Marvel Universe: All Different World
26 Capítulo XXVI: Todos Precisam Conversar.
Notas iniciais
Data Terrestre: 06 de Outubro
Franklin Richards parou na porta do banheiro do próprio quarto e encarou a garota ruiva na sua cama, sentada e concentrada em pensamentos confusos e que a deixavam não apenas irritada, mas ansiosa. Ele sabia o que a namorada diria se perguntasse apenas para tentar ajudar: “nada de mais loirinho”, só que Frank não queria ajudar dessa vez.
Já havia passado da hora de tentar mais do que consolar a namorada com palavras suaves. Se aproximou dela e se ajoelhando as suas costas começou a massagear os ombros da ruiva, um bom truque para ela não recuar.
—Você parece tensa. –Rachel tentou em vão não pensar naquilo, só que com Frank era complicado guardar segredos, especialmente com o pacote de massagem. –É sobre a Christine novamente ou tem algo mais te incomodando?
Ela suspirou vencida.
—Não é sobre a Frost, ela nem está no Instituto esses dias, o que tá deixando a Emma maluca.
—Posso imaginar, ela é uma mãe superprotetora com todas as filhas e uma madrinha bem protetora, o que com a Christine é outro nível. –Rachel tentou não se sentir incomodada mais do que o normal com aquela verdade. –E isso não responde a minha pergunta ruivinha.
—Tudo bem, começou com a Frost, ainda que estivesse pensando sobre meu irmão.
—Ele ou ele, Alexis e Tália?
Rachel virou parecendo ofendida.
—Você sabia?
—Difícil não saber quando as rodas de conversa dos garotos giram em torno de sexo e garotas, até quando a Claire está junto. –Franklin fez uma careta. –Principalmente quando ela está junto.
Rachel não pode deixar de pensar que aquilo não era muito diferente do que acontecia com as rodas de conversa das garotas, incluindo quando Claire participava delas. Era um dos raros momentos em que a ruiva tinha um momento de paz com Christine e disso Frank também sabia.
—E o que sabe sobre isso? –O garoto pareceu em dúvida se devia falar, por fim, achou que era melhor não tentar lidar com a namorada como se ela fosse uma criança.
—Tudo bem, não é o que você gostaria de ouvir, te garanto. –Rachel sentou de frente para o namorado e esperou a história. –Seu irmão é apaixonado pela Alexis a... Bom, desde que me lembro dele falar que gosta de uma garota sempre foi a Alexandra e isso quando a maior paixonite que tínhamos era a tia Mary Jane. –Rachel rolou os olhos.
Por que todos os garotos haviam tido uma queda por Mary Jane Watson ou Emma Frost ou Wanda Maximoff ou Sue Storm? Isso sem falar em Natasha Romanoff e Carol Denvers.
—Bom, ele se apaixonou por ela no minuto em que a viu e isso nunca mais mudou. –Frank deitou olhando para o teto a fim de tentar ficar mais calmo com o que diria. –Então um dia a alguns anos ele ficou sabendo que a Tália e a Alexandra ficaram uma noite, o que para as duas era natural, mesmo sendo só sexo as duas precisavam de alguém e sabiam das próprias limitações naquela situação. –Ele riu com o que vinha depois. –Então seu irmão foi conversar com a Tália, e garanto que ela é muito mais esperta do que nós todos juntos, menos sobre... Bom, não vem ao caso.
—É a Jocelyn? –Rachel se sentou ao lado dele e encarou o rosto surpreso do namorado.
—Você sabe?
—Infelizmente descobri nessa última semana. –A ruiva fez uma careta. –Nunca mais tento ler a mente da Tália sem aviso prévio.
Franklin riu diante do que a namorada poderia ter visto, porque a mente de Tália era complicada e intensa.
—Nate foi conversar com Tália e ela disse que se ele queria algo com a Alexis, mesmo sabendo que corria o risco dela fugir, tinha que ser criativo. Então, seu irmão decidiu que apelaria para a única coisa que sabia que Alexandra não recusaria dele: sexo.
—Eu não consigo acreditar nisso, mesmo que já tenha visto e ouvido nessa última semana.
Frank sorriu com a ideia de como aquilo poderia ser engraçado de imaginar.
—Segundo Nate o lado demoníaco da Alexandra tem necessidades, sexo é uma delas e ele nunca falou das outras. Então ele propôs para Alexis que eles fossem amigos com benefícios e como ela é tão ou mais apaixonada pelo Nate do que podemos imaginar a resposta foi um sim muito intenso. –Franklin riu. –Claro que ele sabia que as coisas não seriam simples se apenas os dois ficassem envolvidos e logo Alexis se assustaria a ponto de fugir mesmo dessa história, por isso Nate pediu para Tália fazer parte daquilo e ela, por ter uma necessidade de sexo quase igual à da Alexandra, aceitou. –Ele sentou. –Ela sempre foi a pessoa mais consciente naquela relação dos três e desde então Nate tem tentado alcançar Alexis a ponto deles começarem um relacionamento sério e não uma história mal contada.
Rachel respirou fundo e levantou da cama tirando a roupa.
Franklin observou a cena curioso, porque a namorada não era do tipo que simplesmente saia tirando a roupa daquela forma mesmo para o sexo. Mesmo assim a ruiva deixou toda a roupa no chão do quarto e quando voltou a cama sentou sobre o quadril de Frank.
—Tudo bem, entendi o quão esquisito e incompreensível isso é para mim, então podemos esquecer essa conversa com algo menos perturbador?
O loiro riu.
—Você tirar a roupa dessa forma é perturbador pra mim.
—Quer que eu coloque de volta?
—Não mesmo.
==========X==========
Data Terrestre: 07 de Outubro
Assim que abriu os olhos Rachel sentiu o estômago pedindo comida.
Ela sentou na cama e encarou Franklin que dormia largado na cama, quase caindo, e sorriu.
—Levanta Frank, não quero encarar seu pai sozinha.
Ele resmungou.
—Precisa levantar tão cedo em um fim de semana?
Ray riu.
—Eu tenho obrigações mesmo aos sábados, só que hoje eu resolvi fugir das delas no Instituto.
—Como todos os outros fazem às vezes.
Ela não falou nada, era verdade.
Estava cansada de ver James se escondendo na estufa ou no ateliê a fim de ignorar todos quando ficava muito irritado ou de Christine simplesmente sair para o apartamento de Andrew como se Emma não fosse surtar caso a filha ficasse mais do que cinco minutos longe dos olhos dela.
Rachel não contava Laura, que até pouco tempo passava a maior parte do ano viajando pelo país e o Canadá, ou Claire, que tinha poucos compromissos fixos no Instituto, ou Tália, que nunca cumpria os cronogramas (quaisquer que fossem).
Ela, Nate e Alexis eram os mais responsáveis dentre os alunos mais velhos que moravam no Instituto e isso tornava a situação do irmão de Rachel ainda mais estranha na sua opinião.
—Tudo bem, hoje você venceu essa Frank, mas eu ainda estou com fome e seu pai pode ser bem irritante.
Franklin sorriu e levantou da cama estendendo a mão para a namorada.
—Vamos tomar banho e então tomamos café, mesmo na companhia do meu pai.
A garota riu e, segurando a mão do namorado, seguiu para o banheiro.
==========X==========
Havia algumas coisas que Rachel não gostava muito na própria família e na de Franklin, uma delas eram os dramas.
Todos eles.
Então tudo que ela não precisava naquela manhã era um drama familiar.
Foi por isso que a ruiva foi dormir na casa de Franklin, o problema é que ele também tinha sua dose de dramas familiares.
Ainda que quando acordaram nenhum dos dois soubessem que tudo ficaria tão complicado.
Só que assim que chegaram a cozinha dos Richards o drama já estava encaminhado.
—Valéria, eu já falei que você tem que ficar na casa do seu tio, porque você tem que ser tão teimosa? –Reed parecia frustrado com a garota na tela do computador e Rachel imaginou o motivo.
O mesmo de sempre.
—Não pai, já chega. O Acordo era que eu faria o que você queria até os quinze anos, todos os cursos, faculdades e viagens de confinamento. Eu fiz tudo isso e aguentei mais dois anos porque haviam cursos e coisas que queria aprender não apenas na Latvéria, mas em outros países e o tio Victor poderia proporcionar aqui. Agora eu vou viver a minha vida de adolescente ou o que restou dela.—A garota do outro lado da tela estava muito calma e nem Rachel ou Frank gostavam daquilo.
—Valéria, eu sou seu pai, sei o que é melhor para você. –Já Reed Richards parecia à beira de um ataque.
—Sim, imagino.—Ray e Frank tremeram diante da ironia de Valéria. —Sabe tanto que deixa o Franklin ter uma vida normal e namorada que dorme no quarto dele, só que mais do que dorme, claro. Enquanto eu sou colocada para estudar a vida inteira feito uma condenada só para você manter a rédea curta em mim.—Um estrondo chamou a atenção de todos para o computador. –Agora já chega! Estou voltando para a casa e não é para trabalhar.
Eles ouviram um outro som de porta abrindo e um garoto entrou no quarto de Valéria.
—Val, papai pediu para não sacudir o castelo inteiro da próxima vez ou vai fazer os experimentos nucleares das masmorras saírem de controle.
Rachel e Franklin se aproximaram da tela vendo o garoto de cabelos escuros e pele pálida conversar com a garota loira.
—Foi mal Damian, diz para o tio Victor que vou tentar controlar meus poderes e já desço até o reator para ajudá-lo. —Valéria voltou a encarar o computador. —Eu já me decidi, então não adianta nada tentar falar com o tio Victor para me manter aqui.
O garoto ao fundo acenou para a câmera sorrindo de forma tímida.
—Oi tio Reed, tudo bem? Desculpe pela Val estar assim, ela e papai brigaram por três dias nas masmorras de treinamento antes dele aceitar que ela comunicasse a vocês que vai voltar. Eles pegaram pesado na briga, a sala de treinamento ficou inutilizável porquê os feitiços perderam o efeito tamanho foi o estrago que eles causaram nas paredes. Foi sorte o reator não ser afetado.
Damian ainda sorria timidamente para a câmera, Reed por outro lado já parecia preocupado com o que ouvia.
—Como assim brigaram?
Damian parecia em dúvida, mesmo assim falou.
—Magia tio Reed.—O garoto sentou em outra cadeira ao lado de Valéria que parecia emburrada, o que fez Ray rir. –Começou como a discussão de vocês pelo computador, conforme foi piorando e os ânimos aumentando, meu pai decidiu que era melhor conversar na sala especial e terminou com os poderes dos dois quase demolindo a sala.
Damian riu enquanto Valéria mostrava a língua para ele.
—A gente não brigou de fato, mas foi melhor ir pra lá. Pelo menos não causamos nenhum desastre.—A garota não parecia de fato se importar com a bronca do pai ou as provocações de Damian Von Doom e foi quando Rachel decidiu que apesar de estar se divertindo queria distância daquela confusão.
Ela voltou para a mesa do café com Frank que achou melhor ignorar os gritos do pai, algo que Sue Storm já havia decidido fazer antes dos dois chegarem a cozinha.
—Dormiram bem? –Sue parecia calma enquanto comia.
—Sim, obrigada pela hospitalidade Sue. –Rachel estava se sentindo desconfortável pela briga que continuava no computador.
—Relaxe, Reed é ciumento e controlador com a Val e ela não aguenta mais isso. Vai para o Instituto agora de manhã?
—Talvez mais tarde, só preciso ligar para o Nate antes de decidir.
Sue sorriu.
—Pode usar o aparelho da sala.
Rachel e Franklin terminaram o café o mais rápido que puderam ainda ouvindo a discussão de Reed e Val. Assim que chegaram a sala ambos ficaram felizes que Johnny e Ben não estavam ali para outra briga. Ray tocou a tela do telefone e discou o número do celular de Nathan vendo que apesar de ser mais de dez horas da manhã ele deveria trabalhar com alguma turma de alunos.
Para a surpresa da ruiva quando a imagem da videoconferência apareceu havia uma cena confusa na sua frente.
Alexandra Rasputin mantinha Nathan deitado na cama enquanto pegava o celular recém-atendido ainda encarando o garoto e sendo enfática.
—Você já perdeu hora e ainda não se alimentou, eu lido com a sua irmã.—A risada de Nathan e o rosto corado de Alexandra ao encarar a imagem refletida de Rachel não ajudaram a ruiva. —Oi Ray, algum problema?
—Acho que a pergunta “algum problema?” deveria ser minha, por que você e Nate ainda estão dormindo? E por que estão na cama dele?
Alexis ficou vermelha.
—Bom, ele perdeu hora porque me ajudou com uma coisa durante a madrugada e não estava em condições de ficar sozinho, por isso eu fiquei com ele a noite toda até agora.
Rachel pareceu surpresa e confusa, o que fez Frank rir, mas a garota ignorou o namorado e focou na garota loira do outro lado da linha.
—Isso com que ele te ajudou tem relação com o seu lado demoníaco?
—Rachel, podemos ignorar a sua imensa curiosidade e focar no motivo da ligação, por favor?—E tudo que Ray conseguiu foi que Alexis parecesse mais envergonhada que antes.
—Tudo bem, se alguém perguntar por mim diga que só vou aparecer a tarde, mas não sei que horas. Talvez até mais no começo da noite.
—Tudo bem, qualquer coisa eu aviso seus pais. Ah!—Alexis virou para Nathan deixando Ray com medo do que tinha acontecido. —Quer parar com isso, faz cócegas.—A loira voltou a atenção para a ruiva no celular. —Desculpa, seu irmão é meio idiota às vezes.
—Imagino. –Rachel suspirou já meio conformada. –Bom, até mais.
—Até.
Rachel encerrou a ligação e encarou Franklin que ria.
—Meu irmão perdeu hora e tá na cama com a garota que ele gosta, que por acaso é a garota mais complicada do Instituto. Parece piada.
—Realmente parece, mas quer ficar aqui na sala ou aproveitar a área de lazer do edifício?
—Essa pergunta já tem resposta.
====================X====================
Data Terrestre: 07 de Outubro
Tália olhou para o relógio sobre a sua cabeceira novamente.
Quinze para as nove.
Sabia onde Nate e Alexis estavam, sabia o que Jocelyn estava fazendo e que sua decisão sobre o dois amigos estava tomada, mesmo assim sempre que tentava pensar no que poderia fazer, onde poderia ir ou com quem poderia conversar o rosto da garota loira que a beijará dias antes vinha a sua mente com uma intensidade que a assustava.
E Tália sabia que se havia algo que não deveria fazer era pensar em Cassandra Lang, mas como fazer isso sendo que seu cérebro parecia ligar todas as opções a uma garota que tinha todos os adicionais de problema que ela não precisava na vida?
Ela choramingou sentada na cama encarando o relógio e abraçada ao travesseiro.
—Eu estou muito ferrada.
Enquanto ainda encarava o relógio seu celular tocou e ela viu o número de Jocelyn na tela, era uma mensagem de voz.
Mesmo sabendo que aquela era uma má ideia Tália decidiu ouvir a mensagem.
—Oi Tália, é a Joice. Vamos fazer compras juntas. Eu tenho um encontro hoje e preciso de alguma coisa nova, então lembrei que da última vez que foi comigo consegui ótimos conselhos de roupas. Aproveito e falo de como é o cara com quem vou sair. Espero resposta.
Ela ficou irritada. Por que Jocelyn tinha que ser tão idiota?
De todas as pessoas no mundo Tália se perguntava porquê havia gostado de alguém como a Banner e como era possível não ter conseguido afastá-la de si ou dos seus pensamentos em todos aqueles anos. Então a imagem de Cassie Lang surgiu em sua mente e Tália amaldiçoou sua sorte no amor.
Por um lado havia Jocelyn, que atormentava sua vida e sanidade a anos, sendo mimada e mentindo até para si mesma, mesmo depois de anos. Tália teve esperanças que depois dos vinte a garota pelo menos passasse a ser mais sincera consigo mesma, não foi o que aconteceu. E agora havia aquela garota cheia de sinceridade e energia que, segundo Claire, estava mais do que pronta para dar todo o amor que Tália pudesse sonhar e pedir.
Se dependesse apenas de Tália ela trocaria os dezesseis anos de Cassandra pelos vinte e um de Jocelyn apenas para poupar sua dor de cabeça com a loira ser mais nova.
—Mas o que diabos eu estou pensando? Desde quando Cassandra se tornou uma opção de relacionamento? Ou melhor, desde quando ela ganhou prioridade sobre a Jocelyn?
Tália olhou novamente a hora no relógio. Nove horas da manhã.
Ela levantou da cama frustrada com seus sentimentos e foi para o banheiro encarando o seu reflexo no espelho. Estava azul e seus olhos amarelos brilhavam de forma viva.
Acabou lembrando de algo que Jocelyn falará a alguns anos enquanto passavam uma tarde conversando: “se você não fosse azul todos desejariam te namorar, todos mesmo”.
Mas quando perguntou para Nate sobre aquilo, ele lhe disse algo bem diferente de Jocelyn: “qualquer pessoa inteligente gostaria de te namorar, independentemente de você ser azul ou não, até eu se não fosse apaixonado pela Alexis”. E mesmo Alexis havia falado algo que a deixava confusa quando perguntou: “acho que a pessoa certa vai te achar até mais bonita azul do que com o holo”.
Especialmente ao lembrar tão claramente do que Cassie falará antes de beijá-la: “Sabe, você não precisa usar um holoprojetor para parecer bonita. Acho que mesmo azul não tem como alguém ignorar a sua beleza.”
Tália resolveu ignorar o bom senso, algo que ela tinha mesmo quando pensavam que não, e pegou o celular com as mãos tremendo.
—Claire, desculpa, sei que está com a Laura, mas como faço para falar com Cassandra Lang?
==========X==========
Tália amaldiçoou cada maldita parte do seu ser por ter realmente ligado para Cassandra Lang sem nem ao menos saber o que queria ao encontrar alguém que viu apenas uma vez. Alguém que tudo o que sabia é que era apaixonada por ela a muito tempo.
Mesmo assim ali estava ela sentada naquele café esperando uma garota que atendeu o telefone desconfiada, mas que no minuto que ouviu seu nome ficou mais animada do que imaginava ser possível. Uma garota realmente ansiosa por encontrá-la.
Então quando Cassandra passou pela porta Tália sorriu um pouco nervosa.
Cassie parecia ter se trocado as pressas, e não estava nada fora do que Tália lembrava da primeira vez que a viu: short jeans, camiseta colorida, uma blusa amarrada na cintura e um boné na cabeça.
A garota loira sorria animada e ansiosa ao ver Tália.
Cassie teve outra briga com a mãe e o padrasto logo pela manhã por causa da namorada do pai, então a ligação de Tália salvará o seu dia, mesmo que tivesse mentido para a mãe dizendo que encontraria uma amiga de escola.
Cassandra não gostava de mentir, só que mãe estava paranoica com o caso de Claire e não deixava a garota ir para o colégio, e como em teoria só começava as aulas da Shield na segunda a desculpa da amiga de escola teria que servir.
—Oi, está esperando a muito tempo?
Tália sorriu.
A outra pessoa não teria se preocupado.
—Não muito, fico feliz que pode vir.
—Acho que já te falaram quem eu sou, mesmo assim... –A garota loira estendeu a mão. –Cassandra Lang, muito prazer.
Tália sorriu e apertou a mão da garota.
—Prazer em conhecê-la Cassie, sou Tália Wagner.
Cassie sentou e encarou Tália um pouco nervosa, o que chamou a atenção da mais velha.
—Algo errado?
—Não, só é uma pena estarmos em um lugar público, você realmente é mais bonita azul.
Tália sentiu o rosto queimar de vergonha.
—Como sabe disso?
Cassandra sorriu.
—Você não lembra, mas já nos vimos antes, a alguns anos. Na época meu pai mal havia começado o lance de herói, você ficou ali com os mais velhos, especialmente a garota Banner, e eu, por ser a estranha no ninho, fiquei ali de longe observando. Naquele dia eu achei você linda e sua pele estava azul, seus olhos amarelos pareciam brilhar. Não sei o que aconteceu, do nada você ligou o holo e ficou com essa aparência.
Tália ficou mais envergonhada.
—Eu não lembro desse dia.
—Tudo bem, eu lembro. –Cassie fez sinal para a garçonete se aproximar e anotar o pedido de ambas, a mulher logo saiu parecendo tensa. –Então, por que me chamou?
Tália sentiu o coração dar um solavanco.
Não sabia ao certo porque havia chamado a garota.
—Não tenho certeza. –Então resolveu ser sincera. –Acho que estou confusa e desde aquele dia você parecer assombrar meus pensamentos.
Cassie sorriu.
—Isso é bom?
—Não sei. Mas até quando me sinto frustrada com relação a Jocelyn e penso no que fazer você simplesmente surge na minha mente.
Cassandra riu sem humor.
—Eu gosto de você, você gosta dela e ela não gosta nem de si mesma. Novidade.
Tália desanimou.
—Então você sabe.
—Perguntar isso para a garota que gosta de você a uns oito anos é quase um crime, sabia?
Tália desviou o olhar.
—Desculpe, é que eu estou tão confusa. Jocelyn é... Aquilo que ela é. Enquanto você... Você é tão sincera e... Nova demais.
—Nova demais? –Cassandra riu. –Como alguém pode ser nova demais?
—Você tem dezesseis anos, Claire me contou, e eu tenho dezoito, logo faço dezenove. São quase três anos de diferença e isso não é exatamente pouca coisa em termos legais para um relacionamento entre nós duas nesse momento quando eu sou maior de idade.
A garçonete se aproximou e as duas se calaram, quando ela saiu Cassandra apenas disse sem nenhuma dúvida.
— Para começo de conversa, em termos legais isso não chega a ser um problema para ninguém. E antes de mais nada eu não ligo pra nada disso, já viu a diferença de idade do meu pai e a namorada dele? Ela é só onze anos mais velha que eu e meu pai tá fazendo quarenta.
—Não é a mesma coisa.
—Acredite, eles se conhecem desde antes de a Hope fazer dezoito e esse namoro deles já tem uns sete anos, sem falar da época de briga e beijos que dão mais uns dois anos. Nossa diferença de idade é bem menor e eu sei que meu pai não vai ficar bravo.
—Mas sei que sua mãe vai. –Cassandra encarou Tália em dúvida. –Claire me falou mais do que o seu nome e idade.
—Claro que ela falou. –Se fosse possível as palavras de Cassie seriam ironia sólida.
—Não quero que brigue com a sua mãe por causa disso, sei como é não ter uma mãe e isso não daria certo desse jeito.
Porém, tudo que Cassie fez foi respirar fundo.
—Então não se preocupe, não vou mais morar com a minha mãe.
—Como assim?
Cassandra olhou pela janela do café.
—Minha mãe não gosta de quem eu sou e isso significa que ela não suporta que eu seja lésbica. Não consigo viver com ela e meu padrasto querendo que eu mude, então mandei uma carta para o juiz de guarda familiar a alguns meses pedindo que ele me deixe ir morar com meu pai e explicando toda a situação. –Cassandra voltou a olhar Tália. –A audiência é em dois dias e minha mãe ainda acha que foi coisa do meu pai.
—Você quer sair da casa da sua mãe?
—Vai ser melhor para nós duas. Se ela não precisar lidar com o que ela chama de “defeitos” que eu tenho podemos tentar ter uma relação de mãe e filha mais saudável em visitas.
Tália observou a garota a sua frente, calma e distante enquanto falava algo que a maioria não teria coragem. Enquanto se afirmava de tal forma que Jocelyn jamais faria para ela ou para si mesma. Pensar em Jocelyn fez seu coração doer de uma forma ruim, mas pensar em Cassandra fazia seu coração acelerar.
Ela precisava ser sincera com a garota ou não se perdoaria.
—Não sei o que vim fazer aqui. –Cassandra pareceu surpresa em como Tália soava, quase desesperada. –Acho que ainda gosto da Jocelyn, só é diferente. –Ao ouvir o nome da outra, a garota loira ficou séria. –Gosto dela a tanto tempo e agora quando minha mente fica vazia começo a pensar em você, então meu coração acelera. É estranho. –Tália encarou a Cassie que agora sorria diante daquela confissão tão perdida. –Não sei o que é isso, eu... Não sei, talvez a gente possa tentar pelo menos. –A morena respirou fundo. –Quero te ver novamente, mais vezes. Conversar mais e sair mais.
E Cassandra sorriu de forma radiante ao ouvir aquelas palavras.
—Já é um começo.
—
—
—
Continua...
—
—
—
No próximo capítulo: Weapon.
Fale com o autor