Matando & Amando
6 A Cabana
Afastando-se rapidamente, João tentava se recompor, enquanto evitava encarar a garota.
– Agora, já que você fez o que quis fazer... – ela diz arrumando o amarrotado de seu vestido e por fim se aproximando perigosamente – Acho que agora é a minha vez! – e assim ela desfere uma joelhada nas partes intimas do garoto, deixando-o sem ação devido a dor descomunal. – Isso é pra você pensar duas vezes antes de fazer algo parecido outra vez.
Ao meio de gemidos, ele consente sobre o que lhe foi alertado.
– Ainda temos o tempo do intervalo, vamos, quero que me ajude a encontrar uma coisa. – Helena praticamente arrasta o João até a biblioteca.
– Você gosta mesmo de livros, né? – ele tenta falar algo que não lhe faça lembrar do que houve momentos antes.
– Pois é, uns gostam de livros, já outros gostam de agarrar a força jovens inocentes... – ela diz com sarcasticamente, deleitando com a reação constrangida do João.
– S-será que dava pra falar de outra coisa?! Aliais, qual é o nome do livro que você ta procurando afinal?
– Não tenho nenhum livro que eu queira aqui... eu só queria ficar em um lugar quieto. – Helena diz enquanto calmamente folheava um livro que a mesma tirou da prateleira.
– Então eu to indo. – ele se vira e está prestes a ir embora, quando ela o detém.
– Espere! Eu não disse que você podia ir ainda. Acho que você não entendeu a situação direito, né? Um garoto feito você que é feito de gato-e-sapato por todos desse colégio, dizendo que uma garota recém chegada foi capaz de fazer aquilo com um garoto muito maior e mais forte, acha mesmo que vão acreditar em você? Entretanto, uma garota dizendo que foi vítima de abuso sexual dentro de uma escola, ainda mais por um pervertido que nem você...
Ele para, ainda de costas mal podia acreditar no que ela o estava fazendo passar.
– Ok, eu vou ficar! – ele diz forçadamente enquanto fechava seus punhos bruscamente e se virando.
– Ora, não fique com essa cara! Na verdade, eu não faria uma coisa dessas. Bom, só em último caso, afinal eu não posso te matar.
– “Não pode me matar”, o que você quer dizer com isso? – ele questiona com espanto.
Ela deliberadamente ignora a pergunta, devolvendo o livro para sua prateleira. Ele fica incomodado com a atitude dela, afinal ela expressava completo desinteresse em responde-lo.
– Vamos, se ficarmos aqui vamos acabar nos atrasando pro pronunciamento do professor. – com um sorriso no rosto, aquela atitude só deixava o João cada vez mais curioso.
“Aquela garota, parece estar querendo me deixar louco!” – ele pensou.
Entrando alguns minutos antecipados, eles se sentam, esperando o restante dos alunos e o professor, que provavelmente já estava à caminho.
João observava a estranha garota. Aquela agitação e nervosismo do começo da aula parecem ter sido praticamente extinguido do interior dela. Intrigado com aquilo, ele revisou mentalmente os acontecimentos matinais anteriores e consequentemente, acabou lembrando-se do beijo. Perdido em seus pensamentos, ele corou. Voltando a si, acabou percebendo que aquela a quem ele estava olhando, desta vez o observava. Ela abre um sorriso sarcástico no canto da boca, enquanto o moreno tentava disfarçar seu rosto completamente avermelhado.
“Por que ela gosta de fazer essas coisas?” – ele se pergunta.
O sinal toca, o professor chega logo em seguida, acompanhado do diretor, o que era bastante estranho.
Estando frente a toda classe, eles esperavam que todos os alunos que ainda estavam entrando se sentassem.
Olhando para ambos, dava-se para perceber que eles não estavam de brincadeira. O professor apresentava uma expressão completamente abatida, encontra partida o diretor se mostrava sério e até um pouco irritado.
– Primeiramente, eu gostaria que todos aqui prestassem bastante atenção no que irei falar. O professor de vocês foi chamado hoje na minha sala, devido a uma reunião que fiz com todos os outros professores, em respeito a um assunto em particular. Estávamos decidindo em como falarmos com vocês, como explicarmos da melhor forma possível, entretanto, acho eu que não há uma forma inteiramente adequada para tal situação. – dava-se para perceber que toda a sala estava apreensiva quanto as palavras do diretor, menos, é claro, a Helena que mesmo deixando parte de seus lindos cabelos escuros cobrirem seu rosto, ainda se via um sorriso malicioso – Como eu estava dizendo, hoje lamentavelmente, recebemos uma informação referente ao desaparecimento de um de seus colegas de classe, o Darlam. Como ele pertencia a essa classe, o 2° A, acho mais que justo que vocês sejam os primeiros a saberem. É claro que todos, querendo ou não vão acabar descobrindo de uma maneira ou de outra, mas acho que essa turma, na qual praticamente todos ajudaram nas buscas devem ter um mínimo de esclarecimento. Na madrugada de hoje, os pais do Darlam encontraram restos mortais de um indivíduo dentro de um saco que estava na porta de sua casa. Há duas horas atrás, através da cooperação do dentista que estava de plantão hoje, foi comprovado por meio da arcada dentaria que aquele era de fato o Darlam.
Aquelas palavras avassaladoras chocaram todos ali presentes. Mesmo o diretor tentando manter a compostura demonstrava estar emocionado.
A comoção foi geral. Uns se recusavam a acreditar no escutaram, outros entraram em desespero, o que não foi o caso tanto da tranquila Helena, quanto do assustado João.
Naquele dia, o restante das aulas foram suspensas.
João não sabia o que fazer. Estava claro que aquilo era obra daquela garota e que como ele estava envolvido naquilo, poderia acabar sobrando pra ele.
Estava certo que aquele era um dos raros dias em que ele estava livre para fazer o que bem entendesse, mas a ideia de voltar para seu glorioso lar, não lhe pareceu atrativa.
Guiado quase que como se estivesse hipnotizado, ele acaba parando na biblioteca.
– Finalmente temos um dia livre no meio da semana e então você decide desperdiça-lo em um lugar com um monte de livros empoeirados? Francamente, ne?! – palavras saídas da garota gótica que como de costume, aparecia sorrateiramente assuando o garoto.
– Mas... Como... Quando é que...? por que você fica me seguindo?
– Sim. – ela responde com a maio naturalidade.
– Ai cara, ela nem tentou negar. – ele diz consigo mesmo enquanto colocava comicamente a mão em seu rosto. – Então, o que você quer?
– Essa é uma boa pergunta. Me parece que você está começando a aprender...
– Então?
– Já que temos um dia livre... quero me divertir. – ela diz com m sorriso malicioso.
– “Se divertir”, me deus, um colega de classe acabou de morrer, cujo motivo você sabe muito bem, e você ainda ta pensando em sair por ai pra se divertir?
– É, exatamente isso – diz cruzando os braços – o que tu queres que eu faça, dê uma de arrependida e fique chorando pelos cantos? Não seja ridículo.
Levantando a sobrancelha esquerda, João mal podia acreditar no que estava ouvindo.
– Sinceramente eu desisto. – ele diz mais pra si do que para a garota em sua frente.
– Desiste de que?
– Nada não, esquece. Vamos sair daqui. – e assim eles atravessaram os portões para fora do colégio.
– Ok, estamos oficialmente fora do colégio, então, pra onde é que nós vamos?
– Hmm, acho que já sei... – esperaram cinco minutos e pegaram o primeiro ônibus que viram.
Helena fez questão de sentar bem juntinho do garoto, que constantemente se corava, por instintivamente olhar para dentro de seu decote. Ela dava uma de desentendida, mas por dentro gargalhava com as reações do João.
Durante parte do caminho, os dois não falavam muita coisa, até que depois de passarem do ponto onde eles rotineiramente desciam, ela começou a questiona-lo se não tinham acabado de ser perderem, mas helena preferiu não insistir no assunto, como se até não se importasse com isso.
Desceram na última parada, antes que o ônibus fizesse o retorno para o centro da cidade. O local ficava nos limites de Laguna, onde a paisagem rural e as florestas eram mais contundentes.
– O que pretende me trazendo para o meio do nada? – ela diz com uma cara totalmente desinteressada, mas deixando claro a conotação maliciosa em suas palavras.
– Dá pra parara! Não é nada disso. Vamos, estamos perto. – ele diz segundo na frente.
Andaram por uma estrada de barro, coisa bem típica da região, em seguida caminharam uma trilha por entre arbustos.
Ao passarem por uma elevação, ela acabou escorregando, mas rapidamente, João segurou fortemente sua mão, evitando a queda.
– Cuidado, aqui é um pouco escorregadio mesmo.
– Ok, muito obrigada, já estou bem. Mas eu não sou a sua namorada para até agora você ta ai segurando a minha mão. – envergonhado, ele não disse nada, apenas recomeçou a andar.
Ao que parecia, era que eles estavam entrando em uma propriedade, que aparentemente estava abandonada. Alguns restos de cerda de arame farpado, dava uma dimensão da área, que sem dúvidas era imensa.

– Bom, chegamos. – João diz apontando para uma cabana que estava quase escondida por entre algumas arvores que faziam sombra. – Primeiramente, antes de entrar, quero que prometa que não dirá pra ninguém sobre esse lugar.
Ela o olha sarcasticamente – Já não acha que dividimos coisas o bastante que não podemos contar aos outros?
Ele reflete sobre aquilo e o quão desnecessário foram as suas palavras, então acaba consentido com a cabeça.
João abre cuidadosamente a porta da cabana, deixando o ar ventilar o local, em seguida eles entram.
Julgando pelo estado em que se via do lado de fora, mal se podia imaginar o quão bem cuidado estava o interior daquele lugar.
– Esse é o meu lugar secreto. A minha última salvação...
– Como achou esse lugar? – ela perguntava de uma maneira mais ríspida.
– Bom... eu fugi e casa uma vez... corri, corri o máximo que eu pude, me perdi na mata e depois de um tempo eu achei esse lugar... tudo parecia abandonado, incluindo essa cabana, que estava acabada. Depois que eu voltei pra casa, e levar uma das maiores surras da minha vida é claro, eu vinha aqui quase sempre. Limpei o lugar, tirei quase toda a poeira, ajeitei o teto, consegui esse sofá no lixão que fica um pouco longe daqui... essa mesa e cadeira – ele diz apontando – eu achei nos destroços da casa aqui do lado e todo o resto eu trouxe aos poucos...
– Você disse casa... que casa é essa?
Eles saíram da cabana e poucos metros depois ele mostrou para ela.
– Bom, pelo que parece, essa cabana ficava nos fundos da propriedade, e esse amontoado de escombros era a casa principal. Pelas ruinas e partes de paredes que ainda estão de pé, aqui tinha um senhor casarão. Pelas marcas pretas em algumas partes, acho que tudo isso foi incendia- – ele parou de falar após ver a reação de Helena, que parecia estar em choque.
– Como achou esse lugar?! – ela perguntou seriamente, quase agressiva.
– E-eu já disse, eu estava fugindo de cas-
– Me diga a verdade! Como descobriu sobre isso, hein? Como?! – ela fala, agora esbravejando e se aproximando rapidamente do garoto.
– Helena eu já disse, eu- – e mal acabando de falar, um tanto quanto apavorado com a atitude da garota, e assim ele se surpreende com ela caindo desacordada em seus braços.
Não tendo muita opção, ele carrega Helena de volta para a cabana. Deitando-a na cama de solteiro que ele havia feito de improviso tempos atrás, João tentou botar em pratica o pouco que sabia sobre momentos como esse.
Debaixo de uma prateleira e por trás de alguns caixotes, João pega uma maleta de primeiros socorros, o que foi bem conveniente naquele momento.
Sentando-se na cama, ao lado de helena, ele começou a ler sobre algumas instruções que havia em um livreto sobre emergências.
– ”...deitar o paciente, proporcionando conforto...”; “verificar a pulsação...” – ele levanta a manga do pulso até a base do antebraço da garota, revelando algo que ele já havia percebido.
No antebraço da Helena, haviam dezenas de cicatrizes e marcas um tanto quanto recentes. O propósito das roupas com mangas compridas era justamente ocultar essas marcas. João soube instintivamente que aquilo foi provocado pela mesma, pois era algo que ele já havia vivenciado. O garoto apenas continuou a prestação de socorro.
– “Pra melhor respiração, incline a cabeça do paciente para trás e se possível... retire a roupa do mesmo para haver melhor averiguação de possíveis complicações e conferir se há uma respiração regular...” – João começou a seguir aquilo que estava lendo, mas após inclinar a cabeça da garota, a ideia de abrir aquele decote e despi-la da cintura para cima o fez corar imediatamente.
Seu senso do que era certo e errado foi testado arduamente. “Mesmo que aquilo fizesse parte da manobra para socorre-la, a reação dela ao acordar daquele jeito não poderia ser muito amigável”, assim ele pensou.
Ele rasgou um pedaço razoável de uma caixa de papelão e começou a abana-la na tentativa de apaziguar o calor.
João buscou uma garrafa que ele sempre trazia dentro de sua bolsa, usou uma pequena parte da agua para humedecer um pedaço de pano e assim colocá-lo sobra a testa da garota.
Algumas horas se passaram e a fome veio. Ele saiu e voltou rapidamente, com algumas mangas e goiabas dentro de sua mochila. Afinal, se virar pra sobreviver foi algo que ele aprendeu desde cedo. Comeu algumas e deixou o resto penando nela.
Mais tempo se passou, o sol já parecia que estava se pondo. O garoto já estava preocupado, quando ela finalmente deu indícios de estar voltando em si.
– Helena! Meu deus, você está bem? – ele diz encarando a garota que mal entendia direito como tinha parado ali.
– O que foi que houve? Por que eu estava deitada nessa cama? E por que você está tão perto do meu rosto? – ela diz sendo sarcástica na última parte.
– Não seja idiota! Eu so tava... enfim, você me deu um baita susto, sabia? – ele diz enquanto se levantava da cama e se encostando na entrada da cabana.
Helena ergueu a manga de sua roupa assim que percebeu algo estranho. João lhe havia feito um curativo no local.
– Isso não era da sua conta! – ela diz cobrindo seu antebraço rapidamente.
Helena se levanta ainda tonta – Vamos embora, já está ficando tarde e – perdendo a força de suas pernas enquanto dava alguns passos, ela foi rapidamente amparada pelo garoto que a segurou firmemente pela cintura. Ele a trouxe junto ao seu corpo, enquanto os últimos raios de sol davam adeus e a luz clara da lua cheia começava a iluminar a noite que se anunciava.
Um som de um celular tocando interrompe a cena. Helena sabia que aquele não era o seu, então presumiu que só poderia ser do João.
O garoto vai até sua mochila, pega o aparelho, um Motorola de cor prata, nem se importando a conferir quem era e vai logo desligando.
– Então você tem um celular... não vai atender? – ela se mostra um pouco curiosa.
– Não preciso atender e sei bem quem está me chamando e o tamanho da encrenca que vou me meter se não voltar o quanto antes.
– Tem razão... já está ficando tarde... tarde para crianças que nem você.
– Ok... você segura as mochilas e eu levo você. – ele diz virando-se de cotas e se inclinando para frente.
– O que você espera que eu faça? – ela diz relutante.
– Você desmaiou, me deixou preocupado pra caramba, demorou um tempão pra acordar e quando acorda não tem nem forças pra dar uma simples caminhada. Será que dá pra calar a boca e fazer o que eu to dizendo? – João disse aquilo com um tom de voz sério, mas não chegou a ser agressivo.
Helena notou que o humor do garoto mudou depois daquele telefonema e após relutar um pouco, ela acabou subindo nas costas dele e se deixou ser carregada.
Surpreendentemente, ela era bem leve, a distância do caminho é que acabava deixando complicado carrega-la, entretanto, após dois terços do percurso e de tanto suas costas e pernas acabarem dormentes, era quase como se ela não estivesse ali.
Talvez, se a situação fosse diferente, João teria curtido mais aquele momento, principalmente a sensação dos grandes seios dela pressionados contra suas costas, mas aquele não foi o caso.
Ele desceu a garota de suas costas quando finalmente chegou na entrada da propriedade em que ela morava. Helena parecia um pouco diferente do habitual, por alguns segundos, João jurou tê-la visto corar.
– Pronto, agora eu tenho que ir. – ele disse meio constrangido, mesmo não havendo motivo aparente.
– Tudo bem... Obrigada por hoje... foi interessante... – ela diz com um sorriso meigo, em seguida, arremessa o celular prata em direção ao João, que ainda tenta questiona-la como ela teria pego sem que ele tivesse percebido, mas a Helena já estava de costas caminhando para dentro de casa.
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