Match Point
8 ARCO 1 VOE! - Capítulo 8 – O Rei da Quadra
Notas iniciais
O som das bolas quicando e as vozes dos jogadores ecoavam no ginásio enquanto os últimos minutos do treino se desenrolavam. A energia estava alta, com cada movimento carregando a intensidade que a treinadora Singh sempre exigia.
Cristian salvou uma bola quase impossível, jogando-se ao chão com precisão, enquanto Nick rapidamente transformava o passe em um levantamento impecável. Charlie não hesitou. Ele correu para a rede, e o corte que executou foi tão certeiro que silenciou brevemente o ginásio antes de um aplauso espontâneo tomar conta.
“Bom corte!” exclamou Tao, sorrindo para Charlie enquanto ele recuperava o fôlego. Daichi ergueu a mão, batendo de leve no ombro de Charlie, o olhar cheio de confiança. A treinadora Singh, com sua prancheta habitual, apitou, encerrando o treino.
“Bom trabalho, todos. É isso que quero ver no campeonato,” disse ela, firme, mas com um brilho de satisfação no olhar.
Os jogadores, ainda ofegantes, se reuniram no centro da quadra ao redor dela. Os sons das bolas quicando diminuíram, substituídos pelo silêncio respeitoso enquanto Singh olhava para cada um deles, a expressão séria, mas não sem um toque de orgulho.
“Eu sei que vocês estão exaustos,” disse Singh, segurando a prancheta com uma mão e olhando para cada jogador. “Mas amanhã, quando entrarem naquela quadra, vocês não serão apenas um bando de caras jogando vôlei. Vocês serão Karasuno. Vocês vão mostrar resiliência, trabalho em equipe, e aquele fogo que só vocês têm. Essa quadra não é só onde treinamos; é onde mostramos quem somos.”
Ela fez uma pausa, observando os rostos suados e atentos dos jogadores. Em seguida, ergueu a prancheta e bateu levemente com a lateral dela na palma da mão, como se estivesse se preparando para algo importante.
“E agora, uma última informação,” ela disse, com um brilho intenso no olhar. “Nosso adversário na primeira rodada do campeonato eliminatório será o Date Tech.”
O silêncio caiu sobre o grupo por um momento antes que Cristian murmurasse: “O Muro de Ferro...”
“Exatamente, não esperávamos enfrentá-los na primeira eliminatória” confirmou Singh, sua expressão ficando ainda mais séria. “Eles não são chamados assim por acaso. O Date Tech é conhecido por ter o bloqueio mais forte que vocês vão enfrentar. Aone, o bloqueador central deles, é uma muralha humana. Ele não apenas para ataques, mas intimida os adversários com sua presença. É um time que vai testar nossa paciência e nossa capacidade de adaptação.”
Ela caminhou lentamente diante do grupo, os passos ecoando no ginásio silencioso. “Mas eu quero que vocês lembrem de algo. Um muro pode ser alto, mas ele não é intransponível. E o que faz de nós o Karasuno é que sabemos voar. Se trabalharmos como um time, não há barreira que não possamos superar.”
Singh começou a direcionar conselhos específicos para cada jogador, olhando diretamente para eles, como se tentasse gravar suas palavras em suas mentes.
Singh deu um passo à frente, o olhar percorrendo o time reunido, parando em Cristian. “Cristian, o Date Tech vai testar seus limites amanhã. Sei que você vai entregar tudo o que tem, como sempre. Confie no seu instinto para segurar aquelas bolas impossíveis. Você é a nossa base.”
Cristian assentiu, e um pequeno sorriso puxou seus lábios. “Pode deixar, treinadora.”
“Nick,” disse ela, voltando-se para o capitão. “Seu trabalho será confundir o bloqueio deles. Não deixe que te leiam fácil. Use a velocidade do nosso time e confie neles. Principalmente nas jogadas inesperadas.”
Nick deu um leve sorriso, a postura confiante. “Sem pressão, né?” brincou, arrancando risadas leves.
Ela então virou-se para Daichi. “Você já jogou contra o Date Tech antes, e amanhã conto com sua experiencia. Seus olhos vão ser essenciais para antecipar as jogadas deles. Mantenha a calma e ajude todos a fazer o mesmo.”
“É pra já,” respondeu Daichi, firme, mas com a serenidade que o definia.
Quando chegou em Tsukishima, Singh cruzou os braços. “Tsuk, você sabe o que fazer contra Aone. Use sua altura e sua cabeça. Ele confia na força, mas você tem inteligência. Desestabilize ele.”
Tsuk ajustou os óculos com um sorriso contido. “Finalmente, alguém interessante para bloquear.”
“Tao,” chamou ela, suavizando a voz. “Você vai brilhar nos saques amanhã. Faça o seu melhor, e não se preocupe com os erros. É o esforço que nos faz ganhar.”
Tao respirou fundo e ergueu o queixo. “Vou tentar, treinadora.”
A treinadora então se voltou para Ben. “Ben,” disse ela, o tom equilibrando firmeza e encorajamento. “Sua paralela é uma arma poderosa, especialmente contra bloqueios pesados como o deles. Mas lembre-se, precisão é tudo. Confie no levantamento de Nick e no seu timing. Você tem um papel importante amanhã.”
Ben ergueu o queixo, tentando disfarçar o orgulho que se misturava à pressão. “Pode contar comigo, treinadora.”
Por fim, Singh cruzou os braços e olhou para Harry. “Harry,” começou, o tom ligeiramente severo. “Seu saque tático é uma das nossas maiores armas para colocar pressão neles. Trabalhe com Tao para alternar as estratégias e desestabilizar a recepção deles. E mantenha o foco. Amanhã, não há espaço para distrações ou erros desnecessários.”
Harry ergueu uma sobrancelha e, em seguida, olhou diretamente para Tao com um sorriso provocativo. Ele levou a mão aos lábios e mandou um beijo exagerado.
Tao, sem perder tempo, mostrou o dedo do meio para ele, a expressão de desgosto clara como o dia. Mas Harry apenas abriu um sorriso maior, quase de aprovação, como se a atitude de Tao fosse exatamente o que ele esperava.
“Vocês dois têm personalidades fortes,” continuou Singh, sem se deter. “Mas se conseguirem canalizar isso para o jogo, serão imbatíveis. Quero ver cooperação, não provocações, na quadra. Vocês entendem?”
Tao suspirou dramaticamente. “Sim, treinadora.”
Harry apenas deu de ombros, o sorriso malicioso ainda no rosto. “Trabalhar junto? Claro. Vai ser divertido,” disse ele, o tom cheio de uma ironia que arrancou alguns olhares exasperados dos outros jogadores.
Por último, ela parou em frente a Charlie, o ginásio inteiro parecia em silêncio. “Charlie, eles sabem que você é perigoso, e vão tentar te parar. Mas confie nos seus passos e no trabalho do time. Você vai acabar com eles. Amanhã, você voa.”
Charlie sentiu a confiança dela como uma faísca acendendo dentro de si. Ele não precisou dizer nada, mas a determinação em seus olhos era suficiente.
Singh deu um passo para trás, observando o grupo como um todo. “Agora, ouçam bem. O Date Tech não será fácil. Eles vão forçar erros, explorar fraquezas e tentar nos quebrar mentalmente. Mas quero que lembrem disso: somos o Karasuno. Não importa quão alto o muro pareça, sempre encontraremos uma forma de superá-lo. Porque nós voamos.”
O time respondeu com um grito de guerra ensurdecedor, ecoando pelo ginásio como um trovão. Singh sorriu, a confiança transparecendo em seu rosto. “Vão descansar. Amanhã é o dia de mostrar ao mundo do que o Karasuno é feito.”
Após a reunião com o time, Nick se aproximou de Charlie, parecendo um pouco sem jeito, mas determinado. Ele coçou a nuca antes de falar, evitando o olhar direto. "Ei, Charlie... Você... quer treinar um pouco mais hoje? Podemos praticar algumas jogadas específicas," sugeriu, a voz ligeiramente mais baixa do que o habitual.
Charlie ergueu as sobrancelhas, surpreso. "Você quer treinar comigo?" perguntou, tentando esconder o sorriso que ameaçava aparecer.
Nick deu um meio sorriso, ainda um pouco desconfortável, mas cheio de intenção. "Claro. Achei que... bom, seria bom afinarmos aquele ataque rápido, sabe? É uma jogada importante, e... você manda bem. O que acha?"
Charlie sentiu o coração dar um pequeno salto, mas se esforçou para parecer casual. "Sim, claro! Só preciso me despedir do Tao," disse, com o rosto iluminado e um sorriso que ele não conseguia controlar.
Enquanto se aproximava de Tao, a empolgação de Charlie era quase palpável. "Eu vou treinar com o Nick," anunciou esperando aprovação, com o brilho nos olhos de alguém que acabara de receber a melhor notícia do dia.
Tao levantou uma sobrancelha, cruzando os braços e observando o amigo com um olhar divertido, mas levemente suspeito. "Treinar com seu crush bobo?" provocou, o tom carregado de ironia, mas sem perder o toque carinhoso. "Sério, Charlie, você se apaixona por qualquer pessoa que é legal com você."
Charlie arregalou os olhos, sentindo o rosto esquentar. "Não é só um crush bobo," respondeu rapidamente, tentando se justificar. "E eu não me apaixono por qualquer um que é legal comigo. É só... um treino!"
Tao suspirou exageradamente, balançando a cabeça como se carregasse o peso de uma longa amizade. "Chega de jogadores de vôlei, Charlie," disse, com um tom teatral, mas com um significado mais profundo. Era um lembrete, uma referência ao passado. "Olha o que aconteceu com o Ben."
Charlie fez uma careta, tentando esconder a pontada de verdade nas palavras de Tao. "Tá bom," respondeu, tentando soar casual. Mas Tao apenas estreitou os olhos, porque o que ele realmente ouviu foi: Eu já estou apaixonado por ele.
Tao suspirou de novo, mas dessa vez havia um toque de preocupação genuína. "Hum," murmurou, revirando os olhos antes de começar a se afastar. Ele parou na porta e olhou por cima do ombro, com um olhar sério, mas cheio de cuidado. "Só... cuidado, tá?"
Charlie sorriu de leve, reconhecendo o carinho na preocupação do amigo. "Eu vou ter," respondeu, com uma voz que parecia mais um agradecimento silencioso do que uma promessa.
Eles se dirigiram para uma das quadras secundárias, que estavam vazias, e começaram com um aquecimento leve. Enquanto alongavam, Nick puxou o zíper do casaco e o tirou com um movimento rápido, jogando-o despreocupadamente para o lado. O movimento fez sua camiseta subir ligeiramente, revelando o contorno definido de seu abdômen. Era uma cena completamente inocente, mas para Charlie, parecia que alguém havia ligado um holofote diretamente nele.
De repente, o calor do aquecimento parecia dobrar, e Charlie percebeu que estava suando mais do que o normal. Ele desviou o olhar tão rápido que quase deu a impressão de que havia visto algo proibido. Fingindo ocupar-se com o cadarço do tênis (que, tecnicamente, nem estava desamarrado), ele tentou se concentrar em qualquer coisa que não fosse o vislumbre acidental de músculos.
Nick, alheio ao caos interno de Charlie, levantou as sobrancelhas. "Você tá bem?" perguntou, o tom leve e despreocupado, enquanto pegava uma bola.
"Sim! Tô sim!" respondeu Charlie, talvez rápido demais, como se tivesse sido pego em flagrante por um crime que ninguém sabia que ele cometeu. Ele tentou soltar um sorriso casual, mas saiu mais nervoso do que pretendia. "É só o aquecimento... tá, uh... funcionando bem. Bem até demais."
Nick inclinou a cabeça, confuso, mas não comentou. "Tá bom, então," disse ele, girando a bola nos dedos com habilidade. "Só não quero que você desmaie antes de começarmos, tá? Não quero ter que carregar você pro vestiário."
Charlie arregalou os olhos, imaginando brevemente a cena e imediatamente se repreendendo por isso. "Eu não vou desmaiar!" rebateu, quase indignado, mas com a voz subindo uma oitava no final.
Nick riu, sem perceber o verdadeiro motivo do nervosismo de Charlie. "Beleza. Só me avisa se precisar de ajuda... ou de água," brincou, jogando a bola para ele.
Charlie pegou a bola com um pouco mais de força do que o necessário, tentando se recompor. "Tô ótimo," garantiu, mais para si mesmo do que para Nick. E, em silêncio, prometeu a si mesmo que ia sobreviver a esse treino — mesmo que precisasse evitar olhar diretamente para Nick por um tempo.
Conforme o treino se intensificava, Nick começou a explicar algumas estratégias de ataque e posicionamento. Ele gesticulava com entusiasmo, demonstrando como ajustar o corpo para um ataque mais eficaz ou como encontrar brechas na defesa adversária. "Você precisa confiar no seu instinto, mas também no seu parceiro de quadra," dizia ele, os olhos verdes fixos em Charlie com uma intensidade que fazia suas palavras soarem ainda mais sérias.
Charlie balançava a cabeça em concordância, tentando focar em cada palavra. Mas, vez ou outra, seus olhos eram atraídos pelo jeito como a luz do ginásio parecia realçar os contornos dos músculos de Nick enquanto ele se movia. A camisa de Nick grudava levemente no peito, e Charlie se pegava olhando tempo demais antes de rapidamente desviar o olhar, fingindo ajustar sua posição na quadra.
"Você tá comigo, Charlie?" perguntou Nick de repente, estalando os dedos, com um meio sorriso. Ele se aproximou um pouco mais, a bola presa entre as mãos.
"Sim! Sim, claro!" respondeu Charlie apressado, sentindo o rosto esquentar. Ele tentou sorrir casualmente, mas o olhar perspicaz de Nick parecia captar cada nuance do seu desconforto.
Nick riu baixo, mas de forma amigável. "Tudo bem. Vamos tentar de novo, mas dessa vez, quero que você se concentre na abertura que criamos. Confie no levantamento, e o resto vai fluir naturalmente."
Charlie assentiu com mais firmeza, tentando ignorar o leve tremor nas mãos. Era difícil manter a mente completamente focada quando tudo em Nick parecia irradiar uma espécie de carisma despretensioso, mas ele respirou fundo e se obrigou a prestar atenção.
Enquanto praticavam, Nick continuava a corrigir os movimentos de Charlie, às vezes segurando seus ombros para ajustar sua postura ou orientando com gestos cuidadosos. O toque firme e breve de Nick trazia uma mistura de nervosismo e encorajamento para Charlie, que começou a perceber que, mesmo distraído, podia aprender muito com aquele treino.
Em um momento em que Charlie errou uma jogada, Nick levantou a mão, pedindo uma pausa. Com um sorriso paciente, ele pegou a bola e começou a girá-la entre os dedos, um gesto típico de quando estava concentrado. Sem dizer nada, Nick sentou-se no chão da quadra, o movimento casual fazendo o short subir levemente, revelando parte de suas coxas.
Novamente Charlie sentiu o calor subir pelo rosto, espalhando-se até as orelhas. Ele tentou desviar o olhar para a parede, para o chão, para qualquer lugar que não fosse Nick. Mas, antes que pudesse pensar melhor, decidiu se sentar ao lado dele, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. "Relaxa, é só sentar," ele pensou, tentando se convencer de que sua decisão não tinha nada a ver com a proximidade de Nick.
Enquanto se acomodava, suas mãos se tocaram brevemente, e Charlie congelou. Foi um instante tão pequeno que provavelmente passou despercebido por Nick, mas, para Charlie, parecia que o tempo havia desacelerado. O toque era quente, e ele sentiu um arrepio correr pela espinha. Quando seus olhos se encontraram por um momento, Charlie jurou que o coração deu um salto.
"Ah, cansado também?" perguntou Nick, casual, desviando o olhar e quebrando o momento.
Charlie piscou algumas vezes, tentando reorganizar os pensamentos. "É... isso," respondeu ele, a voz ligeiramente trêmula enquanto tentava soar relaxado. Ele cruzou as pernas de forma apressada, como se aquilo ajudasse a esconder o turbilhão que acontecia dentro dele.
Nick, sem perceber a confusão interna de Charlie, riu suavemente. "Treinar ataques cansa mesmo," disse ele, jogando a bola de uma mão para a outra. "Mas, sabe, estamos indo bem. Acho que mais algumas tentativas e vai sair perfeito."
Charlie pegou a bola com as mãos suadas, o sorriso tímido no rosto tentando mascarar o nervosismo. Ele queria se concentrar no que Nick dizia, mas havia algo no jeito despreocupado e natural de Nick que parecia dominar o ambiente, como se a quadra fosse uma extensão de si mesmo. "Obrigado. Eu vou acertar da próxima vez," murmurou Charlie, mais para si mesmo do que para Nick.
Nick o observou por um momento, sentindo a autocobrança de Charlie e o sorriso sempre presente em seu rosto deu lugar a uma expressão mais séria, quase introspectiva. O silêncio que se seguiu carregava um peso inesperado, como se ele estivesse decidindo se deveria compartilhar algo mais profundo.
"Eu costumava ter pânico de cometer erros," Nick finalmente disse, a voz firme, mas com uma nota de vulnerabilidade que fez Charlie levantar os olhos. "No meu antigo colégio, eu achava que todos esperavam que eu fosse perfeito em cada jogada. Como se falhar fosse uma sentença, como se o mundo inteiro fosse desabar sobre mim se eu não acertasse." Ele girou a bola entre os dedos, o movimento automático, mas seus olhos estavam distantes, presos em memórias que pareciam dolorosamente vivas.
"Era como se cada erro fosse uma prova de que eu não era bom o suficiente," continuou Nick, a seriedade em sua voz contrastando com a leveza usual. "Eu me sentia sufocado pelas expectativas, a minha e a dos outros. Era como carregar o peso do time inteiro nas costas, sozinho."
Charlie ficou em silêncio, as palavras de Nick ainda ecoando em sua mente. Ele nunca tinha pensado no capitão daquela forma antes, como alguém que também carregava suas próprias batalhas. Depois de um momento, perguntou hesitante: "Como você superou isso?"
Nick desviou o olhar para a bola em suas mãos, girando-a devagar. "Não foi fácil," admitiu, a honestidade carregada em seu tom. "Demorei para entender que tentar ser perfeito só me fazia esquecer o que era realmente importante. E que o vôlei... nunca é um jogo de uma pessoa só."
A simplicidade do que Nick disse atingiu Charlie em cheio, mais do que qualquer discurso longo poderia. Havia algo cru e real naquelas palavras. Ele percebeu que, por trás da confiança de Nick, existia alguém que também tinha enfrentado inseguranças, alguém que sabia exatamente como era carregar esse tipo de peso.
Eles se levantaram para continuar o treino e Nick começou a mostrar algumas posturas de salto e corte. Nick se aproximou de Charlie, seus movimentos calmos e precisos. Ele colocou uma mão no braço de Charlie deslisando suavemente, corrigindo sua postura. "Relaxe aqui," disse ele, a voz baixa e encorajadora. "Você precisa deixar o movimento fluir mais naturalmente."
O toque de Nick era firme, mas não agressivo, e Charlie sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Por um momento, ele se perdeu naquela sensação, mas então, como um raio atravessando uma tarde tranquila, a lembrança de Ben invadiu sua mente. Ele se lembrou de como, no início, Ben fazia o mesmo — tocava-o de maneira confiante, acariciando meu braço durante os intervalos das aulas, enquanto dizia coisas doces que depois se tornaram mentiras. O que antes parecia conforto tornou-se uma armadilha. De repente, a realidade o puxou de volta, e ele afastou o braço rapidamente, como se o toque tivesse queimado.
"Desculpe," disse Nick, os olhos arregalados de surpresa, a voz carregada de preocupação.
"Não precisa pedir desculpas," respondeu Charlie, tentando soar normal, mas sua voz saiu trêmula. Ele olhou para o chão, como se as palavras fossem mais fáceis de dizer para o vazio. "Você não fez nada errado. Sou eu e minha mente ferrada."
Nick franziu a testa, claramente incomodado. "Não diga isso."
"É verdade," insistiu Charlie, a amargura infiltrando-se em sua voz. "Tem algo de muito errado comigo."
Nick ficou em silêncio por um momento, escolhendo cuidadosamente as palavras. Quando falou, sua voz estava mais baixa, mais firme. Ele levanta o rosto de Charlie. "Não importa se somos fortes. Traumas sempre deixam uma cicatriz. Eu sinto muito se meu toque ativou algum gatilho ou algo assim. Não era minha intenção."
Charlie encarou aqueles olhos verdes que pareciam um oceano de confiança, surpreso com a sinceridade de Nick. "Você me acha forte?"
Nick arqueou uma sobrancelha, como se a pergunta fosse absurda. "Tá brincando? Você é a pessoa mais forte que eu conheço na escola inteira."
Charlie piscou, claramente desacreditando. "Fala sério..." Ele balançou a cabeça, confuso.
"Estou falando sério," continuou Nick, sua voz carregada de convicção. Ele começou a enumerar, contando nos dedos como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Sair do armário na nossa idade, enfrentar os olhares e ofensas no corredor da escola, enfrentar o Ben com aquele corte incrível... Entrar para o Karasuno mesmo sabendo que seria difícil..."
"Tá bom, já entendi!" Charlie interrompeu, cobrindo a boca de Nick com a mão, sua expressão incrédula, mas iluminada por um sorriso tímido.
Nick riu baixo, a sinceridade de suas palavras ainda pairando no ar. "É verdade, Charlie. Você não percebe isso, mas você é."
Charlie retirou a mão devagar, ainda sorrindo, mas seu coração parecia um redemoinho. As palavras de Nick ecoavam em sua mente, desmontando defesas que ele nem sabia que tinha. Ele nunca tinha se enxergado daquela forma. Para Charlie, ele era alguém que vivia lutando para se manter de pé, tropeçando constantemente, tentando sobreviver ao peso que o mundo colocava sobre seus ombros.
Mas ouvir que Nick o via como alguém forte, alguém que enfrentava tudo de cabeça erguida, parecia quase inacreditável. Era como se Nick estivesse pintando uma versão dele que ele nunca ousou imaginar.
Por mais que ainda houvesse incertezas e medos, Charlie sentiu algo mudar dentro de si. Ele decidiu guardar essa visão de si mesmo — a versão que Nick enxergava — como uma espécie de farol, algo que ele poderia se lembrar nos dias mais difíceis. Afinal, se Nick acreditava, talvez ele também pudesse começar a acreditar.
Cada vez que Charlie executava uma jogada com sucesso, Nick comemorava junto, dando-lhe um leve tapinha nas costas ou sorrindo de maneira encorajadora. "Isso! Tá vendo? Você consegue," dizia ele, os olhos brilhando de entusiasmo.
Havia momentos, entre um treino e outro, em que os dois apenas conversavam. O ginásio, que geralmente vibrava com sons de risadas e bolas quicando, agora estava mergulhado em um silêncio confortável. Era um espaço seguro, onde as palavras pareciam fluir sem esforço, como se fossem protegidas pelas paredes e pelo eco distante das memórias de outros treinos.
Sentados no chão, com as costas apoiadas na parede, Charlie girava a bola entre as mãos, o olhar perdido em algum ponto do outro lado da quadra. Nick observava em silêncio, percebendo que algo estava prestes a ser dito, mas sem pressioná-lo. Ele sabia que às vezes o melhor era esperar.
“Você já pensou como as pessoas te enxergam?” Charlie perguntou de repente, sua voz baixa e quase hesitante.
Nick franziu a testa, surpreso com a pergunta. “Acho que sim,” respondeu. “Mas nunca fico muito preso a isso. Por quê?”
Charlie deu um sorriso curto, sem humor, e olhou para a bola em suas mãos. “Quando eu saí do armário, tudo o que eu conseguia pensar era em como as pessoas me enxergariam depois. Era como... como se eu estivesse colocando uma placa enorme em mim, sabe? Algo que dizia: ‘Ei, olha para mim. Agora você tem algo para julgar.’”
Nick ficou em silêncio, mas seu olhar estava fixo em Charlie, seus olhos verdes suavizando enquanto ouvia.
“Foi no ano passado,” continuou Charlie, sua voz tremendo levemente. “E já era difícil... ser diferente. As piadas, os olhares, os comentários. Mas, quando decidi contar para meus pais, foi ainda mais assustador. Não porque eu achava que eles iam me odiar ou algo assim... mas porque eu sabia que nada mais seria o mesmo depois disso.”
“E como eles reagiram?” perguntou Nick, a voz suave, quase temerosa de quebrar o fluxo de pensamentos de Charlie.
Charlie suspirou, um sorriso pequeno e melancólico surgindo. “Minha mãe chorou. Mas não porque estava brava ou decepcionada. Ela disse que tinha medo. Medo de como o mundo ia me tratar. Medo de que eu não fosse feliz por ser quem sou. Meu pai... ele foi mais direto. Disse que estava orgulhoso de mim, mas que eu precisava ser forte porque nem todo mundo seria tão compreensivo.”
Nick assentiu, absorvendo cada palavra. “Eles estavam certos, né?”
“Estavam,” Charlie concordou. “No dia seguinte, contei para meus amigos. Eles foram incríveis. Foi como se eu tivesse tirado um peso das costas, mas, ao mesmo tempo, colocado outro, sabe? Porque eu sabia que ia ser diferente na escola.”
Ele fez uma pausa, olhando para Nick com um sorriso incerto. “Foi quando as coisas com o Ben começaram. No início, ele era... gentil. Me fazia sentir visto, especial. Mas, depois, percebi que ele só queria me usar como um experimento, algo escondido, algo que não pudesse ser descoberto. E eu... eu não queria mais me esconder. Não depois de tudo.”
Nick respirou fundo, seu rosto sério. “Charlie, isso é... muita coisa para passar. Eu não consigo nem imaginar.”
“É,” Charlie disse, sua voz ficando mais suave. “Mas, ao mesmo tempo, foi libertador. Porque, por mais difícil que fosse, eu sabia que estava sendo honesto comigo mesmo. E acho que é isso que importa, no final.”
Nick ficou quieto por um momento, mas então sorriu, um sorriso pequeno e caloroso. “Eu não aguentaria passar por isso.”
Charlie riu baixo, balançando a cabeça. “Você diz isso como se fosse algo grandioso. Mas, pra mim, foi só... sobrevivência.”
“Talvez seja,” Nick respondeu, sua voz calma, mas cheia de intensidade. “Mas sobreviver em um mundo que tenta te fazer esconder quem você é, já é algo grandioso.”
Charlie olhou para ele, sentindo o peso e a sinceridade das palavras de Nick. Por um instante, o silêncio entre eles não parecia vazio, mas cheio de algo novo — respeito, admiração, e, talvez, compreensão.
“Obrigado por ouvir,” Charlie disse, quebrando o silêncio, mas com um sorriso tímido nos lábios.
“Obrigado por confiar em mim,” Nick respondeu, sua voz baixa, mas firme.
Enquanto faziam uma pausa, Nick pegou a bola de Charlie e girou-a entre as mãos, o olhar perdido por um momento. Sua postura descontraída parecia esconder algo mais profundo. "Você sabia que eu já fui chamado de 'Rei da Quadra'?" perguntou ele, o tom mais sério do que Charlie esperava.
Charlie ergueu as sobrancelhas, surpreso. "Rei da Quadra? Sério? Parece um título legal."
Nick soltou uma risada amarga, balançando a cabeça. "Não era. Não de onde veio. Na minha antiga escola, eu era... bem diferente. Arrogante, autoritário, o tipo de capitão que ninguém queria por perto. Eu mandava em tudo. Se alguém errasse, eu fazia questão de apontar, e se perdessem um ponto importante, eu fazia parecer que o mundo ia acabar."
Charlie o encarou, perplexo. Era difícil conectar o Nick que conhecia — gentil, encorajador, com um sorriso sempre pronto — àquele retrato. "Você? Assim? Não consigo imaginar."
Nick continuou, apesar do espanto de Charlie, como se estivesse revisitando memórias que ainda o assombravam. "Eu achava que carregava o time nas costas. E fazia questão de deixar todo mundo saber disso. Na final do juvenil, eu fui longe demais. Critiquei todos, humilhei meus companheiros, dizendo que só estávamos ali porque eu fazia tudo.” Nick abaixa a cabeça “Acha que isso é o pior? Não é."
Ele parou, lançando a bola para o ar e pegando-a de volta, o movimento quase automático. "Naquela partida, fiz um levantamento perfeito. Mas ninguém saltou. Ninguém cortou. Eu olhei para trás e vi meu time parado, me encarando. Depois, um por um, eles deixaram a quadra. Foi como um protesto. Eles saíram, e eu fiquei ali, sozinho, no meio de um ginásio cheio, com todos os olhos em mim."
Charlie ficou de boca aberta, sem conseguir dizer nada. Ele sentia o peso da história, como se as palavras de Nick estivessem transportando-o para aquele momento. "Eles só... te deixaram lá?" perguntou, a voz baixa.
Nick assentiu, seu sorriso pequeno e triste. "Foi humilhante. Feriu meu orgulho, meu ego, tudo. Nós perdemos por W.O.” Ele respira fundo e olha para Charlie “Mas aquilo me ensinou uma lição que mudou minha vida. O vôlei não é um esporte que você joga sozinho. Você pode ser o melhor levantador do mundo, mas se ninguém confia em você, se ninguém quer jogar ao seu lado, de que adianta? Você não vence sozinho."
Charlie piscou, ainda processando a história. "E depois disso? O que você fez?"
Nick respirou fundo, deixando a bola cair no chão e rolando-a distraidamente com o pé. Ele parecia escolher as palavras com cuidado antes de falar novamente. “Foi difícil, sabe? Tive que engolir meu orgulho, pedir desculpas ao meu time... Mas, honestamente? Eles nunca me perdoaram completamente. Eu perdi meu melhor amigo naquele jogo. E não os culpo. Eu era insuportável.” Ele deu uma risada curta, sem humor. “Quando vim para o Karasuno no ano passado, achei que seria um novo começo, mas a minha fama negativa veio junto. Todos do time já sabiam quem eu era, o tipo de capitão que eu tinha sido, e ninguém confiava em mim no início.”
Ele parou, olhando para a bola, girando-a entre os dedos como se ela contivesse todas as respostas. “Mas Daichi... ele foi diferente. Ele foi o primeiro a esquecer quem eu fui e me aceitou no time. Ele disse que todo mundo merece uma segunda chance e me deu uma que eu nem sabia que precisava. Foi ele quem começou a me ensinar que liderar não era sobre cobrar, mas sobre motivar. Que, em vez de apontar os erros, eu deveria ajudar o time a melhorar junto. Foi um processo lento, mas ele me mostrou como transformar meu orgulho em algo que pudesse levantar os outros.”
Charlie ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Ele olhou para Nick, tentando conectar a pessoa que ele conhecia hoje com a história que estava ouvindo. "Uau," disse finalmente. “Eu nunca imaginaria… mas acho que isso explica muito sobre quem você é agora.”
Nick deu um sorriso tímido, mas seus olhos verdes carregavam um brilho vulnerável, algo que vinha de alguém que já havia enfrentado batalhas internas. “Você provavelmente deve me achar um monstro agora,” disse ele, a voz baixa e quase hesitante, como se estivesse testando o que Charlie pensava.
Charlie balançou a cabeça com firmeza, seus olhos arregalados e cheios de convicção. “Monstro? Claro que não!” Ele fez uma pausa, tentando encontrar as palavras certas para traduzir o que sentia. “Na verdade, eu acho que isso só te torna... mais incrível. Saber que você passou por tudo isso, cometeu erros, mas decidiu mudar e crescer? Isso é a coisa mais corajosa que alguém pode fazer.”
Nick abaixou a cabeça por um instante, como se estivesse deixando aquelas palavras entrarem profundamente. Quando voltou a encarar Charlie, havia uma suavidade em sua expressão que parecia derreter qualquer barreira que ainda restava. “É por isso que eu acredito tanto em você, Charlie. Porque vejo a mesma força em você. Mesmo quando você acha que está sozinho ou que não é bom o suficiente... você é. E nunca vai precisar enfrentar isso sozinho. Não enquanto estivermos juntos. Nós somos um time.”
Nick estendeu a mão para Charlie, os dedos firmes mas gentis, convidando-o a se levantar. Quando Charlie aceitou, seus rostos ficaram paralelos, tão próximos que ele podia sentir a respiração leve de Nick. Seus olhares se cruzaram, e o mundo ao redor pareceu desacelerar. Havia uma eletricidade no ar, algo tão intenso quanto uma corrente invisível que os ligava naquele momento.
Charlie sentiu o calor subir até as bochechas, mas, dessa vez, não tentou disfarçar. Não era só timidez — era gratidão, admiração e, talvez, algo mais. Ele segurou a mão de Nick por um segundo a mais do que o necessário e, com um pequeno sorriso, murmurou: “Obrigado, Nick. De verdade. Acho que... eu precisava ouvir isso.”
Nick sorriu, mas dessa vez havia uma profundidade genuína e pessoal no gesto, algo que carregava mais significado do que palavras poderiam expressar. “Você merece ouvir isso, Charlie. E sempre que duvidar de si mesmo, lembre-se disso: você tem talento e é uma parte essencial deste time. Eu acredito que amanhã você vai acabar com o Muro de Ferro.”
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