Match Point

15 ARCO 2 DOMINE! - Capítulo 14 - O Sorriso do Rei


Notas iniciais
Oi, pessoal! Mais um capítulo no ar, e a cada jogo, a jornada do Karasuno se torna ainda mais intensa. Aqui, cada ponto, cada jogada e cada olhar carregam um peso maior do que parece. A pressão está aumentando, e nossos corvos precisam provar mais uma vez do que são feitos. Espero que vocês sintam toda a energia e a emoção desse momento junto com eles. Boa leitura! Com carinho, Bia

CHARLIE

O ônibus do Karasuno avançava pela estrada, balançando levemente a cada curva, fazendo os refletores de luz da cidade piscarem nas janelas. O motor roncava em um tom baixo e constante, enquanto o asfalto molhado pelo sereno da manhã refletia os postes e os prédios esparsos.

Lá dentro, o time do Karasuno estava espalhado pelos bancos, cada um lidando com a ansiedade da partida à sua maneira. O cheiro do estofado levemente desgastado se misturava ao aroma sutil do uniforme recém-lavado e da brisa fria que entrava pelas pequenas frestas das janelas.

Charlie e Tao estavam sentados juntos, no meio do ônibus, como sempre. Era um costume não verbalizado entre os dois. Se um deles chegava primeiro, já guardava o lugar para o outro, sem precisar perguntar.

Tao estava de fones de ouvido, batucando os dedos no joelho em um ritmo aleatório, provavelmente alguma música chiclete que ele não conseguia tirar da cabeça. Charlie conhecia aquele tique — significava que Tao estava inquieto, provavelmente tentando distrair a mente.

Charlie, por outro lado, encarava o vidro, vendo o reflexo do próprio rosto misturado à paisagem noturna. As luzes dos postes passavam em flashes dourados e distorcidos, criando um efeito quase hipnótico. Seus dedos apertavam levemente o tecido do uniforme. Ele queria parecer relaxado, mas seu peito ainda estava um pouco apertado.

Tao percebeu. Sempre percebia.

Ele tirou um fone, sem dizer nada no começo, apenas olhando para Charlie de canto de olho.

"Você tá muito pensativo," disse por fim, a voz leve, mas carregada daquela preocupação discreta que só ele conseguia demonstrar.

Charlie deu de ombros, sem tirar os olhos do vidro. "Nada demais."

Tao bufou e cutucou a perna de Charlie com o joelho. "Charlie. Eu sou seu melhor amigo. Sei quando esse 'nada' significa 'tudo'."

Charlie soltou uma risada curta, mas não contestou. Ele sabia que não adiantava mentir para Tao.

"Eu só..." Ele soltou o ar devagar. "Tô pensando no jogo, em tudo que rolou. Acho que tô meio preocupado."

Tao inclinou a cabeça, observando Charlie com atenção. "Você jogou bem pra caramba, Charlie."

Charlie balançou a cabeça, mordendo o canto do lábio. "Não é isso... Quer dizer, eu sei que joguei bem, mas..." Ele respirou fundo, buscando as palavras certas. "O último jogo… eu fiz o ponto decisivo. E agora parece que todo mundo espera que eu faça isso de novo."

Tao franziu o cenho, escutando com mais atenção.

Charlie desviou o olhar para a janela, vendo as luzes da estrada piscarem em reflexos contra o vidro. "E se eu errar? Se eu não conseguir dessa vez?"

Antes que ele pudesse continuar, Tao puxou o rosto de Charlie de leve, forçando-o a encará-lo.

"Olha pra mim," ele disse, firme, mas sem perder a gentileza na voz. "Preocupação antes do jogo é normal. Isso significa que você se importa. Mas você não tá sozinho, Charlie. Você tem um time inteiro que confia em você."

Charlie piscou, surpreso pela intensidade no tom de Tao.

"Você é um jogador incrível," Tao continuou, os olhos brilhando com aquela certeza que só ele tinha. "Todo mundo no Karasuno vê isso. Você fez o ponto decisivo no último jogo porque você estava pronto pra isso. E se acontecer de novo, você vai estar pronto de novo."

Charlie apertou os dedos no tecido da calça do uniforme, absorvendo aquelas palavras. Tao fazia parecer simples, mas, de alguma forma, a verdade ali o acalmava.

Ele soltou um suspiro longo, os ombros relaxando um pouco. "Valeu, Tao."

Tao deu um sorriso convencido e deu um soquinho no braço de Charlie. "De nada. Agora para de surtar. Eu tenho certeza que você vai se sair bem."

Charlie riu, mais leve. Ele virou o rosto para Tao, a sobrancelha arqueada. "Será que hoje você sai do banco?"

Tao deu de ombros, um sorriso de canto aparecendo. "Eu só tô aqui por você, esqueceu?" Mas então ele olhou de relance para a parte da frente do ônibus, onde Harry falava alto demais como sempre, e sua expressão mudou para puro desdém.

"Mas meu saque está melhorando..." Tao murmurou, sem disfarçar o olhar afiado para Harry. "O primeiro babaca já foi. Só falta um."

Charlie segurou o riso. Ele conhecia bem aquela rivalidade. Tao estava determinado a provar que merecia mais do que o banco, e Charlie mal podia esperar para ver isso acontecer.

O ônibus do Karasuno era um verdadeiro caos organizado. A energia ali dentro era uma mistura de nervosismo pré-jogo e pura idiotice coletiva.

Cristian e Harry, sentados logo atrás de Tao e Charlie, eram a dupla mais barulhenta. Cristian ria de algo no celular, o ombro sacudindo enquanto tentava mostrar a tela para Harry.

"Olha isso, cara, olha isso!" Cristian empurrou o celular na cara de Harry, ainda rindo.

"Relaxa, eu tô ocupado!" Harry rebateu, equilibrando três laranjas nas mãos.

Sim. Três laranjas.

"Por que diabos você tem laranjas?" perguntou Cristian, olhando para ele como se estivesse diante de um fenômeno inexplicável.

"Roubei da bolsa de alguém." Harry deu de ombros.

Tao revirou os olhos. "Você não pode simplesmente roubar laranjas, Harry."

"Relaxa, eu sou um artista." Harry ergueu uma das frutas dramaticamente e começou a jogá-las para o alto em um malabarismo questionável.

Foi nesse momento que Daichi, sentado mais à frente, se virou lentamente, o olhar afiado de puro cansaço. "Se você acertar minha cabeça, eu juro que faço você tropeçar na entrada da quadra."

"Relaxa, capitão, eu sou o mestre da precisão!"

E então Harry lançou uma das laranjas para cima, errou completamente a recepção, e a fruta rolou pelo corredor do ônibus.

O silêncio foi instantâneo.

Asahi, que estava tentando cochilar alguns bancos à frente, abriu os olhos e suspirou profundamente, como um homem que já tinha visto coisas demais para se importar.

"Vocês não conseguem ficar quietos nem por cinco minutos?"

Suga, sentado ao lado dele, riu baixo, balançando a cabeça. "Harry, sério, daqui a pouco a treinadora manda você correr cinco voltas antes do jogo começar."

"Eu ia dizer pra devolver as laranjas, mas agora eu só quero saber de quem ele roubou," comentou Tao, olhando para os bancos ao redor.

"Não é meu problema," Harry disse, casualmente pegando outra laranja e descascando com os dedos.

O ônibus inteiro explodiu em reclamações ao mesmo tempo.

"VOCÊ VAI COMER ISSO AQUI?!" Daichi exclamou.

"Nem ao menos lava primeiro?!" Cristian fez uma careta.

"Se fosse um limão, seria mais estiloso," murmurou Tsuk, sem levantar os olhos do celular.

Cristian simplesmente perdeu o controle e começou a rir tanto que precisou se apoiar em Harry.

Harry apenas encolheu os ombros. "Ninguém aqui entende a arte."

O Karasuno inteiro, unido por uma única verdade naquele momento: Harry era um caos ambulante.

No meio daquela mistura de ansiedade e descontração, Tsukishima estava sentado sozinho, mais para o fundo do ônibus, encostado na janela.

Seus fones de ouvido grandes cobriam suas orelhas, bloqueando boa parte da conversa barulhenta de Harry e Cristian, que pareciam incapazes de ficar quietos por mais de cinco minutos. O reflexo no vidro mostrava sua expressão entediada, mas, na verdade, ele estava atento a tudo.

Ele não demonstrava, mas estava observando: Nick encarando o celular com uma expressão séria demais. Charlie com os ombros tensos, olhando para a janela como se tentasse se convencer de que estava calmo. Suga e Daichi cochichando alguma coisa sobre tática de jogo.

Ele percebeu tudo.

Mas, como sempre, não disse nada. Em vez disso, apenas ajustou os óculos no rosto, suspirou e voltou a olhar para fora, onde a estrada parecia se alongar infinitamente à frente.

Quando Charlie e Tao começaram a conversar sobre a melhor maneira de quebrar a defesa do Tokonami, Tsuk tirou um lado do fone e arqueou uma sobrancelha.

“Se vocês falassem mais baixo, talvez o outro time não escute o plano de vocês do lado de fora do ônibus.”

Charlie revirou os olhos.

“Eu juro que vou mandar um saque na sua cabeça.” Diz Tao olhando para atras

“Ótima estratégia,” Tsuk murmurou, voltando a colocar os fones. “Isso vai garantir nossa vitória com certeza.”

Cristian, ouvindo a troca de farpas, apenas riu. “É bom ter você aqui, Tsuk. Seria chato demais sem sua doçura habitual.”

Tsuk não respondeu. Apenas olhou pela janela, as luzes da estrada piscando na lente dos óculos.

O ônibus seguia seu trajeto, o som do motor misturando-se ao burburinho de conversas esparsas, risadas abafadas e o ocasional barulho de alguém trocando de posição no assento. Mas Charlie não conseguia ignorar a expressão de Nick.

Ele estava sério demais.

Nick não costumava ser assim antes de um jogo. Ele sempre tentava manter o time animado, soltava piadas, incentivava os outros com aquele sorriso tranquilo que fazia tudo parecer sob controle. Mas agora... agora ele estava quieto.

Silencioso demais.

Seus olhos estavam fixos na tela do celular, mas não havia foco ali. Era como se estivesse apenas olhando sem realmente ver. Os dedos seguravam o aparelho com força, os nós das mãos levemente esbranquiçados, como se aquilo fosse a única coisa o mantendo presente.

Charlie sentiu um aperto no peito. Será que era só nervosismo pelo jogo? Ou havia algo mais? Ele já tinha visto Nick assim antes. Aquele olhar distante, os ombros tensos, como se estivesse preso dentro da própria cabeça, sozinho com seus pensamentos. A ideia de Nick se sentindo assim o incomodava mais do que gostaria de admitir. Sem pensar muito, ele se levantou, pedindo licença a Tao antes de deslizar para o assento ao lado de Nick.

"Oi." Charlie diz com um sorriso

Nick demorou um segundo para responder, os olhos ainda fixos na tela do celular.

"Oi." O tom dele estava baixo, quase distante.

Charlie franziu o cenho, inclinando a cabeça para tentar ver o que Nick tanto encarava.

"O que você tá vendo?"

Nick suspirou, como se o peso do mundo estivesse comprimindo seu peito, e girou o celular na direção dele. Na tela, o aplicativo do intercolegial estampava uma manchete em letras grandes e impactantes:

AOBA JŌSAI AVANÇA PARA A SEMIFINAL.

Charlie engoliu em seco. Ele sabia o que aquilo significava.

"Já vencemos eles no amistoso," disse Charlie, tentando soar confiante.

"Era um amistoso..." Nick reforçou, a voz carregada de um peso que Charlie não sabia nomear. “E ele não estava jogando...” Nick deslizou o dedo pela tela e apontou para a foto de um jogador em destaque. Alto, cabelos castanho-claro, olhos cor de mel e um sorriso cativante demais para alguém que, aparentemente, era um monstro em quadra. Charlie piscou.

"...Gatinho." A palavra escapou antes que ele pudesse se segurar. Nick se virou para encará-lo tão rápido que Charlie quase se encolheu no assento. "...Desculpa, isso foi muito gay?"

Por um segundo, o silêncio pairou entre eles. E então, Nick sorriu. O primeiro sorriso desde que entraram no ônibus. Charlie sentiu o estômago esquentar de alívio. Sem dizer nada, Nick pegou a mão de Charlie e a apertou levemente antes de inclinar a cabeça contra seu ombro. Charlie ficou imóvel por um instante, sentindo o peso confortável de Nick contra si. O coração batia rápido, mas ele não disse nada.

Só segurou a mão dele de volta.

Seja lá quem fosse aquele cara, ele mexia de verdade com Nick. E Charlie não sabia por que, mas sentiu um arrepio de preocupação.


NICK

O ônibus do Karasuno deu uma leve sacudida quando estacionou no pátio do Colégio Tokonami. Lá fora, o céu estava cinzento, coberto por nuvens baixas que pareciam pesar sobre a cidade pequena. A chuva fina da manhã já havia secado, mas o asfalto ainda refletia alguns brilhos da umidade. Nick olhou pela janela e imediatamente percebeu a diferença.

O Colégio Tokonami era muito menor que o Truham Academy. O prédio principal era baixo e simples, sem os corredores longos e modernos que Nick estava acostumado. As paredes eram de um tom bege desgastado, e as janelas não eram de vidro espelhado como as do Truham, mas de um vidro antigo, um pouco opaco, com algumas cortinas já desbotadas cobrindo a visão das salas de aula.

O pátio era compacto, com algumas árvores espalhadas e uma quadra de concreto desgastada pelo tempo, marcada por rachaduras e tinta desbotada. Diferente do Truham, onde o campo de esportes era imenso e sempre bem cuidado, o espaço do Tokonami era limitado.

Os alunos que estavam do lado de fora pareciam menos formais do que os do Truham. Alguns vestiam os uniformes um pouco desalinhados, enquanto outros estavam de agasalhos esportivos do colégio. Mesmo sendo um time considerado modesto no torneio, os jogadores do Tokonami já estavam reunidos na entrada do ginásio, observando o ônibus do Karasuno com expressões fechadas e olhares atentos.

Nick desceu do ônibus primeiro, alongando o pescoço e estalando os ombros. Charlie veio logo atrás, sentindo o peso do momento cair sobre ele. O ginásio estava logo à frente.

O ginásio do Tokonami era pequeno e simples, muito diferente do ginásio do Karasuno. O teto era mais baixo, e as arquibancadas eram curtas, com espaço para poucas pessoas. As luzes fluorescentes piscavam de leve, dando um ar um pouco antigo ao lugar. As linhas da quadra estavam desgastadas, e algumas partes do piso de madeira pareciam ter sido remendadas mais de uma vez.

Nick olhou ao redor. Era um lugar menor, mais abafado, mas ainda assim carregava uma energia intensa. Na arquibancada, a torcida do Tokonami era modesta, composta por alguns alunos e professores, além de alguns familiares dos jogadores. Eles não faziam tanto barulho, mas estavam atentos, observando tudo com expectativa. O Tokonami não era um time de tradição, mas havia orgulho naqueles olhares. Eles sabiam que o Karasuno era o favorito, mas isso só parecia deixá-los mais determinados.

Do outro lado, a torcida do Karasuno era menor ainda — cerca de vinte pessoas, no máximo. Mas o que faltava em número, sobrava em barulho. Isaac, Elle, Tara e Darcy estavam sentados juntos na frente, segurando pequenas bandeirinhas improvisadas do Karasuno e gritando o nome de Charlie e Tao a cada chance que tinham. Cristian virou para olhar e riu.

"Não sei se temos a melhor torcida do torneio," comentou, batendo as mãos no joelho, "mas com certeza temos a mais barulhenta."

"E a mais apaixonada," acrescentou Charlie, tentando conter um sorriso.

Nick olhou para as arquibancadas e respirou fundo. O ginásio vibrava com a energia da torcida, os gritos do Karasuno ecoando como uma tempestade prestes a desabar. A pressão era avassaladora. Mas, de alguma forma, aquilo era bom.

O Karasuno não estava sozinho.

Do outro lado da quadra, a torcida do Tokonami fazia o possível para se fazer ouvir, seus cânticos mais contidos, mas ainda carregados de esperança. Eles eram o time azarão, e sabiam disso. Mas azarões sempre lutam com tudo que têm.

Nick apertou os punhos, sentindo a adrenalina correr em suas veias. O frio na barriga não era de medo. Era de antecipação. Ele olhou para seus companheiros. Charlie rolava os ombros, se alongando, os olhos fixos na rede, como se tentasse visualizar cada jogada antes mesmo de acontecer. Asahi expirou fundo, fechando os olhos por um segundo antes de abrir de novo, o rosto relaxado, mas a tensão evidente em seus punhos cerrados.

Harry ajeitou o cabelo, balançando o pescoço como um lutador prestes a entrar no ringue. Ele bateu nas próprias coxas, um hábito antes de cada jogo, e sorriu para Cristian, que retribuiu com um aceno confiante.

Do outro lado da rede, os jogadores do Tokonami estavam concentrados, alinhados, trocando olhares determinados. Eles sabiam que ninguém os considerava favoritos. E era exatamente isso que os tornava perigosos.

Nick respirou fundo e fechou os olhos por um segundo. Ele sabia o que tinha que fazer. Os times se cumprimentaram rapidamente, trocando apertos de mão firmes, alguns olhares carregados de respeito e outros de pura rivalidade silenciosa.

O juiz apitou. O ginásio prendeu a respiração. Era hora de começar.

Harry caminhou até a linha de saque com sua confiança exagerada, os ombros relaxados, um sorriso convencido nos lábios. Ele estalou os dedos de forma dramática, girou a bola entre as mãos e piscou para o lado do Karasuno.

"Hora do show, baby", murmurou, para ninguém além de si mesmo.

Ele tomou posição, balançando os braços algumas vezes antes de lançar a bola para o alto. O ginásio pareceu prender a respiração. No momento exato, Harry saltou, o corpo inteiro se projetando com força, o braço se preparando para o impacto. O contato foi seco, preciso—uma bomba lançada com velocidade absurda para a quadra do Tokonami.

A bola cruzou a rede como um míssil. O líbero do Tokonami se jogou no chão em um reflexo tardio, mas não foi o suficiente. A bola bateu com força no piso antes que qualquer um pudesse reagir.

"ACE!" ecoou a voz do narrador, acompanhada do grito ensurdecedor da torcida do Karasuno.

Harry olhou para o Karasuno, apontando para o time com os polegares, um sorriso presunçoso estampado no rosto. "Me agradeçam depois", brincou, piscando para Charlie.

A pequena torcida do Karasuno faz barulho e Harry agradece.

“Escroto!” deu pra escutar a voz de Darcy ao longe.

Harry fingiu não ouvir e manda mais cinco saques indefensáveis.

0x6 para o Karasuno

O capitão do Tokonami batia no peito, incentivando os companheiros. O semblante do time, antes tenso, ganhou uma nova determinação. Eles não queriam perder. Harry pegou a bola e caminhou até a linha de saque. Ele já tinha feito seis aces naquela partida, e a torcida do Karasuno prendia a respiração. O Tokonami ajustou a recepção, os jogadores mais experientes se posicionando mais ao fundo. Eles estavam preparados dessa vez.

Harry respirou fundo, girou a bola nas mãos, levantou o olhar e lançou um saque potente. A bola atravessou a quadra como um míssil. Mas o líbero do Tokonami estava pronto. Ele mergulhou no momento exato, recebendo a bola com precisão. Ela subiu alta e o levantador não perdeu tempo.

Com um movimento rápido e limpo, ele ajustou a jogada para o atacante na entrada da rede. A bola foi lançada perfeita para o corte.

Mas Tsuk estava lá.

O bloqueador central do Karasuno saltou no tempo exato, os braços longos se estendendo como se fossem uma parede intransponível. A bola explodiu contra suas mãos e voltou como um tiro para o lado adversário.

O Tokonami poderia ter perdido o ponto ali, mas seu líbero se jogou no chão em um reflexo impressionante e conseguiu salvar a bola. Ela subiu com dificuldade, mas o levantador, com calma e precisão, ajustou novamente a jogada. Dessa vez, o corte veio na diagonal. Tsukishima e Nick saltaram juntos para o bloqueio, sincronizados. A bola bateu na ponta dos dedos de Nick.

"Tocou!" Nick avisou antes de cair no chão.

Daichi já estava preparado e recebeu com maestria, impedindo que a bola tocasse o chão. A bola subiu em um arco perfeito, girando lentamente no ar, e a quadra adversária se abriu diante de Nick.

Nick escaneou tudo em segundos.

Cada jogador do Tokonami estava se ajustando rapidamente. O bloqueio adversário não era alto, mas era ágil. Os pés dos defensores estavam inquietos, preparados para reagir ao menor movimento dele. Eles estavam esperando uma jogada rápida. Nick sabia que, se entregasse a bola cedo demais, cairia exatamente no jogo deles.

Então, ele analisou suas opções.

Charlie estava livre na esquerda. Ágil, veloz, uma opção confiável para um ataque rápido. Mas o bloqueio adversário já estava inclinando o corpo ligeiramente para aquele lado, esperando um corte em diagonal. Se Nick levantasse para Charlie, ele teria que improvisar no ar.

Asahi estava na direita. Uma força imparável quando em plena potência. O Tokonami sabia disso, e um dos bloqueadores já se preparava para subir contra ele. Mas Nick percebeu algo — havia um pequeno espaço entre os jogadores da defesa. Um erro sutil, mas suficiente para um Ace como Asahi explorar.

Daichi estava posicionado no fundo. Seguro, sempre pronto para receber e reorganizar o jogo. Mas não era hora de recuar. Era hora de atacar.

Nick ajustou o peso do corpo, respirou fundo e fez a bola sair de suas mãos com precisão cirúrgica.

Asahi.

O Ace do Karasuno saltou mais alto que a rede, os olhos fixos no espaço mínimo deixado pelo Tokonami. Ele poderia esmagar a bola de primeira. Mas esperou um milissegundo a mais — apenas o tempo suficiente para ler a movimentação do bloqueio adversário.

E então, ele soltou uma bomba.

A bola explodiu contra o bloqueio duplo do Tokonami, os braços dos jogadores adversários sendo empurrados para trás com violência. O som seco do impacto reverberou pelo ginásio, e por um instante, todos acharam que o ponto era do Karasuno.

Mas o capitão do Tokonami, como se fosse movido por puro instinto, se jogou no chão e salvou a bola! Ela subiu instável, girando no ar sem direção. Por um momento, pareceu perdida. Mas o levantador do Tokonami ajustou o corpo rapidamente, mantendo a postura impecável. Seus olhos varreram a quadra em segundos, e então ele fez um levantamento perfeito para o central.

Nick percebeu a movimentação e viu Tsukishima se deslocar rapidamente para o bloqueio. O central do Tokonami notou a presença de Tsukishima e, no último segundo, mudou o golpe.

Uma finta perfeita.

A bola passou lenta, sutil, flutuando por cima dos dedos de Tsuk, caindo como uma pena. Cristian mergulhou, o braço estendido ao máximo, os olhos fixos na bola. Mas ela tocou o chão antes que ele pudesse alcançá-la.

Ponto para o Tokonami.

O ginásio explodiu em gritos, as arquibancadas vibrando com o impacto.

Nick respirou fundo, sentindo o coração acelerar. Era só o começo, mas estava claro que o Tokonami não era um adversário qualquer. E eles precisavam estar prontos para cada detalhe.

E o ginásio veio abaixo. Era apenas um ponto, mas para eles, era tudo. Os jogadores do Tokonami se abraçaram, comemorando como se tivessem acabado de vencer o campeonato. A arquibancada vibrou, os gritos de incentivo preenchendo o pequeno ginásio abafado. Nick respirou fundo, sentindo seu coração acelerar. O Tokonami não ia se entregar facilmente.

No restante do set o Karasuno estava no controle. Desde saque, o time mostrava por que estavam ali. Asahi destruía a defesa adversária com sua força bruta, Cristian realizava defesas impossíveis, e Nick distribuía as jogadas com maestria. O Tokonami lutava, mas o Karasuno era superior em todos os aspectos. Agora, era set point.

14x24 para o Karasuno.

Asahi pegou a bola e caminhou até a linha de saque. O ginásio ficou em silêncio por um instante. Do outro lado da rede, o Tokonami se preparava, tentando se manter firme. Mas seus rostos mostravam cansaço, frustração.

Asahi respirou fundo. Ele lançou a bola para o alto com precisão calculada, os olhos fixos na trajetória. Seu saque não tinha a violência imprevisível dos de Harry, mas era técnico, tático, forçando o líbero do Tokonami a se esticar no limite para receber.

A recepção saiu instável. A bola subiu girando de forma irregular, forçando o levantador do Tokonami a se ajustar rapidamente para reorganizar a jogada. Os olhos dele vasculharam a quadra, buscando a melhor opção.

Ele optou pela entrada da rede. O atacante adversário saltou, o corpo tensionado para o ataque. Mas o bloqueio triplo de Tsukishima, Charlie e Nick já estava no ar, esperando. As três mãos se ergueram no tempo perfeito, uma barreira intransponível. O golpe bateu na parede de mãos e a bola explodiu para trás, caindo rápido na quadra do Karasuno.

Cristian se jogou. Seu reflexo foi instantâneo, os dedos alcançando a bola no último segundo, empurrando-a para o alto com um toque milagroso.

Nick ajustou os pés, o corpo inteiro já em movimento antes mesmo da bola chegar. Os olhos dele vasculharam a quadra do Tokonami em milissegundos. E então ele soube.

Charlie.

Ele estava confiante, sua energia transbordando como se já soubesse que aquele ponto era dele. Nick sentiu a decisão no peito antes mesmo de executar o movimento. O levantamento saiu rápido, afiado, perfeito. E Charlie já estava em movimento. Ele correu em diagonal, seu corpo leve e explosivo ao mesmo tempo. O tempo entre o toque de Nick e o salto de Charlie foi um só — como se tivessem planejado a jogada com antecedência, como se já soubessem exatamente o que o outro faria.

Charlie saltou com tudo que tinha. No ar, seu corpo inteiro se alinhou com a bola, os olhos fixos no espaço vazio na defesa do Tokonami. O bloqueio adversário chegou atrasado. Tarde demais. Charlie soltou um corte fulminante. A bola explodiu contra o chão com tanta força que ecoou pelo ginásio.

Silêncio. Por meio segundo, ninguém se moveu. Então, o placar eletrônico piscou.

15X25.

O primeiro set era do Karasuno.

A explosão da torcida veio como uma onda avassaladora. Charlie caiu no chão e sentiu o impacto da vitória correr por seu corpo como eletricidade.

Nick sorriu. Ele tinha feito a escolha certa.

Os times caminharam para os bancos, o som das vozes se misturando ao burburinho do ginásio. O Karasuno, apesar da vantagem, sabia que não podia relaxar. Cada jogador pegou sua garrafa de água, alguns limpando o suor da testa, outros estalando os dedos ou alongando os braços para manter os músculos aquecidos.

A treinadora Singh se aproximou, sua expressão séria, mas satisfeita. “Bom primeiro set”, ela começou, a voz firme cortando qualquer barulho ao redor. “Mas fiquem atentos. Eles vão ajustar a defesa, vão mudar a estratégia e tentar nos surpreender. Não podemos dar essa abertura.”

Os jogadores assentiram, bebendo a água rapidamente, absorvendo cada palavra.

“Nick, Charlie”, Singh os chamou diretamente, e ambos ergueram os olhos, atentos. “Vocês dois estão subindo um pouco atrasados para o bloqueio. Estão se movimentando bem, mas precisam ser mais rápidos na leitura da jogada. Principalmente você, Charlie.”

Charlie limpou o suor da nuca e assentiu, respirando fundo.

“Ataques cruzados sempre vão buscar explorar o ponto mais fraco do bloqueio, e você, sendo menor, vai ser o alvo preferido deles”, explicou, olhando diretamente para ele. “Mas eles não esperam que você pule tão alto.”

Nick olhou para Charlie de canto de olho. Ele já tinha percebido isso também. O bloqueio de Charlie estava bem posicionado, mas ele não estava tirando total vantagem de sua impulsão.

“Use seu pulo”, continuou a treinadora, seu tom quase desafiador. “Ataque o bloqueio. Não espere que a bola chegue a você, faça com que ela tenha que passar por você.”

Charlie apertou os punhos e assentiu mais uma vez, os olhos brilhando com determinação.

Singh olhou para o time como um todo e inspirou fundo. “A vantagem é nossa, mas o jogo ainda não acabou. Não joguem como se já tivessem vencido. Ainda faltam 25 pontos para a Semi Final.”

Os jogadores se levantaram, renovados. Nick bateu as mãos nas coxas e olhou para Charlie, que respirava fundo, absorvendo as palavras. Ele sorriu de leve antes de dar um tapa rápido no ombro dele.

“Vamos lá, Char.” A forma como Nick disse seu nome foi tão natural, tão cheia de carinho, que Charlie piscou, surpreso.

Seu coração deu um salto involuntário. Nick piscou um olho para ele, um sorriso malicioso brincando em seus lábios. Charlie sentiu o rosto esquentar no mesmo instante. Ele desviou o olhar, tentando parecer indiferente, mas o rubor em suas bochechas o traía. Nick riu baixinho, satisfeito com a reação, e ambos seguiram para a quadra.

O segundo set estava prestes a começar. O Tokonami se preparava para o saque, os jogadores ajustando suas posições, concentrados. O barulho do ginásio preenchia o ar—os murmúrios da torcida, os gritos de incentivo, o ranger das solas contra o piso de madeira polida. Tudo parecia seguir o ritmo natural do jogo.

Até que a porta do ginásio se abriu.

O som do metal se arrastando ecoou no silêncio seguinte como uma lâmina cortando o ar. O mundo pareceu prender a respiração. O burburinho morreu, as conversas se apagaram. Até mesmo o chiado das sapatilhas de borracha contra o chão sumiu, como se o próprio ginásio reconhecesse a chegada deles. Nick sentiu o corpo enrijecer antes mesmo de se virar.

Seis figuras entraram.

Eles não precisavam de apresentações. Nem de palavras. Apenas estavam ali e já dominavam tudo. Os uniformes brancos e azul-celeste contrastavam com o ambiente mais modesto do ginásio do Tokonami, reluzindo sob a luz fria das lâmpadas.

Aoba Jōsai.

A forma como caminhavam, confiantes e tranquilos, fez um arrepio percorrer a espinha de Nick. Eles não precisavam ostentar sua força. Eles eram a força.

Iwaizumi, o vice capitão, ia à frente, a postura rígida, os músculos tensionados como um soldado prestes a entrar em combate. Seu olhar era calculista, preciso, varrendo a quadra com naturalidade, como se já soubesse tudo o que precisava saber sobre o Karasuno antes mesmo do primeiro saque. Ele não hesitava, não se desconcentrava. Era uma parede física e psicológica para qualquer adversário.

Kunimi, ao seu lado, parecia entediado, mas Nick sabia melhor do que qualquer um que aquilo era apenas aparência. Kunimi era o tipo de jogador que fazia o mínimo esforço, mas que, no momento certo, estava no lugar perfeito para executar a jogada perfeita. Ele não corria à toa. Ele esperava. Ele observava.

E então havia Kindaichi.

Nick sentiu o frio na barriga crescendo conforme seu olhar cruzava com o dele. Kindaichi mantinha os ombros retos, o olhar afiado, implacável. Ele analisava cada jogador do Karasuno, mas quando seus olhos pousaram em Nick, o ar pareceu ficar mais pesado. Nick desviou rapidamente, a culpa comprimindo seu peito como um peso invisível. Ele lembrava daquele olhar. Lembrava do ginásio da sua antiga escola. Das palavras que nunca conseguiu esquecer.

"Você só joga por si mesmo, Rei da Quadra."

"Nunca vai ser um verdadeiro levantador."

"Você não precisa de um time, né? Então se vire sozinho."

Kunimi e Kindaichi estavam entre os que protestaram contra ele no time juvenil, entre os que o isolaram. Nick sabia que tinha cometido erros no passado, que a forma como jogava antes era egoísta, mas ver eles dois ali, na quadra, com aquele olhar frio e sem hesitação, fazia tudo voltar. O Karasuno não era o único com algo a provar naquele jogo. E Nick precisava estar pronto.

Mas não eram eles que faziam o peito de Nick apertar.

Era ele.

Oikawa caminhava por último, o passo leve, descontraído, como se estivesse apenas passeando por uma quadra qualquer. Sua expressão era calma, relaxada, sem um traço de tensão, mas os olhos mel brilhavam de um jeito que fazia cada nervo no corpo de Nick se acender.

Nick sentiu o ambiente mudar no instante em que Oikawa ergueu o olhar. O ar ao redor ficou mais pesado. O barulho da torcida parecia distante. O calor da quadra tornou-se abafado, sufocante. Uma onda gelada percorreu sua espinha, e por um segundo, ele sentiu o corpo inteiro ficar tenso, rígido, como se tivesse acabado de levar um golpe invisível.

Oikawa sorriu.

Um sorriso travesso, despreocupado, quase brincalhão — mas Nick sabia que não havia nada inocente ali.

Nick apertou o tecido do uniforme sem perceber, os dedos se fechando com força no tecido, um reflexo involuntário do choque que percorreu seu peito. Seu coração disparou, forte, errático, como se tentasse escapar do peito.

E então, os olhares se encontraram. Nick engoliu em seco. Ele não conseguiu desviar. Foi apenas um segundo. Um instante congelado no tempo. Mas foi o suficiente. O suficiente para Nick esquecer onde estava. Os gritos da torcida se dissolveram no fundo de sua mente. O calor da quadra, o peso do jogo, tudo desapareceu. Por um instante, ele não estava mais ali.

Ele estava de volta à Quadra do Rio.

O cheiro de terra molhada. O eco dos risos misturados ao som do vento. As pegadas no concreto desgastado, as iniciais rabiscadas no chão. E, bem no centro de tudo, Oikawa. O mesmo olhar. O mesmo sorriso.

Nick sentiu o coração falhar uma batida. Era como se o tempo tivesse dobrado sobre si mesmo, trazendo tudo de volta sem aviso. O sorriso de Oikawa era preciso, calculado, exatamente como Nick lembrava. Um sorriso que dizia tudo sem precisar dizer nada.

"Está pronto para me enfrentar, Niko?"

A voz de Oikawa ecoou dentro dele como um trovão, como se fosse um fragmento perdido do passado arrancado à força para aquele momento. Nick sentiu o ar faltar. Porque, pela primeira vez desde que colocou os pés naquele ginásio, percebeu que não estava pensando no Tokonami.

E Oikawa sabia disso.

Notas finais
As coisas não estão ficando fáceis para Nick, e os desafios só estão começando. Esse jogo pode ser decisivo, mas o verdadeiro confronto está acontecendo dentro dele. Espero que tenham gostado desse capítulo, porque os próximos serão intensos — e ninguém sairá ileso. E para quem gosta de um gostinho do que vem por aí, deixo um pedacinho do próximo capítulo (se tudo der certo, sai sexta ou sábado!) CAPÍTULO 15 - NIKO "O peso esmagava seu peito, esmagava seus ombros, esmagava sua mente. Ele deveria estar em êxtase com aquela jogada perfeita. Deveria sentir seus instintos assumirem o controle, como sempre faziam. Mas tudo o que sentia era medo. Avassalador. Paralisante. Os dedos se fecharam com força ao redor da bola suada, o ar escaldante do ginásio queimando seus pulmões. Ele precisava decidir." Obrigada por cada leitura, cada comentário e por estarem aqui nessa jornada comigo. Nos vemos no próximo capítulo! 💛 Bjos, Bia