Notas iniciais
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Data Terrestre: 08 de Outubro

Era difícil para Ororo lembrar o que exatamente era um dia calmo.

E, como eles eram muito poucos na sua infância, não melhorou depois que seus poderes apareceram. Ainda que tenha tido alguns quando morava em Wakanda no começo de seu casamento, mas aqueles dias haviam ficado no passado por hora.

Mesmo ela gostando de acordar cedo tinha que admitir que quinze para as seis da manhã em um domingo era além da sua própria capacidade. Não que Ororo não estivesse acostumada com a rotina de Nikolai, mas gostaria muito mesmo que o garoto tirasse pelo menos um fim de semana de folga, especialmente no meio daquela crise toda que estava tirando as suas poucas e amadas horas de sono.

Tentou parar de pensar em como se livrar do garoto na semana seguinte, algo tentador, e se concentrar na meditação que fazia após mais de uma hora de treino sobre fundamentos básicos da magia, a lição mais importante que poderia e podia ensinar as irmãos Rasputin, ainda que Nik fosse de longe muito mais aberto a conversas do que Alexis.

Estava preocupada com o que havia conversado no dia anterior com Logan, Emma e Hank sobre as necessidades demoníacas de Alexandra.

Aquilo também se aplicava a Nikolai.

Se ele tinha as mesmas necessidades que a irmã, como estava lidando com aquilo?

—Professora, a senhora está bem? Estou sentindo a senhora distante desde o começo do treino.

Ororo se surpreendeu por um momento com a pergunta dele, mas decidiu que como o garoto sempre foi mais tranquilo deveria agir como sempre com ele e perguntar. Era o que sempre fazia no final.

—Espero que não se ofenda com o que vou perguntar, mas você precisa de sangue?

Ela notou que o garoto pareceu surpreso por um minuto antes de sorrir.

—Vejo que andou falando com Emma. –Ororo concordou. –Às vezes, bem menos que a Alexis, mas preciso.

—Por que menos?

—É uma boa pergunta, acho que isso pode se ligar um pouco as nossas mutações.

—Como seu lado demoníaco poderia ser influenciado pelo seu lado mutante? Não faz sentido.

Nikolai pareceu pensar por um momento, como se tentasse formar a frase seguinte, o que pareceu estranho quando ele falou.

—Bom, da forma como eu vejo nem tanto.

—Então me explique.

O garoto riu por um momento como se a ideia fosse interessante, o que fez Ororo se perguntar se aquela conversa foi uma boa ideia.

—Eu sou um escudo, uma armadura. Mesmo quando ataco não estou agindo diretamente e normalmente eu sou mesmo um escudo para misseis ou tanques, então meus instintos de predador são menos estimulados. Claro que eu ainda tenho as mesmas necessidades que a Alexis, só que elas são mais raras.

—E por que ela sofre mais com isso? –De alguma forma, uma que a surpreendia, Ororo realmente estava vendo alguma lógica com aquilo.

—Qual o nome dela nas missões professora?

—Caçadora.

—Alexis é uma predadora. –Realmente Ororo teve que concordar com o argumento. –Ela rastreia, caça, bate e mata como ninguém. Ela é a mais forte, rápida e resistente combinação de poderes. Minha irmã voa, se regenera, é telepata e telecinética, tudo isso só pelo lado mutante, mas nós sabemos que tudo isso se repete no lado demoníaco dela, assim como no meu. –Nikolai levantou e Ororo o acompanhou. –Todas as nossas necessidades demoníacas são mais intensas nela.

—E tem outra possibilidade?

Nikolai fez uma careta como se a outra ideia não o agradasse, mas falou mesmo assim.

—Por que ela é uma garota e eu não? –Ororo realmente se sentiu ofendida com aquela resposta. –Qual é? Nem eu gosto dessa, o problema é que só ela sofre com a “Festa do Limbo”, sabe Deus o que é isso, nunca imaginou o porquê?

A professora suspirou vencida.

—Prefiro a dinâmica “escudo e predador”.

—Somos dois, professora. –Ele se esticou e bocejou, o que fez uma labareda de fogo sair da sua boca. –Infelizmente, temos que admitir a possibilidade de que isso também tenha alguma influência sobre ela.

—E ela já analisou as coisas por esse lado?

O garoto deu de ombros.

—Não faço ideia. –Ele encarou a professora. –Minha irmã tem problemas para se abrir até mesmo comigo, talvez o Nate possa ajudar, embora eu duvide que ele vá ficar falando muita coisa.

—E como você mantêm seus instintos demoníacos sob controle?

Ele olhou para Ororo por um minuto, pensando no que dizer.

—Quanto ao sangue Emma e as garotas Frost se prontificaram, assim como Hank, Logan e os Howlett. Sobre as mortes, o Logan me acompanha em missões de abate ocasionais, todas aprovadas pela Shield. A fome é fácil e o sexo... Eu gosto de uma garota, é meio complicado com ela então eu meio que faço como os outros garotos.

—Procura uma garota que não queira nada sério.

—Foi o que a Alexis fez no começo.

Ororo suspirou vencida.

—E a garota que você gosta?

—Ela é bem única.

Ela desistiu de tentar conseguir mais coisa com o garoto.

—Tudo bem, vamos encerrar por hoje.

—Como preferir professora.

Os dois ainda foram juntos até a cozinha menor do Instituto para tomar o café da manhã, já que ainda era muito cedo para procurar qualquer coisa no refeitório.

Para Ororo o dia parou por alguns minutos enquanto comia, o suficiente para que Nikolai resolvesse que era hora de sair.

Havia coisas que o garoto queria fazer e preferia que a professora não estivesse junto, mesmo com a vaga impressão de que passariam nos mesmos lugares. Resolveu ir até a sala da sua madrinha e não se surpreendeu a encontrar Emma sentada na cadeira da sua mesa dormindo.

Ele suspirou vencido, sabia que aquilo acontecia com mais frequência do que a vice-diretora admitia. Odiava ter que acordá-la, mas não tinha muito que pudesse fazer.

—Tia! –Chamou um tanto quanto contrariado.

Emma acordou assustada e encarou os papéis sobre sua mesa.

—Oi Nikolai, precisa de alguma coisa?

—Que a senhora vá dormir na sua cama e não na sua mesa, para começar.

A mulher suspirou diante daquilo.

—Eu sei, só vim terminar o trabalho de ontem que deixei para trás por conta do procedimento da Rose.

—Pensei que o diretor Summers ia cuidar disso.

—Scott não consegue fazer tudo que eu faço nem no seu melhor dia meu querido. –O garoto não precisava ser um gênio para notar a ironia contida na voz da madrinha. –Não se preocupe, hoje Jean disse que ficaria de olho em tudo com Ororo, então eu já vou para o meu quarto.

O garoto sorriu diante da promessa, porque sabia que mesmo que ainda fosse demorar umas três horas para Emma realmente ir dormir de verdade ela cumpriria a promessa velada que havia acabado de fazer.

—Tudo bem, vou ver as meninas.

—Até mais Nikolai.

Ele saiu da sala e seguiu até o elevador que levava até o laboratório de Hank, era lá que também ficava a enfermaria. Não se surpreendeu que, ao abrir a porta, Cara estivesse largada em uma das camas de recuperação e Rose na outra sob a vigilância de Logan que parecia mais acordado do que durante uma batalha.

—Vocês parecem crianças. –E Logan o encarava confuso. –Você, Emma e muito provavelmente o Hank, agindo como crianças, as duas vão ficar preocupadas quando se reestabelecerem.

Logan riu daquilo.

—Não se preocupe garoto, eu dormi um pouco. O McCoy me acordou tem pouco tempo e foi dormir, até porque mandamos a Emma ir descansar, mesmo tendo certeza que ela foi trabalhar, não é?

—Acertou. –Ele encarou as garotas. –Estão dormindo faz tempo?

—Depois que a Rose saiu do tanque e fez novos exames as duas se abraçaram, menos de duas horas depois elas dormiram. –Ele encarou Nikolai. –Elas pareciam tão cansadas pelo trauma que não duvido que continuem dormindo por mais algumas horas, no geral elas estão muito bem.

—Pelo menos isso para compensar a teimosia da Rose e a determinação da Cara de tentar proteger a irmã das próprias ideias malucas.

Logan riu e concordância.

—Veio apenas averiguar?

—Um pouco, me preocupo com as duas, são como irmãs pra mim.

—Não se preocupe, elas estão bem.

Nikolai assentiu.

—Volto mais tarde.

—Espera. –O garoto parou no lugar. –Conversou com Ororo sobre Alexis?

—Um pouco.

—E sabe alguma coisa da sua irmã?

—Ela saiu cedo com Nate.

—Vou supor que não sabe para onde ela foi.

—Não mesmo.

—Tudo bem, pode ir.

O garoto concordou e saiu da enfermaria direto para uma das bibliotecas, para sua surpresa sobre a mesa de centro havia um jornal de alguns dias com fotos de todos os que se envolveram-no incidente da Claire, mas uma foto em especial chamou sua atenção.

O retrato em preto, branco e cinza mostrava Annie May sorrindo, com um brilho travesso no olhar como quase todas às vezes que se lembrava tê-la visto, exceto no dia em que se beijaram. Nikolai lembrava bem que nesse dia May tinha um olhar intenso e decidido, nada divertido que quase fez o garoto fazer besteira.

Ou o mais parecido com isso que transar com uma garota em uma biblioteca possa ser considerado.

Nikolai afastou a lembrança daquele dia da sua mente e agradeceu mentalmente que alguém chutou aquela bola no vidro, o que fez May pular na parede, e se concentrou em achar o livro que precisava. Não demorou tanto quanto esperava. Olhou no relógio e viu que era pouco mais de sete e meia da manhã, então ele foi para a sala de estudos e começou o que precisava fazer.

Já estava distraído quando sentiu a energia de Alexis surgir no jardim.

Ele não pensou muito, apenas saiu correndo até encontrar a irmã a caminho da entrada do prédio acompanhada por um grupo de amigos e Nate.

—Alexis! –Nikolai abraçou a irmã com força, sabia que ela aguentaria. –Parece que você tá sempre metida em problemas.

A garota pareceu ficar constrangida, mas logo sorriu e bagunçou um pouco o cabelo do irmão.

—Sinto muito Nik. Vamos marcar um dia para termos um tempo em família, pode ser?

—Tudo bem, eu sei que você tem responsabilidades e coisas para fazer, não me importo. Apesar que eu concordo que precisamos de mais tempo em família do que conversas durante as refeições e os treinos de magia.

Alexis riu.

—Precisamos mesmo.

Nikolai notou Nate ainda parado atrás da irmã enquanto todos os outros já haviam sumido.

—Oi irmãozão, tá cuidando bem da minha irmã?

Nathan riu, o que deixou Alexis vermelha de vergonha.

—Nikolai!

—O quê? Vocês estavam transando há poucas horas e fazem isso várias vezes por semana. –O garoto suspirou diante da surpresa da irmã e das risadas de Nate. –Só comecem a namorar logo e parem de frescura.

—Nikolai!

—Tudo bem Nikolai, deixa a sua irmã em paz, já entendemos sua brincadeira. –Apesar do tom de piada de Nathan, Nikolai não precisou de telepatia para entender a expressão do garoto de “tente não fazer ela criar uma distância entre nós agora”.

—Não precisa surtar por causa de uma brincadeira Alexis. –A garota pareceu ficar mais calma. –Bom, vou voltar para os meus estudos.

—Não é muito cedo para fazer isso? É domingo. –Nate parecia um pouco preocupado.

—E desde quando nós somos conhecidos por termos folga nos fins de semana?

Tanto Alexis como Nathan pareceram concordar e o garoto voltou na direção da sala de estudos, para seu desprazer assim que entrou na sala encontrou Olivier e Rebecca sentados no sofá fazendo barulho e atrapalhando os outros alunos.

Suspirou cansado e sentou na sua mesa de estudo tentando se concentrar, o que era impossível com os gêmeos fazendo bagunça. Respirou fundo e levantou indo até os dois.

—Oi, será que vocês podem não fazer barulho? Tem várias pessoas tentando estudar.

Tanto Rebecca como Olivier olharam para Nikolai e sorriram com desdém.

—Vai se ferrar Rasputin, você não manda na gente. –Ollie era sempre um idiota, isso não era uma surpresa para Nik.

—E se não gostou é só ir chorar no colo da piranha da sua irmã. –Mas o que Beka falou irritou o garoto.

Mais tarde ele não saberia dizer como fez, o fato foi que Nikolai perdeu o controle quando Rebecca xingou sua irmã e seu lado demoníaco assumiu por um segundo. Normalmente aquilo seria o suficiente para destruir uma cidade, só que a raiva dele era focada na garota e, de alguma forma, seu demônio interior respondeu a aquilo.

Então quando Nikolai recobrou o controle perdido naquele segundo, tudo que ele viu foi a janela quebrada e os gêmeos Raven caídos no gramado depois de terem sido arremessados.

O garoto olhou para os outros alunos na sala ainda perdido quando um deles suspirou aliviado e sorriu.

—Valeu, agora posso estudar.

Outro se aproximou e deu um leve tapinha no braço de Nik.

—Belo arremesso cara. Eu teria feito pior se alguém falasse aquilo da minha irmã, mas tá valendo.

Nikolai olhou para o garoto surpreso.

—Eu arremessei os dois?

—E que arremesso.

—Ah não. –Nikolai correu e pulou pela janela quebrada indo até os gêmeos que ainda pareciam sentir dor e não conseguiam levantar. –Foi mal, eu sinto muito. E só apaguei por um segundo, não era a minha intensão. –Rebecca chutou um tornozelo de Nikolai e Olivier outro. –Mas que porra! Querem parar de ser idiotas, estou pedindo desculpas.

—Quem precisa de desculpas de um demônio, seu monstro. –Olivier parecia irritado e pronto para drenar os poderes de Nikolai que o afastou na mesma hora.

—Acredite, não quer drenar o que eu tenho em mim.

—Não duvide que eu possa lidar com isso seu anormal. Sou muito melhor que um mestiço barato como você. –Olivier respondeu quando teve as duas mãos presas pela telecinese do garoto mais velho.

Antes que Nikolai pudesse responder Rebecca tentou socar seu rosto. Tentou porque o loiro não se moveu ou piscou diante do impacto do soco da garota, mesmo que ela tivesse usado toda a sua força.

Nik sabia que não devia usar suas habilidades demoníacas com os Raven, mas se eles iam jogar para machucar ele jogaria para se proteger.

Endireitou o corpo e arremessou Olivier para longe antes de encarar Rebecca, que agora parecia ter medo dele.

—Vai me bater seu covarde?

Ele não negaria que o desejo de quebrar os dentes daquela peste que vivia infernizando a vida de todos era grande, porém tinha outra saída, sempre haviam outras alternativas. Aprendeu muitas com Emma enquanto crescia sob a supervisão dela e, mesmo não gostando de usá-las, às vezes era necessário colocar tudo em prática.

—Me diga Becky, essa sua raiva pela minha irmã, o que ela te fez? Maltratou? Ignorou? Deu uma bronca? Não foi gentil? Não te deu os pêsames pela morte do seu pai e o sumiço da sua mãe? –Ele viu o rosto da garota se contorcer diante das provocações que ajudavam sua telepatia demoníaca e o seu dom de provocação verbal magico surtirem efeito. – É a dor de não suportar ter sido abandonada pela mamãe enquanto eu e ela levamos as atitudes da nossa mãe com mais calma? Vamos, tem que ter alguma coisa, quem sabe um paixão reprimida?

A garota tentou socá-lo novamente, mas dessa vez Nikolai parou o golpe.

—Uma paixão? Por uma garota que dorme com qualquer um e seduz tanto homens como mulheres? –Havia uma raiva intensa nos olhos dela e Nik se concentrou naquela faísca, era o que precisava. –Ela arrasta até a melhor pessoa para onde quer, como se fosse dona dele.

—Ah, é isso então. Você...

—Solta a minha irmã.

Nikolai só teve tempo de desviar de Olivier e soltar Rebecca que pareceu voltar ao normal, ou o mais próximo disso que uma pessoa com aquela personalidade detestável poderia ser.

—O que você fez comigo?

Nik pensou por um segundo na resposta, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, algo chamou sua atenção.

—O que diabos...?

E como se dois gêmeos não fossem um problema ele agora podia ver duas crianças se elevando do portão da frente do Instituto até o chão do lado de dentro da propriedade.

Um casal de crianças de mãos dadas que pareciam também serem gêmeos.

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Assim que Nikolai saiu de perto, Ororo voltou para o seu dia.

Já que não poderia voltar para a cama dormir era melhor começar a trabalhar e tentar terminar cedo, então foi para o próprio escritório. Resolveu começar pelo mais simples, pegou o telefone e apertou a discagem rápida, depois esperou por alguns segundos até ser atendida.

—Oi mãe, como tem passado?

A mulher sentiu vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo ao ouvir a voz divertida e forte do outro lado.

—Oi meu anjo, eu estou bem. E você minha filha?

A garota riu do outro lado da linha.

—Tudo maravilhoso mãe, o Ben está sempre um pouco ocupado, mas não é como se eu estivesse vendendo tempo livre.—Havia uma ponta de chateação quase imperceptível na voz da garota, mas Ororo notou.

—Você pelo menos está tendo tempo para se cuidar?

—Claro que estou. Não é porque papai e o resto do conselho de Wakanda acha que tenho que viver para eles que faço isso. Eu até fui em uma viagem com o Ben a algumas semanas.

Ouvir aquilo deixava Ororo mais tranquila e feliz, especialmente porque ela gostava do genro.

—Fico feliz que esteja aproveitando sua posição como representante de Wakanda no Japão para ter um tempo com o Gabriel. Ele é um bom garoto apesar das divergências com o pai.

Outra risada da garota.

—Mamãe, quando vai parar de chamar o Ben de Gabriel?

—Aisha, eu posso ser muitas coisas, desinformada não é uma deleas e conheço Gabriel Benjamin Stacy Parker desde o momento em que o pai trouxe ele e a Sara para o país, logo depois que o Duende matou a Gwen. Então para mim esse garoto sempre será Gabriel, não importa o quanto ele, você e o resto do mundo prefiram chamá-lo de Ben.

—Tudo bem mãe, não vou tentar discutir isso. Mas e ai, sabe alguma coisa do David ou ele ainda está naquele tratamento de silêncio com você por causa do papai?—Dessa vez Aisha não disfarçou o desgosto na voz e Ororo não a culpava.

Havia muito tempo que parou de tentar remediar a relação de T’Challa com a filha ou fazer o filho entender que a irmã não era como ele.

—O que você acha?

—Que meu irmão é um idiota e deveria passar a pensar mais por ele mesmo.

—Dessa vez não vou tentar dizer que está errada.

—Pelo menos dessa vez concordamos sobre isso.—Ororo notou a ponta de desgosto e desapontamento escondida sob o tom conformado de Aisha, mas não falou nada.

Ela sabia as culpas que tinha.

—Vamos deixar seu pai e as preocupações dele, assim como seu irmão e sua consciência voltada para o bem de Wakanda para outra hora, me fale como estão as coisas entre você e Gabriel.

—Bom, melhoram muito depois que eu vim morar aqui, especialmente porque como cidadã de Wakanda minha maioridade aconteceu quando fiz dezesseis.—Ororo sabia bem como a filha desejou aquele dia por seis anos.

—E como você está no Japão como representante de Wakanda sua imunidade se aplica a questões legais como a idade dele, é uma vantagem da distância do conselho.

—Nem me fale. Eles não gostam do Ben, mas querem que eu case com um cara de mais de sessenta anos. Nem morta.

—E você passou seis anos reclamando que queria ter nascido mais cedo. –Hoje a lembrança divertia Ororo, ainda que na época irritasse muito.

Quase tanto quanto preocupava.

—Ainda queria, a maioria das pessoas não entende o que eu e o Ben temos ou o fato de que sou muito decidida a ter o que quero.—Dessa vez a voz de Aisha estava recoberta de um nível de orgulho que fazia Ororo rir.

—Eu entendo isso muito bem, desde o dia em que você nasceu, diga-se de passagem. Você sempre foi a criança mais geniosa que eu já conheci Aisha, acho que nem no amor isso deixou de ser algo próprio seu. Embora eu tenha ficado preocupada quando você se apaixonou pelo Gabriel.

—Você se preocupou apenas porque ele já era adulto quando eu o conheci.

—Ele tinha dezessete anos e você dez, se bem que minha preocupação eram mesmo as suas ações. Eu sabia que ele não faria nada com uma criança.

—Que confiança você tem em mim.—Havia uma ironia divertida na voz da garota.

—Prova de que conheço muito bem a minha filha.

—Não se preocupe, eu também sabia muito bem que se tentasse qualquer coisa poderia colocar o Ben em uma situação no mínimo complicada. Por isso mesmo esperei quase seis anos antes de se quer falar com ele de verdade.

—E depois do seu aniversário esperou apenas uma semana para dar um jeito de ir para a cama dele. –O leve tom de censura na voz de Ororo apenas fez Aisha rir.

—Nem foi tão difícil e você sabia que eu faria aquilo.

—Saber eu não sabia, mas realmente desconfiava.

—O importante é que diferente do David eu estou com a pessoa que eu amo e assim que fizer dezoito anos o Ben disse que vamos casar no consulado americano ou ai mesmo no Instituto.

—Pessoalmente gostaria que casassem aqui, apenas se lembre de me chamar e eu vou. –Ororo parou para pensar por um momento. –Dezoito anos? Andaram aprontando alguma coisa?

—Não mãe.—Aisha ria do tom preocupado da mãe. —Só queremos fazer isso logo, só que ele quer casar pelas leis americanas, assim papai, David ou o conselho não poderão interferir.

—Essa é uma decisão inteligente, se for o caso eu mesma assino os papéis para vocês casarem, sabe disso não é?

—Claro que sei mamãe, vamos apenas evitar mais brigas entre você e o papai. Sei que ainda o ama mesmo com o desgaste do relacionamento de vocês.—A garota suspirou. —Se for realmente necessário, não tenha dúvidas de que vou pedir sim para você assinar esses papéis, mas por hora meus planos e do Ben são mais do que o suficiente.

—Tudo bem, só me mantenha informada.

—Pode deixar e faça o mesmo, eu fiquei sabendo do que estão fazendo sobre a Claire.—Algo que Ororo preferia não contar, na verdade. —Se precisar me avisa que vou ai na hora. A Claire é maravilhosa e eu adoro ela, então me mande tudo que puder e que o Fury não puder.—Ororo suspirou vencida, deveria ter imaginado que a filha falaria com a Shield por conta própria.

—Combinado, agora aproveite o tempo que puder para você e com o Gabriel.

—Tudo bem mãe, até mais.

—Até meu anjo.

Assim que encerou a ligação Ororo encarou os papéis sobre sua mesa e suspirou. Às vezes se arrependia amargamente do dia em que prometeu a Emma que seria seu braço direito na administração da escola.

Tudo bem que os tempos eram outros e os problemas também, porém o tempo fez com que realmente fosse necessária a sua presença para cuidar daquilo, ainda que a Rainha Branca fizesse a maior parte do trabalho bruto.

Queria poder dizer que gostava do trabalho, só não seria verdade, ainda que não odiasse.

Levantou da sua cadeira e começou a mexer no arquivo, era a parte menos chata do serviço e a que estava mais organizada para ser arrumada. Ou ao menos esse era o plano até a porta ser aberta e ela ver Franklyn Richards e Rachel parados ali ofegantes.

—Professora, rápido. No jardim. –O garoto parecia prestes a enfartar.

Ororo não saiu correndo, ela não faria isso sem um bom motivo.

—O que aconteceu?

—Nikolai surtou por um segundo e arremessou os Raven pela janela, o que foi merecido, na verdade. –Rachel parecia um pouco mais calma que o namorado.

—Um segundo? –Ororo não parecia preocupada.

—É, foi por isso que não me preocupei no começo. –Rachel respirou fundo. –Só que depois o Ollie tentou absorver os poderes do Nik...

—Como é? –Aquilo sim era preocupante para a mulher alva.

—Nik não deixou, ai ele começou a discutir com a Beka que o socou e acho que ele estava usando poderes demoníacos para provocá-la. –A ruiva continuou.

—Nikolai... –Havia um leve tom de desapontamento na voz de Ororo.

—Não sei bem porque, mesmo na segunda vez que Ollie tentou drenar os poderes do Nik não conseguiu nem mesmo encostar nele, agora o mais maluco foi quando duas crianças, um casal de gêmeos, passou flutuando por cima do protão. –Rachel parecia tentar ser o mais rápida e Tempestade sabia como isso era difícil para a garota.

—Agora por algum motivo os Raven surtaram com as crianças e o Nikolai tá cuspindo fogo para manter eles longe. –Franklyn completou.

—Mas que droga. –E dessa vez Ororo saiu correndo até a saída mais próxima para o jardim.

Não demorou muito para ela achar a confusão.

Nikolai cuspia uma rajada de fogo na direção dos gêmeos Raven sempre que eles ameaçavam se aproximar das duas crianças as suas costas, essas por sua vez pareciam pedir para ele parar. Não que Ororo achasse que ele devia fazer isso considerando a violência que Rebecca e Olivier pareciam direcionar para os pequenos.

—Já chega! –Ela gritou fazendo raios e trovões ecoarem pelo céu. –O que pensam que estão fazendo?

Os Raven pararam e apontaram para os outros três.

—Essa aberração do Rasputin tentou nos matar. –Gritaram juntos.

Ela encarou Nikolai que suspirou.

—Fui pedir para eles pararem de fazer barulho na sala de estudo, Becky falou da Alexis e eu surtei um pouco.

—Você nos arremessou pela janela! –Rebecca ainda gritava.

Ororo fez sinal para os Raven se calarem.

—O que ela disse sobre a Alexis?

Nikolai hesitou e Ororo soube que era uma ofensa nada boa.

—Chamou ela de “piranha”.

—Mentiroso. –Os gêmeos gritaram.

—É mesmo? –Ororo encarou os dois. –Então se eu for até os estudantes daquela sala eles não vão confirmar as palavras do Nikolai? –Eles não conseguiram falar mais nada. –Vou entender isso como uma declaração de culpa. –Os dois tentaram falar alguma coisa e ela levantou a mão. –Conheço muito bem vocês dois, sei o que fazem com os outros alunos e, acreditem em mim, se ainda não foram mandados para um orfanato para viverem como puderem nesse mundo cruel é apenas pela consideração que temos pela memória dos seus pais. Se bem que sua mãe mesmo que esteja viva, morreria de desgosto ao ver as pessoas que vocês se tornaram.

—Mas nós não fizemos nada de errado quanto a eles. –Olivier apontou para o casal de crianças atrás de Nikolai.

Ororo suspirou cansada.

Havia esquecido como podia ser irritante lidar com os Raven.

—Certo. –Ela se virou para as crianças. –Posso saber quem são vocês?

As duas crianças se entreolharam e então andaram até estarem na frente de Nikolai, os dois permaneciam de mãos dadas. Ororo notou que apesar de ambos terem o cabelo castanho, a menina tinha olhos cinza e o menino olhos verdes.

E foi o menino que falou.

—Eu sou Derek e essa é minha irmã, Charlie, nós somos mutantes. Nosso pai nos mandou ficar aqui até que fosse seguro voltarmos para junto dele e da mamãe.

Ororo ficou um pouco surpresa com a maturidade do garoto, porém decidiu focar em outra questão.

—Desculpa perguntar, mas quem é seu pai e por que ele acha que aqui é seguro para vocês?

Dessa vez a resposta veio da garota.

—Papai acha que aqui é seguro porque ele ajudou a construir essa escola, o nome dele é Erik Lehnsherr, mas você deve conhecê-lo como Magneto.

Ororo ficou parada.

Ela não conseguia absorver o choque daquela informação corretamente, então Nikolai tomou a frente.

—Mostrem as solas dos sapatos. –E na mesma hora as duas crianças fizeram o que ele falou, revelando uma sola cheia de peças de metal colocadas de forma delicada. –Foi assim que eles flutuaram sobre o portão. –Ele encarou Ororo. –Eles tem os poderes do pai e são gêmeos.

—Temos oito anos. –Charlie parecia tão confiante quanto o irmão.

—Tem isso também. –Nikolai suspirou. –Tudo bem professora?

Ororo pareceu voltar a realidade.

—Acho que precisamos de uma reunião com os outros professores.

Continua...

No próximo capítulo: Amor e Família.

Notas finais
Nome: Olivier Jean-Luc Raven LeBeau A.K.A.: Crow Idade: 15 Origem: Westchester, Nova York Aniversário: 28 de Janeiro Signo: Aquário Raça: Mutante Altura: 172 Status: Vivo Cabelo: Castanho Olhos: Castanho/Vermelho Habilidades: Absorção de Habilidades (poderes, memorias, entre outros temporariamente); Vôo; Fator de Cura; Aliança: Heróis Afiliações: Shield, Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico, Guerreiros Secretos, Relacionamento: Remy Etienne LeBeau (pai-falecido); Anna Marie Raven (mãe-desaparecida); Rebecca Jacquline Raven LeBeau (irmã-gêmea);