O pátio onde estava era uma coisa grande, como parecia ser tudo naquela cidade. Era cercado por quatro muros de uma pedra negra, antiga, mas só um deles dava a entrada para o saguão e o restante da corte. Ele mirou seu objetivo e depois a pequena multidão que os separava. Atrás de si, os maiores portões de madeira e ferro que já tinha visto. Não que aquilo o impressionasse. Havia um dia que Alberto chegara à Capital, e desde sua segunda manhã ali ele esperava numa espécie de fila que já tinha se desmembrado e tomado vida própria no pátio do castelo. Nem a arquitetura ancestral do lugar, nem a desordem e nem a multidão de pessoas pedindo ajuda o impressionava. Considerou o fato de fazer muito tempo desde que vira as duas ultimas. Ainda assim, não impressionava.
Mas incomodava. O fato de ter ali mais gente do que previra, significava que não era o único a procura de um favor. Resta saber que favores são esses, pensou. Significava também que, com a abertura dos portões nas próximas horas, todos iriam se aglomerar dentro da corte o mais selvagemente possível, já que parecia não haver mais uma ordem de chegada.
O sol enfim começava a nascer por cima da muralha leste. Ele levantou o olhar para pegar os primeiros raios de luz transbordando pela pedra negra e envolvendo os estandartes de pano que tremulavam ao vento com as cores branca e azul. Tudo foi ficando mais nítido. O chão era de terra batida, com árvores floridas da estação e uma grama verde que em alguns espaços já havia morrido pelo constante pisoteamento de peticionários. Os bancos de madeira davam lugar aos mais velhos, enquanto seus filhos ou quaisquer que fossem aquelas pessoas, sentavam-se no chão ou ficavam em pé. Ele era um destes.
Em dias de semana, quando o comercio funcionava regularmente e a cidade se movimentava como um grande formigueiro ao redor do castelo, era comum que o saguão estivesse fervilhando de pessoas com assuntos a tratar com a coroa. Ao adentrarem os portões da Capital numa manhã de sexta feira, Sor Antonio dos Sinos havia convencido Alberto a esperar até o fim de semana chegar para então ir ter com o Duque.
— Ficará lá o dia inteiro, Beto. É capaz até de pernoitar na fila. – dissera com seu ar exagerado o cavaleiro ungido de Pedra Caiada. – Espere conosco na estalagem essa noite e amanhã terá mais sucesso.
Ele esperou. Mas agora, o pátio fervilhava de gente da mesma forma que havia feito no meio da semana. Ou será que foi pior ainda? Era possível que essa desordem já durasse alguns dias, visto que o ânimo de muitos ali estava evidentemente comprometido. Há quanto tempo eles estão aqui? se perguntou. Ou seria outro motivo? Talvez a natureza de suas petições? Olhou para baixo, para a bolsa a tiracolo que trazia pendurada, mas não a abriu, nem retirou de lá a carta que trazia.
Chegou à conclusão de que sua espera se arrastaria pelo dia inteiro e, se tivesse sorte, seria atendido antes que a noite chegasse, sem precisar dormir de pé ou encostado numa árvore, esperando que não fosse roubado até o amanhecer. Pesou aquilo por um momento. Justo. A mim foi confiada a carta, e a mim cabe entregá-la ao homem. A única exigência da senhora Lilian, concluiu por fim... e logo então lutou contra um calafrio ao perceber que isso também significaria encarar o passado.
Passou com cansaço a mão pelos cabelos cor de fogo, de fato quentes sob o sol que começava a subir o céu azul. Pálida que era a sua pele, já come;aria a dar sinais de um avermelhamento que harmonizava com as cores do topo. Deve ser algo cômico de se ver. Cômicas ou não, no entanto, as características eram as únicas heranças do falecido pai, e algo pelo qual ele nunca sentiu vergonha. O único problema era a constância com que as pessoas as faziam lembrar. Cabelos ruivos? podia ouvi-los dizer. Isso me lembra alguém.

A multidão se aglomerava cada vez mais, enquanto guardas da coroa aos poucos desistiam de convencê-los a formar a tal fila. Viu famílias inteiras, e até homens e mulheres sozinhos ou com crianças pequenas. Alguns soldados esfarrapados e camponeses com animais trazidos por cordas. Sacerdotes do Eterno e seus meninos acólitos. Homens gordos, magros, velhos e novos, com suas trouxas e sacolas ou só com a roupa do corpo. Pessoas de aparente alto nascimento, escoltadas por soldados que portavam estandartes. Algumas daquelas cores e brasões bordados ele conhecia. Cidades daqui do leste.
Mas a grande maioria ainda era de pobres e miseráveis, alguns numa lamuria sem fim. Haviam pessoas machucadas também. Definitivamente, o assunto deveria estar se repetindo nesses últimos dias. Dom Horácio tinha razão? perguntou-se sem arriscar uma resposta.
Um homem de bengala e alforje discutia com um guarda, questionando o motivo da lentidão.
— O Duque os atende conforme sua boa vontade, velho. – respondeu o soldado em tom ríspido. – Paciência. Não gosto disso mais do que você.
Ninguém gosta.
Quase uma hora se passou quando os portões da corte finalmente se abriram e dois soldados vieram até o topo da escadaria para autorizar a entrada de todos. Naquele momento a manhã já havia se tornado ensolarada e quente. Quando observou toda aquela massa se acotovelando e se atropelando para entrar na corte, e vendo que a maioria se espremeu tanto que conseguiu obstruir a passagem a ponto de ficarem todos travados com o rosto pro sol, por algum motivo estranho ele sorriu um sorriso mordaz. É a chama do Eterno deixando tudo mais interessante, pensou. Não há vida mole para seus filhos.
Ele esperou sentado até que todos entrassem, depois fez o mesmo. Achou um espaço livre na soleira da porta no qual pudesse se recostar, então esperou. Atrasado, o arauto apareceu no altar.
— Todos de joelho! — gritou escandalosamente. — Com as bençãos do Eterno e do Santíssimo por ele posto neste solo, eis Vossa Excelência, o Duque Bernardo Terceiro de Mataguarda. Guardião das Terras e Defensor das Províncias, de Pico da Planície à Maré Negra e além mar.
Na soleira do enorme portão do saguão já era possível ouvir e ver o que se passava lá dentro. A figura nobre que se seguiu ao anuncio não era nada parecido com o que Alberto se lembrava. O homem forte, de cabelos escuros longos e um rosto severo marcado pela guerra dera lugar a um senhor corpulento, com a barba e os cabelos grisalhos como cinzas e um semblante aborrecido de quem acabara de acordar. Mantinha, porém, o marcante brilho esverdeado dos olhos. Vestia uma túnica branca de seda com bordados a ouro e ostentava a coroa também de ouro na cabeça. Mal parecia ter a força necessária para empunhar sua espada, como outrora o fez com vigor. O Duque se sentou no seu trono ao centro do altar, e dois homens se sentaram em cadeiras simples, um a sua direita e o outro a sua esquerda. Franco Garcia e Dom Raul Marino. O primeiro foi contador de Silas Varella por muitos anos na corte de Forte D’ouro. Até onde Alberto sabia, havia sido condenado por estelionato, mas nunca chegou a ser preso. Ao invés disso, foi elevado a senhorio de um distrito chamado Pasto Manso e chamado para integrar o Conselho do Duque. Sempre muito estranho. Do homem da esquerda ele só sabia o nome.
Beto deu uma boa olhada ao redor. A luz da manhã entrava pelos vitrais coloridos do saguão e refletia nos ornamentos dourados das enormes colunas que o sustentava, tornando desnecessárias as inúmeras piras acesas para iluminação. O chão ali era de mármore branco, mas já sujo de terra. Nas paredes estandartes em branco e azul dos Mataguarda se alternavam pendurados com os estandartes do Eterno: os archotes acesos da fé.
A multidão ainda se levantava de seus joelhos quando o arauto voltou a falar.
— Para os desavisados, informo-lhes de que, devido à extraordinária quantidade de requerentes nos últimos dias, estamos dividindo-os em três sessões. Enviados com cartas formarão uma fila para serem atendidos por Dom Garcia. – e apontou para o homem sentado à direita do Duque. – Reivindicadores de recompensas e assuntos financeiros se consultarão com Dom Raul, – e apontou para o da esquerda. – e os que clamam pela justiça da coroa podem formar a fila do meio. Mas lembrem-se, sejam rápidos e não abusem da nobre paciência.
Lentamente todas as pessoas que se encontravam dentro do saguão começaram a se separar na frente do altar. Dom Raul ficaria com a menor das filas, seguido por Dom Garcia. A maior das três, com mais que o triplo do tamanho das outras, se formou diante do monarca.
Eu poderia enfrentar a menor delas. Ao invés disso terei de enfrentar a fúria dele. Olhou de relance para o velho homem coroado. Ordens de Pedra Caiada.
Naquele saguão gigantesco, o burburinho da multidão se misturava às vozes dos peticionários, dos senhores conselheiros e do Duque enquanto proclamavam suas sentenças. Este último, apesar da aparência fatigada e costas arqueadas, ainda possuía uma voz austera que, em momentâneos lapsos de fúria ou excitação, encobria as vozes de todos os outros que falavam ao mesmo tempo.
Alberto não desviava o olhar. Estava na metade da fila quando começou a distinguir o que os requerentes a sua frente diziam. Foi aí que de fato concluiu: a maioria deles estava ali por algo mais do que um simples favor. Qual outro motivo traria tanta gente à Capital que não ameaça às suas terras? Dom Horácio parece cada vez mais ter razão.
Chegou a vez de um homem de vestes sujas e rasgadas fazer seu pedido. Sangue escorrera de um ferimento em sua nuca e agora aderia seco à sua roupa velha. Mancando ele se aproximou do altar e se ajoelhou perante o Duque.
— Qual o seu nome, meu nobre senhor? – perguntou o soberano.
— Não sou nobre, Vossa Graça. Meu nome é Cletus. Sou pescador. – o homem parecia prestes a rebentar em choro.
— O que posso fazer por você então, Cletus, o pescador?
— Meu bom e justo senhor, venho até você pedir socorro...
— Não é o primeiro. – interrompeu Bernardo.
Não, não é o primeiro e não vai ser o último.
­- Temi por isso. – continuou o homem – Sou de Vila Taciturna. Vim de lá. Costumava morar em um casebre simples no povoado, com minha mulher e minhas três filhas. Cuidava também de meu enfermo pai, mas já não carrego esse fardo. Cavei duas covas nas últimas três semanas, Vossa Graça.
— Duas covas? Uma para o seu pai, eu presumo. E a outra?
— Para minha mulher, Vossa Graça. Vila Taciturna foi atacada por piratas, assim como Pedregulho, Monte Chato e outros vilarejos na costa oriental de vossas terras. Uma pequena frota, tenho de admitir, mas trazia em seus conveses verdadeiros demônios sem coração.
Piratas. Sim, ele tem razão. Por favor, aguente até o meu regresso, suplicou em pensamento como se o velho pudesse ouvir em seu leito.
— Lamento por sua esposa, — o Duque disse. — mas a sua reclamação não é a única dessa natureza nos últimos dias, Cletus. Aparentemente minha costa leste esta sendo assolada por alguns patifes metidos a pirata. Já enviei um mensageiro a Porto Impávido com a ordem de por em mar seis das mais bravas naus de Dom Pedric Sunrise, abarrotadas com seus melhores guerreiros. Não se preocupe, em breve sua vila estará segura novamente e você poderá pescar para recomeçar sua vida com suas filhas. Desejo-lhe sorte. – ele limpou a garganta e esbravejou. – Próximo!
— Minhas filhas foram levadas embora! – o homem se exaltou. – Meu senhor, eu lhe imploro, seis naus não serão o bastante. Que o Eterno tenha piedade! Você não sabe do que esses piratas são capazes. Eles não se contentam em pilhar, eles matam e torturam como se bebessem e cantassem...
— Cuidado com o tom de voz, meu amigo. – disse um guarda real que num piscar de olhos já agarrava o braço do pescador e o apertava com força. O cavaleiro vestia uma armadura inteira ornada em ouro, um extravagante elmo que lhe escondia o rosto e uma capa vermelha pendurada nos ombros.
Austin de Martelo da Velha, concluiu. Da ultima vez que o vi sua armadura era só aço.
— Deixe-o, Sor. — disse o soberano. – O sujeito perdeu a família. Até você pode se comover com isso.­ – soltou um grunhido que mais parecia uma troça e estudou o pobre homem: um trapo de gente com hematomas por todo o corpo. – Vamos, descreva-me esses piratas.
— Meu... meu bom senhor... – o homem agora já chorava, soluçava e tropeçava nas palavras. – Esses carniceiros de quem vos falo não possuem compaixão nem clemência pela vida. Não distinguem criança de velho, homem de mulher ou animal. Violaram tanto quanto puderam e mataram ainda mais. Me bateram mesmo rendido. E fizeram coisas... coisas com minha mulher antes e depois de lhe tirarem a vida que vossa graça não acreditaria.
Está enganado Cletus, ele entende do que você está falando. Bernardo de Mataguarda é um homem da guerra.
O Duque olhou para os dois lados e mirou seus conselheiros numa quase expressão de confusão. Beto percebeu.
— A população foi passada na espada. – o homem continuou. – A vila, no archote, e muitos dos nossos jovens, garotos e garotas, foram sequestrados. Até nossos barcos de pesca foram queimados. Choro de pensar no que podem estar passando minhas filhas nesse momento. Esses não são simples ladrões, meu senhor.
— Entendo. – ele respondeu. – No entanto, garanto-lhe de que os homens de Dom Pedric já estão dando caça a esses piratas neste exato momento. E como você mesmo disse, a frota deles é pequena. A meu ver não durarão muito contra um ataque de Porto Impávido. Concorda?
— Eu... Eu, não sei, Vossa Graça... – o homem já não sabia o que dizer, só o que fazia era tentar segurar o choro, sem sucesso.
— Ouça-me, homem, talvez esteja me achando um tanto negligente. A verdade é que a Capital não dispõe de tantos soldados quanto você desejaria. Não posso me desfazer dos poucos que tenho, assim como Dom Pedric também não pode se desfazer dos dele. Claro que se eu o ordenar que desmantele a guarnição inteira de sua cidade para conter esses piratas, ele obedeceria sem pestanejar, mas isso não será necessário. Prometo-lhe, Cletus, que enforcarei esses covardes de vela negra aqui mesmo na praça da Capital e exporei seus corpos em minhas muralhas. Volte à cidade em uma quinzena e pode até escolher uma cabeça como meu presente a você.
Que bela homenagem à mulher morta.
— Como... como quiser, meu Duque.
Ficou claro que não se contentara com a resposta. Ameaçou dizer mais alguma coisa, mas ao invés disso fez uma mesura torta, deu meia volta e saiu do saguão enxugando as lágrimas com as costas das mãos.
Pobre homem, pensou. Não conseguiu o que queria e ainda foi intimado a voltar. Mas para onde ele vai hoje se sua casa foi queimada?
A fila andou, mas o assunto permaneceu. De todos os peticionários a frente, a assustadora maioria suplicava a justiça do Duque para aqueles que haviam matado suas famílias, queimado suas casas, roubado seu ouro e sequestrado seus filhos. Quase duas horas depois lá estava Beto, na sua vez de dobrar o joelho.
— Diga o seu nome e o que quer aqui, jovem.
— Sou Alberto, Vossa Graça, enviado de Pedra Caiada. Talvez se lembre de mim.
O velho Duque olhou mais atentamente.
— Talvez não, – respondeu. – a não ser que tenha sido eu quem te deu esse olho cego. — e soltou um risinho.
O instinto o levou a coçar o olho esquerdo com as costas da mão. Branco como uma pérola. Sem valor como uma pedra. Ele me reconhece.
­- Seu cabelo ruivo e seu olho bom te denunciaram, Alberto de Marenegra. – continuou – Estou velho e minha memória falha, sim, mas consigo me lembrar muito bem do rosto de seu pai, visto que admirei sua cabeça num espigão por várias manhãs antes de ela apodrecer por completo. Você se parece com ele.
Começamos bem.
— Fico feliz que minha presença lhe traga tão boas lembranças, meu senhor.
— Sim, doces lembranças. O que quer aqui?
— Sou enviado de Dom Horácio e da Senhora Lilian. – Alberto retirou da bolsa a carta. Estava enrolada e trazia o selo de Pedra Caiada: a forma de um castelo em cera branca.
— Meus soldados te deixaram meio surdo além de meio cego, rapaz? Cartas são ali com Dom Garcia. Está na fila errada.
— Temo que meu assunto seja de maior urgência, Vossa Graça. Algo que só pode ser tratado com o Duque em pessoa.
Bernardo deu uma gargalhada desdenhosa.
— Apressado, urgente. É mesmo um Marenegra!
Ele insiste em repetir meu nome para que todos ouçam.
— Não se trata aqui de mim, Vossa Graça. Venho cumprir a vontade de Dom Horácio Villanova. É a ele que devo sua resposta.
— Sei. – o Duque coçou a barba, piscou os olhos vagarosamente e abriu um sorriso. – Vem cumprindo as ordens de Horácio Villanova com bastante afinco, não é, Alberto? Quantos anos se passaram? Vinte?
— Dezenove. – respondeu sem vacilar.
— Sim, dezenove. O tempo corre quando não se tem mais batalhas a travar. A última me deixou bem cansado, mas a glória sempre compensa no final.
— Eu era jovem. Não consigo me recordar da glória.
O velho fechou a carranca.
— É abusado, como eram os pais e os irmãos. Isso lhes foi a ruína, sabia disso?
Alberto não desviou o olhar.
— Não pretendo cometer os mesmos erros que eles.
— Assim espero. Você tem a língua afiada, espero também que seja essa a sua única arma.
— Como o protegido de Pedra Caiada que sou, fui proibido a minha vida inteira de pegar em aço. Vossa Graça sabe disso.
— Sei muito bem, e na verdade não me importo. Como o caolho que é, não consigo te imaginar num duelo contra um velho de bengala sem que saia ferido.
Num instante grande parte da corte explodiu em ridículas gargalhadas. As atenções estavam todas ali. O desgraçado conseguiu o que queria. Será mesmo que não se importa?
O Duque continuou.
— Me pergunto de onde Dom Horácio tirou tanta confiança em você, Marenegra. Sangue rebelde corre nessas suas veias sinuosas.
— Minha lealdade aos Villanova se fortaleceu com os anos. Dom Horácio é para mim como um pai. — O pai que eu não tenho por cortesia sua, pensou, mas não falou.
— É incrível a gratidão que tem pelo homem que ajudou a massacrar sua família.
E para aquilo não tinha resposta.
— Meu senhor, o assunto do qual venho tratar é do seu interesse e de muitos mais aqui, não tenha dúvida. Tenho algumas respostas para as perguntas que lhe afligem. E espero conseguir mais algumas com a ajuda do seu sábio Conselho.
Alberto deu uns passos a frente e lhe entregou a carta. Ele abriu e se pôs a ler. Estreitava os olhos para enxergar e aparentemente teve que repassar alguns trechos. Quando terminou, sua indignação era palpável.
— Basta! – rugiu. — Piratas, piratas! Não aguento mais ouvir falar nesses malditos piratas! Sequestraram o primogênito? O que esse garoto fazia na merda de um navio? Pedra Caiada fica a meio reino do mar!
— O primogênito e único filho de dom Horácio, Vossa Graça. – Alberto completou. – Miguel estava numa expedição educativa pelo mar oriental quando desapareceu junto a seu tio e o restante da tripulação do navio. Seu pai está muito doente em Pedra Caiada. Sua mãe, a senhora Lilian, teme pela vida do marido e pelo futuro de sua Casa. Eles pedem sua ajuda para achar o filho e esses supostos piratas.
— Isso se ele estiver vivo ainda... — O Duque fitou Alberto nos olhos e estudou seu rosto. Posso sentir sua raiva daqui, pensou. Ele me odeia. – Apresente-se na corte do Conselho amanhã ao pôr do sol, Alberto de Marenegra. Temos assuntos a tratar.
Satisfeito, sentiu a tensão se esvair do corpo. Não respondeu e não esperou por qualquer coisa a mais que o Duque pudesse dizer. Apanhou a carta e a guardou na bolsa, depois fez uma reverência e se retirou do saguão o mais rápido possível. Lá fora ainda restavam algumas horas do sol da tarde. Abriu caminho pela aglomeração de peticionários no pátio, cruzou o portão do castelo e adentrou o emaranhado de ruas e vielas de chão de lama que era a Capital.

A caminhada do castelo até a estalagem era consideravelmente grande, mas ele tinha muito em mente, muito o que deliberar, e o tempo que levou para chegar pareceu insignificante diante de tudo que tinha feito nos últimos dias. Depois de tantos anos eu voltei a encarar aquele rosto cínico, pensou. Saí-me melhor do que esperava.
Ele encontrou seus companheiros de viajem na sala comum bebendo grandes canecas de cerveja. Naquele horário poucas das mesas ainda estavam vagas. Músicos tocavam alaúdes, flautas e tamborins, enquanto homens e mulheres bebiam e cantavam extremamente embriagados. Sor Antonio dos Sinos era um dos mais altos no recinto e trazia uma mulher seminua no colo. Desmond, filho do capitão, não tirava os olhos da cena.
— Olha quem está de volta. – gritou o capitão Boris. – Sente-se conosco, Beto. Estalajadeiro, uma caneca cheia pro nosso amigo!
— Obrigado capitão, mas preciso de uma cama. Tive dias longos.
— Você parece um velho. – Sor Toni exclamou com a usual embriaguez na voz.
Alberto escolheu ignorar o cavaleiro e sua troça. Subiu as escadas e entrou num pequeno quarto no andar de cima. A cama era feita de palha e forrada com couro. Uma latrina ficava encostada no canto da parede, ao lado de um baú velho sem feixe. Um armário baixo de madeira trazia em cima algumas velas apagadas e uma jarra d’água. Acendeu o fogo, abriu a bolsa que carregava e tirou um pedaço de papel escrito, amarelado e simples. A carta estava suja e não trazia nenhum selo que informasse de onde vinha, exceto pelo remetente e destinatário escritos no verso: de Pedra Caiada a Porto Celeste.
Meu amor, se está lendo essa carta é por que ela chegou a tempo do seu embarque para a Capital. Não tenho forças para escrever, então pedi a minha mãe que o fizesse por mim. Desde que você partiu não consigo sair da cama. Uma forte febre me assolou. Já não consigo manter no estomago mais do que uma refeição por dia e feridas vermelhas aparecem cada vez maiores. Temo pelo nosso filho. Ele se mexe muito, não sei se de fome ou se de saudade da voz do pai. Estou sendo o mais forte que posso, meu amor, mas é cada dia mais difícil. Todos aqui acham que a peste me atingiu, então fico a maior parte do tempo sozinha. Acima de tudo queria que você estivesse aqui. Queria que segurasse minha mão no dia em que nossa criança viesse ao mundo. Queria passar o resto da minha vida ao seu lado e te dar muitos filhos saudáveis. Por favor, volte o mais rápido que puder. Não sei se sem você consigo resistir por muito tempo. Com amor, Eva.
Pedra Caiada, nonagésimo-primeiro dia do ano da Foice.
Uma lágrima escorreu do olho bom quando Alberto se sentou na cama a fim de descansar, mas por mais exausto que estivesse, o sono demorou. Naquela noite sonhou com navios em chamas e homens lutando em alto mar. Havia sangue espalhado por todo lado, mas não vinham de ferimentos à espada. Vinham de grandes pústulas sangrentas que rebentavam em rostos distorcidos. Rostos de guerreiros em navios de velas negras.