Matando & Amando
10 Nightmare
Notas iniciais
Um frio na espinha o faz temer por um instante. O piso acinzentado e as peculiaridades nas paredes, deu-lhe uma leve referência do lugar. De fato ele estava de pé, andando por um corredor mal iluminado, de onde algumas portas intercaladas que estavam abertas, revelava a luz alaranjada do pôr do sol.

Parando para pensar, ele não sabia como havia chegado ali, ou onde realmente aquele “ali”, ele apenas estava. Continuou andando, olhando lentamente para os lados, até parar abruptamente percebendo algo inexplicável.
O susto o fez retroceder uma passada e com seus olhos e boca bem abertos João não consegui mais se mover, apenas continuou olhando o professor Mario, entretido ao conversar com aquele que se parecia consigo mesmo, entrando na sala dos professores.
Vendo os dois entrarem naquela sala e ficando só naquele corredor que cada vez mais ficava envolto em trevas, o garoto ainda estava tentando entender aquela situação.
De um lado ao outro do corredor, as luzes sumiam, como se tivessem sido tragadas pelas trevas que se aproximavam com vigor. Apenas a sala dos professores parecia normal.
Quando percebeu, já era tarde e a escuridão o alcançou, envolvendo todo o seu corpo. João não tinha mais certeza se ainda estava em seu colégio, ou se tinha sido transportado para outro lugar... na verdade, ele já não tinha certeza de mais nada...
– É VOCÊ, NÃO É?! A VOZ NA MINHA CABEÇA?! – ele tenta gritar o máximo que pode, como se em toa aquela angustia de estar sozinho houvesse alguém ali.
– Sim, “eu não sou o que sou”, mas serei o que eu quiser! – revelando-se dentre as sombras, diante do garoto.
A criatura parecia estar coberta de uma espécie de muco que ao tocar o chão corroía piso, sem contar que exalava um odor quase insuportável. Aos poucos, seus membros que eram desformes, completamente alongados demais, começaram a se moldar e por fim a criatura se tornou uma cópia exata daquele à sua frente.
– I-isso é um sonho, não é? – João pergunta completamente nervoso contudo aquilo, mas não com tanto medo.
Sua cópia apenas inclina suavemente a cabeça e esboça um sorriso maléfico.
– Sim... e não... – a resposta só deixou o garoto mais confuso.
– Q-q-Quem é você?! – a criatura reage mostrando seus dentes pontiagudos e afiados enquanto mantem seu sorriso.
– Eu já respondi a sua pergunta... mas acho que não fui claro o bastante... – a cópia estende os braços como se estivesse para dar um abraço ou imitando o sinal de cruz com o corpo – Não está vendo? Eu sou você. Sou sua imagem e semelhança... Sou aquele sempre esteve e sempre estará ao seu lado... SEMPRE! – entonado a voz, o ser obscuro conseguiu assusta-lo – Vocês humanos são tão fascinantes... Era, após era, há sempre seres como você que nos surpreendem. João Lucas, você é um verdadeiro banquete! Sinceramente, eu não me canso de me deleitar com sua dor, seu sofrimento e agonia. Dias após dias, a angústia de uma vida miserável... Ah, como eu me divirto! – a criatura fala e gesticula com eloquência – Há tantos como você, até pior, mas eu o escolhi! Moro em cada fragmento de sua alma despedaçada. Como eu havia dito, você está sonhando, mas eu sou muito real. Finalmente ganhei forças para expressar uma forma. Mais que isso, aos poucos eu consigo passar para o “outro lado”. Mas isso não vem ao caso agora, venha! Venha ver o que NOS fizemos! Juntos, ligados como um só... – a entidade obscura surge por trás do garoto, conduzindo-o em direção a entrada da sala que ficava cada vez mais perto.
Parando em frente a sala dos professores, João continuava olhando para a escuridão que preenchia o fundo do corredor a sua frente, enquanto a luz do sol a esquerda o cobria.
Virando-se vagarosamente para a esquerda, João revê a cena no qual ele estava cortando a garganta do professor e por fim o sangue se espalhando pelo chão. João era um mero espectador que observava com horror em seus olhos, os detalhes do quão realizado aquele “outro João” estava ao fazer aquilo.
Sentiu um suspiro em seu pescoço e soube exatamente que era aquele seu lado obscuro no mesmo instante. O jovem tenta abaixar o rosto para não ver aquilo, mas aquele ser segura-o pelos cabelos e com a outra mão segura-lhe o queixo, tracionando para que ele não tivesse não desviar o olhar.
– Olhe bem! Veja do que somos capazes! E ainda podemos fazer muito mais você só basta-
– ACORDA SEU PREGUIÇOSO! – um grito surge do nada, junto com um outro barulho seco de uma pancada e com uma visão embaçada, João começa a ver aquele que estava a sua frente.
Aquele teto mofado, ornamentado com algumas teias de aranhas, no qual ele o tinha encarado por tantos anos foi reconfortante. A dor em seu ombro esquerdo o fez recobrar de seu devaneio.
– Anda seu inútil! Trate logo de se levantar! – apoiando-se e sentando na cama, ele pega seu óculos que estava no criado mudo a sua direita. Percebendo a pouca luminosidade, ele acende o abajur e confirma em seu despertador que ainda eram 04:02.
Sábado era o único dia em que João gostava, além de não haver escola, os afazeres domésticos eram reduzidos e ele podia dormir a vontade até as 9 horas, o que era muito para quem só acordava as 5. Fica claro do porque ele se levanta murmurando e completamente de mau humor.
Para seus tios, aquele era só mais um sábado, mas para seus primos, aquele era “O Sábado”. Naquele dia, ao marcar da meia noite até o final do domingo, se iniciaria a festa mais desejada dos jovens de Laguna.
No corredor, seus primos pareciam estar esperando-o.
– Ai está você! Vem logo! – e assim Maria arrasta seu primo para dentro de seu quarto junto com seus irmãos – Escuta aqui, eu só vou dizer uma vez, então trate logo de escutar. Hoje vai acontecer um dos maiores eventos sociais do ano, a mega festa na casa do Cezar e é claro que nós vamos. O que acontece é que a festa só vai rolar lá pela meia noite e é claro que a mamãe e o papai não vão deixar que nenhum de nós sair de casa a essa hora.
– E o que eu tenho haver com isso?
– Ai, cabeção, é que você entra. Tu vai garantir que nem o papai ou a mamãe acorde e descubra que nos fugimos. Você vai ficar em casa e nos avisar caso aconteça alguma coisa. Perto das 23 horas, um amigo vem buscar a gente de carro um pouco perto daqui e ele também vem nos trazer. Lá pelas 4 nós estaremos de volta e ninguém vai saber.
João não tem muito o que pensar, ou melhor, ele não tem o que opinar, apenas consente com a cabeça.
Tão raro quanto a passagem do cometa halley, foi ver seus primos ajudando nos afazeres domésticos. Passos quase em câmera lenta e boca aberta, enquanto descia as escadas completamente pasmo. Até o Carlos estava lá fora dando comida aos animais.
Estava tudo pronto em volta as 8 horas, quando foi servido o café da manhã na mesa.
João comia na em silencio na mesa com a sua família, mas estava explodindo de curiosidade com a situação inusitada. Apenas podia se ouvir o som peculiares da comida e dos talheres.
– Ahn... mãe? Será que eu poderia ir até a cidade pra ajeitar meu cabelo?
– Nem pensar! – o senhor Nobrega contesta prontamente.
– Ah! Qual é papai?! Mamãe! – a garota faz bico e um olhar choroso aumenta a sua performance – Amanhã tem missa, a senhora quer que todos me chamem de molambenta? O povo da cidade vai começar a falar...
– Não, isso não minha filha. Não quero que ninguém se meta a besta e venha falar da minha filha! Quando acabar o café eu vou lhe dar dinheiro para você ir até o salão e voltar uma princesa. – diz a mãe acatando os caprichos da garota.
– Eu vou também, pra acompanhar. – diz o Lucas no meio da conversa.
– Eu vou, porque tenho que falar com o Cezar. – diz o Carlos casualmente.
– O meu filho melhor amigo do Cezar jr filho do prefeito... isso sim é saber escolher as amizades. – diz a mãe orgulhosa.
– Já que todos estão indo pra cidade, João você também vai! – diz o senhor Nobrega enquanto mastigava.
– O que? Por que ele tem que vir junto?! – questiona Maria.
– Ora, ele vai até os correios buscar o bônus do governo pra mim, já que deveria ter chegado. Droga de cidadezinha, sempre atrasa as encomendas.
João não questionou, apenas continuou comendo e observando a todos. Ao final do café da manhã e dos afazeres, os garotos partiram de charrete para o centro da cidade. João selou o único cavalo da fazenda à charrete, praticamente um desperdício colocá-lo naquela coisa, pois o belo animal negro, de origem árabe, talvez uma das coisas de maior valor dentro da propriedade. João conduzia a charrete quase como um vassalo. Maria desce bem antes da parte movimentada, pois segundo ela, aquilo não pegaria bem para sua imagem. Lucas a segue, ficando apenas o Carlos e o João.
João segura firmemente as rédeas, estava claro que ele não estava nada a vontade perto de seu primo.
– Você tem sorte por haver tantas pessoas aqui por perto... – Carlos sussurra no ouvido de seu primo pouco antes de saltar da charrete.
Com a ausência de seu perturbador, o garoto pode enfim relaxar. Estacionou o pangaré frente a agencia dos correios e entrou no estabelecimento. Ele já esteve outras vezes naquele lugar com o mesmo propósito, seu tio sempre lhe dava a própria carteira de identidade para que ele pudesse pegar as correspondências, afinal, em cidades como aquela, não havia carteiro que fosse entregar nada na porta de ninguém.
Não levou pouco mais de 15 minutos e ele já tinha o que queria em suas mãos, entretanto, diferente de todas as outras vezes, algo mexeu com sua curiosidade. Um envelope com um selo do governo que trazia seu nome escrito. Bom, também havia escrito o nome de seus tios no envelope, logo a baixo, mas de fato seu nome estava em destaque. Ele nunca havia recebido uma carta, então era de se esperar a curiosidade em ebulição dentro da sua cabeça.
” Abrir ou não abrir”, essa era a grande questão, até que o medo do provável sermão que ele levaria por abri-la foi menor. Encostando-se na parede, ele rasgou a ponta do envelope até abri-lo. Retirou o conteúdo de dentro, desdobrou o papel e se prontificou a ler. Seus olhos percorreram o papel tão rápidos como uma flecha. Dentre toda baboseira governamental, alguns pontos chamaram a sua atenção.
Aquela correspondência era nada mais nada menos que uma ajuda financeira cedida pelo governa aos tios do garoto como pela adoção bem sucedida. Resumindo, desde que ele foi adotado, seus tios lucravam mensalmente com uma ajuda de custo generosa, cedida pelo governo, na qual é claro, deveria ser direcionada para uma boa condição de vida de João, que nunca recebeu um centavo. Aquilo foi como um soco no estomago, mas algo já de se esperar vindo daquela família.
– Então esse era o “bônus do governo” que ele estava falando... – ele diz consigo mesmo enquanto seus olhos enegreciam de fúria.
– Está vendo? E mais uma vez eles só estão te usando... por mais quanto tempo você vai deixá-los agirem assim?! Ahn?! – A voz ecoa em sua mente e ele sente algo o arrodilhando momentaneamente.
Sua fúria foi passageira quando do outro lado da rua ele viu Thais passando com seus cabelos loiros esvoaçantes. Aquilo deu um estalo em sua cabeça e o fez recordar do convite que ela havia lhe feito para a tal festa.
Voltando-se para o céu e em seguida para o papel em sua mão, ele esboça um sorriso contido enquanto diz um “por que não?” em pensamento.
Em seu íntimo, seu coração estava acelerado, pois em tempos ele não fazia algo tão arriscado. Ele tentava se convencer de que dentre tantos anos em que eles se aproveitaram dele, usar aquele dinheiro seria mais que justo. Laguna não tinha muitas opções de lojas, mas até algumas tinham algo de bom. Passou por algumas delas e comprou-lhe o que quis. Deu uma passada no barbeiro e deu um jeito naquele cabelo desgrenhado aparando um pouco as pontas.
Mesmo passando pela cabana, João foi o primeiro a chegar, bem na hora do almoço por sinal. Bagunçou o cabelo antes de entrar, tentando disfarçar a mudança no visual, mas seus tios mal perdiam tempo em dar-lhe alguma atenção.
Ele mentiu sobre o “bônus” dizendo que não havia chegado nada do tipo, entregando somente as contas de sempre.
Maria, Carlos e o Lucas só chegaram próximo as 17 horas e logo foram em disparados para seus quartos, antes que seus pais percebessem as sacolas das compras.
Eram pouco mais de 22 horas e todos foram supostamente dormir. Enfim, as 22:30 o plano entra em ação. Seus primos se esgueiram pela casa, tentando fazer o mínimo de barulho possível, indo em direção ao celeiro, onde eles começaram a se arrumar. Maria foi a que mais demorou por conta da maquiagem, mas prontamente eles partiram até o ponto em que um amigo ira busca-los de carro no horário marcado.
João esperou até todos saírem, daí então ele começou a se mover.
O celular toca, inesperadamente, e mais inesperado ainda foi ver quem era, Helena.
– Alo! – ele diz e uma forma eufórica.
– “Alo”? – ela diz contrariada com a forma que ele atende – É assim que fala com sua namorada que não fala com você o dia inteiro?
Realmente, aquilo ele não esperava, aquela reação da Helena o fez ficar totalmente confuso.
– Ahn- eh... – gaguejando, João mal conseguia formular uma palavra, quanto mais uma frase.
– Esquece, eu estava brincando. – ela diz com um sorriso na voz.
– Ah tá, desculpa é que eu não esperava que você fosse me ligar uma hora dessas.
– O que, você estava indo dormir?
– Não, não é bem isso-
– Não me diga que você estava se arrumando pra festa daquele careca marrentinho? – ela diz cortando a fala do garoto.
Ele para e pensa com cuidado no que vai dizer, mas aquilo já foi mais que o suficiente para que ela tirasse a suas próprias conclusões.
– Quem foi que te convidou? – ela pergunta com uma voz mais ríspida.
– Foi... a Thais... – ele responde temendo a reação de sua amada.
Dois segundos intermináveis de puro silencio entre eles foi mais que o João entrar em pânico.
– Tudo bem, espero que goste da festa! – ela diz de uma forma tão animada que ele mal pode acreditar.
– Então... tudo bem pra você eu ir a festa? – ele pergunta desconfiado.
– Claro, é só uma festa. Bom, agora eu tenho que ir, não quero te atrapalhar e eu tenho umas coisas pra resolver aqui.
Eles se despedem e logo após desligar João, franzindo as sobrancelhas, faz uma cara de bobo como se não conseguisse acreditar naquele desfecho.
João não pode deixar de passar pelo quarto de seus tios e ao olhar pela fresta da porta, contatou que eles estavam dormindo quase que profundamente.
Não demorou muito para que ele descesse as escadas e saísse sorrateiramente daquela casa. Foi até o pasto, selou o alazão negro no qual ele havia conduzido na charrete mais cedo e partiu galopando em direção a cabana.
Iluminando o lugar com um lampião, ele começou a se trocar. Catou as roupas novas dentre as sacolas e em 5 minutos ele já estava pronto.
E dentre o céu estrelado e a imensa lua cheia, ele sai galopando dentre a densa escuridão daquela noite tão esperada.
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