Matando & Amando
2 Nas Garras Da Fera
Um mar de luzes tão fortes que fariam os olhos de qualquer um doerem acabava com qualquer tentativa de percepção de que lugar era aquele. João pôs suas mãos frente aos seus olhos, tentando amenizar a claridade excessiva.
Uma forma feminina se projeta a sua frente. A princípio, ele não tinha certeza se era realmente uma mulher apenas pela sua silhueta, mas ao ouvir sua voz firme e suave ele logo teve a certeza.
Sua voz era firme e dominante, como se tentasse com empenho transmitir claramente a mensagem em suas palavras.
– Tenha cuidado... Muito cuidado... – disse a tal mulher, sua voz era calma e tortuosa o bastante para se considerar censurável, de alguma forma.
– Quem é você?! O que é isso aqui?! – perguntou o João todo confuso.
– Tenha cuidado... Meu filho... – e assim a imagem que já não era nítida, as curvas transformando-se num borrão qualquer, desapareceu diante da luz intensa.
Um enorme estrondo é feito com a abertura violenta da porta.
João desperta de seu sonho ou pesadelo. Ainda com sua visão turva por ter acabado de acordar ele olha em direção da porta.
Passos firmes e violentos ecoavam pelo chão de madeira de seu quarto, se aproximando cada vez mais de sua cama.
João abre bem os olhos pra tentar ver quem estava diante dele, mesmo tendo problemas em sua visão.
A imagem rápida de um punho se aproximando ironicamente parecia em câmera lenta na visão do garoto, que não teve outra sina a não ser, ser golpeado em seu olho esquerdo.
O soco foi forte e preciso o suficiente para causar um pequeno corte milímetros abaixo da sobrancelha.
João urrou de dor, colocando a mão esquerda no olho afetado. Encolhendo-se e sentando-se com as costa na cabeceira da cama, o garoto tenta se proteger de possíveis agressões que ainda podiam vir.
– Seu imbecil! Sabe que horas são?! Quase sete! – disse o Carlos jogando o despertador que estava encima da cômoda, atingindo as pernas de João.
– O quê?!
– Não dê uma de idiota! Por que não nos acordou?! Por que ainda estava ai deitado e não foi preparar o café?! – disse, ou melhor, o Carlos esbravejou furioso com seu pobre primo.
Mais uma vez, a porta bateu fortemente, só que dessa vez foi causado pelo Carlos ao sair.
O garoto, ainda com a mão no olho e choramingando de dor, pega o despertador e percebe que estava sem a pilha palito. Sem aquele despertador funcionando seria quase impossível ele acordar na hora, afinal todos os dias ele se deita morrendo de cansaço e se levanta muito cedo.
Voltando-se ao criado mudo ao lado da cama, estendendo a mão para pegar seu óculos, ele ficou apavorado ao perceber que havia um mar de trevas cobrindo toda a parede de seu quarto. Serrando os dentes ele tenta se acalmar e não pensar no que poderia ser aquilo, no entanto um enorme calafrio percorria o seu corpo como um beijo da morte.
Mais uma vez ele nega aquela realidade... afinal admitir que aquilo pudesse existir, seria admitir que sua sanidade já o havia abandonado.
Descendo as escadas até a sala de jantar, ainda vestido com seu pijama e dando de cara com uma cena impagável. A senhora Gertrudes indo da cozinha pra sala de jantar trazendo comida feita por ela mesma.
Boquiaberto João continuou andando até a mesa. Seu tio já estava sentado à mesa, assim como os seus primos que estavam super apressados em comer e dar o fora dali.
– Por que ainda está de pijama? E o que foi isso em seu rosto? – perguntou o Sr. Nóbrega.
O garoto rapidamente colocou a mão em seu olho machucado, totalmente envergonhado e olhou diretamente para o Carlos com um olhar de medo – Não foi nada – respondeu João.
O Sr. Nóbrega olhou pro garoto, em seguida pro seu filho mais velho, com o olhar cerrado – O que foi que houve? – disse com uma voz ríspida.
– Não foi nada pai. Não ouviu o que ele disse? Não aconteceu nada, nós só estávamos brincando, não é meu primo querido? – Carlos olha o João com sua expressão peculiar, um olhar malévolo e um sorriso cruel.
João apenas olha pro lado e acena com a cabeça confirmando a mentira. Ele sobe as escadas e se apressa em se arrumar.
Alguns minutos depois ele desce as escadas. Pra sua surpresa, ou melhor, pra constatar aquilo que ele já pressentia, não havia mais nada pra ele fazer o seu desjejum, típico.
Sua fome foi alimentada pela ira e dor que sentia. Isso lhes deu forças ao caminhar todo o percurso até a escola.
7:48 ele se depara com os portões de seu purgatório particular. Entrando de uma vez na sala, ele tenta ir o mais rápido que pode pra não tornar aquilo mais constrangedor.
– Ora, ora, ora... Será que minha aula é tão chata assim pra que não cheguem na hora? Primeiro o senhor Nóbrega, depois o senhor, senhor Legari. – nesse momento João olha direto pro Carlos que estava sentado mais adiante do outro lado da sala – Que tipo de exemplo vocês querem dar pra nossa nova aluna? – conclui o professor deixando todos intrigados com a novidade.
Foi então que ela entrou, não uma garota qualquer, isso se dava pra notar. Os mesmos lábios carnudos e roxos, olhos cintilantes cobertos pelo cabelo extremamente negro, as roupas surradas e aqueles coturnos que ele imaginou serem grandes demais para os pés da garota. Oh, sim, a pele era alva, era possivelmente a pessoa mais clara que já havia visto.
Todos ficaram meio que boquiabertos acompanhando-a com o olhar até ela se sentar. Era impressionante como ela parecia uma boneca, seu estilo gótico totalmente chamativo, o que deixava bem claro de que ela era de fora da cidade. Seus olhos azuis claro quase esverdeados, ela fazia questão de sacar um olhar cerrado, sentou relaxada, colocando as mãos em cima da carteira e cruzou as pernas roliças. Seu semblante era mais indiferente que o necessário, exalava uma superioridade incomum.
Uma tensão pairou no ar, ela continuava olhava fixamente para frente ignorando a todos.
Enquanto uns a olhavam com curiosidade, outros com até com um olhar de repulsa ou medo, Thais a olhava com um ar de nojo e até uma certa inveja, afinal alguém estava chamando mais atenção que ela própria.

O professor interferiu pro bem de todos ali, e então a aula seguiu. Os cochichos e risadinhas se espalhavam por toda a sala. Pela primeira vez João agradeceu por não ser o alvo. E ela não parecia se importar nem um pouco, não devolvia olhares irritados ou parecia matá-los mentalmente, olhava para frente e escrevia algumas coisas no caderno, e só.
Ele também não resistiu olhá-la, mesmo estando tão distante dela. Lembrou-se imediatamente que aquela era a mesma garota de outro dia que, aquela que tinha se mudado pra casa abandonada.
As três primeiras aulas se foram, ficando o primeiro intervalo. Como sempre, já não era de se estranhar que ele fosse se refugiar na única parte aonde ele era bem vindo, a biblioteca.
Pra alguém sem amigos e cheio de pessoas que não vão com a sua cara, a biblioteca era a escolha perfeita para aqueles que eram excluído que qualquer grupinho de amizades. Aquele era o seu santuário particular.
Pegou seu lanche na cantina e foi direto pra lá.
Sentou-se no chão, num canto entre ultimas prateleiras de história e geografia, e começou a comer.
Era até cômico a forma que era excluído de qualquer grupo, até mesmo dos geeks e dorks que eram os que mais se identificavam com ele, bem, não se achava nem razoavelmente inteligente, mas aqueles levavam isso muito a sério para ele poder se socializar adequadamente.
Os outros ‘bandos’ não chegava a considerar, levando em conta que eram constituídos por aqueles que azucrinavam os outros e agrediam sem motivo algum, aquilo definitivamente não combinava com sua personalidade. Mas, por outro lado...
Ele comeu rapidamente, vendo que ainda tinha tempo sobrando, levantou-se e foi até a sessão infantil. Lá ele pegou algumas histórias em quadrinhos, empoeiradas de tão velhas, deu meia volta e foi se sentar em seu lugar favorito.
Quando estava próximo a chegar nas ultimas prateleiras e alcançar seu esconderijo, usando a sua visão periférica ele pôde ver a aluna nova, mesmo que por alguns segundos.
Parou imediatamente o passo seguinte que daria e voltando em macha ré, comprovou que ela estava lá realmente.
“A aluna misteriosa estava no recanto dos excluídos e isso em seu primeiro dia de aula” – pensou João.
Ele continuou a observá-la por detrás da grande estante. Ela estava com fones de ouvidos plugados no celular em sua mão esquerda, enquanto ela estava parada no meio do estreito corredor com um livro aberto em suas mãos.
João olhou pra cima e viu que ela estava na sessão de história antiga. Aquilo o deixou mais curioso ainda, afinal história antiga era uma das matérias que ele mais gostava.
Com o tempo, a garota sentiu que estava sendo observada. Olhou pra direção que sua intuição lhe alertava, mas quando se virou não havia ninguém lá. Segundos antes, o João havia se retirado, seguindo seus instintos.
As aulas seguintes vieram, dava-se pra notar que quase todos na sala queriam se aproximar dela, mas ninguém parecia ter coragem o bastante. Seu olhar frio e sua postura lançavam uma aura tão densa que ninguém ousava manter algum contato. Nem mesmo aqueles mais extrovertidos.
E assim as outras aulas vieram e se foram. Por mais que algum professor tentasse puxar algum papo com a novata, era totalmente ignorado, disfarçando com um riso forçado, João achou aquilo engraçado.
O segundo intervalo veio e João foi correndo pra biblioteca na esperança de encontrá-la por lá.
A ingenuidade do pobre garoto em contar com a sorte que nunca lhe ajudara, só lhe trouxe decepção. Ela nem se quer passou por lá, suspirou.
Na volta pra última aula ele se depara com ela vindo em sentido contrário em direção a entrada da sala. Ele foi andando timidamente, olhando-a nos olhos. Ele não soube o porquê, mas ao contrário dos outros ele não tinha medo de encará-la. Ela também, não tirava os olhos dos dele. Pareciam estarem meio que hipnotizados. Talvez estivesse planejando formas de me torturar também – Pensou.
Próximo da porta, João foi agarrado de surpresa, sendo puxado para trás.
Olhando, completamente assustado, João percebe que está em sérios apuros.
– João! Meu amiguinho! Poxa cara! Aconteceu tanta coisa hoje que eu nem pude falar com você... – disse o Cezar com um olhar malicioso pro João que estava em seus braços. Olhando pra novata ele se vira de volta pro João – Conversamos outra ora... – disse no ouvido do garoto, lambendo o lóbulo de sua orelha e mordiscando, João tremeu um pouco e isso fez Cezar sorrir, satisfeito, e soltando-o foi com seus quatro capangas pra dentro da sala. Cezar era como um estuprador sádico que fazia questão de evitar, mas sempre acabava dando de cara com o careca. Chegou a pensar algumas vezes sobre como Cezar agia consigo, mas resolveu não concluir nada. João olho para o Carlos e logo em seguida abaixou a cabeça. Saber que seu primo era um dos ajudantes de seu pior inimigo era angustiante.
A estranha garota não demorou muito a entrar na sala, levantando-se João fez o mesmo.
No meio da aula a novata se levantou e saiu.
A aula tinha acabado, mas seu tormento ainda não. O tempo em que ele ficou na sala, ficou atormentado com as palavras do Cezar.
O sinal soou e todos foram saindo da sala, menos o João e a novata tinha acabado de voltar de algum lugar. A garota pegou suas coisas, mas ao contrário do normal ela acabou se sentando.
Ela estava imóvel, na mesma posição em que ela estava desde que tinha se sentado da última vez. O brilho da luz alaranjada do sol se pondo, que passava pela janela, inundava a sala. Ele sabia que uma hora ele teria que partir.
Colocou sua mochila nos ombros e saiu da sala dando uma última olhada pra trás e constatar que a garota ainda estava lá sentada.
“Isso não é problema seu...” – pensou João saindo da sala.
O sol estava sumindo rapidamente, logo já seria noite e como de costume ele sofreria por chegar tarde em casa. Caminhando por uma estrada de terra, ele apertou o passo quando pensou no que lhe poderia acontecer ao chegar tão tarde.
Alguns latidos ao fundo o tiraram de seus devaneios. Olhou mais adiante e não gostou nada do que acabou vendo.
– Nossa! Achei que você ia morar lá no colégio! Nunca mais nos faça esperar, ta me ouvindo?! – grita o Cezar com seus capangas ao longe.
João para e recua dois passos. Algo lhe dizia que aquilo não ia acabar bem...
– Olha! Esse aqui é o meu bichinho, o Satã! – Riu como o sádico louco que era – Sabe, eu fiz ele ficar sem comer por dois dias, então se não se importa, gostaria que VOCÊ o alimentasse bem...– E mais uma vez riu diabolicamente enquanto soltava a guia do animal abominável.
O cão era de grande porte, apesar de não ser de raça, dava-se pra notar os traços da raça Pitbull e Rottweiler, nas quais seriam as prováveis raças que lhe deram origem.
A fera no momento em que foi solta correu violentamente na direção do pobre garoto. Espuma e salivas saiam de sua enorme boca aberta, na qual se dava pra ver seus enormes dentes afiados.
Os batimentos cardíacos do garoto se aceleraram no momento em que percebeu a grande ameaça vindo em sua direção. Ele não pensou duas vezes, apertou as alças de sua mochila o máximo que pôde, deixando-a o mais rente ao seu corpo possível e começou a correr, só que pra fora da estrada de terra. Usando as arvores que ficavam em boa parte do encostamento, João adentrou na mata.
Infelizmente o cão ainda o perseguia ferozmente.
João era um garoto muito franzino, o único atributo que ele possuía era a sua capacidade de correr que realmente era de se admirar.
Galhos e folhas batiam em seu rosto, chegando até a causar alguns arranhões em seu rosto e braços, mas ele não parou.
João estava ofegante, tanto é que seu óculos ficou com as lentes embaçadas, dificultando assim ver o que estava adiante.
Ele corria, pois sabia que sua vida dependia daquilo. Suas pernas se tornavam cada vez mais pesadas diante do cansaço. Por vezes ele quase tropeçou devido às raízes das arvores e buracos coberto pelas folhagens.
Olhando para trás ele viu que o animal estava para alcançar e ai então o pegou de surpresa. Sem olhar pra onde ia, acabou caindo em um barranco, dando cambalhotas até o final. Caiu sentado, seu uniforme estava imundo e seus braços e rosto estavam sujos de lama.
As escoriações eram mínimas se comparado com a forte dor em seu pé direito.
O animal por fim havia parado mesmo que por alguns instantes. Parecia que ele estava procurando uma forma segura de descer e capturar sua presa.
Olhando pra animal que rosnava e latia furiosamente em sua direção, João foi tomado pelo desespero. Sem poder correr e fugir o confronto com o terrível cão era certo.
João começou a chorar em meio a sua desgraça. Começou a se recordar que muitas vezes desejou morrer, mas partir daquele mundo de uma forma tão patética quanto aquela, amargurou seu coração só de pensar. Entretanto, sua chance estava ali. Sua chance de terminar de uma vez todo o seu sofrimento estava bem diante de si. Ele não teria que sofrer os frequentes abusos de seus tios, primos e colegas de classe, principalmente.
Foi então que veio em sua mente a imagem destorcida do sonho que tivera. Ele não soube como aquilo foi parar em seus pensamentos numa hora daquelas, mas estranhamente aquilo lhe deu força, fez com que ele negasse seu triste fim.
O cão, tomando coragem, pulou no barranco e com o impulso de suas patas ele desceu rapidamente.
Olhando em volta, João procurava algo que ele pudesse se defender em seus poucos segundos em que lhe restavam. Em vão.
A besta feroz o atacou pulando por cima de seu tórax, mordendo o braço esquerdo ferozmente.
João gritou de dor e desespero. A dor dilacerante da potência da mordida o fazia pensar se ele teria seu braço arrancado.
Sua mente se esvaia, ele estava perdendo os sentidos. Seus olhos mareados das lagrimas de dor, ele olhava para cima já sem completa esperança.
— Vamos garoto... você quer mesmo acabar desse jeito patético? — diz um ser que brota das trevas daquela mata. Não, se bem que é bem a sua cara. Um cara patético, com uma vida patética e agora com uma morte patética!
A estranha presença toma forma de uma silhueta mais detalhada, entretanto ainda abstrata. Dá-se para perceber seus braços, pernas e meramente o resto de seu corpo, como se aquilo não passasse de um amontoado de massa escura. Sem dúvidas aquilo não se poderia dizer que era humano, embora ainda sim falasse.
— Não, se bem que é bem a sua cara. Um cara patético, com uma vida patética e agora com uma morte patética! Vamos garoto, eu vu e dar uma ajuda, entretanto eu vou quer algo em troca... agora só lhe resta escolher... morrer aqui ou continuar com sua vidinha patética...
Já não lhe restava muito tempo de consciência, as palavras pronunciadas daquele estranho ser no qual sempre tentou negar a existência agora lhe parecia a sua única salvação. Mesmo sabendo que aquela poderia ser a fuga mais rápida de todos os seus sofrimentos, seu corpo institivamente gritava pela sobrevivência. Ao fechar os olhos ele apenas sussurrou algumas palavras antes de perder a consciência “se minha vida é tão patética... então eu quero muda-la...” – segundos depois ele foi envolto pela escuridão e quando seus olhos abriram, João não era mais o mesmo.
Com a mão direita livre ele achou uma pedra, nem se quer deu a chance de pensar e tacou-a contra a cabeça do animal. Assim o fez repetidas vezes até que enfim a fera larga seu braço. Ele levantou o mais rápido que pôde mesmo com o seu pé direito machucado. Percebeu que sua mão direita estava suja de sangue, assim como o seu antebraço esquerdo no qual havia levado a mordida. Aquilo o fez pensar o que teria acontecido se o cão tivesse o mordido no pescoço.
Ainda mancando ele viu um pequeno galho de árvore ao chão. Olhou pra trás e viu que o animal ainda estava atordoado mesmo com as pancadas que ele recebeu, mas que ainda poderia viver. Pegou o galho e deu meia volta a pequenos passos.
Com um olhar de raiva e instigado pela adrenalina do momento, ele segurou o galho com as duas mãos e com a parte pontiaguda golpeou o animal, estilhaçando sua carcaça e atravessando-a quase completamente.
Ele ficou naquela posição por mais de um minuto, ainda aplicando a mesma força no galho que agora estava fincado no cão.
Com grunhidos e urros, a vida se esvai junto com o sangue que foi derramado, deixando os olhos brilhantes da fera, agora opacos.
Após constatar a morte da abominável fera, João se levantou vitorioso. A sensação de estar vivo e de ter vencido o seu inimigo foi tão instigante que entorpeceu seus sentidos, fazendo-o esquecer da dor. Toda a fúria em seus olhos desaparecia e ele caia em si aos poucos.
Ele olhou pra cima do barranco e percebeu que algo estava lá. Uma silhueta de alguém de preto. Não conseguiu ver claramente, pois já tinha acabado de desaparecer dentre as árvores.
O sol já estava pra se pôr, dando seus últimos raios. Logo mais seria noite. Pensando nisso, João começou a andar. Por sorte, ele conhecia muito bem aquela região e já que estava no meio da mata, cortar caminho seria muito mais fácil e vantajoso. O que Cezar faria com ele depois não era o foco de seus pensamentos, na verdade, seu foco era chegar em casa e arrumar alguma desculpa.
Pouco depois de finalmente escurecer, João chega em casa pela porta dos fundos. Pegou um pano qualquer e enrolou em seu antebraço esquerdo.
– O estava fazendo chegando á essa hora?! – pergunta a senhora Gertrudes aparecendo do nada.
João, assustado, olha pra sua tia e com um olhar cabisbaixo ele acaba por inventar uma desculpa.
– Eu cai.
– Como assim caiu? O que são essas folhas e lama por todo o seu corpo? Você está imundo! Como conseguiu ficar tão imundo assim?
O garoto continua com o olhar cabisbaixo, ele sabia que a verdade não lhe traria boa coisa.
– Eu cai na floresta... – ele diz continuando com sua mentira. Bem, não era tão mentira assim.
– Não me interessa que tipo de briga você andou se metendo, só quero que suma já daqui pra não sujar a casa, tome um banho e desça pra servir a janta!
João acatou sua tia, ele foi pro banho, preparou e serviu a janta, assim como lhe foi ordenado.
Ninguém o questionou o porque ele estava com o braço enfaixado. Aquilo o perturbou um bocado.
Antes de dormir, ele lavou suas roupas, estendendo-as no varal no quintal da casa e trocou seus curativos. A experiência em casos anteriores o fizeram aprender a como fazer um bom curativo.
Pegou escondido um analgésico e um anti-inflamatório da gaveta de remédios da senhora Gertrudes, os tomou e foi se deitar.
Seus músculos latejavam devido à fadiga muscular. O cansaço se apoderou de seu corpo e assim ele dormiu.
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