaram, surpresos.

"Desde que o ataque em questão seja um ataque rápido, a iniciativa dele sempre será sua. Você precisa entender isso muito bem. Não pense na sua arma como algo diferente."

Ukai caminhou até o centro da quadra, cruzando por baixo da rede. Seu olhar era firme, e os garotos da escolinha o seguiam com disciplina.

"Acho melhor te mostrar."

Quatro alunos se posicionaram atrás dele, alinhados, concentrados.

"Pequenino, tente bloquear os ataques. Você é do bloqueio, não é? Então pare as bolas!"

Um dos garotinhos o olhou com olhos curiosos.

"Você é do juvenil? Que escola você estuda?"

Charlie se sentiu pequeno por um instante. Quase se encolheu, mas respirou fundo.

"Eu sou do ensino médio!", respondeu, tentando manter a dignidade.

As crianças se recolheram um pouco, impressionadas. Ukai pegou a bola, e com sua voz firme, gritou:

"Aqui vamos nós!"

Charlie se posicionou do lado oposto da rede. Reparou que ela era mais baixa que o padrão que estava acostumado. Tocou os dedos nela.

"Então essa é a altura do infantil? Me sinto mais alto agora." Ele diz com um sorriso

Um dos garotos lançou a bola para Ukai, e ele gritou com autoridade:

"Terceiro tempo!"

Terceiro tempo? Charlie se perguntou, confuso.

Três dos garotos dispararam: um pela direita, outro pelo centro, outro pela esquerda. A bola levantada por Ukai foi para o da esquerda, que cortou com força. Charlie pulou alto e alto mesmo. Por um segundo, ele sentiu seu corpo inteiro atravessar a altura da rede, como se estivesse suspenso no ar, e a bola veio direto em sua cara.

"Caraca, que pulo incrível! Sua cabeça estava toda por cima da rede!" disse um dos garotos, espantado.

"É mesmo um impulso e tanto!" Ukai concordou, olhando de lado para Singh, que cruzou os braços e abriu um sorriso que dizia: Eu te avisei.

Outro garoto lançou a bola de volta para Ukai.

"Segundo tempo!" ele gritou.

Os três dispararam novamente. Charlie percebeu que foi mais rápido dessa vez. Reagiu. Correu e saltou no tempo certo. O bloqueio saiu limpo, direto, preciso.

"Muito bem!" diz Ukai

A bola voltou para Ukai uma terceira vez.

"Primeiro tempo!"

O ataque foi um relâmpago. Os garotos dispararam quase junto com o movimento de Ukai. Talvez um pouco antes. Charlie tentou, mas não conseguiu acompanhar. Um deles cortou antes que ele sequer alcançasse o topo do salto.

"Uau, isso foi rápido!" Charlie disse, os olhos brilhando.

"Então... consegue bloquear?" perguntou Ukai.

"Eu, sozinho, não consigo..." Charlie admitiu, ainda ofegante.

"Nos três tempos que você viu agora, houve grande diferença no jeito que o atacante cortou?"

Charlie pensou um pouco e respondeu:

"Não."

"Então o que foi diferente?"

Charlie estreitou os olhos. Tentou se lembrar de cada movimento. Cada segundo.

"O momento em que começaram a correr pra cortar?"

"Isso mesmo!" Ukai colocou as mãos na cintura. "Tempo é isso! Preste atenção. A agilidade de qualquer ataque é dividida por esse tempo. Não é a questão da velocidade do toque, mas do momento em que o atacante inicia a investida."

Ukai levantou um dedo.

"O mais rápido é o primeiro tempo. É a melhor maneira de desviar o bloqueio adversário. E também... é o ataque que você está fazendo sem perceber. Mas você tem que entender de verdade."

Ele se aproximou mais de Charlie, olhos firmes, sem perder a intensidade.

"Você tem que correr antes do levantador subir a bola. O levantador faz o toque de acordo com o atacante. Ou seja, esse rápido bizarro também é o atacante quem lidera."

Charlie sentiu uma onda quente percorrer seu corpo.

"Primeiro tempo..." sussurrou.

Ukai se virou para Singh e comentou:

"Eu não sei que ataque rápido bizarro é esse seu, mas uma coisa eu tenho certeza e isso nunca muda. O melhor levantamento é o que o atacante consegue cortar com facilidade."

Charlie olhou para a treinadora. E, naquele instante, viu. Viu o momento exato em que a mente dela começou a trabalhar. Os olhos de Singh se estreitaram, como se as engrenagens finalmente tivessem girado.

"Um só jogador não vai dar!" ela disse, já se afastando. "Charlie, treine mais um pouco. Eu já volto." E Singh sai correndo.

Charlie foi até a bola, abaixou-se e a segurou com as duas mãos. O sol refletia em seu rosto, e ele sentia algo diferente dentro do peito.

"O tempo que o atacante começa a corrida define tudo", ele murmurou. "Um centímetro, um milímetro, um segundo mais rápido... até o topo."

Olhou para Ukai.

"Mas isso não é suficiente. Até agora eu só pensava em chegar até o topo. Mas eu..." Charlie faz uma pausa

"Então agora você quer lutar lá em cima?" Ukai perguntou, sorrindo.

Charlie assentiu, com força e confiança.

"Para isso dar certo, seu parceiro terá que melhorar bastante. E pela reação estranha da minha neta... acho que ela entendeu isso também. E deve estar indo trabalhar nisso agora."

Charlie sorriu.

"O Nick é incrível. Então eu aposto que vai dar tudo certo. Por isso eu não vou ficar pra trás."

Charlie abaixou a cabeça em sinal de respeito. Quando voltou a erguer os olhos, estavam firmes, decididos.

"Então, por favor, me ensina a lutar lá em cima. No topo!"


NICK

Nick caminhava de volta para casa com as mãos nos bolsos e a cabeça cheia demais para prestar atenção nas calçadas rachadas ou nas janelas iluminadas das casas por onde passava. A brisa da noite soprava leve, mas seu peito pesava. As palavras de Oikawa ecoavam como marteladas em sua mente, repetidas como um mantra incômodo:

"Olha só, e não se engana, tá? Porque quem assume a liderança do ataque... não é você. É o Tampinha. E caso não tenha entendido isso... tá voltando a ser o mesmo Rei da Quadra de antes."

Nick apertou o passo, como se pudesse fugir daquele pensamento. Mas não adiantava. Ele sentia que algo dentro dele estava mudando. Uma parte sua queria negar, resistir. A outra… só queria entender.

Foi então que o celular vibrou no bolso.

Ele atendeu automaticamente.

"Alô?"

"Nick, onde você está?" — era a voz da treinadora Singh, ofegante, como se estivesse correndo.

"Voltando pra casa... por quê?"

"Me encontre na lojinha em frente à escola. Agora!"

"Tá bom…" respondeu, sem entender nada.

Minutos depois, ele chegou à lojinha. As luzes amarelas iluminavam as mesinhas do lado de fora, e a treinadora estava sentada ali, com uma caneca de café quente entre as mãos e alguns bolinhos no prato. Sua prancheta estava sobre a mesa, aberta, com algumas anotações já rabiscadas. Havia um brilho elétrico em seus olhos, como se ela estivesse prestes a dividir algo grande demais para esperar até amanhã.

Nick se sentou, ainda confuso.

Sem perder tempo, Singh apontou para ele com a caneta.

"Você precisa fazer o toque que para."

Nick franziu a testa.

"Como assim?"

Ela respirou fundo e começou a desenhar na prancheta, traçando setas, pontos e curvas com agilidade.

"Presta atenção. Primeiro, quando você levanta para aquele rápido, a bola passa do ponto de impacto até o atacante."

"Uhum." Nick assentiu.

"Mas agora, você vai fazer a bola parar bem ali, no ponto de impacto."

Nick fez uma expressão de confusão, inclinando o rosto.

"Basicamente," continuou ela, "faça com que o ponto mais alto da bola seja igual ao ponto mais alto do atacante."

Os olhos de Nick se arregalaram. De repente, algo começou a se encaixar. As peças, antes embaralhadas, formavam uma imagem que ele começava a compreender.

"Você não pode dar muito impulso," explicou Singh com firmeza. "Porque senão a bola vai passar reto. Use só o suficiente pra que ela suba até o ponto certo e..."

"E ela para." Nick completou, quase sussurrando.

"Isso." A treinadora sorriu levemente, satisfeita.

Ela se recostou na cadeira, mas seus olhos continuaram fixos nele.

"Controlar a força e a rotação da bola não vai ser tão fácil como antes. E ainda tem os ataques rápidos, os abertos... quanto mais longe o ataque, mais difícil será o ajuste. Você consegue?"

Nick ficou em silêncio por um segundo. A voz de Oikawa invadiu sua mente novamente, firme, implacável:

"Tá mesmo dando 100% dos levantamentos que o Tampinha quer? Você já tentou fazer isso de verdade?"

Ele apertou os punhos sobre a mesa.

"Consigo!" respondeu com firmeza, como se estivesse cravando a resposta em pedra.

A treinadora assentiu. E naquele instante, Nick entendeu. Não se tratava só de levantar bolas perfeitas. Era sobre escutar, sentir, entregar. Era sobre estar em sintonia com o atacante. Com Charlie.

Era hora de deixar de ser só o cérebro do time. Ele tinha que se tornar coração também.

E pela primeira vez naquela noite, Nick sorriu. Pequeno. Determinado. Porque agora, ele sabia o que fazer.

Notas finais
Obrigada por ter lido. De verdade. Esse capítulo me deixou com o peito apertado enquanto escrevia, mas também me fez sorrir no final. Porque é isso que eu mais amo nessa história: ela dói, mas cura. Nick e Charlie estão aprendendo a se escutar, a crescer juntos, a errar também. E se você chegou até aqui, é porque está crescendo com eles. Nos vemos no próximo. Até lá. E obrigada por tudo. — Bia. 🖤