Match Point

5 ARCO 1 VOE! - Capítulo 5 – Sob Pressão


Notas iniciais
Olá, queridos leitores! 🌟 Primeiramente, quero agradecer a cada um de vocês por embarcarem comigo nessa jornada. Este capítulo, em especial, foi escrito com muito cuidado e emoção, pois mergulha profundamente nos desafios e conflitos internos de Charlie. É um momento crucial para o desenvolvimento dele, repleto de tensão e vulnerabilidade. Espero que sintam a intensidade dessa história e se conectem com os personagens. Desejo a todos uma boa leitura e, mais do que nunca, que esta narrativa traga reflexões e sentimentos genuínos. Com carinho, Bia. 💖

O ginásio estava vivo com o som de passos, bolas de vôlei quicando no chão e vozes abafadas enquanto os jogadores do Karasuno se preparavam para o treino. O cheiro familiar de resina e suor misturava-se à energia nervosa que pairava no ar. Na parede oposta, a bandeira preta com o corvo de asas abertas destacava-se, imponente, com o lema “VOE” escrito em letras brancas. Era um lembrete constante do espírito que o time representava.

Quando Charlie empurrou a porta e entrou no ginásio, usando pela primeira vez a camiseta titular do Karasuno, o tempo pareceu parar. O uniforme ajustava-se perfeitamente ao seu corpo magro: o preto predominante contrastava com os detalhes em laranja que percorriam as laterais da camisa e dos shorts. No peito, o número 9 estava estampado em branco com bordas laranjas, e ele sentia o peso simbólico que aquele número carregava. Ao passar pelo espelho no vestiário, mais cedo, tinha demorado alguns segundos para se reconhecer. Pela primeira vez, sentiu-se como parte do time.

Todos os olhares se voltaram para ele quando entrou. A conversa no ginásio cessou por um instante. Cristian foi o primeiro a quebrar o silêncio, aproximando-se com um sorriso caloroso. Ele bateu no ombro de Charlie de leve, como um gesto de boas-vindas.

“Bem-vindo ao time, Charlie,” disse ele, com uma sinceridade que fez o coração de Charlie se aquecer.

Nick, que estava ajustando suas faixas de pulso, olhou para Charlie com um brilho de aprovação nos olhos verdes. Ele acenou com a cabeça, um pequeno sorriso curvando seus lábios.

“Finalmente,” disse Nick. “Agora vamos ver o que você pode fazer de verdade.”

Harry, por outro lado, revirou os olhos dramaticamente e murmurou algo que Charlie decidiu ignorar. Ben, parado próximo à rede, parecia boquiaberto, como se ainda estivesse tentando processar o que via. O desconforto no olhar dele era evidente, mas Charlie manteve a cabeça erguida.

A treinadora Singh chamou todos para o centro da quadra, sua postura rígida e a prancheta em mãos mostrando que não haveria espaço para distrações.

“Hoje, o foco será intensidade defensiva e coordenação,” começou ela, sua voz firme cortando o burburinho. “Quero um jogo agressivo e preciso. Temos um amistoso contra o Aoba Jōsai em algumas horas. Será uma batalha.”

Charlie engoliu em seco ao ouvir o nome do adversário. O Aoba Jōsai era lendário por sua defesa sólida e contra-ataques rápidos, mas ele se concentrou nas palavras de Singh, absorvendo cada instrução.

O treino começou com exercícios específicos de defesa. A treinadora Singh dividiu a quadra em setores, com diferentes combinações de jogadores executando táticas. Cristian era uma força constante no fundo da quadra, mergulhando e defendendo cortes difíceis com uma precisão impressionante.

Charlie foi designado para o grupo focado em bloqueios e cobertura defensiva. Ele e outros jogadores trabalharam em uma sequência chamada "linha e cobertura", onde o bloqueador desvia a bola para a linha e os jogadores de fundo se movem rapidamente para cobrir os espaços vazios.

Nick liderava o grupo com maestria, distribuindo levantamentos rápidos e observando como os outros se posicionavam. Em uma das rodadas, Nick levantou uma bola perfeita para Charlie, que saltou como nunca, impulsionado pelo lema na bandeira. Ele cortou a bola com força, e o impacto no chão foi tão alto que fez o time inteiro parar e olhar.

Cristian foi o primeiro a reagir, batendo palmas.

“Isso é o que eu chamo de precisão!” disse ele, sorrindo amplamente.

Charlie sorriu de volta, sentindo-se mais confiante. “Só segui o seu exemplo,” respondeu, recebendo um aceno de aprovação.

A treinadora Singh interrompeu com mais instruções. “Charlie, excelente corte, mas lembre-se de manter os olhos no bloqueio adversário. Antecipação é tudo.”

Ele assentiu rapidamente, absorvendo cada palavra como se fosse ouro.

O treino continuou com mais intensidade. Cristian continuava como uma âncora defensiva, mergulhando para salvar bolas impossíveis. Em uma jogada particularmente difícil, ele conseguiu levantar uma bola quase na altura do chão, permitindo que Nick a enviasse para Charlie novamente. Charlie, agora mais confiante, executou um corte que passou entre dois bloqueadores, marcando um ponto impressionante.

Nick veio até ele com um sorriso radiante.

“Isso! Sabia que você conseguia voar,” disse ele, oferecendo um toque de mão.

Charlie sentiu o impacto emocional daquele gesto. Era mais do que aprovação; era pertencimento. Ele trocou um olhar com Nick, um misto de gratidão e determinação passando entre eles.

Quando o treino terminou, o time se reuniu para uma breve conversa final. A treinadora Singh ajustou as formações e deu as últimas instruções táticas.

“Lembrem-se, defesa vence jogos. Quero ver bloqueios sólidos e cobertura impecável. Cristian, confio em você no fundo. Nick, mantenha a equipe sincronizada. E Charlie...”

Ela fez uma pausa, olhando diretamente para ele. “Seja ousado. Mostre por que está usando essa camisa.”

Charlie sentiu o peso das palavras, mas também a força que elas carregavam. Ele olhou para a bandeira na parede novamente, o corvo com as asas abertas parecia chamá-lo, lembrando-o de que estava pronto para voar.

Quando chegou o momento do amistoso, a tensão era palpável. O Aoba Jōsai, era um adversário histórico, reconhecido por sua força defensiva e ataques precisos. Os jogadores, vestindo uniformes predominantemente brancos com detalhes em turquesa, exalavam confiança. Embora fossem os vice-campeões regionais, naquele dia estavam sem seus três melhores jogadores, poupados do amistoso.

O primeiro saque foi do Karasuno. Harry iniciou com um potente saque, a bola cruzando a quadra adversária com velocidade. O líbero do Aoba Jōsai tentou a defesa, mas a bola escapou, resultando em um ace para o Karasuno.

Harry curvou-se levemente, agradecendo os aplausos, e virou-se para Charlie.

"É assim que se faz, Charlene," disse com um sorriso arrogante.

A provocação fez Charlie cerrar os dentes, mas ele manteve o foco. No segundo saque, Harry enviou outra bomba para o meio da quadra. Desta vez, o líbero do Aoba Jōsai conseguiu defender, armando rapidamente um contra-ataque. Nick, Ben e Charlie posicionaram-se para um bloqueio triplo, elevando-se juntos para interceptar o corte adversário. O bloqueio foi eficaz, e a bola retornou ao lado do Aoba Jōsai, garantindo mais um ponto para o Karasuno.

O jogo prosseguiu de forma intensa, com as equipes trocando pontos em ritmo acelerado. A defesa do Karasuno destacou-se, especialmente com Cristian, que realizava defesas impressionantes. Em uma jogada particularmente desafiadora, o Aoba Jōsai lançou um ataque potente em direção ao fundo da quadra. Cristian lançou-se ao chão, recebendo a bola com precisão e levantando-a no ar.

Nick, já posicionado, fez um levantamento rápido e preciso para Charlie, que correu em direção à bola como se fosse impulsionado por uma força invisível. Ele saltou, sentindo os músculos tensionarem-se enquanto se elevava. Num movimento ágil, desferiu um poderoso ataque no chão adversário. O som do impacto ecoou pelo ginásio.

A quadra silenciou por um instante, todos os olhares voltados para Charlie.

De repente, Nick veio em sua direção e o envolveu em um abraço forte, quase sufocante. Charlie pôde sentir os músculos de Nick sob a camiseta, o cheiro do perfume misturado ao suor invadindo seus sentidos. O toque era firme e reconfortante, e Charlie sentiu algo se acender dentro dele.

"Temos que fazer isso de novo," disse Nick, com um sorriso de satisfação.

"Claro," respondeu Charlie, tentando absorver a sensação daquele momento.

Cristian se aproximou, aplaudindo. "Belo corte."

Charlie sorriu. "Bela defesa."

O jogo seguiu intenso, mas o Karasuno manteve o controle e venceu por 3x1 nos sets. No vestiário, o clima era de comemoração, mas Ben não parecia compartilhar da alegria. Ele olhava fixamente para Charlie, como se quisesse dizer algo, mas não conseguia encontrar as palavras. Charlie, por outro lado, estava tão eufórico com a vitória que não se deixou abater pelo olhar de Ben.

Quando todos começaram a sair para comemorar, Charlie recebeu uma mensagem no celular: "PRECISAMOS CONVERSAR." Era de Ben. Sentiu uma onda de apreensão, mas decidiu ficar para arrumar as bolas e guardar o material.

Quando todos já haviam saído, Ben entrou de volta no ginásio, o som dos passos ecoando na quadra vazia. "Nunca me disse que sabia jogar," disse ele, a voz carregada de algo que Charlie não conseguia decifrar.

"Você nunca perguntou," respondeu Charlie, sem olhar para ele. "Você nunca pergunta nada sobre mim, na verdade."

Ben fez uma careta de impaciência. "De novo com isso? Se fosse para ficar com essa draminha de sentimental, eu continuaria namorando garotas."

Charlie sentiu uma pontada de raiva e deu um passo para frente. "Então fica com elas!" sua voz soou mais alta do que esperava.

Ben se aproximou rapidamente, suas mãos encontrando as de Charlie com um toque suave, quase conciliador. "Desculpe," ele murmurou, os olhos presos aos de Charlie.

"Você pede muito isso," respondeu Charlie, tentando manter o tom firme.

"O que eu posso fazer para compensar?" sussurrou Ben, aproximando-se mais. Ele beijou o pescoço de Charlie suavemente, depois subiu para a orelha e, finalmente, encontrou os lábios dele. Charlie, por mais que quisesse resistir, se deixou levar pela sedução. Cada toque de Ben parecia apagar momentaneamente todas as palavras duras e o sofrimento.

Os dois se afastaram para um canto mais reservado no vestiário, trocando beijos e carícias com urgência. Era como se Charlie estivesse se agarrando a algo que sabia que não deveria, mas não conseguia evitar.

De repente, a porta do vestiário se abriu, e Nick entrou, os olhos arregalados ao ver os dois juntos. "Ai meu Deus, desculpa," disse ele rapidamente, virando o rosto. "Eu não queria interromper, só vim pegar meus tênis que tinha esquecido."

Ben se afastou de Charlie com uma expressão de puro pânico. "Nick, você não viu nada!" gritou.

"Relaxa, eu não vi nada," respondeu Nick, levantando as mãos em sinal de rendição. "Eu juro."

Ben avançou um passo, a expressão transformando-se em raiva. "Se você falar para alguém, eu te mato!"

"Calma, eu não vi nada," repetiu Nick, saindo apressado.

Assim que a porta se fechou, Ben virou-se para Charlie, visivelmente nervoso. "Isso é culpa sua!"

Charlie o encarou, surpreso e confuso. "Minha? O que eu fiz?"

"Você e seu sentimentalismo de viadinho!" cuspiu Ben, as palavras saindo com veneno.

Charlie sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. "O que você disse?" Sua voz tremia de raiva e dor.

Ben continuou, a voz vacilando. "Todo mundo vai falar de mim agora. Eu vou ser como..." Ele parou, incapaz de completar a frase.

"Como eu?" Charlie completou, a dor evidente em sua voz. "Você vai ser como eu?"

Ben balançou a cabeça, os olhos perdidos. "Não... eu não sei o que fazer." Ele parecia à beira de um colapso, os sentimentos conflituosos tomando conta de sua expressão.

Charlie deu um passo à frente, tentando se aproximar. "Eu posso ajudar, mas você precisa ser honesto com..."

"Não encosta em mim, seu viado de merda!" gritou Ben, recuando.

As palavras acertaram Charlie como uma lâmina afiada atravessando seu peito. Ele congelou no lugar, os olhos arregalados de choque e dor, enquanto o mundo ao seu redor parecia encolher, tornando-se apenas aquele momento, aquela palavra, aquele golpe. Sentiu as lágrimas queimando, mas não conseguiu evitar. Girou nos calcanhares e saiu correndo, tentando escapar da sensação esmagadora que o sufocava.

As palavras de Ben continuavam ecoando em sua mente, como um sino distante que nunca parava. “Viado de merda.” Ele as ouviu de tantas pessoas antes, mas de Ben… aquilo era diferente. Era mais cruel, mais pessoal, mais devastador. Cada letra parecia perfurar seu peito, como se desenterrassem memórias que ele havia enterrado com tanto esforço.

Enquanto corria pelo ginásio, as lembranças vieram como uma tempestade. Ele pensou no dia em que se assumiu publicamente. As piadas nos corredores da escola, os sussurros maldosos que nunca eram tão baixos quanto deveriam ser. Ele se lembrou das risadas abafadas, dos olhares de pena e das palavras envenenadas que o chamavam de algo que ele já estava tentando aceitar. “Você nunca vai ser um de nós.” “Por que ele tem que ser tão... óbvio?” Cada ofensa o atacava como se estivesse vivendo tudo novamente.

No começo, Charlie acreditou que era forte. Ele pensou que tinha superado. Ele acreditou que aguentava as provocações, que as palavras não podiam mais feri-lo como antes. Mas o que Ben disse quebrou algo dentro dele. Foi como uma facada, só que mais profunda. Aquilo veio de alguém que ele, de alguma forma, ainda se importava, ainda queria entender, ainda desejava.

Ele saiu do ginásio, o ar da noite fria batendo em seu rosto. Suas pernas tremiam, e ele teve que se apoiar em uma das paredes externas para não cair. Quando ergueu os olhos, viu a faixa preta com o corvo de asas abertas e os dizeres “VOE” brilhando fracamente sob a luz das lâmpadas. Normalmente, aquilo era um lembrete de esperança, um símbolo do que ele poderia alcançar. Mas agora parecia vazio, uma promessa quebrada.

A respiração vinha em soluços dolorosos, e ele deixou as costas escorregarem pela parede até estar sentado no chão frio. Sentiu-se pequeno, menor do que nunca, como se fosse invisível até mesmo para si mesmo. Ele abraçou os joelhos, os olhos fixos no corvo, esperando que algo dentro dele mudasse, mas não mudou. Ele não sentiu nada além de um vazio esmagador.

“Por que dói tanto?” ele murmurou para si mesmo, a voz engasgada. Ele pensava que as coisas tinham melhorado, que ele tinha superado as partes mais difíceis de ser quem era. Mas ali, sozinho sob aquela faixa, ele percebeu que algumas feridas nunca cicatrizavam completamente.

E naquele momento, Charlie não queria mais tentar ser forte. Ele só queria desaparecer.

Notas finais
E assim encerramos mais um capítulo, talvez um dos mais difíceis de escrever até agora. Este momento na história de Charlie é doloroso, mas também muito significativo. Ele nos mostra como relacionamentos tóxicos podem ser devastadores, especialmente quando combinam manipulação emocional, preconceito internalizado e palavras cruéis que deixam marcas profundas. Ben é um personagem complexo, lutando com suas próprias inseguranças e medo de aceitação, mas isso não justifica suas ações e o impacto que têm em Charlie. Esta é uma história sobre superação, sobre como é possível se reerguer mesmo quando tudo parece desmoronar. Se você já passou por algo parecido, quero que saiba que você não está sozinho. Relacionamentos tóxicos não definem quem você é, e existem pessoas e espaços prontos para oferecer apoio e amor genuíno. Para Charlie, este é apenas um capítulo em sua longa jornada de autodescoberta e força, e espero que vocês continuem acompanhando esse caminho com ele. Muito obrigada por lerem, e estou ansiosa para saber o que acharam! Até o próximo capítulo. 💕 Com afeto, Bia. 🌈