Poucas nuvens pairavam no céu, o crepúsculo denotava seu auge e o sol se esgueirava por entra a copa das arvores, enquanto a escuridão exercia seu papel.

Helena parecia inquieta, andando de canto ao outro, coisa que não era muito comum de sua parte. Em cada passada ela murmurava de cabeça baixa, coisas tipo “ele está demorando muito” ou “ele não pode falhar”, como se estivesse conversando com alguém ao seu lado. Ela sabia que ele não deveria estar pronto para algo assim, sabia que aquilo iria resultar em um provável fracasso e que iria ser algo irreversível e por isso que ela demonstrava tamanha insegurança.

Helena pôs a ponta de seu dedo indicador na boca e começou a roer a unha, assim tirando lascas do esmalte preto que a cobria. Um barulho repentino a tirou daquele estado de ansiedade. Voltando-se para a porta ela pode ver o João encostado na lateral da entrada.

– Seu idiota! Quer me matar- – A garota pausa seu ataque histérico ao perceber o que havia acontecido.

Qualquer um que olhasse o rosto daquele garoto no mínimo iria procurar se afastar o máximo. João tinha uma expressão tão horrenda que até Helena ficou sem palavras. Seus olhos estavam arregalados e opacos como se estivesse aterrorizado, suas pupilas dilatadas e lagrimas caiam em abundância. Entretanto, um sorriso aberto, quase como se ele mesmo não conseguisse controla mostrava uma contradição entre suas expressões. Aterrorizado, em choque, feliz, enfurecido, arrependido, em um frenesi de puro êxtase... nenhuma dessas emoções se mostravam claras naquele momento, o que apenas prevalecia era um riso abafado, como se ele estivesse tentando conte-lo, mas à medida que ele ria, seu riso ia aumentando até que por fim se transformou em uma gargalhada que estava claro que ele não conseguia conter.

– Eu... eu... – ao cair de joelhos o garoto foi prontamente apoiado nos braços da gótica em sua frente.

Ela o abraço com tanta ternura, quase como uma mãe acalentando o filho que está em prantos, quase como um djavu.

– Quando eu entrei na primeira série, eu fiquei super contente, porque e finalmente iria poder ir pra escola e ficar longe daquela casa... mas acabei descobrindo que no colégio as coisas não mudariam... Havia uma menina na minha turma, na hora do recreio eu acabei voltando pra sala para ver o porquê que ela demorava tanto. O professor Mario, naquela época, ainda que começando como estagiário estava na sala com ela... ainda me lembro quando ela me viu e suas lagrimas caindo... ela era irmã da Thais e então a família junto com o prefeito decidiram manda-la ficar com parentes em São Paulo antes que aquilo tudo viesse a ser um grande escândalo. Eu nunca mais a vi, talvez seja por isso que a Thais me odeia tanto.

– Então...?

– Eu o matei! – ele diz com uma voz mais centrada e calma – Ele foi o primeiro. – ele cera ambos os punhos – Eu estava tão nervoso... Nunca vou me esquecer daquela sensação. Seu pescoço e minhas mãos, o som do sufocar através do saco, da lamina entrando e rasgando sua pele e principalmente... o cheiro de ferro no ar e da cor do sangue fresco... – por um momento, uma aura negra parecia exalar do corpo do garoto.

Helena pode finalmente perceber que ela estava completamente certa. Sim, eles eram iguais e que agora não teria mais volta, aquele não era mais o João de antes.

Começando com um leve sorriso, a garota mostra a mais terrível gargalhada que ele já viu, testemunhando a rápida transição de uma personalidade terna e gentil, para uma maliciosa psicopatia.

– Eu tenho que admitir, eu tive minhas dúvidas. Achei mesmo que algo iria acontecer e você não teria coragem de ir até o fim... mas ai está a sua “prova de amor”... – ela diz enquanto ainda sorri com um olhar de maldade – É patético, mas eu não posso ignorar isso! Não posso acreditar que em depois de tanto tempo, um garoto iria me deixar com essa coisa que estremece meu corpo inteiro! Que patético eu me sentir tão viva com isso, quase inacreditável, um vazio sendo preenchido dentro de mim... – ela se aproxima ficando face a face com o garoto – João, como prometido, serei sua namorada, melhor, serei sua de corpo e alma. Lhe seguirei até na morte, farei de TUDO por você, mas com a condição que você fique pra sempre ao meu lado e não me traia... afinal toda mulher não suporta uma traição...

Ela se levantou e ao mesmo tempo suspendendo-o pelo colarinho, assim o assustando até. Helena o beija com um certo entusiasmo, surpreendendo João que retribui com um pouco de hesitação. O beijo se intensifica, a garota mostra um talento inigualável ao entrelaçar suas línguas, fazendo o garoto entrar em quase um estado de frenesi naquele momento. Empurrando-o contra a parede, Helena mostra total controle e desejo entre os dois. João quase não acredita quando ela mesma coloca a mão do garoto contra seu seio direito. Aquilo foi mais do que ele pode aguentar, a cama foi muito convidativa. O nervosismo não foi algo de se atrapalhar. Helena ficou por cima olhando com malicia para o João, e não é preciso falar que ele já estava excitado.

Entretanto, o toque do celular acaba interrompendo aquele momento. O olhar de fúria mais que perceptiva, em direção abolsa que estava na mesa. Claramente nenhum dos dois estava contente com aquilo, mas Helena não pode ignorar aquilo. Atendendo a chamada que supostamente indicaria ser o seu pai, ficou claro que ela teria que ir embora o quanto antes.

Como despedida, um leve beijo no rosto do João e cada um vai pro seu lado. Chegando em casa, a velha rotina de esporro de sua tia por conta do atraso. O garoto enfim vai se deitar, recordando de tudo aquilo que houve em seu dia.

Após matar seu professor, João se deparou com algo inesperado, todo aquele sangue. Usando diversos panos e muito alvejante, ele conseguiu deixar tudo em seu devido lugar. O fato da escola estar totalmente vazia, com exceção do zelador que deveria estar em qualquer outro lugar, ajudou no transporte do cadáver até o carro. Dirigir o trator de seu tio ajudou muito a ter um pouco de habilidade ao dirigir o carro do professor. Pegando um atalho por uma estrada de barro ele foi até o famoso lago que deu origem ao nome da cidade. Não era bem um lago, era um rio que detinha mais de 100 metros² de área.

João não pensou duas vezes, desengatou a macha ré e deixou o carro ir em direção ao rio e afundar com o professor dentro do porta mala.

Ao contrario no “método” da Helena de tocar para esconder as possíveis evidencias, o lago veio bem a calhar, a final, até que alguém fosse procurar algo no fundo daquelas águas, qualquer evidencia seria destruída. “Não ser pego”, foi uma das coisas em que ela mais deu ênfase e por isso, ele não pode vacilar ao limpar todo aquele sangue daquela sala, chegando a usar muito alvejante.

João chegou a pensar que lhe custaria pegar no sono, mas isto logo mostrou que não seria um problema. Aquilo o deixou com medo até de si mesmo, pois ele havia acabado de cometer um ato abominável e ele estava pestes a cair no sono como se nada tivesse acontecido.