Masquerade - Little Lost Soul
12 The Heat Of The Flames
Notas iniciais

Depois da noite com Jack, vou para a cama. Resolvo tirar as sapatilhas por que elas fazem barulho no piso de madeira. Paro em frente à porta, seguro as sapatilhas em uma mão, enquanto que giro a maçaneta com o maior cuidado do mundo. Abro a porta do dormitório e todas as meninas estão a dormir. Ótimo, consigo passar despercebida. Dou passos silenciosos e me encaminho para dentro do quarto. Estou prestes a fechar a porta, quando uma luz de velas reflete nas paredes do corredor. Seguida dela, vejo uma silhueta refletida, sem dúvida, é a sombra de Alicie. Engulo em seco, dentro de alguns segundos, ela para à minha frente.
– Elsa? — Até mesmo em um sussurro, sua voz é inconfundivelmente autoritária. O que me faz lembrar do episódio em que dormi fora do quarto pela primeira vez. Céus, minha bochecha formiga de lembrar disto.– O que faz fora da cama? Onde estava?
Olho para o chão, sem coragem de encarar seu olhar desaprovador.
– Estava... Na cozinha, bebendo água. — Minto.
Ergo a cabeça e ela arqueia uma sobrancelha para mim. Deus, ela não acreditou.
– Elsa, não minta para mim.
Minhas bochechas ardem, e me concentro nas chamas que consomem a vela no candelabro em sua mão.
– Estava ensaiando.
Sua expressão autoritária e rígida se desfez. Seus músculos tensos e alerta se descontraíram e seus ombros desabaram. Ela suspirou.
– Querida, entendo que este é o seu sonho. E para falar a verdade, acho que você é uma garota muito talentosa, e que merecia mais do que qualquer pessoa aquele cargo. — Ela mostra compadecimento no olhar. — Mas entenda que, Swarovski foi escolhida. Legrand está encantado com ela, e não pretende mudar. Sinto muito, mas para que isso aconteça, somente um milagre.
Ás vezes, milagres nem sempre provém de Deus.
– Tudo bem, Alicie. Eu entendi. Bom, estou indo dormir.
– Boa noite, querida. — Ela beija minha testa.
– Boa noite.
Alicie segura a maçaneta, e fecha a porta, sem emitir ruído algum. Viro-me e caminho por entre as camas e beliches onde as bailarinas dormem sem notar a conversa que houve a pouco tempo. O que é bom. Não suporto olhares de pena, de compadecimento, como os que Anna, Alicie e as outras bailarinas lançam a mim, especialmente quando Gretel foi escolhida como Soprano da Ópera. Eu não quero mais ser olhada desta forma. Quero olhares de admiração, inveja, e especialmente, de desejo, como o olhar que Jack me lança. Em toda a minha vida, jamais fui olhada desta maneira, com tanto desejo e intensidade. E ainda não decidi se isto é bom ou ruim. Mas o que importa é que é algo totalmente novo para mim, e eu gosto de experimentar coisas novas. Eu quero ser o centro das atenções, como o centro do palco, exatamente como Bouvié foi. E como Gretel é hoje. E eu não vou medir esforços para fazê-lo.
Encontro minha cama no escuro, sento-me, e começo a me despir. Troco de roupa rapidamente, então percebo que há algo sobre meu travesseiro. Novamente, encontro um papel amarelado, dobrado quatro vezes pelo menos, com uma fita azul escura selando-o. Um bilhete de Jack. Com o papel em uma das mãos, vou até a varanda, onde a luz do luar, juntamente com as de Paris, me permitem ler o que está escrito. E o que diz:
"Querida Elsa,
Não sabe como é bom poder encontrá-la novamente.
Como é bom ouvir sua bela e delicada voz,
sentir seu doce perfume,
e especialmente, poder conectar-me a você de uma forma sublime e perfeita.
Quero apenas lembrar-lhe que todos os dias a esperarei no mesmo lugar,
afim de passar estes maravilhosos momentos ao seu lado.
Quanto à minha parte, apenas saiba que o momento certo há de chegar.
E quando chegar, todos admirarão sua vitória.
Todos levantarão para aplaudi-la.
E saiba que, eu estarei sempre na primeira fila.
De todo seu, Jack Frost."
Observo com um leve sorriso, o papel, com a letra caprichosa escrita em tinta cor de prata. Reflito em suas palavras. Oh, isto é extremamente excitante. O papel está frio com relação aos meus dedos, o que prova que ele o escreveu a pouco tempo. Rasgo o bilhete em muitos pedacinhos e o jogo pela varanda. Ele é levado pela brisa primaveril de Paris, como pequenos flocos de neve amarelados flutuando. Me dou conta que a graciosa dança entre o papel e o vento, é como ballet. O vento carrega os os pequenos pedaços de papel, que rodopia graciosamente, e vão, guiados pela direção e sentido do vento. Refletindo as luzes de Paris, ao fundo, a torre Eiffel dando ênfase a toda beleza.
Balanço a cabeça, encaminho-me para o quarto. Deito-me em minha cama. Tenho sonhos:
Estou em uma encruzilhada. exatamente no meio, onde quatro ruas diferentes rumam. Uma rua, tem casinhas de aspecto normal, onde famílias saem, com seus filhos, mães, pais, crianças indo à escola, uma coisa que jamais experimentei. Na esquina, estava escrito: Rua Confraria.
A segunda rua, era mais escura. As pessoas não se olhavam, ou se falavam, apenas viviam suas vidas. Ninguém demonstrava carinho, apenas desconfiança. logo, percebi que não era um rumo que não queria tomar. Seu nome, era Rua Indecisão.
A terceira rua, era de longe a mais bonita, iluminada e cheia de vida. Música alta emanava daquele lugar. Pessoas de aspecto importante saiam ás ruas, cantores, atores, prefeitos, pessoas ricas. Todas confraternizando juntas, rindo, e vivendo uma orgia. Seu nome, era Rua Sucesso.
A quarta rua, eu não conseguia ver. Pois a entrada era coberta por um pano escuro, a rua era de longe a mais calma e silenciosa. Apesar de não ter nada de atrativo, apesar de não ver ninguém, eu conseguia ouvir vozes, convidando-me a conhecer aquele lugar. E minha curiosidade gritava para que eu seguisse aquele caminho. Seu nome era Rua Mistério.
Então o vento trouxe o papel, amarelado e rasgado em pequenos pedacinhos, dançando junto ao vento, exatamente como o que eu recebera de Jack. Um pedacinho voou para minha mão, seguido de outro, e mais outro e assim foi. E ao tocar-se, eles se juntavam, formando palavras. Mas agora, não era mais a letra prateada e impecável de Jack. Era escrita em preto. e dizia. "Escolha uma, apenas uma."
Acordei saltando da cama. Algumas bailarinas já estão acordadas. Olho para minhas mãos, procuro o papel, mas ele não se encontra mais comigo. Retiro o cabelo do rosto e me sento na cama, esfregando os olhos. Olho para o lado, e percebo que Anna já começa a se levantar. Ela pisca os olhos, senta-se, e então volta a cochilar. Rio, pois isto já é um costume dela, desde muito pequena. Ela pisca mais algumas vezes e então retira a massa de cabelos castanho avermelhados, boceja, se alongando e então abre os olhos, vermelhos, cheio de olheiras em baixo.
– Bom dia, Elsa. — Ela cumprimenta com a voz fraca e rouca.
– Bom dia, Anna. Dormiu bem?
Ela faz que sim com a cabeça.
– Calem a boca, pelo amor de Deus! — Murmura Emilia, com seu mal humor de sempre.
– Bom dia pra você também, flor do dia. — Anna revira os olhos.
Em resposta, Emilia ergue o dedo do meio e mostra-o para Anna e para mim. Cobre a cabeça com o cobertor e volta a roncar.
Anna ri, e se joga na cama novamente. Estou prestes a fazer o mesmo.
– Ei, mocinhas! — Alicie abre a porta, e fala alto, chamando a atenção de todas as bailarinas, exceto as que já estavam no banho — Vamos, vocês tem menos de uma hora para tomarem banho e se vestirem. O café já está pronto lá em baixo. O ensaio vai ser agora de manhã, pois hoje, o senhor Legrand irá receber convidados ilustres.
Murmúrios ecoam pelo dormitório, todas querendo saber quem são os convidados. Confesso que até mesmo eu fiquei curiosa.
– Ora, isto não interessa para vocês, suas atrevidas. — Responde Alicie — Agora vão se preparar para o ensaio, lembrem que o espetáculo está chegando. Sem espetáculo, sem salário. — Ao dizer isto, fecha a porta.
Anna se vira para mim.
– Dá para acreditar? — Pergunta, incrédula. — Quem, neste mundo iria querer ir a um espetáculo cuja estrela principal é Swarovski? É um absurdo! Legrand só pode ter ficado louco.
Faço que sim com a cabeça. Ainda falta algum tempo para a peça, mas a hora vai chegar, e eu preciso pegar o lugar de Swarovski a tempo. Preciso falar com o Jack...
– Quem é a próxima? — Danielle pergunta.
– Eu. — Ergo a mão — Entro no boxe, giro a maçaneta, e em um instante, a água quente começa a cair, percorrendo por todo meu corpo. Relaxo, e começo a me lavar. A água me desperta completamente. Assim que termino, pego a toalha, me seco, e começo a me vestir. saio do banheiro, e vou para o quarto, paro na frente do espelho e começo a fazer o coque em meu cabelo. Passo uma simples maquiagem nos olhos e na boca e então desço para tomar café. Sento-me em uma mesa qualquer, Anna se junta a mim. Swarovski não está aqui. Assim que termino, vou para o salão onde ensaiamos ballet todos os dias.
Começamos os ensaios. Sem me importar com ninguém em volta, começo a dança, que venho praticando por tanto tempo. Com graça, saltamos, ficamos na ponta dos pés, e realizamos movimentos suaves, como verdadeira poesia. Giro sobre meus pés, dançamos livres, neste momento, o mundo parece ganhar mais cor, mais graça e suavidade. Minha mente vaga, então, para um mundo paralelo, totalmente diferente. Onde não há mais cores, apenas um clarão branco, que não me permite abrir os olhos. mas com o passar do tempo, esta luz vai ficando mais fraca, e logo, percebo que é um holofote, e ele está focado em minha direção. É quase como um sonho, e ouço o barulho abafado de aplausos preenchendo meus ouvidos. A sensação é boa, e é exatamente o que eu quero. Ou será que não? Então todo o som de aplausos cessa, e no lugar, consigo ouvir apenas sussurros, vozes baixas, clamando pela minha atenção. E elas dizem "Escolha uma. Escolha uma. escolha uma..." Fico tão nervosa que perco o controle de meus movimentos, tropeço em meus próprios pés e caio. O pianista para de tocar a música. As bailarinas param de dançar. Todos me cercam, perguntando o que houve.
– Elsa, você está bem? — Anna pergunta, com a testa franzida de preocupação.
Logo milhares de vozes caem sobre mim.
"você se machucou?" "Está tudo bem?" "Aposto que escorregou. Essas sapatilhas não estão boas." "Calma, ela só perdeu o equilíbrio." "Bateu a cabeça?" "Está tonta?" "Deve ter tido uma queda de pressão." "você comeu direito seu desjejum?"
Ergo minhas mãos, para que silenciem.
– Calma, eu estou bem. Só... Perdi o equilíbrio. — Falo — Me alimentei sim, eu estou bem.
Aos poucos, o círculo ao meu redor se desfaz e a música retoma de onde parou. Corada de vergonha, me levanto e tomo meu lugar entre as bailarinas. Fecho os olhos e recomeço a dança. Paramos algumas vezes para descansar e beber água. Não me permito mais pensar naquele sonho estranho, e assim o ensaio segue, funcionando sem mais imprevistos.
No final da música, fecho os olhos e começo um passo, rodando em seguida. Paramos com lindas poses, e ouvimos alguns aplausos. Abro os olhos, e Encontro Sr. Legrand de pé, na plateia, perto dele, estão alguns administradores da Ópera, e um pequeno grupo de desconhecidos. Eles riem e aplaudem também. Logo viram o comentário das bailarinas que vão deixando o salão. Eles não se importam. Legrand conversa com um senhor de expressão severa, vestido com roupas muito elegantes e de aspecto caro. Ao seu lado, está um rapaz que parece ser mais novo, acho que é filho dele. Mas não consigo ver muito bem, porque deixo o salão.
Vou para a cozinha, e é claro que os desconhecidos logo viraram assunto das mulheres.
– Viram aqueles senhores? — Murmura uma das cozinheiras. — Eles vieram aqui mais cedo para tomar café. Nunca vi homens tão elegantes em toda a minha vida. O que conversava com Sr. Legrand não falava francês direito, era traduzido pelo filho, o rapaz ruivo e bonito ao lado dele. São ingleses, eu acho.
– Oh Deus! Ingleses ricos? — Anabelle se abanou — Foi tudo que pedi a Deus!
– Abaixe seu fogo, Anabelle! — Alguém exclamou. Ela deu a língua, fingindo estar ofendida.
isto provocou risadas no lugar.
– Mas afinal, o que eles fazem aqui? O espetáculo nem começou...
– Ora, não vê que é óbvio? — Respondeu Emilia. — Legrand precisa de patrocínio para o espetáculo agora que Bouvié se foi. Quem melhor do que ingleses ricos?
– Oh... — Disseram em coro.
De repente, senti uma imensa curiosidade sobre os patrocinadores. Se eu seria a nova Soprano da Ópera, eu teria de fazer eles gostarem de mim. Teria de ser agora! Sem que ninguém percebesse, saí da cozinha, e fui para o salão. Me escondi atrás de duas colunas e fiquei observando o grupo que conversava. A voz de Legrand se destacava entre as demais.
– Ah, precisam conhecer nossa mais nova estrela: Gretel Swarovski! — O homem rico, porém , não pareceu receber a energia que Legrand passava — Ela é simplesmente estupenda! talentosa, magnífica! — Continuou — Sua voz é como um hino dos deuses!
Reviro os olhos, diante daquilo.
– Mas você sabe que ninguém nunca será como Gareth Bouvié, não é? — Retrucou o inglês, falando francês com certa dificuldade.
– Sim, mas... — Legrand pareceu constrangido — ela é tão boa quanto...
– Ah, quando ouvia Bouvié cantar, era como poesia. — Dizia ele, encantado. — Sua voz era como a de um anjo. — Virou-se para os outros ingleses, murmurando algo em inglês que não entendi. Só naquele momento, percebi que faltava alguém entre eles, mas não sabia dizer quem era. O senhor passou as mãos pelos cabelos brancos. — Bouvié sempre me encantou. Você terá problemas em consegui uma que seja tão boa quanto ela, Legrand.
– Com toda a certeza, meu Conde. — Disse Legrand com uma pequena reverência.
Um Conde? Ele quer patrocínio real Britânico para a Ópera? Brilhante! Ainda perdida em pensamentos, fiquei a observar a conversa que se desenrolava diante de mim, quando uma voz às minhas costas fez meu coração saltar dolorosamente no peito:
– Quem é você? — Pergunta a estranha voz masculina.
Viro-me alarmada, e me deparo com um jovem alto e extremamente bonito à minha frente. Era ruivo, de pele clara, olhos verdes, e suíças ruivas que vinham quase até o maxilar. Falava com um forte sotaque estrangeiro na voz grave e rouca. Seus cheiro era impecável exatamente como suas roupas, um traje elegante e fino: Uma casaca branca de cauda, com botões de bronze que seguem pela extensão do tronco. Por dentro, usa uma camisa social azul, com uma gravata vermelho vinho, de veludo. Calças de corte vitoriano ajustado, e botas marrons de couro que pareciam bem caras, além de mãos calçadas com luvas brancas. Ele parecia até um príncipe, ou mesmo um rei.
Em choque, fiquei de boca escancarada, sem saber o que dizer. Ao perceber meu desconforto, ele sorriu, exibindo dentes perfeitamente brancos e alinhados na boca, de lábios finos e rosados.
– Mil perdões, milady. — Fez uma reverência digna de um cavalheiro para mim. — Não pretendia assustá-la.
– Tudo... Tudo bem. — Consegui dizer. — M-meu nome é Elsa, senhor. Elsa Arendelle. Mil perdões pela intromissão.
– Olá, Elsa. — Ele sorriu, amigável. — Sou Hans. Hans Branford. Filho do Conde Di Branford da Grã-Bretanha. Prazer em conhecê-la.
Faço uma reverência apressada.
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