Match Point

14 ARCO 2 DOMINE! - Capítulo 13 - Os Corvos sem Asas


Notas iniciais
Oi, pessoal! Que alegria ter vocês aqui para mais um capítulo de Match Point! Esse capítulo marca uma virada importante para o time do Karasuno e, sem dúvidas, foi um dos mais emocionantes de escrever. Espero que vocês sintam a mesma energia e intensidade que tentei colocar em cada cena. Preparem-se, porque Os Corvos Sem Asas vai mexer com o coração de vocês. Boa leitura e aproveitem cada momento! Beijos, Bia. 💛🏐

NICK

O ginásio estava envolto em um silêncio raro, quase reverente. O brilho das luzes artificiais refletia no chão polido da quadra, desenhando sombras longas ao redor de Nick e Charlie, que permaneciam ali, abraçados no centro do mundo que tinham construído um no outro.

Nick sentia a respiração de Charlie contra seu peito, lenta e ritmada, e a maneira como o corpo dele se encaixava no seu fazia com que algo dentro dele quisesse congelar o tempo. O cheiro sutil de sabonete e Nick pensou que poderia passar horas assim, segurando Charlie, mantendo-o protegido de tudo que pudesse machucá-lo.

Charlie fechou os olhos por um instante, absorvendo aquele toque, aquele instante de segurança absoluta. Ele sentia a firmeza de Nick, o jeito como seus braços o envolviam com a promessa silenciosa de que ele nunca mais estaria sozinho.

Mas então, o barulho da porta se abrindo rasgou aquele momento. Nick e Charlie se afastaram rapidamente, o calor entre eles substituído por uma súbita tensão. As vozes que invadiram o ginásio quebraram o silêncio de forma abrupta. O som da porta se abrindo bruscamente fez Nick se afastar de Charlie de supetão. Charlie piscou, confuso, ainda processando a falta repentina de calor.

"Cara, vocês estão aqui desde que o ginásio abriu?" Cristian foi o primeiro a entrar, arrastando os pés, os olhos meio fechados, como se tivesse acabado de sair da cama. Ele bocejou alto e coçou a nuca. "Se eu soubesse que dava pra chegar mais tarde, tinha dormido mais meia hora."

Harry apareceu logo atrás, completamente o oposto de Cristian. Ele entrou saltitando, batendo palmas no ar como se fosse seu próprio show de entrada. "Aí, seus frangos! Hoje é dia de treinar como campeões!"

Tao e Tsukishima entraram atrás dele. Tao bocejou tão forte que parecia prestes a se desmanchar em sono, enquanto Tsuk olhava para todos com a expressão habitual de por que eu estou aqui?.

Charlie sentiu suas bochechas esquentarem quando percebeu que Nick ainda estava parado muito perto dele. Ele desviou o olhar, e Nick pigarreou, cruzando os braços de forma meio desajeitada.

"Bom dia, né?" Nick disse, tentando soar natural.

“Bom dia, nada," respondeu Cristian, jogando-se no chão e usando a mochila como travesseiro. "Se a treinadora não chegar nos próximos cinco minutos, eu volto a dormir aqui mesmo."

Os jogadores começaram a se espalhar pelo ginásio, alguns alongando, outros apenas esperando. O clima era leve, diferente do nervosismo que tomava conta antes da partida contra o Date Tech. Charlie observou tudo aquilo com um sorriso pequeno. O Karasuno parecia mais vivo do que nunca.

Foi então que a porta se abriu novamente. O som ecoou pelo ginásio, fazendo todos se virarem ao mesmo tempo. A treinadora Singh entrou primeiro, com seu olhar afiado de sempre, seguida por Daichi, que carregava sua postura firme e confiante de capitão. Mas eles não estavam sozinhos. Atrás deles, caminhavam dois veteranos que muitos não esperavam ver tão cedo de volta à quadra.

Asahi e Suga.

Asahi entrou com passos hesitantes, como se ainda estivesse se acostumando com a ideia de estar ali novamente. Seu corpo alto e imponente fazia com que qualquer um pensasse que ele era intimidante à primeira vista, mas o jeito que ele mexia nos cabelos longos e bagunçados revelava sua timidez natural. Seus olhos castanhos observavam o time com um misto de nervosismo e responsabilidade, como se sentisse o peso de precisar se provar outra vez. Ele sempre foi conhecido por seu talento como Ace, mas também por sua timidez, algo que parecia carregar em cada movimento.

Ao lado dele, Suga exibia um sorriso fácil, confiante, mas cheio de malícia, como se já soubesse a reação que causaria. Seus cabelos curtos e prateados estavam levemente bagunçados, mas nada nele parecia fora de controle. Seus olhos afiados analisavam tudo ao redor, como se já estivesse calculando o caos que poderia causar em poucos minutos.

A diferença entre os dois era gritante: enquanto Asahi parecia um gigante tentando ocupar o menor espaço possível, Suga irradiava segurança e travessura, como se estivesse prestes a aprontar algo. Cristian sentou-se de supetão, os olhos arregalados. Tao parou de bocejar. Até Harry, que nunca parava quieto, ficou imóvel. A treinadora se posicionou no centro do ginásio, observando os jogadores antes de anunciar, com um sorriso discreto no rosto:

"Bom dia. Espero que tenham descansado bem, porque a partir de hoje, o Karasuno está completo."

Foi Asahi quem falou primeiro, sua voz grave ressoando pelo ginásio.

"Espero que não tenham se acostumado a jogar sem a gente."

Ele coçou a nuca, desviando o olhar, claramente desconfortável com toda a atenção que recebia. Já Suga cruzou os braços e inclinou levemente a cabeça, os olhos brilhando com diversão.

"Ou será que vocês gostaram tanto da liberdade que não precisam mais dos veteranos?"

O ginásio explodiu. Cristian gritou primeiro, quase derrubando Harry no chão.

"MAS É CLARO QUE PRECISAMOS!"

"Agora sim, o Karasuno tá com moral," Harry arregalou os olhos e começou a rir.

“Quem são esses caras?” Tao murmurou para Charlie, ainda um pouco incrédulo.

Nick soltou uma risada baixa ao seu lado, e Charlie não conseguiu conter um sorriso ao ver a energia do time mudar completamente. O Karasuno estava completo novamente.

O time logo começou a se misturar, apertos de mão, abraços rápidos, trocas de brincadeiras e provocações. Asahi se aproximou de Charlie, o que fez o novato ficar imediatamente tenso. O Ace do Karasuno era grande, muito grande, e Charlie sentiu um arrepio involuntário ao perceber a altura imponente dele bem de perto.

“Eu vi o jogo contra o Date Tech,” disse Asahi com um sorriso sincero. “Você foi incrível.”

Charlie piscou, surpreso. Ele não esperava isso.

“Obrigado,” murmurou, sentindo o rosto esquentar.

Antes que a conversa pudesse continuar, Nick bateu palmas, chamando a atenção de todos.

“Ei, pessoal! Um minuto.”

O time foi se reunindo ao redor do capitão, os murmúrios diminuindo aos poucos. Nick respirou fundo antes de falar. Ele sentia um aperto no peito, mas não de nervosismo. Era algo diferente. Um peso que ele estava pronto para soltar.

“Eu queria agradecer à treinadora e ao Daichi por terem me dado a oportunidade de ser o capitão do Karasuno nessas últimas semanas,” começou ele, sua voz firme, mas carregada de emoção. “Foi uma experiência incrível.” Ele olhou para seus companheiros de time, para Charlie, Tao, Cristian, Harry, e depois para os veteranos que acabavam de retornar. “Mas agora que Daichi e Suga estão de volta, não faz sentido eu continuar com essa braçadeira. O Karasuno já tem o seu capitão.”

Nick se virou para Daichi e, sem hesitação, retirou a braçadeira do próprio braço e a colocou no braço do veterano. O ginásio explodiu em aplausos.

“Valeu, Nick! Excelente capitão!” gritou Cristian, batendo palmas com força.

Charlie sorriu, orgulhoso. Ele sabia o quanto Nick levava aquilo a sério, e foi bonito ver a forma como ele passava o posto sem hesitação.

Harry se aproximou e deu um tapa nas costas de Nick. “Mandou bem, loirão.”

Nick riu, revirando os olhos. “Valeu, Harry.”

Suga cruzou os braços, um sorriso malicioso no rosto. “Tenho que admitir, fiquei orgulhoso. Mas e aí, conseguiu colocar esses caras na linha?”

Nick riu. “Tentei, mas ainda tem muito trabalho pela frente.”

Daichi ajustou a braçadeira no braço e olhou para o time com um sorriso determinado.

“Agora que estamos completos,” disse ele, seu tom firme e seguro, “vamos mostrar do que o Karasuno é capaz.”

O time explodiu em um coro de "VOE!", e pela primeira vez desde o início da temporada, Nick sentiu o Karasuno completo.


CHARLIE

A treinadora Singh avançou para o centro do ginásio, os passos precisos, a presença firme como uma corrente elétrica percorrendo o ar. O burburinho cessou de imediato. Havia algo na postura dela, no brilho afiado de seus olhos, que fazia com que todos se colocassem em alerta, como soldados aguardando ordens.

"O jogo das quartas de final será daqui a três dias." Sua voz ecoou pelo ginásio, firme, carregada de certeza. "Nosso adversário será o Tokonami."

Por um instante, o ambiente relaxou. Tokonami não era um time de tradição. Não havia estrelas, nem jogadores temidos no cenário colegial. O Karasuno poderia vencer aquele jogo.

Harry jogou um braço ao redor de Cristian, já sorrindo como se a vitória fosse certa. "Moleza! Eu garanto pelo menos um set só com meus saques!"

Antes que alguém pudesse rir ou concordar, a treinadora Singh o interrompeu.

"Admiro sua confiança, Harry." Seu tom era calmo, quase suave, mas o sorriso que acompanhava suas palavras não trazia nenhuma aprovação — era um aviso. Ela cruzou os braços, olhando ao redor, deixando a tensão crescer de forma quase palpável.

"Um jogo perfeito de vôlei seria 25x0, com todos os pontos feitos de saque." Ela deu uma pausa, o silêncio se aprofundando. "Mas o excesso de confiança é perigoso. Ele pode nos levar direto ao chão."

O sorriso de Harry desapareceu no mesmo instante. O ginásio inteiro ficou tenso.

"Os campeões caídos." Sua voz ressoou pesada, cada palavra carregada de um peso que ninguém podia ignorar. "Os corvos sem asas." Ela percorreu o olhar por cada jogador, os olhos estreitos, como se estivesse arrancando uma verdade crua que eles relutavam em encarar. "É assim como nos chamam pelos últimos anos. O Karasuno já foi temido. Já voamos alto. Já estivemos entre os melhores. Mas depois que vencemos o Nacional anos atras...” ela olha para o troféu perto de sua sala com dor no olhar. “...nunca mais conseguimos voltar lá."

Aquelas palavras doeram como um soco no estômago. O silêncio que se seguiu foi denso, quase sufocante, como se o próprio ar estivesse contra eles.

Suga apertou os punhos, o maxilar travado. Ele já tinha ouvido aquelas palavras antes, tantas vezes que podia repeti-las de cor. Asahi abaixou a cabeça, os ombros pesados, como se carregasse uma história que nunca quis reviver. Daichi, sempre firme, piscou lentamente, tentando esconder o aperto no peito. Ele sabia que não era um exagero. Aquilo era verdade.

"Todo ano," continuou a treinadora, a voz mais baixa, mas ainda mais cortante. "Todo ano lemos as mesmas coisas, ouvimos os mesmos sussurros nos corredores, nas redes sociais." Ela deu uma pausa, deixando a pergunta pairar no ar como um golpe prestes a ser desferido.

"‘Os corvos sem asas perdem novamente!’" A frase ecoou como um trovão, reverberando pelo ginásio e pelo coração de cada jogador.

Charlie sentiu um aperto no peito, as palavras batendo em cheio como se fossem para ele. Ele engoliu seco, as memórias de todas as vezes que foi subestimado rodando em sua mente como uma tempestade. Ao lado dele, Nick cerrou os punhos, o corpo rígido. A palavra perder sempre vinha carregada de algo mais profundo para ele. Algo que ele não estava disposto a aceitar novamente.

O ginásio mergulhou em um silêncio cortante. Alguns jogadores abaixaram a cabeça, outros apertaram os punhos com força, tentando conter a raiva ou a dor que aquelas palavras despertavam.

"Vocês acham que isso mudou porque venceram uma batalha?" A voz dela endureceu, cada palavra afiada como uma lâmina, cortando qualquer resquício de falsa segurança. "Porque mandaram o muro de ferro para casa?"

Suga respirou fundo, mas não conseguiu conter a tensão no peito. Ele sabia o que vinha a seguir. Daichi ergueu os olhos, encarando a treinadora, mas sem desviar, como se aceitasse a dureza da verdade que estava prestes a ser dita.

"Se acham que uma vitória nos torna invencíveis... se acreditam que o mundo vai nos respeitar só por isso..." Ela deu um passo à frente, cada jogador sentindo o peso de sua presença. "Estão enganados."

O ginásio inteiro prendeu a respiração, e a treinadora deixou o silêncio crescer, como uma sombra envolvendo cada um deles. E então ela completou, a voz baixa, mas poderosa, como um trovão distante:

"Vocês já provaram para vocês mesmos que sabe voar, mas ainda temos provar aos outros times que estão sedentos para nos ver cair"

Charlie sentiu o peso dos olhares sobre si, o jogo contra o Date Tech voltando como um eco distante. Foi um marco, sim, mas não o fim da jornada.

"Eu vou dizer o que realmente aconteceu." A voz da treinadora Singh era firme, cada palavra carregada de intensidade. Ela fez uma pausa, o silêncio do ginásio quase insuportável, enquanto seus olhos percorriam cada jogador como uma tempestade prestes a desabar. "Eles nos subestimaram. Eles acreditaram que venceriam facilmente, que nós éramos apenas os corvos sem asas de sempre."

O ar ao redor ficou mais denso, cada jogador sentindo o peso daquelas palavras. O silêncio parecia vibrar, carregado de eletricidade.

"Mas nós provamos que, quando ninguém espera, um corvo pode se tornar uma tempestade."

A declaração foi como uma explosão, o impacto imediato. Alguns jogadores endireitaram a postura, outros cerraram os punhos, o brilho de determinação crescendo nos olhos de todos. Singh caminhou lentamente, seus passos firmes, cada palavra se tornando mais intensa. Seus olhos encontraram cada um deles, como se estivesse falando diretamente para a alma de cada jogador.

"Agora, olhem para o Tokonami." Sua voz ficou mais baixa, mas não menos poderosa. "Eles são um time pequeno. Sem tradição. Sem jogadores conhecidos. E é exatamente por isso que eles chegaram até aqui."

O ginásio estava em silêncio absoluto, o ar quase vibrando com a atenção de todos.

"Não cometam o erro do Date Tech." A voz da treinadora Singh cortou o ar como uma lâmina afiada. "Não subestimem o pequeno Tokonami."

Então, seus olhos pousaram diretamente em Charlie. O momento se alongou, cada segundo carregado de tensão e expectativa, até que sua voz veio novamente, mais baixa, mais intensa, como um trovão prestes a romper o céu.

"Porque vocês já sabem o que acontece quando alguém subestima um pequenino... Ele vira um gigante."

Charlie sentiu o impacto direto daquelas palavras, como uma descarga elétrica. Algo dentro dele despertou — uma força nova, um fogo antigo que ele achava estar sob controle, mas que agora crescia, devorando suas dúvidas e deixando apenas certeza.

Ele era o pequenino. Ele era o gigante. Ele era o pequeno gigante.

Olhar de todo o Karasuno se encontra com Charlie, seu coração acelerou, e então ele sorriu, um sorriso diferente. Um sorriso cheio de determinação, cheio de força, cheio de futuro.

A treinadora Singh retribuiu com um sorriso sutil, mas cheio de significado. Um sorriso que carregava a promessa de que eles eram mais do que seus medos, mais do que seus erros, mais do que o passado que tentava prendê-los.

E naquele momento, algo mudou. A tensão dissolveu-se, dando lugar a uma energia nova, quase explosiva. O ar se encheu de vida, de propósito. Nick apertou os punhos, o coração acelerando. Ele estava pronto. Asahi respirou fundo, erguendo o queixo. Suga trocou um olhar breve com Daichi, e os dois assentiram em silêncio. Era como se uma corrente elétrica tivesse passado pelo time, conectando cada um deles em uma rede invisível, fortalecendo-os.

E no centro de tudo isso, Charlie sentiu seu peito se encher. Por meses, ele havia se carregado de dúvidas, de inseguranças, de medo. Mas agora, naquele momento, não havia espaço para nada disso. Havia apenas a certeza.

Eles não eram mais os corvos sem asas.

Agora, eles estavam prontos para voar.


NICK

O treino começou com intensidade máxima. Não havia espaço para distrações ou conversas fiadas. A energia que percorreu o ginásio era diferente. O Karasuno estava completo novamente, e isso significava que o verdadeiro nível do time finalmente seria testado.

A treinadora Singh os dividiu em dois times mistos, colocando Nick e Suga em lados opostos da quadra. O desafio estava lançado: quem conseguiria organizar melhor o time? Desde o primeiro toque na bola, ficou claro que aquele treino não era só um treino. Era um duelo.

Nick, como levantador titular, tinha algo a provar. Cada toque na bola era uma declaração, uma reafirmação de seu papel no time. Seu estilo era estratégico, técnico e calculado. Ele estudava seus companheiros como se fossem peças em um tabuleiro de xadrez, antecipando jogadas, criando armadilhas e forçando a defesa adversária ao erro. Seus levantamentos eram rápidos e baixos, privilegiando ataques explosivos e cortes relâmpago, principalmente com Charlie, cuja velocidade era perfeita para seus ajustes ousados.

Nick era um maestro impetuoso, comandando o ritmo e o fluxo do jogo. Quando estava no controle, a quadra parecia uma extensão de sua mente, e ele fazia o Karasuno jogar no seu ritmo, acelerando as jogadas até que o adversário simplesmente não conseguisse acompanhar. Mas essa abordagem tinha um custo — quando o time não acompanhava sua intensidade, o jogo podia se fragmentar, deixando brechas para erros.

Suga, por outro lado, era puro equilíbrio e experiência. Seu jogo era suave e adaptável, como água se moldando ao formato da quadra e dos companheiros. Ele não ditava o ritmo — ele sentia o jogo.

Suas leituras de quadra eram quase intuitivas. Suga sabia o momento exato em que Asahi estava nervoso demais para atacar de primeira e ajustava um levantamento seguro, dando-lhe tempo para respirar. Sabia quando Tsuk queria arriscar um corte em diagonal e ajustava a bola milimetricamente para facilitar o movimento. Seu toque era impecável, suas bolas altas e suaves, como se flutuassem no ar antes de cair no lugar exato.

Enquanto Nick criava jogadas imprevisíveis para surpreender a defesa adversária, Suga conectava o time, unindo cada peça em perfeita harmonia. Seus levantamentos mais altos ofereciam tempo aos atacantes para tomar decisões, o que fazia o Karasuno parecer mais fluido e menos frenético.

A diferença estava na conexão com o time.

Nick era um líder técnico, mas Suga tinha o coração do Karasuno nas mãos. Seu jeito calmo e encorajador fazia os jogadores se soltarem, jogarem com mais confiança e se adaptarem melhor ao caos da partida. Ele fazia o time se sentir protegido e livre para ousar.

Quando Nick estava na quadra, o Karasuno parecia uma máquina precisa e veloz, pronta para explodir a qualquer momento. Quando Suga assumia, o jogo fluía como uma dança bem ensaiada, cada jogador movendo-se no tempo certo, como se não houvesse esforço, apenas instinto.

Cada ponto se tornava uma disputa entre os dois. Quem distribuía melhor? Quem lia melhor o jogo? Quem conseguia enganar a defesa adversária?

No final, Nick levou a melhor, com 23 levantamentos bem-sucedidos contra os 20 de Suga. Mas a diferença era mínima. E a expressão de Suga deixava claro que a disputa estava longe de acabar.

"Mandou bem, Nick," disse Suga com um sorriso leve, ainda recuperando o fôlego. "Mas eu ainda não acabei com você."

Nick riu, passando a mão nos cabelos suados. "Vou esperar ansioso."

Enquanto os levantadores duelavam em precisão e estratégia, os atacantes transformaram o treino em um verdadeiro campo de batalha.

Asahi mostrou por que era o Ace do Karasuno. Seu corte era pura força bruta, cada golpe na bola fazia o chão da quadra parecer vibrar. A bola explodia no piso como uma pedra lançada de um canhão, muitas vezes impossível de receber. Cristian, o líbero, fazia o possível para defender seus ataques, mas nem sempre conseguia segurar a bola. Quando Asahi cortava, era como enfrentar uma avalanche.

Em pouco tempo, Asahi marcou 15 pontos, dominando a rede com sua presença imponente e ataques devastadores. Ele era uma força que intimidava, não só pela potência, mas pelo espaço que ocupava na quadra, sempre forçando o adversário a recuar.

Mas Charlie não ficou para trás.

Diferente de Asahi, seu estilo era uma mistura de velocidade e precisão. Seus cortes não dependiam da força, mas da rapidez e da capacidade de explorar brechas mínimas na defesa adversária. Ele se movia como um raio, atacando de posições improváveis, fazendo com que os bloqueadores muitas vezes ficassem perdidos. Seus ataques vinham antes que pudessem reagir.

Charlie marcou 10 pontos — muitos deles pegando os bloqueadores de surpresa, passando por entre as mãos de Tsukishima ou desviando em diagonais curtas e rápidas.

Em um dos lances mais impressionantes, Charlie cortou por cima do bloqueio de Tsuk, arrancando um grito de surpresa de Suga perto da rede.

"O que foi isso?!" Suga riu, pegando a bola no chão. "O baixinho é um raio!"

Asahi olhou para Charlie, os olhos arregalados, antes de sorrir surpreso. "Você joga muito bem."

Charlie sentiu o rosto esquentar. Não era todo dia que se recebia um elogio do Ace do time.

“Obrigado Asahi” diz Charlie com vergonha

O Karasuno não era mais um time se encontrando. Agora, eles eram uma força real. Um time pronto para lutar — e vencer.

O treino estava chegando ao fim, mas o peso da intensidade ainda pairava no ar, cada jogador carregando consigo a marca de uma batalha vencida em quadra. O ar estava denso, preenchido pelo som de respirações ofegantes e o leve ranger dos tênis contra o piso polido.

Nick enxugou o suor da testa, o peito subindo e descendo rapidamente. Ele estava exausto, mas satisfeito. Perto da linha de saque, Tao respirava fundo, os olhos fixos na bola que segurava entre as mãos. Ele estava treinando seu saque flutuante, ajustando a posição do corpo e o movimento dos braços com precisão meticulosa. A bola subiu em um arco perfeito, e Tao a golpeou com força e sutileza ao mesmo tempo, fazendo-a flutuar instável no ar antes de cair na quadra adversária.

"O saque está melhorando," disse Daichi, cruzando os braços enquanto observava.

"Se continuar assim, seu saque vai ser um pesadelo para qualquer recebedor," acrescentou Suga, sorrindo.

Tao assentiu, um leve sorriso no rosto, mas sem perder a concentração. Ele pegou a bola novamente, determinado a fazer o próximo saque ainda melhor.

Do outro lado da quadra, Tsuk ajustava os óculos com um toque breve, os olhos atentos enquanto analisava a movimentação dos companheiros. Sempre meticuloso, Tsuk havia se destacado durante o treino com seus bloqueios precisos e inteligentes. Cada salto era calculado, cada movimento controlado, um verdadeiro estrategista da rede.

"Você é um muro, Tsuk," brincou Charlie após mais uma tentativa frustrada de cortar por cima dele.

Tsukishima lançou um olhar afiado e respondeu secamente: "Eu sei."

Mais ao fundo, Harry estava perto da linha de fundo, ainda cheio de energia, apesar do cansaço evidente.

"Vamos lá, última rodada, pessoal! Deixa comigo que eu faço um ace!" ele gritou, levantando a bola para mais um saque poderoso. Harry tinha uma energia contagiante, sempre empurrando o time para frente. Mesmo errando algumas vezes, seus saques forçados colocavam a defesa adversária sob pressão constante.

"Esse é o espírito!" Daichi bateu palmas, incentivando todos ao redor.

A treinadora apitou, encerrando oficialmente o treino. O time se reuniu no centro da quadra, ainda suados e ofegantes, mas com os olhos brilhando de determinação.

"Ótimo trabalho hoje," disse Daichi, a voz carregada de orgulho e seriedade. "Se continuarmos assim, ninguém vai nos parar."

Charlie respirou fundo, sentindo a adrenalina ainda pulsar em suas veias. Ele olhou para Nick, depois para Tao, Tsuk, Harry e os outros. Cada um deles havia dado o máximo, e ele sabia — eles estavam prontos. Prontos para o próximo desafio. Prontos para voar mais alto do que nunca.

Suga se aproximou de Nick, a camiseta levemente colada ao corpo pelo suor, o cabelo molhado caindo sobre a testa de forma desordenada. Ele jogou uma bola no ar casualmente, pegando-a de volta com um sorriso tranquilo.

"Os cortes do Charlie são realmente rápidos," comentou, o tom amistoso, mas atento. "Quando tivermos Asahi e Charlie na frente, será o sonho de qualquer levantador. Força de um lado e rapidez do outro."

Nick cruzou os braços, respirando fundo enquanto observava Charlie rindo ao lado de Tao, ainda animado pelo treino. O suor escorria por sua têmpora, os fios loiros escuros grudados na testa, mas ele parecia mais relaxado agora.

"É realmente um sonho." Mas ele não falava só de vôlei.

Suga percebeu o tom diferente na voz de Nick e ergueu uma sobrancelha, curioso. Seus olhos suaves, mas perspicazes, captaram o que estava nas entrelinhas.

"Um sonho mesmo, hein?" Ele sorriu, divertido, mas sem invadir o espaço de Nick.

Nick desviou o olhar por um segundo, uma leve cor subindo pelo rosto, e riu baixinho. "É... acho que sim."

Suga soltou uma risada suave, um brilho amigável nos olhos. Ele entendia, mas não precisava dizer nada. Apenas deu uma leve batida no ombro de Nick, deixando o momento se acomodar sozinho.

O ginásio parecia mais leve, ainda cheio de ecos de risadas e esforço, e Nick sabia que aquele time — aquelas pessoas — eram exatamente o que ele precisava. Dentro e fora da quadra.

"Parece que nós lutamos pela mesma posição," brincou Suga, a voz descontraída, carregada de leveza. "Eu não tenho seu talento natural, mas estou treinando muito para ser titular."

A frase fez Nick paralisar. Ele já tinha ouvido aquelas palavras antes. As palavras o acertaram como um golpe invisível, arrastando-o de volta para um passado que ele tentava esquecer. Um passado que nunca o deixava em paz.

A Quadra do Rio.

O cheiro da grama recém-cortada e o som distante de bicicletas passando. O sol batendo contra a rede, refletindo nos olhos mel claros brilhantes à sua frente. Uma risada leve e despreocupada.

"Parece que nós lutamos pela mesma posição." A voz do garoto soa em sua cabeça e Nick sentiu sua respiração falhar. Ele sabia o que vinha depois. "Eu não tenho seu talento natural, mas eu vou ser o melhor levantador do mundo!."

A voz ecoou na mente dele como um fantasma. Ele piscou, e de repente não estava mais no Karasuno.

Ele estava ali de novo.

Naquela quadra à beira do rio, onde o mundo parecia mais leve e o tempo corria devagar. O calor do verão esquentava o ar, o cheiro de terra misturado com o das árvores altas ao redor preenchia tudo. O som da água correndo ao longe e o riso despreocupado de crianças completavam o cenário, como um filme antigo gravado em sua memória. O garoto estava ali à sua frente com o cabelo bagunçado pelo vento e o rosto iluminado pelo sol. Despretensioso, inocente, mas com aquele brilho de teimosia no olhar que Nick conhecia tão bem.

"Você é horrível Oikawa!" brincou Nicholas, preparando mais um corte perfeito e enviando a bola direto para ele.

"Não sou, não!" Oikawa respondeu, se posicionando para devolver o corte, mas a recepção saiu completamente errada. A bola subiu em um arco torto, passando por cima da rede improvisada, voando para além da quadra e indo parar no alto de uma árvore. Os dois ficaram em silêncio por um segundo, observando a bola pendurada no galho.

"Talvez... só um pouco," admitiu Oikawa coçando a cabeça, a língua saindo levemente de lado enquanto tentava disfarçar o erro.

Foi a gota d’água. Os dois caíram na gargalhada, dobrando-se de tanto rir, o som das risadas ecoando ao redor como uma música alegre e despreocupada.

"Um pouco?!" Nicholas quase gritou, ainda rindo. "Isso pareceu baseball, foi um home run!"

Ele pegou uma pedra do chão e a jogou contra a bola, acertando o galho com precisão. A bola caiu no chão com um baque leve.

"Vai ver o que é Home run!" Oikawa pegou a bola e, sem pensar duas vezes, a jogou na direção de Nicholas, acertando-o na cabeça. "É mais fácil quando eu tenho um alvo grande como a sua cabeça!"

Nicholas arregalou os olhos, fingindo indignação. "Ah, é assim?! Espera só!"

Ele correu atrás de Oikawa, que deu um grito fingido e tentou escapar, mas não foi rápido o suficiente. Nicholas o agarrou pela cintura, e os dois caíram juntos no chão em meio a gargalhadas incontroláveis.

"Você vai pagar por essa!" disse Nicholas, ainda rindo, enquanto tentava segurar Oikawa, que fazia força para se soltar.

"Se conseguir me pegar!" Oikawa gargalhava tanto que mal conseguia respirar, as pernas chutando o ar sem direção, ambos completamente entregues à brincadeira, sem se preocupar com o tempo, sem medo do amanhã.

Era um tempo mais simples, um tempo onde a competição entre eles era apenas uma brincadeira. Onde eles eram apenas dois garotos apaixonados pelo vôlei. E por um instante, a lembrança doeu mais do que qualquer coisa. Porque Nick sabia o quanto aqueles momentos importavam. O quanto eles ainda importavam.

Seu estômago revirou. A respiração falhou por um segundo, como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões. Era como se alguém tivesse puxado o chão sob seus pés e o jogado em queda livre, sem fim. Como se a gravidade tivesse sido substituída por algo pior. Algo que puxava para dentro, afundando-o lentamente, sufocando-o.

Algo chamado arrependimento.

A lembrança queimava como uma ferida aberta, impossível de ignorar, impossível de curar. O riso de Oikawa ecoava em sua cabeça, não mais como uma melodia alegre, mas como um fantasma assombrando tudo que ele era agora.

O passado não era só um peso — era uma lâmina, fria e afiada. E cada vez que Nick tentava esquecê-lo, era como se cortasse mais fundo, deixando uma marca invisível que nunca desaparecia completamente. Porque aquele tempo não existia mais.

E era culpa dele.

Nick voltou ao presente com um sobressalto, o coração martelando no peito como se tentasse escapar. Ele respirou fundo, os olhos arregalados, como se acabasse de despertar de um pesadelo.

Charlie ainda estava ali. O Karasuno ainda estava ali. Mas Oikawa não estava.

Nick fechou os olhos por um instante, tentando dissipar o peso daquela verdade. Mas era inútil.

Porque ele sentia, que em breve, ele estaria.

E quando isso acontecesse, tudo que Nick havia tentado deixar para trás voltaria com ele — como uma tempestade impossível de conter.

E nada — absolutamente nada — seria como antes.


Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui e acompanharem mais esse capítulo comigo! Foi incrível compartilhar essa nova fase do Karasuno com vocês. Espero que tenham se emocionado tanto quanto eu. Vou tentar manter essa regulagem de capitulo SEG, QUA e SEX (mas nao prometo, vou tentar o máximo) Agora, vou deixar vocês com um pequeno trecho do próximo capítulo (que provavelmente sai na segunda) para já começarem a criar expectativas: Capítulo 14 - O Sorriso do Rei Daichi já estava preparado e recebeu com maestria, impedindo que a bola tocasse o chão. A quadra adversária se abriu diante de Nick. Ele analisou cada movimento, cada espaço. Charlie estava livre na esquerda. Asahi estava na direita. Daichi estava posicionado no fundo. Nick escaneara a quadra como um estrategista em meio a batalha. O bloqueio adversário se ajustava, os jogadores do Tokonami movimentavam os pés na expectativa. Ele precisava decidir. Velocidade ou força? Nick fez a bola sair de suas mãos com uma precisão cirúrgica.