– A MEU DEUS! I-i-isso, isso, isso não pode ser verdade! E-esse ai é o-

– Sim! Esse ai é o Darlam, em carne e osso, ou melhor, em ossos apenas. – ela completa a frase do garoto enquanto apanhava o crânio com uma das mãos.

– Ai meu deus, isso não pode ta acontecendo, e-ele está morto, meu deus ele está morto! – João entra em desespero, colocando ambas as mãos na cabeça ele mal pode raciocinar tudo aquilo.

– Bom, isso é o que acontece quando sua veia carótida é perfurada e depois se tem o corpo incinerado. – Helena diz aquilo sem nenhum remoço, pelo contrário, ela estava completamente satisfeita com seu serviço.

– Você o matou não foi?! VOCÊ O MATOU!

– SIM PORRA, EU O MATEI! E daí?! O que é que você vai fazer, hein?!

– Isso não pode estar acontecendo! Se alguém descobrir, meu deus se a polícia descobrir, vão achar que eu sou um cúmplice... Não, eu não quero ir pra cadeia! Por que? Por que você tinha que me mostrar isso? – ele já estava ensandecido e algumas lagrimas de pavor escorriam de seu rosto.

– Ninguém vai pra cadeia, não se você manter esse bico fechado! Olha pra isso! – ela segura o crânio rente ao rosto do garoto, que naquele momento tapava os ouvidos e cantarolava algo que desfocasse sua atenção do que aquela sinistra garota lhe falava – Eu fiz isso cuidadosamente, tentando preservar os ossos e me livrar de toda aquela carne asquerosa. Consegue sentir esse cheiro?! É uma mistura de tecido em decomposição e algo que foi bem além do “ponto”. Não é sublime? É o odor da morte, da morte de alguém que teve todos os seus tecidos extinguidos, restando somente esses fabulosos ossos. – ela falava embebecida com aquele momento que para ela era o clímax de tudo, cheirando e por fim dando uma pequena lambida no crânio do que foi um dia seu colega de classe.

– Não cara... isso é loucura demais! Isso não pode ta acontecendo de verdade!

– João... você me perguntou o porquê de eu ter te mostrado isso, não foi? Pois bem, escute de uma vez. – Helena coloca cuidadosamente o que ela segurava no chão e em seguida, repousa suavemente suas mãos no rosto do João, ficando frente-a-frente com ele – Eu também posso ouvir aquela voz... – aquelas palavras surtiram um grande efeito no garoto que confuso admirava a expressão gentil que aquela garota fazia naquele momento.

O desespero do João havia desaparecido por completo, como num passe de mágica. Suas lagrimas eram enxugadas pelos suaves dedos daquela garota sádica que agora mostrava seu lado doce.

– No começo, eu também achei que estava ficando louca, afinal isso é bem louco se parar pra pensar. No entanto, ele existe, aquele ou aquilo que emite a tal voz não é nossa imaginação, é real! É o nosso lado mais obscuro de nossas almas coexistindo no meio esterno. Viu? Nós somos mais semelhantes do que você pensa. A única diferença é que eu já aceitei a sua existência.

– Isso é loucura...

– Não, não é. Quem você pensa que te salvou daquele cão medonho? Sim, eu estava lá e eu vi. Aquela pedra que te ajudou a te salvar não apareceu do nada, “ele” ou como eu costumo chamar, seu “amigo oculto” te ajudou naquele momento crítico. Só aqueles criados na presença da dor e do ódio podem vê-lo...

– Isso, não faz sentido algum! Como uma coisa dessas pode acontecer?! – e ao fervor de suas palavras, ele se levanta e sai dali o mais rápido que pode.

– João Lucas! – ela o faz parar momentaneamente assim que profere seu nome, entretanto, mantendo-se de costas ele retoma seus passos rápidos fugindo floresta a dentro.

Mais um dia se passou, oficialmente já era o segundo dia do desaparecimento do Darlam. Seus pais entraram em contato com seus familiares que moravam em outras cidades, a polícia e o povo daquela miséria cidade foi comovido naquela busca. Na escola o assunto não era outro. Todos comentavam sobre o possível paradeiro do garoto, embora, na presença do Cezar jr, o assunto era silenciado. Aparentemente, ele se irritava facilmente quando ouvia qualquer rumor malicioso contra seu amigo.

Tanto no ônibus, quanto na sala de aula, João tentava manter seus olhos longe de qualquer contato com a Helena, o que era bem difícil. A primeira aula começou e ela esboçava uma nítida impressão de que está afim de assistir aquela aula. Aliais, ela nem estava vestida como de costume. Aliais, ela estava completamente diferente, começando pelo seu cabelo, que estava em uma tonalidade de violeta. Sua maquiagem mais carregada do que de costume, mas que destacava seus traços femininos perfeitamente. Roupas extravagantes como sempre, um vestido preto, com bordados e rendas, quase tirados de um filme de época.

Claro, o comentário sobre aquilo era geral, os outros nem se importavam se ela os estavam escutando ou não.

Batendo freneticamente com a unha de seu dedo indicador na carteira, ela demonstrava uma espécie de apreensão, como se esperasse que algo acontecesse e com urgência.

Ao final daquela aula, o zelador entrou na sala chamando o professor pra um canto mais afastado. Helena os observava ininterruptamente e enfim sua ansiedade passou. Em seguida os dois saíram da sala, sendo assim o primeiro intervalo antecipado para toda a turma.

A garota agora esboçava um olhar sereno enquanto encarava o João. Ele desviou o olhar. Mesmo ainda com seus pensamentos confusos ele não pode deixar de perceber o tão linda que ela estava.

Saindo de sala, indo ao seu secreto lugar em busca de conforto, quando de repente ele é puxado por um dos amigos do Cezar que junto com mais quatro, foram para um corredor mais sossegado.

– Mas o que é que vocês querem? – o João questiona até um pouco enfurecido, embora por dentro estivesse morrendo de medo.

– Sabe o que é, João Ninguém? Esse sumiço repentino do Darlam ta me deixando doido. Aquele cara era um dos meus camaradas de quem eu mais confiava. Eu não acredito que ele tenha fugido assim do nada, não... ele não faria isso... Eu fico aqui pensando o porquê desse desaparecimento, mas sabe o que eu acho em resposta? – Cezar vem em direção do garoto amedrontado, com sua ira rugindo entre suas palavras – NADA! EU NÃO ACHO NADA! ELE NÃO FALOU COM NINGUÉM, NÃO DEIXOU NENHM RECADO, NENHUM TELEFONEMA OU BILHETE, SIMPLESMENTE SUMIU! Consegue compreender o tamanho da frustração que eu estou sentindo? – chegando frente a frente do João, Cezar está cego de raiva – Se eu não extravasar agora, se eu não por isso pra fora... toda essa raiva, eu vou acabar explodindo! – erguendo o punho direito, Cezar parte violentamente desferindo um soco contra o João, que naquele momento não possui reflexo suficiente para fazer alguma coisa.

Correndo o mais rápido que pode, Helena surge, para espanto de todos, segurando fortemente o punho do agressor. Mesmo dando alguns passos para trás, todos ficam perplexos em como aquela garota conseguiu reunir forçar para parar um soco daqueles. Nem o próprio Cezar conseguia acreditar.

– O que pensa que está fazendo?! – ela diz largando bruscamente o braço do troglodita, que retrai alguns passos.

– Mas como é que essa puta... vai protege-lo agora?! – ele pergunta indignado devido a sua moral ter sido jogada no ralo.

Os amigos do Cezar tomaram a iniciativa e estavam preste a agir, mas com um gesto com as mãos ele o fez pararem.

­– Cinco contra um e ainda tem coragem de achar que é homem? – ela diz mostrando um olhar sombrio.

– Seriamos seis se o Darlam estivesse aqui. Eu não vou esquecer disso. Fica esperto seu bosta, e você também sua vadia de preto! – e com essa ameaça, eles se retiram dali.

João escorrega pela parede até desabar sentado no chão, aparentemente, daquela ele tinha se livrado.

– Você ta bem? – ela diz estendendo a mão.

– E-eu não preciso da sua ajuda... Eu to muito bem sozinho! – recusando a mão alheia.

Ele se levanta com suas próprias forças e dando de costa começa a andar.

– Vai continuar a fugir de mim, João Lucas? – ela diz fazendo-o parar.

Aquilo parecia mais o que chamam de “dejavu”. Cerrando os punhos sua certeza de partir foi completamente abalada com aquelas palavras. Dando meia volta, a determinação é explicita em seus olhos, enquanto ele caminhava rapidamente em direção da garota.

– Afinal de contas, O QUE VOCÊ QUER COMIGO?! – ele grita com ela, seus corpos estão tão próximos a ponto de se tocarem a qualquer segundo.

Fitando os olhos da linda gótica que sua determinação se esvai a cada milésimo de segundo, mas ele não recua. Cada vez mais perto, até que enfim, seus lábios tocam os dela. Já não há mais volta, ele tinha feito. Indo com cada vez mais força, ele prolongava o beijo, seu primeiro. Agarrando-a e colocando contra a parede, ele continuava a força-la, esperando pelo momento em que ela finalmente o impediria, mas ela não demonstrava nenhuma reação quanto aquilo. Então, sua violou a doce boca da jovem até se unirem suas línguas. Helena apelas acompanhava o ritmo em que a língua inexperiente agia, deixando-o intrigado.

Percebendo aquilo, ele decidiu ir mais longe. Abraçou-a ferozmente com sua mão direita ligando seus corpos, comprimiu seu quadril junto ao dela, amarrotando o belo vestido, e com a mão que lhe restava, puxou-a pelos cabelos forçando ainda mais o beijo. Ele ansiava por uma reação de indignação da garota, um murro ou chute, qualquer coisa que seja, mas após segundos, nada acontecia. Era como se ela tivesse permitindo que ele fizesse o que quisesse com ela.

João estava entorpecido com tudo aquilo. Era um desejo maior que tudo que ele havia sentido. Ele sabia que aquilo era errado, ele estava prestes a cruzar uma linha que não havia mais volta. Ele estava prestes a viola-la ali mesmo. No entanto ele continuava a espera que ela de algum modo revidasse, que o contrariasse, que impedisse-o de fazer tal ato hediondo, mas novamente, nada.

Aquele já não era o mesmo garoto, era uma fera pronta para abater sua presa. Sendo então visto que ela não lhe propunha nenhum limite em fazer o que tanto desejava, ele em um último estalo de sanidade que lhe restava, parou imediatamente o que fazia.

– Vê se para de me chamar desse jeito... – ele quase sussurra enquanto ele ainda está vidrado naquele belo par de olhos azuis.