Matando & Amando
1 O Garoto Que Não Ri
Notas iniciais
O despertador toca indicando às 5 horas da manhã. O garoto desperta e mesmo hesitante senta da cama com um olhar cabisbaixo.
Olhou pela janela, a cidade estava cinzenta, meio chuvosa, mesmo que não chovesse a tempos. Aquilo só o deixou mais aborrecido, isso e o simples fato de estar naquela casa. Queria poder deitar e dormir um pouco mais – Riu com escárnio, Como se aquilo fosse uma opção. Levantou: Seus cabelos escuros cobrindo os olhos, o corpo magro acobertado por simples roupas velhas e suas pantufas surradas.
Com olhos ainda mareados da sonolência e com seus cabelos desgrenhados, o garoto inicia suas obrigações matinais.
Por incrível que pareça, ele até que gostava de cozinhar, mas fazer aquilo por obrigação e ainda mais pra todos da casa, lhe tirava todo o prazer em fazê-lo.
João era um garoto simples, de 16 anos de idade. Órfão de pai e mãe, ele morava com seus tios e primos de parte de mãe em uma enorme casa no interior da cidade de Laguna.
Infelizmente, seus tios, os Nóbrega, não eram os melhores tios do mundo. Na verdade eles nem chegavam perto disso. Uma família criada na base da aparência, aonde fora daquelas paredes pareciam fazer teatro, com o papel de família feliz, mas dentro de casa a história era outra.
João era feito de gato e sapato por aquela família. Todos os serviços domésticos eram de sua incumbência e a senhora Gertrudes garantia com punho de ferro pra que isso acontecesse.
Seus primos, Maria, Carlos e o José, não lhes tinha o mínimo de consideração.
Por todos ali na casa, ele era tratado como um mero empregado, ou melhor, um servo, no qual existia pra cumprir as ordens que lhes davam.
Após aprontar o café da manhã ele ainda tem que se aprontar pra ir a escola. Tomar banho e se arrumar se tornou a sua prioridade naquele momento, entretanto ele não havia contado com o que haveria em seu caminho.
Maria já havia saído do banho e estava em seu quarto se arrumando, Carlos havia acabado de sair do banheiro e José estava entrando.
— Seu inútil! — disse o Carlos enquanto agredia o João com a toalha molhada — Por que não nos acordou?! Olha como estamos atrasados!
— Mas eu tentei! Passei por cada um de seus quartos, mas vocês não quiseram me ouvir, então eu fui fazer o café.
— É bom que você não tenha entrado no meu quarto, ou eu digo pro papai! — ameaça Maria aos berros de dentro de seu quarto. Irritante.
— Isso não interessa! A culpa já é sua! — diz o Carlos empurrando o João contra a parede e indo pro seu quarto.
— Como é que você ainda deixa que ela fale assim com você? — Murmurou alguém no qual não se dava pra ver.
João revida ou diz alguma coisa, conformado, ele sabe que aquilo não ia adiantar em nada.
Ele também parecia ignorara estranha presença.
Todos naquela casa o tratavam como lixo. Suas reclamações só iriam voltar-se contra ele mesmo.
— Pronto! Já acabei! É bom que o café de hoje não seja a mesma porcaria do de ontem. — ameaça o José saindo do banheiro enrolado em sua toalha.
— Novamente, eles continuam a te humilhar e você não faz... Nada... — E novamente João escuta a voz rouca e um tanto quanto irônica dessa vez.
Já eram 6:16 da manhã quando o João foi tomar banho com a água gelada, pois o José tinha usado toda a água quente.
A aula começava sempre as 7:15 e como eles moravam em um sitio a alguns quilômetros do centro da cidade, um ônibus escolar passava para recolher todos os alunos daquela região, sempre as 6:40.
João tomou seu banho rapidamente e correu pra se arrumar. Vestiu seu uniforme cinza com algum símbolo pouco importante, uma camiseta de mangas longas e a calça mais escura, e desceu as escadas dando pra cozinha.
Os três já haviam saído e apenas o senhor e a senhora Nóbrega estavam na mesa fazendo o desjejum.
O garoto foi comer na cozinha, afinal ele não era bem vindo à mesa junto com seus tios.
6:47 o ônibus já havia passado e ele ainda estava arrumando a casa e lavando a louça do café da manhã.
Ele não foi liberado até acabar todo o serviço doméstico matinal.
7:43 ele chaga até os portões da escola, cansado de ter andado por alguns quilômetros.
— Ainda não entendo o porquê que você ainda insiste em vir aqui. — João percebe vagamente a presença que está logo atrás à sua esquerda, olhando pelos cantos dos olhos, mas virando em direção contrária, ele continuava negando aquela existência.
A escola era grande, tanto que já chegara a se perder por lá anos antes, mas já havia se acostumado, se bem que não conhecia nem metade do lugar. Algumas salas eram bem estruturadas, outras não. Não encarava as paredes descascadas como um problema, realmente.
Ele entra na sala e o professor continua a dar a explicação como não se importasse com a presença repentina do aluno atrasado.
João caminha até o final da sala. Ele sempre sentou no final da sala próximo a parede. Era como se aquele lugar isolado fizesse parte dele.
Aonde quer que se olhem os outros mantinham uma carteira de distância dele. Sim, ele não tinha amigos ou qualquer coisa que se assemelhasse a isso.
Se dentro de sua própria casa ele era atormentado, ali naquela escola era muito pior.
A escola, um lugar sagrado aonde se propaga e desenvolve o conhecimento, parecia mais o purgatório em sua visão.
Próximo de alcançar a sua carteira um pé surge, fazendo-o tropeçar e cair no meio do corredor das cadeiras enfileiradas. Todos riem de deboche, até mesmo o professor, que ainda sim se mostra enfurecido por ter sido atrapalhado em meio a sua aula.
João sentasse de cabeça baixa, humilhado, tentando abafar o som das risadinhas que ainda ecoavam no ambiente.
— Mais que patético! Sinceramente não sei quem é mais patético, você ou esses idiotas.
A aula caba e o professor sai de sala. Normalmente outro professor deveria entrar imediatamente pra começar a segunda aula, mas como o ano letivo tica acabado de começar, alguns professores tinham a mania de faltarem os primeiros dias, então provavelmente a segunda aula ia ser vaga.
— Hey! Esquisito! Como é que você conseguiu passar de ano?! Por acaso fez uma “chamada oral” como o professor?! — perguntou o pior garoto da sala, Cezar Augusto Máximos Junior, ou Cezar jr como era chamado. O enxergava como uma pessoa comum, apenas mais besta que o natural naquela escola, cabeça raspada e aparentava mal lavar o rosto pela manhã. Patético.
Os outros alunos começaram a rir da piadinha de mau gosto do Cezar, enquanto João ficou apenas calado.
Cezar era filho do prefeito da cidade de Laguna e sabia bem como usar de sua influência. Ele tem 17 anos e só está no segundo ano porque reprovou a sexta série.
João olha para o lado e vê em sua frente pelo lado esquerdo, a sua linda amada, Thais Lima dos Santos, sua eterna paixão.
Era uma garota encantadora, loira, corpo escultural e o sorriso brilhante e alegre, mesmo quando o zombava, não pode deixar de notar. Geralmente usava um batom vermelho-carmim, o que lhe caia muito bem.
Ele gostava dela muito antes do ginásio. Na segunda série ele se confessou pra ela, mas a Thais o ridicularizou na frente de toda a turma, desde então, ela sempre arruma um jeito de pisar em seus sentimentos em toda oportunidade. O porquê ela fazia aquilo, isso ninguém sabia.
Nunca se importou em ser ridicularizado, na verdade, estava acostumado o bastante para não se sentir assim tão afetado, ao menos não tinha que lavar a louça ou roupas de Thais. Sempre arriscava um diálogo rápido, palavras mal escolhidas que podiam levar a uma conversa animada, mesmo que não fosse de seu feitio.
– Thais...? – Falou alto o bastante para que só ela o escutasse, a voz saiu mais rouca do que deveria. A loira virou-se em sua direção, o olhar aborrecido, querendo voltar a papear com as amigas. E com o cenho franzido ficava ainda mais fascinante, como se sugasse todo o brilho para si. Gaguejou. – O... Olá.
— Francamente você é o pior... — a voz estridente denotava um tom um tanto quanto irônico, no entanto João ainda sim o ignorou.
– O que você quer? – Proferiu, rosnando. A voz era gostosa, suave e clara o bastante para dar-lhe a liberdade de imaginá-la gemendo deliciosamente. O vermelho-carmim em contato com a sua pele, os cabelos louros enroscados entre seus dedos... – Que cara é essa? Perdeu alguma coisa por aqui?
Oh! havia se distraído.
E quando se deu conta, havia perdido sua fantasia quando os lábios carmim voltaram-se para as outras meninas, falando freneticamente. Enquanto estava lá, tentando agarrar aqueles pensamentos de volta, mas não conseguia.
— Não acredito que deixou essa puta fazer o que queria novamente...
Dessa vez João pareceu aborrecido pelo que a tal aura sombria havia dito.
As aulas eram integrais, então eles só largavam às 17 horas. Às 17:10 o ônibus escolar levava de volta todos os alunos em seus respectivos pontos próximos a suas casas.
Pontualmente os quatro chegavam em casa as 17:40 e se algum deles se atrasassem a culpa sempre recaia pro João, típico.
Seus primos foram na frente, deixando suas mochilas carregadas com livros para o João carregar.
Próximo de casa ele viu uma coisa incomum. A casa abandonada que era no terreno vizinho não parecia mais abandonada. Um caminhão de mudanças estava estacionado frente à casa, enquanto uma movimentação de alguns homens transportavam os móveis pra dentro do imóvel.
Ele andava enquanto acompanhava a movimentação da casa ao lado. Olhando praquele lado acabou vendo alguém sair de dentro da casa. Era uma garota, mas não uma garota comum. Parecia ter saído daqueles filmes de suspense, até por que seu semblante não era dos melhores. As madeixas negras desciam até suas costas e a franja cobria quase todo seu rosto, mas podia ver bem de alguns ângulos, rosto fino, pálido, extremamente pálido. Suas roupas eram assim como ela: escuras e surradas e seus olhos lhe passavam uma sensação adventícia.
Ah, e os lábios... Eram de uma cor escura, não soube qual, talvez preto ou roxo... Lábios roxos, algo novo. Aquela garota era como um murro em seu estomago.
Em um rápido relance de poucos milésimos de segundos, seus olhares se cruzaram, congelando o tempo e deixando aquele momento quase interminável. Era como se aqueles dois estivessem conectados com apenas um único olhar. Institivamente ele desviou o olhar e continuo-o andando.
“Com certeza ela não era dali...” — pensou o garoto enquanto seguia seu rumo.
Ao se deitar após o jantar, ou melhor, arrumar toda a casa e finalmente se deitar, João pensa sobre o seu dia. A angustia desespero tomam conta de sua mente ao pensar que amanhã ele terá que fazer tudo de novo.
Ou algo a mais, talvez.
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