Um peso abrupto cai sobre o corpo de João. Ele abre rapidamente seus olhos, despertando de seu enfadado sono e seus músculos doem com a pressão que aquele peso fazia, era quente.

– Bom dia, bela adormecida! – diz uma voz desconhecida próxima a sua orelha esquerda, era rouca e parecia exageradamente alegre.

João abre os seus olhos o máximo que pôde pra ver quem era realmente. Com a mão direita ele pega seus óculos de cima do criado mudo, coloca em seu rosto, ainda arranhado por conta do dia anterior e vê claramente o seu primo mais velho que estava por cima, franziu o cenho e tentou em vão empurrado para o lado.

– Shhhhhh... Fique bem quietinho! – disse o Carlos com uma voz sussurrante, colocando uma pequena faca no pescoço do João. O garoto treme só de pensar no que ele poderia fazer com aquela faca e seu pescoço, estava em uma clara desvantagem, mas ainda não entendia o porquê daquilo tudo. – Eu acho que eu não preciso dizer pra você ficar de bico fechado, não é mesmo? – disse Carlos passando a ponta da faca próximo à clavícula de seu primo.

– Sabe, João? Eu não gosto do Cezar, sério, de verdade. Infelizmente, pra conseguir algumas coisas se tem que fazer alguns sacrifícios... – Carlos desce com a faca da clavícula até o tórax, passando cuidadosamente com a conta, cortando alguns botões de seu pijama – Dividir você com o Cezar é um dos meus maiores sacrifícios, afinal você é meu! Saiba disso! – diz o garoto mordiscando o pescoço de seu primo mais novo.

– João! Por que eu não estou vendo os pratos sobre a mesa? – aos berros anuncia à senhora Gertrudes que estava subindo até o ‘quarto’ de João, Carlos prontamente deixou o pescoço deste, insatisfeito.

Na verdade, o garoto não dormia em um quarto ao certo. Aquele era apenas o sótão que ficava na parte do teto com o telhado, não era tão ruim assim, apesar de parecer um cubículo e não conseguir ficar de pé sem se curvar.

Carlos sai de cima de João rapidamente, jogando a faca para debaixo da cama do garoto e afastando-se um bocado. A senhora Gertrudes abre a porta, se deparando com os dois no quarto, ou melhor, sótão.

– O que é que está acontecendo aqui? – pergunta a mulher.

– Nada mãe. – diz o Carlos saindo do quarto e descendo as escadas.

– E você? Ainda não se levantou por quê? O seu tio já acordou e quer tomar o seu café. Não pense que eu irei ficar com a barriga naquele fogão só pra encher a sua pança. Nós te damos um teto, fizemos questão de adotá-lo com um dos nossos filhos, então o mínimo que você pode fazer é demonstrar algum agradecimento. Se não gosta daqui, a porta da rua é serventia da casa. Mas iras sair daqui só com a roupa do corpo, igual a como sua mãe te deixou quando era apenas um moleque estúpido.

O garoto abaixa sua cabeça após ouvir as palavras da velha rancorosa, sai da cama e vai se arrumar. Após um banho gelado, como sempre, o garoto volta pro seu quarto. Ele veste um suéter cinza e de malha fina, por debaixo do uniforme. As longas mangas lhes cobrem o braço, escondendo as escoriações e o pequeno curativo.

Após isso ele segue pra cumprir seus afazeres matinais, arrumar os quartos, lavar a louça e qualquer outra coisa que lhe fosse ordenado.

Milagrosamente, João consegue terminar tudo em tempo sair junto com seus primos pra ir pegar o ônibus escolar.

No ponto, que ficava a uns vinte metros de casa, ele acabou encontrando a aluna nova que também estava esperando o ônibus chegar. Não ficou tão surpreso ao notar que suas roupas ainda denotavam o seu estilo gótico, com um vestido negro tomara que caia, e sua maquiagem acentuando sua pele alva.

A carona não demorou a chegar. Havia poucos ônibus escolares, mas os que tinham sempre eram pontuais e agradecia aos céus por isso.

Maria, Carlos e José foram os primeiros a entrarem. João ficou parado frente à novata, esperando que ela entrasse. A garota não se movia, aliás os dois não se moviam. Pareciam que ambos estavam esperando que alguém entrasse de uma vez. Ela suspirou, como se dissesse para que entrasse logo por que não tinha aquelas frescuras.

João desistiu de sua cordialidade e entrou envergonhado, escolheu um lugar e sentou-se.

A garota entrou por final, o motorista fechou a porta e partiu.

Ela observou o ambiente, um pouco surpresa pelo fato daquele ônibus estar tão cheio. Nos primeiros acentos estavam às garotas que eram “patricinhas”, elas ocupavam os quatro primeiros acentos e faziam muito barulho com as suas risadinhas de deboche, revirou os olhos.

Ela pensou em se sentar no fundão, mas viu de imediato que aquela área já estava ocupada pelos que eram populares da escola. A Thais, o filho do prefeito com os seus lacaios, e outros alunos no qual deviam ser de outras salas, estavam na parte dos últimos acentos.

O resto da “plebe” ficava na parte do meio. Ela percebeu havia um lugar vazio e ai então se sentou só. Ela estava do lado da janela e havia mais um lugar vago, mas ninguém quis se sentar ao seu lado. Típico.

João estava sentado no acento mais alto, atrás da garota nova. Ele a observava, enquanto rabiscava algo em seu caderno.

Os movimentos dos cabelos daquela garota, ao vento, o deixou fascinado, tanto que teve que se conter pra não estender sua mão e tocá-los. Ao descer ele ficou bem próximo dela. João aspirou fundo, tentando sentir o perfume dos cabelos da garota, ele parecia um pervertido. É, parecia.

Ela continuou virada pra frente, olhou para o lado disfarçadamente e deu um sorriso malicioso no canto da boca, entendendo exatamente a situação. Chegando aos portões da escola e pela primeira vez no ano, chegando no horário normal, ele percebe quanta gente havia naquele colégio.

A escola não era muito grande, mas a cidade era minúscula. Não era de se estranhar a surpresa do garoto. A escola “Novo Mundo” era a única escola num raio de 17 km, então as crianças de vilarejos próximos também a frequentavam.

Passando pelo pátio lotado, João é subitamente derrubado, fazendo com que todos rissem de sua queda. O pé do Cezar, obviamente colocado de propósito, fez com que o pobre garoto beijasse o chão de concreto do pátio.

– Treinando pro seu primeiro beijo, João Ninguém? – Cezar perguntou ironicamente, seguido de uma enorme gargalhada de sua própria piada sem graça, chegava a ser estranho ser tão exagerado com tudo.

Thais se aproxima do garoto que ainda estava deitado no chão. Ele estava constrangido demais pra se levantar dali.

– Coitadinho! Você se machucou? – disse a garota mais linda de toda escola, com uma voz sensual, colocando um lápis em seus lábios carnudos pintados do mais forte vermelho. Thais usava uma minissaia curtíssima e o uniforme do governo estava modificado com um enorme decote, mostrando seus belos e voluptuosos seios que quase escapam de seu sutiã.

Ela estava agachada, de frente pro garoto. Sem graça, o garoto não sabia se continuava olhando para aqueles enormes peitos ou se tentava achar uma brecha para ver a calcinha da garota, resolveu arriscar.

Thais percebeu o olhar do garoto. Maliciosamente ela se abaixou mais, quase encostando se busto na face de João. Ele ficou vermelho de tão envergonhado com aquela situação. Ou melhor, ficou vermelho por estar na frente de todos e algo crescer em sua calça naquele momento. Ouvir Cezar bufar, infeliz, e se retirar do corredor.

O sinal soou, anunciando a todos os alunos pra entrarem em suas respectivas salas.

– Pena... Não vou poder te ajudar agora. – disse a maliciosa garota com uma voz triste – Não posso perder meu tempo com um João Ninguém como você! – disse agora com uma voz cruel e ríspida, levantando-se e indo embora.

Apesar de todo o barulho dos outros, ele só conseguia ouvir o soar do salto alto da garota que ele ingenuamente gostava.

Ele se levantou, colocou suas coisas em um dos armários escolares que não eram marcados. Ao fechar a porta do armário, ele se deparou com a garota gótica que estava parada ao seu lado. Aquilo o assustou até a espinha, ele não esperava mesmo por aquilo.

Ela continuava com seus fones de ouvidos e parecia não ligar pras reações de quem estava ao seu lado. Não teve coragem pra puxar alguma conversa com ela. Sem graça, ele se dirigiu pra sala de aula.

A classe estava cheia, já era o terceiro dia de aula, então os alunos que não vinham antes começam a vir. A aula parecia ser vaga. Sua carteira estava ocupada, aquilo o deixou aborrecido, afinal aquele era o seu canto, longe de todos os outros.

Só havia algumas cadeiras ao centro da sala. Ele odiou aquilo, mas se encaminhou pra um acento mais próximo. Cezar estava sentado em cima da mesa do birô, enquanto os outros grupinhos estavam conversando.

João estava no centro de todos, mas apesar disso ele estava só.

A garota nova finalmente entrou na sala.

– Finalmente! Nossa eu já estava cansado de esperar, viuvinha! Ou melhor, Helena Monte Reis. – disse o Cezar com uma pasta de arquivo em suas mãos.

Ela se vira de imediato olhando seriamente pro garoto que pronunciou seu nome.

– Ora, ora, ora! A filha pródiga a casa torna! Não é cômico pessoal?! A nossa aluna nova, na verdade não é tão nova assim. Ela nasceu aqui, em Laguna, assim como nós. Pelo que eu vejo aqui, sua família teve que se mudar daqui por motivo de força maior... Humm... Muito suspeito isso! – colocou a pasta frente ao rosto deixando seus olhos serrados e maliciosos a amostra.

– Então essa esquisita com ar de superioridade é tão caipira quanto qualquer um de nós?! Mas que piada! – disse a Thais da forma mais sarcástica que pôde.

– “Agressão, DROGAS, linguagem imprópria, pichações, roubo, danos ao patrimônio público e particular, expulsa de mais de três escolas incluindo um internato pra garotas...” nossa garota! Seu histórico escolar parece mais uma ficha policial! – riu mais uma vez de seu próprio trocadilho, assim como os outros que o seguiam riram também.

O professor enfim apareceu na porta da sala.

Sua expressão calma deu lugar a um sorriso no canto da boca, como se dissesse “E daí?” Então ela deu meia volta foi se sentar um pouco afastado do João.

O Cezar saiu de cima do birô e também foi se sentar assim como os outros. A aula seguiu normalmente, ao menos pra maioria dos outros alunos. João rabiscava em seu caderno, enquanto olhava para a Thais que estava sentada logo mais à frente.

O primeiro intervalo chegou finalmente. Ele correu pro seu recanto como de costume.

Quando estava caminhando pro seu esconderijo secreto, ele parou subitamente. Lembrou-se do dia anterior, precisamente sobre a novata que estava parada no mesmo corredor em que ele ia passar. Ele decidiu entrar. Deu alguns passos, até chegar onde ela estava anteriormente. Puxou um livro aleatoriamente que estava a sua frente e o abriu. Aquele corredor era justamente o de História antiga, então não era de nenhuma surpresa descobrir que aquele livro era sobre história.

Folheou algumas páginas e pelas gravuras percebeu que era exclusivamente sobre a Idade Média, coisa que ele também gostava muito.

As gravuras eram um tanto quanto grotescas, variando desde pessoas queimadas nas fogueiras, pessoas sendo torturadas até anjos e demônios. Ele colocou o livro de volta na prateleira da estante e virando-se acabou vendo a tal Helena passando rapidamente pela entrada do corredor.

Ele tentou segui-la, mas não a viu mais depois dali. Pensou até que pudesse ser mais um de seus devaneios. Ele comeu normalmente e foi direto pra sala. Chegou poucos minutos mais cedo, o que era raro.

Ficou surpreso por passar pelo Cezar e não lhe acontecer nada. Aquilo o deixou tão desligado que não percebeu nada de anormal na sala, somente um mau cheiro estranhamente familiar.

Cezar estava com seu sorriso maquiavélico, assim como os outros na sala que murmuravam, caçoavam e riam baixinho. Sem dúvida o clima estava muito suspeito.

A Helena finalmente entrou na sala. Todos imediatamente ficaram em silencio, apenas a observando enquanto ela se dirigia pra sua carteira. Ela parou frente a carteira como se fosse um robô. Viu que seu acento estava cheio de estrume e que havia escrito exatamente a seguinte palavra no apoio da carteira “ESQUISITA”.

Nesse exato momento todos caíram na gargalhada, com a única exceção do João que não conseguia achar graça em tamanha brincadeira de mau gosto.

Ela olhava para a carteira, para Cezar, para Thais e de volta para a carteira, os lábios prensados e olhar indiferente, não era bem o que eles esperavam.

– Então? Gostou das nossas “Boas Vindas?!” – disse o Carlos ironicamente.

– Agora sim, você já pode se sentir em casa, sua esquisita! – complementou a Thais com um ar de deboche e destilando a sua inveja venenosa. Mastigava sensualmente uma caneta e sorria sádica para a garota.

– Calma gente, assim vamos deixá-la sem graça. Acho que nossa boa ação a deixou sem palavras... – assim todos riram do comentário do Cezar.

Da expressão séria, ela alterou pra um sorriso que acabou se transformando em uma enorme gargalhada assustadora. Todos a olharam abismados. Ninguém ria mais, somente ela.

– Acabou enlouquecendo, garota estranha?! – perguntou a Thais.

Helena virou-se pra garota de lábios vermelhos. – Helena! Meu nome é Helena! – virando-se e deixando a outra de lado, ele colocou a mão direita sobre o rosto tentando parar de rir – Cara, eu sabia que vocês eram um bando de caipiras, numa escola de merda, numa cidadezinha de merda e em um país subdesenvolvido de merda... Mas isso... Isso já é clichê demais. – todos ficam admirados com as palavras da garota.

Era a primeira vez que ela falava afinal e sua voz era forte e um pouco rouca, era tão sedutora aos ouvidos de qualquer um, assim como a da Thais, se não mais.

– Quem você pensa que é? – berra o Cezar.

– Eu sou a filha pródiga que agora a casa retorna, segundo as suas palavras! – ela rebate as palavras do garoto arrogante – Eu passei o meu primeiro dia observando todos ao meu redor... – ela diz dando voltas e olhando pra cada um naquela sala, incluindo o João que a olhava fixamente pelas lentes de seus óculos – Aprendi que pra não ser um “João Ninguém” aqui nessa sala, nessa cidade estúpida, se tem que arranjar alguém pra humilhar e importunar, para ser reconhecido e encaixado em algum grupinho de pessoas tão miseráveis quanto vocês. Então decidi que eu vou humilhar e importunar cada um de vocês e ser a garota mais descolada dessa cidade! – ela disse, pegando suas coisas e se sentando na carteira ao lado do João.

Ele estava completamente corado e surpreso com tudo que havia acontecido ali. Era como se ela o tivesse meio que o defendido, que o enxergasse ali, esquecido há tanto tempo. Mesmo assim, ele não conseguiu falar uma só palavra.

O professor entra na sala e percebendo aquela bagunça armada, ele chama o zelador. A aula só começa 25 minutos depois. É claro que a turma ouviu um enorme sermão, mas ninguém disse realmente os fatos. O silêncio era consentido por todos.

O alarme soou e o segundo intervalo deu-se inicio. Ele queria agradecê-la, mas nem ele tinha coragem e nem sabia pelo que ele faria aquilo.

Ela saiu primeiro, então ele apenas desistiu. Foi pra biblioteca levando consigo seu caderno com as anotações da lição de casa.

Quando estava próximo de chegar ao seu canto sagrado, sentiu seu punho esquerdo puxado. Era a Helena, que o jogou de costas contra a estante do estreito corredor. Como aquele era o final da biblioteca, os corredores era os mais estreitos, então os dois ficaram menos de um palmo um do outro. João era alto, mais ou menos 1,78 metros de altura. Muito mais alto que ela, que tinha uns 1,65 metros. Seus seios quase tocavam o tórax do garoto, quase.

Eles ficaram se olhando, pareciam hipnotizados. Aquilo já estava se tornando um habito.

– Desculpa; – Obrigado; – dizem os dois juntos ao mesmo tempo.

Os dois coram e ela desvia o olhar.

“Ela está... com vergonha?” – pensou João olhando-a de cima.

– Desculpa pelo braço, é que eu não aguentava mais esse lance de “gato e rato”. – ela diz soltando o pulso dele e o olhando com a cabeça empinada, pois ele era alto demais pra ela o olhar normalmente.

Bem sem graça, o João passa a mão em seus cabelos, tentando conter-se.

— Humm...! Essa garota me parece... interessante... — diz a sombra do garoto que naquele instante se movia por conta própria.

– Bom... Acho melhor eu ir... – ele disse tentando sair dali, mas ela estava perto demais pra ele conseguir se mexer.

Ela pegou rapidamente o caderno dele. Era um caderno comum, capa preta, 96 folhas, do tamanho padrão do que eram distribuídos anos antes. Helena abriu e o folheou algumas páginas.

– Ahn... Desculpe-me... Minha letra é horrível. – e era mesmo – eu só ia acabar o exercício que o professor passou antes de eu chegar em casa.

– Achei que o nome “exercício de casa” era pra ser feito em casa. – ela disse com um tom sarcástico.

– É que eu não tenho muito tempo pra isso em casa, então aproveito todo o tempo livre que eu tenho aqui pra fazer isso... – ele diz virando o rosto e dando um sorriso forçado.

– Hum... Interessante! – Ela diz quando vê um desenho no qual ela é a modelo.

– Ah! Não é nada disso! – ele berrou, mas depois se tocou em que ambiente estava e reduziu a voz – Não é nada disso que você ta pensando! Eu só fiz porque eu estava entediado e não tinha nada pra matar o tempo e você estava no ônibus também e... – o garoto meio que entra em pânico tentando se explicar. Bem típico de seu comportamento patético.

– Você fala “Es” demais... – ela diz enquanto se senta – Humm... Eu achei bem legal, então não vou te processar – ela diz com um sorriso no canto da boca.

O garoto se senta. Aquilo era novo pra ele, estar com alguém, dividindo o seu espaço sagrado e além do mais com uma garota.

– HA! Eu sabia! Eu sabia que você tinha uma tara por aquela vadia dos lábios vermelhos! – disse quando viu o desenho que João havia feito da Thais.

– Eu não tenho uma “tara” por ela – disse o João com vergonha ao falar sobre aquilo.

– Mas eu vi você, super concentrado, tentando ver a calcinha dela lá no pátio antes de começar as aulas. Nossa! Aquela vadia estava quase esfregando seus peitos na sua cara! – ela rebate, rindo.

Corado e quase enleando sua mão em seus cabelos, João tenta mudar de assunto – O que você estava fazendo aqui ontem? – ele pergunta.

– Eu estava procurando um livro que falasse sobre o ocultismo, aparições, anjos e demônios, bruxas e coisas da Idade Média... Tipo isso. – responde com naturalidade.

Pelo jeito de se vestir, não era muito de se estranhar que ela gostasse um pouco daquilo.

– Não precisa se preocupar, eu já matei o Satã... – ele diz meio sem graça fazendo um pequeno trocadilho, mas ela acaba não entendendo. Piadas não são seu forte. – Não temos muito disso aqui. A igreja censurou isso. Mesmo estando em um país laico, isso não se aplica aqui em Laguna. A paróquia tem forte influência em tudo aqui, mesmo sendo essa uma escola pública, viu-se que sendo uma cidade pequena e de gente sem tanta instrução, coisas como o ocultismo, poderiam “desvirtuar” os jovens. As poucas coisas que tem falando sobre isso, só são passagens mínimas sobre anjos, demônios e bruxas, mas nada aprofundado – ele disse como se fosse um exímio bibliotecário.

– Nossa! Você é nerd!

O comentário da garota deixou sem graça o bastante para não olhá-la por aquele instante.

– Acho isso legal – ela disse com um sorriso sincero, olhando nos olhos dele.

Um clima estranho se formou ali. Era como se cada um não soubesse o que dizer ou fazer. Ela tentava fazer a sua expressão de superioridade e desprezo para com todos de antes, mas seu rosto corado e ardente a denunciava.

Ele ficou pateticamente parado sem reação. Não sabia o que falar, fazer, pensar...

– Bom... É melhor irmos... Já é hora de irmos. – ele disse e então eles se levantaram e saíram dali.

– Eu vou ao banheiro, então...

– Ah! Eu vou beber água... O banheiro é pra lá – disse apontando pra direita – E o bebedouro é pra lá – apontando para a esquerda que ficava um pouco mais a diante.

Eles se separaram. João correu pro bebedouro, jogar água gelada na cara pra saber se aquilo estava mesmo acontecendo. Enxugou o rosto e saciou sua sede. Pouco menos de dois minutos a Helena sai do banheiro. Ela estava com a manga esquerda da blusa abaixada e a da direita levantada até o cotovelo, mostrando sua pele alva.

Ele achou aquilo estranho. Eles andaram juntos sem falar um com o outro. João apenas observava o braço esquerdo dela. Havia algo de errado naquilo, ao menos, era o que o seu instinto dizia. Olhando melhor ele viu uma gota escura correr pelo pulso até a palma da mão da garota.

Seus olhos se arregalaram ao perceber o que era afinal.

Nos corredores não havia mais ninguém. Os outros alunos já estavam em suas salas de aula, afinal só faltava menos de um minuto pra aula começar.

– Ahn...? Helena... Posso te fazer uma pergunta? – ele diz de uma vez consumido por sua enorme curiosidade.

– Você acabou de fazer uma – ela disse rindo sarcasticamente – Brincadeira, pode fazer.

– Ahn... Você ta com o pulso cortado ou eu estou enganado? É que eu não vi de fato o ferimento, mas da pra ver que-

Ele mal pode acabar de falar, pois foi jogado contra a parede. Helena o segurou pelo braço esquerdo e agilmente sacou um objeto prateado de seu bolso de trás, girando, habilidosa, algumas vezes em sua mão direita e finalmente colocando-o no pescoço do garoto assustado.

– Olha aqui! Você me parece ser o menos idiota por aqui. É patético, mas aparentemente legal. Não pense que só porque conversou alguns minutos comigo você já me conhece ou que somos amiguinhos. Não se meta a minha vida! Continue com seu olhar “isso não é da minha conta” e fique fora do meu caminho – ela disse como se fosse outra pessoa. Seus olhos eram a fúria pura, sua voz entoada ameaçadoramente, era quase como se ela estivesse possuída por algo completamente demoníaco.

O garoto engole a seco, sentindo a lamina do que agora consegue ver que é um bisturi rente ao seu pescoço. Ela segurava fortemente o antebraço esquerdo do garoto, justamente na parte machucada.

Olhando atentamente, ele pôde ver vários cortes enfileirados no pulso da garota, através da abertura da manga. Helena o soltou, guardando rapidamente o instrumento perfuro contundente e deixando-o pra trás.

Era patético ser imobilizado por uma garota de 1,65m.

João caminhou segurando o braço machucado até chegar na sala. Ele sentou-se em sua carteira. Olhou apenas com o canto do olho pra Helena.

– Hummm! Os dois chegando juntinhos um depois do outro... Muito suspeito isso... – insinua o Cezar, não muito contente, mas o desgraçado não perdia a chance de tentar fazer piada.

– Será que os dois esquisitos...? – complementa maliciosamente a Thais.

– Silêncio! – pede o professor levantando um pouco a voz.

As últimas aulas se seguem. João ainda não consegue falar com ela. Os amiguinhos do Cezar estavam sentados no fundo da sala, o que era incomum, pois eles ficavam sempre na parte da frente e no lado esquerdo da sala, ao lado da janela.

Aquilo tinha um propósito, um sádico propósito.

Um deles, mais precisamente o Darlam, era um daqueles caras que adorava importunar alguém. Ele retirou o refil de sua caneta e com o pequeno cilindro vazio, ele usou pra assoprar inúmeras bolinhas de papel no cabelo da garota. Aquelas bolinhas de papel estavam repletas de cuspe, fazendo assim, grudar nos fios de cabelo da Helena.

Ela não parecia se importar com aquilo, na verdade ela aparentava estar feliz com aquilo.

Seu semblante alegre unido com aquele contexto, só fazia seu sorriso se tornar cada vez mais macabro. João acompanhou aquela ação lamentável até o sinal soar, indicando o horário de ir pra casa.

– Hora de irmos... – ele diz criando coragem.

– É eu sei, eu ouvi o sinal. – ela disse de uma maneira não muito ríspida.

– Eu vou indo à frente então... Não quero perder o ônibus novamente...

– Ta! Eu vou ao banheiro e já vou indo logo mais. – ela disse se virando e se esbarrando com o mesmo cara que havia jogado as bolinhas em seu cabelo.

João estava na porta e deixou o tal Darlam passar livremente. Por sorte, nem sombra do Cezar e do resto de sua turma.

“Isso pode ser um bom sinal” – pensa o garoto enquanto anda pra fora dos portões.

Então pra sua surpresa, viu um dos capangas de seu rival passar por ele. Era o Darlam novamente, ou ao menos era o que parecia. João não tinha tempo pra ver direito quem era, afinal algo era mais importante naquele momento.

O ônibus que deveria o levar pra casa parte, deixando-o para trás ofegante de persegui-lo em vão. Ele olha pra trás e percebe que há ainda alguns alunos das outras salas no pátio, mas nenhum sinal da Helena.

João decide ir a pé. Não poderia lhe dar ao luxo de chegar atrasado em casa, ou as consequências poderiam cair dobrado sobre ele.

Após alguns minutos de caminhada por aquela estrada de barro, João vira-se pensativo. A imagem da Helena ainda era fresca em seus pensamentos, principalmente por ela morar perto de onde ele morava.

Enquanto isso na escola, o garoto de antes tinha acabado de entrar na sala aparentemente vazia. Ele parecia estar confuso ou tentando procurar alguma coisa.

– Procurando por alguma coisa? – diz alguém que estava no lado da sala aonde havia uma parte já escura.

O garoto virou-se assustado pra sobra, na qual só conseguia ver uma pequena silhueta. Uma pequena mão se estendeu em meio às sombras, mostrando um celular. Ele reconheceu imediatamente o objeto, aproximando-se.

– É meu! Onde você o achou? – ele disse quase o pegando, quando a pessoa finalmente se revelou.

– Deveria ter mais cuidado quando se esbarra com alguém! – adverte Helena, com um sorriso sarcástico.

Darlam retém seus passos – O que você quer? Devolva-me já! – ordena.

– Calma, aqui está, pode pegar...

Ele pega rapidamente, quase como um bote de uma cobra.

– Se ficou incomodada com a minha “Brincadeirinha”, esse foi um péssimo jeito de se vingar. – disse enquanto ria debochado da garota.

– Acho que eu deixei a impressão errada. Eu não estou querendo me vingar... Pelo contrário... – ela diz se aproximando com um sorriso digno de um psicopata.

– Sai pra lá garota! Você me dá arrepios! Garota estranha! – ele diz enquanto da meia volta e caminha em direção a porta.

–...Eu só queria agradecer por ter a chance e o motivo pra extravasar os meus sentimentos... – ela diz enquanto rapidamente enfia o lápis no pescoço do Darlam, que aos poucos cai de joelhos sem conseguir respirar.

Seus batimentos cardíacos aceleram como uma máquina descontrolada, sua expressão é de total pânico. Ele põe as mãos no local do golpe, ainda tentando entender o que foi que aconteceu naquele rápido movimento. Ele sentiu algo transfixando seu pescoço do lado direito para o lado esquerdo.

No lado de fora não havia sangue algum, indicando que qualquer artéria que possa ter atingido, o ferimento estava bloqueado. Encontra partida, o garoto jorrava sangue de sua boca, indicando uma grande hemorragia interna.

Ele cai deitado de bruços em seus derradeiros momentos de vida. Alguns espasmos e solavancos, finalmente a vida deixa o corpo do garoto, tornando seus olhos opacos. Ela acompanhou cada segundo o mais próximo que pôde. O semblante da Helena era completamente macabro, uma mistura de prazer, auto realização e uma paz interior.

Ela pegou o lixeiro, que era um pouco maior que a sua cintura. Grande o bastante pra caber o corpo flexionado ao meio.

Helena carregou o Darlam pra dentro do lixeiro e assim o levou pra fora da sala, que já estava impecavelmente limpa com álcool que ela achou no armário do zelador.

Já não havia mais ninguém na escola, até os professores que moravam longe já haviam ido embora. Os portões não estavam trancados, diferentemente das outras escolas na qual ela havia sido expulsa.

As rodinhas do lixeiro foram de grande ajuda, para que ela pudesse arrastar o corpo pra um pouco longe dali. Ela adentrou a parte da floresta e o tirou dentro do lixeiro.

Queimou todos os panos que usou pra limpar o sangue da sala e suas digitais do corpo, posteriormente, com o restante do álcool. Não ateou fogo no cadáver, apenas retirou seu precioso lápis e o deixou ali, deitado de bruços, assim com havia caído antes de morrer.

Friamente fez o favor de devolver o lixeiro intacto pra escola e finalmente partiu pra casa, contente.