Marvel Universe: All Different World
45 Capítulo XLV: Harrelson – As Impressões de Um Repórter: Parte 4.
Notas iniciais
Data Terrestre: 10 de Outubro
No final fomos para o jardim interno onde a Comandante Hill pediu que fizéssemos a entrevista de verdade.
As garotas sentaram em um sofá confortável que alguém deve ter movido até ali especialmente para elas enquanto eu e Brant ficamos com duas poltronas também confortáveis. Mesmo os nossos cinegrafistas haviam recebido um lugar confortável para sentar depois de posicionarem as câmeras nos tripés.
—Tem certeza que estão bem em fazer isso agora? –Acabei perguntando um pouco mais preocupado do que gostaria de parecer. –Vocês podem ir comer se precisar.
—Não se preocupe Tom. –Claire indicou as irmãs gêmeas do dia anterior trazendo alguns sanduíches em uma sacola. –Pode não parecer, mas a doutora Simmons montou uma rede de alimentação pra gente. –Ela agora sorria mais do que quando falou com a família Booker.
Sendi sincero, eu teria que falar com a Brant depois, porque acho melhor cortarmos parte da matéria (sobre a família Booker e a “droga milagrosa”) na ilha de edição por mais motivos do que eu posso sequer pensar em mencionar para meu chefe ou mesmo para a minha colega. Se bem que acho que ela vai concordar comigo.
—Bom, nós temos algumas perguntas aprovadas, mas será que tem problema se incluirmos algumas? –Adiantei algo que conversei com Brant enquanto as coisas eram arrumadas para a entrevista.
Morrison, Claire e Laura se entreolharam parecendo preocupados.
—Não se preocupem. –Todos olharam para minha colega. –Não é nada complicado ou maluco; depois de tudo que aconteceu, queremos evitar um pouco perguntas problemáticas para os dois lados.
—Nesse caso acho que a gente pode ver conforme as perguntas forem sendo feitas, pode ser? –Claire parecia um pouco mais receptiva do que o agente e Laura apenas concordou com ela.
—Já que estamos bem com isso, vamos começar? –As duas assentiram e Brant começou sem hesitar. –Antes de mais nada quero confirmar algumas informações básicas sobre você que a escola vazou. –Ela se dirigiu a Claire. –Seu nome completo é Claire Margaret Carter Rogers, tem dezesseis anos e está no segundo ano do colégio, correto?
—Ah, sim. Isso mesmo.
—Então, Margaret?
A garota fez uma careta.
—É um nome de família, herdei da tia-avó da minha mãe, o apelido dela era Peggy. Não é meu momento favorito do dia quando alguém me chama assim, infelizmente não posso impedir todo mundo. Embora eu possa simplesmente chamá-los por nomes que eles também não gostariam.
Brant riu e eu comecei.
—Sobre você não tem muita coisa para falar Laura, então pode nos dar algumas informações?
—Meu nome é Laura Sarah Howlett, tenho dezessete anos, nunca frequentei a escola, mas tenho um diploma por ter passado na prova geral a dois anos. Nasci no Canadá e passei os últimos anos fazendo missões para a Shield enquanto estudava.
—Você não é americana? –Aquilo era novo e me deixou curioso.
—Ah, não. Meu pai é de lá, meu irmão nasceu no Japão, mas acho que a mãe dele é americana, porque ele tem cidadania daqui, e minha irmã caçula também nasceu no Canadá, a mãe dela é americana.
—E sua mãe é americana? –Tentei não parecer muito curioso.
—Não sei. –Acho que ela notou a minha expressão. –É um pouco complicado de explicar, não faço ideia de quem seja a minha mãe ou onde ela pode estar. Meu pai me encontrou em um laboratório quando eu tinha sete anos e minha memória não tem muita coisa de antes disso. Na verdade, não tem nada, meu nome foi dado quando eles me encontraram, então não sei nem se sou exatamente uma filha do meu pai ou algum tipo de clone e é claro que ele não me contaria mesmo que eu tentasse perguntar novamente. –Ela notou que quase todos pareciam chocados ou surpresos e encarou Claire que sorria. –Por que eu sinto que esse sorriso não é boa coisa?
—Você é fofa. –E com essa frase a loira fez a namorada ficar mais vermelha do que imaginava ser possível e aliviou o clima da entrevista.
—A quanto tempo vocês estão juntas? –Brant se apressou em mudar o foco da conversa.
—Dezesseis de julho. –Claire sorriu. –Viajamos para Vegas comemorar o aniversário da minha melhor amiga e depois de mais de um mês ela aceitou que não pode viver sem mim. –Laura deu um tapa de reprovação na namorada. –O que foi? Você pode viver sem mim?
—É claro que eu posso. Vivi anos sem nem te conhecer. –Ela notou a cara indignada da namorada e suspirou. –Em termos práticos posso, não quer dizer que quero. –Laura voltou a corar ao olhar para a loira. –Tire logo esse sorriso da cara. –Ouvi ela resmungar.
—E como vocês se conheceram? –Brant parecia interessada em fazê-las falar mais sobre aquilo e achei que podia ser bom.
—Eu fui visitar a minha madrinha no Instituto Xavier e literalmente esbarrei nela, o que foi estranho, já que normalmente as pessoas que batem contra o meu corpo se machucam. Levei dois segundos para me apaixonar e meio segundo para ficar na dúvida se deveria tentar.
—Por causa do James? –Laura parecia curiosa.
—Não, porque a Chris me disse que você nunca tinha ficado com uma garota. –Claire parou para pensar. –E por que diabos o seu irmão seria motivo para eu ficar longe de você?
—Ele é seu melhor amigo e quase seu irmão mais velho. –Laura comentou calma.
Claire riu daquilo e sorriu de uma forma perigosa que até mesmo a namorada pareceu temer.
—Acredite, a única interferência que aceito do James sobre com quem faço ou não sexo é sobre ter o dedo podre para escolher, mas vamos concordar que até que acertei bem com você.
Laura acabou rindo.
—Eu realmente não podia ser pior que seus últimos quatro namoros. –As duas riram e voltaram a nos encarar.
—Sobre a questão dos relacionamentos, conversamos com Tony Stark ontem e ele explicou para um colega, então foram seis relacionamentos e quatro fracassos épicos, sendo que o primeiro só terminou por que o rapaz queria um relacionamento aberto, confere?
—O que eu posso dizer? –Ela tinha aquele sorriso de quem foi pego fazendo algo errado. –Poderia dizer que se meu primeiro namorado não fosse tão livre quanto ainda é eu não teria tido tantos relacionamentos ruins, mas não seria justo com ele, afinal eu poderia ter concordado em ficar com ele mesmo naqueles termos. Só não seria bom para nenhum de nós e ainda somos amigos uma vez que terminamos em bons termos, o que é mais do que os meus outros relacionamentos.
—Mas você dormiu com outras pessoas além desses namorados e namoradas? –Perguntei já ciente da resposta.
—Claro. Como dizer por aí, sexo faz bem para saúde, claro que também não fui para cama com qualquer um. –Ela pareceu pensar. –Bom, mais ou menos. Como eu falei, terminei com o meu primeiro namorado em bons termos, então ele sempre estava disponível para ajudar nisso ou apresentar alguém que pudesse ser interessante.
—Emma e Nathan não dizem isso? –Claire olhou surpresa para a namorada. –Sobre sexo fazer bem à saúde.
—Ah, sim. Tio Tony e o James também.
—Você ainda fala com o seu ex-namorado amigável? –Eu realmente não entendo esse tipo de relação.
—Sim, desde que conheci a Laura é mais para manter contato.
—Ele é engraçado. –Laura comentou distraída.
—Conhece ele? –E eu estou curioso.
—Sim. Saímos para conversar umas três vezes. Em cada uma ele tinha uma companhia diferente, acho que é o jeito dele. –E a calma com que Laura conseguia falar do ex-namorado da sua namorada me dizia que ela realmente confia em Claire completamente.
Isso realmente é algo que tenho alguma dificuldade para entender considerando meu histórico pessoal, o que é incrível de ver.
—Voltando as informações da escola, eles dizem que você é um perigo a saúde pública e que deveria ser colocada em uma cela para não infectar ninguém com suas doenças. Pode dizer algo?
—Isso é ridículo. Sou imune a literalmente todas as doenças humanas que existem e, provavelmente, as que ainda vão existir. –E eu imaginei que ela responderia isso.
—Você tem como provar isso? –Era melhor deixar claro que a resposta ficou vaga.
—Ter eu tenho, mas sendo sincera, provavelmente vou levar uma bronca do Fury se falar disso, o resumo é que a Shield tem tudo documentado. Incluindo a vez que eu pulei naquele reator nuclear que estava em colapso com o James e a Alexis.
—Por que você entrou em um reator com eles mesmo? –Laura parecia não lembrar da história.
—Algum idiota tentou explodir a usina para receber um resgate, o Fittz conseguiu construir algo para impedir o desastre. O problema é que na pressa de impedir o ataque, o dispositivo tinha que ser colocado dentro do reator ou no tanque de resfriamento que de frio não tem nada. Como nós três poderíamos voltar vivos fomos voluntários e passamos os dois meses seguintes instalando esses dispositivos nas usinas americanas e de outros países pelo perigo da ameaça. O bimestre mais radioativo da minha vida.
—Isso não foi a três anos? –Laura parecia ter lembrado de algo e Claire assentiu. –Fury me deu uma lista de alvos para eliminar. Um monte de terroristas interessados em códigos para invadir usinas nucleares naquele ano.
—Provavelmente ele te deu a parte da lista que a Alexis não tinha como pegar, porque ela fez a limpa neles para se recuperar e confesso que eu também. –Claire não parecia preocupada com aquela frase.
—Desde quando vocês fazem missões para a Shield? –Brant tomou a frente.
—Desde que meu pai me encontrou. –Laura notou o olhar surpreso de Brant. –Eu não lembro quem ou o que sou, mas meu corpo lembra muito bem o que aprendeu antes, uma memória muscular muito conveniente. Além disso, nunca gostei de ficar no Instituto antes de conhecer a Claire.
—Não tenho certeza sobre a qual tipo de missão vocês se referem, eu considero que todos os treinamentos que fiz como pequenas missões, então acho que a primeira foi quando eu tinha três anos e Fury me colocou para fazer meu primeiro treino com a Viúva Negra. Tia Natasha me colocou para correr dez quilômetros aquele dia. –Claire deu um sorriso assustado. –Ela ainda me destrói quando resolve me deixar humilde.
—Isso seria uma missão interna pelo que posso entender, mas e missão em campo? –Brant insistiu um pouco mais.
Claire pareceu pensar um pouco mais e então sorriu.
—Teve um sequestro e as equipes não conseguiam entrar no prédio por causa dos reféns. Mandaram eu e a Alexis junto com o James para fingirmos ser crianças perdidas da creche que ficava no andar acima da empresa invadida. Eu era o escudo e os dois mataram todos que não atiraram em mim.
—Os que não atiraram em você? –Perguntei curioso.
—Os que atiraram em mim morreram ou ficaram muito feridos. Eu tinha acabado de fazer seis anos e o Fury me pagou um monte de sorvete por ter obedecido à ordem dele de manter meu poder primário ativo e proteger os civis. –Eu achava difícil de associar aquela informação perigosa a garota que sorria como uma criancinha. –Acho que comi uns cinquenta quilos de sorvete naquele mês.
E quando percebi até Morrison ria da cena.
—Fury pagou sorvete para vocês três por um mês inteiro e o governador do estado ficou tão feliz que nenhum civil se machucou que nem questionou as notas fiscais sobre sorvetes que mandamos. –Ele bagunçou o cabelo da Claire e tive certeza que mesmo um homem duro como Raymond Morrison morreria para proteger o sorriso daquela garota.
—Eu não sei se vão poder responder isso, mas qual exatamente seriam os seus poderes? –Tentei arriscar.
—Fator de cura e garras de osso retráteis banhadas em adamantium, mas tem mais coisa, embora eu não saiba de onde vem. –Laura não olhava para nós naquele momento. –Força, velocidade, agilidade, resistência, estâmina e reflexos sobre-humanos.
—Isso parece ser incrível. –Comentei tentando animá-la um pouco, não teve efeito.
—Bom, meu poder meio que é não morrer. –Claire comentou relaxada e nós a encaramos sem entender. –Basicamente, se eu não controlo meu poder qualquer um que atirar em mim, tentar me esfaquear, envenenar, explodir, derreter ou desmembrar é que vai passar por isso. Muita gente já tentou fazer isso mesmo eu avisando sobre o perigo, o que é realmente estranho. Quando eu controlo meu poder posso impedir que ele machuque pessoas, porque nem sempre alguém quer te ferir, pode ser um acidente, provavelmente por isso minha mutação tem a carapaça de diamante que me impede de ser ferida mesmo se eu controlar o Reflexo.
—Mas você se feriu ontem no ataque, então como não morreu? –Fui mais certeiro.
—Herdei do meu pai uma habilidade de regeneração, nada igual ao da família Howlett, embora ajude muito. Mais do que isso eu acho que não posso explicar sem levar uma surra da Viúva Negra, mas acho que já responde uma parte da sua pergunta.
—E quanto das suas habilidades mutantes essa explicação compreende? E das habilidades herdadas? –Tentei não forçar, mas também não perder informações.
—A mutação deve ser uns 50% ou um pouco menos, já que tem alguns detalhes que ficam no meio do que comentei e mais uma que é para emergência. Já as herdadas deve ser menos de 10% do total, se é que chega a isso.
—Sua habilidade olfativa está inclusa nesse pacote? –Ela assentiu sorrindo e não pude evitar de também sorrir.
—Sei que estamos sendo bem intrometidos, porém preciso perguntar sobre uma coisa que foi mencionada. Laura nunca namorou uma garota antes de você e você namorou duas garotas e três garotos, então desculpe de for indelicada, mas algumas pessoas comentam que vocês são lésbicas, outras que não e algumas ficam confusas com a história toda. Podem esclarecer? –Brant havia voltado para as perguntas leves, talvez pudéssemos encerrar com algo assim depois.
Laura voltou a corar e a encarar algum ponto aleatório do jardim, menos a câmera ou eu e Brant.
—Desde que me lembro sempre gostei de garotos e garotas, tive até uma paixonite pela Mary Jane aos seis anos e pelo Johnny Storm aos sete, se bem que no começo foi mesmo um pouco assustador e acho que é um pouco para toda a criança. Eu tive sorte de ter pessoas como tia Emma e o tio Tony que falavam tudo na minha cara, bons amigos como a Alexis que teve o mesmo problema e pais compreensivos que mesmo tendo alguma dificuldade para me ajudar não me impediam de perguntar para eles e para qualquer outra pessoa quando me sentia perdida. –Claire sorriu como se aquilo fosse seu maior orgulho na vida. –Mais que tudo eu não quero estar com um homem ou uma mulher, quero estar com alguém que goste de mim e eu dessa pessoa, que me faça bem e esteja ali ao meu lado. Não importa se essa pessoa é homem, mulher, mutante, humano, inumano ou alienígena.
—Eu gosto da Claire. –Encarei Laura, que ainda desviava o olhar da nossa direção. –Eu nunca gostei de uma garota e não acho que vou gostar de alguma depois dela, mesmo os meus relacionamentos com homens nunca foram muito profundos, só que quando eu estou com ela é diferente. –Ela parecia pensar no que dizer. –É frustrante, irritante, perigoso e cansativo, mas também é aconchegante e tranquilo. Eu me sinto em paz quando estamos juntas mesmo quando ela está sendo irritante e me deixando sem jeito. –Ela olhou na nossa direção por um momento e pude notar o sorriso que ela tentava esconder. –Eu só gosto dela e sei que não quero estar em outro lugar além do lado dela.
—Eu posso dizer que se alguém não ficar satisfeito com a resposta de vocês é porque provavelmente tem problemas mentais ou emocionais. –Eu pensei em dizer para Brant que como uma repórter ela não deveria dizer aquilo, só que eu concordo, então...
—Vamos tentar encerrar nossa entrevista de verdade, o que pretendem fazer agora? –Deixei essa para o final porque parecia melhor mesmo.
—Eu vou pegar o certificado de conclusão do colégio e os diplomas da faculdade. Eu até pretendia ir para faculdade como todo mundo e passar uns dez anos fazendo vários cursos antes de voltar pra Shield e me oficializar como agente; agora eu não sei se compensa tentar ter uma vida calma e normal. Quero dizer, ser virtualmente imortal é um saco e eu não queria apressar as coisas, só não acho que qualquer escola ou faculdade vai querer me aceitar. –Claire se espreguiçou no sofá. –Também já terminei as Academias Científica, de Operações e Comunicações então já tenho nível universitário completo em biologia, literatura, linguística, educação física, mecânica, matemática, tecnologia da informação geral e profunda, e física.
—Ah, eu tinha esquecido. –Claire pareceu confusa com o comentário da namorada. –Sabe, que você é absurdamente inteligente e estuda na Shield desde que nasceu, mas eu entendo. –Laura olhou para o teto de onde podíamos ver o céu. –Acho que vou pegar os meus diplomas também, mesmo que meus planos não incluíssem me formar na faculdade.
—Quais você tem? –Claire parecia animada.
—Não muitos. Linguística, biologia, educação física, mecânica e física; acho que vou fazer aquele curso de engenharia que a Emma comentou e tentar o de literatura que a Christine me indicou. –Laura sorriu para a namorada. –Você tem muitos livros e eu não entendo algumas coisas. Também posso cursar as academias Científica e de Comunicações já que vou acabar tendo tempo de sobra enquanto esperamos as coisas se resolverem.
—Ah, é. Eles devem nos colocar nos trabalhos internos, não é mesmo? –Claire encarou Morrison que deu de ombros.
—Não foi decisão minha. –O agente respondeu.
As duas nos encararam e eu acabei perguntando:
—Vocês tem formação universitária? –Elas assentiram. –E são imortais? –Elas deram de ombros. –Como?
—Meu pai não morre e ele já era velho na segunda guerra mundial. –Laura parecia não ligar. –Sinceramente, ele não mudou muito desde aquele tempo, parece até que rejuvenesce um pouco de vez em quando.
—Mesma coisa aqui. –Claire pareceu pensar. –Mais ou menos a mesma coisa, tem umas diferenças, meu pai tem mais de sessenta anos e nem parece ter saído dos trinta.
—E por que não se formaram antes? –Fiquei mesmo curioso.
—Se a gente não tem ideia de quanto tempo vai levar para morrer, por que adiantar as coisas? –É, isso eu podia entender. –E mesmo que eu me forme agora, posso pegar cinco anos para viajar o mundo, entrar para uma banda, escalar o Everest ou alguma outra coisa que pareça legal.
—Pode aceitar o pedido do Christian Frost de ser modelo dele. –Laura brincou.
—Dois anos ali seria o meu limite. –Foi a resposta de Claire antes de nos encarar. –Temos tanto tempo que não vale a pena apressar nossas vidas.
—Eu me rendo. –Declarei e mesmo Brant pareceu confusa. –Fui vencido e nocauteado por vocês duas. De verdade, estou feliz com isso.
—Eu não entendi. –Claire realmente parecia confusa.
Levantei de onde estava e segui até ela bagunçando seus cabelos.
—Você realmente é uma boa garota. –E quando fiz isso percebi que sabia o tempo todo quem era o pai dela, porque é impossível não associar um ao outro, mesmo que eu tenha tentado ignorar essa semelhança. –Mande um abraço para o seu pai e para a sua mãe, acho que o nome dela é Sharon, não é?
—Conhece a minha mãe?
—Não, mas meu avô lutou na Segunda Guerra e sempre me falou da tia-avó dela, eu só não queria ver a semelhança entre você e eles, mesmo sendo quase impossível ignorar isso. –Eu encarei Morrison. –Vamos tirar a parte sobre os Booker por hora, avise a família que vou precisar de um documento deles negando o uso de imagem para justificar na emissora. Também não pretendo usar a informação do pai dela na matéria.
O agente olhou para Brant que sorriu.
—Não se preocupe, também não pretendo usar essa informação com meu chefe, embora eu tenha me assustado um pouco quando percebi isso agora mesmo.
—Por que todo mundo parece saber quem é meu pai mesmo sem eu falar? –Claire parecia um pouco frustrada.
—Por que você é a cara dos dois. –Laura comentou. –Sendo sincera, é assustador como as pessoas não percebem quem eles são.
Vi a loira parecendo refletir e então suspirar.
—Bom, é verdade no final de tudo. –Ela olhou para os lados e sorriu. –Agora podemos ir para o refeitório comer?
Todos concordamos e Morrison avisou a equipe de filmagem que alguém já estava providenciando o documento que pedi, então podíamos continuar a filmar até o almoço.
Eu e Brant pedimos para Keith e Zhou para pegarem as câmeras de mão pequenas, já que queríamos fazer algo mais tranquilo e descontraído nas horas seguintes para podermos conversar mais com as duas até nosso limite de tempo, dessa vez sobre coisas triviais, algo que mesmo os nossos cinegrafistas pareceram gostar de fazer.
Eu havia me metido em um baita problema com aquela matéria, mas no final valeria a pena.
Um problema que eu pagaria para não sair.
==========X==========
Havia combinado de encontrar Brant e Zhou na minha casa mais tarde, eles levariam Nathalie Everhart e eu Liv Colton junto com Keith, para podermos trabalhar na ilha de edição que tenho e deixar as duas reportagens para o dia seguinte.
A primeira deveria ter ido ao ar hoje, mas depois do fracasso de Teddy, meu chefe fez o pedido quase impossível para que eu salvasse aquele lixo de desempenho dele. Não falei para o meu superior, o que vi durante o meu dia aquilo não tem salvação alguma (exceto as partes da Nathy, claro que o cabeça não quer ouvir isso).
Entrei na emissora e fui direto para a sala do chefe, porque algo me dizia que ali era onde acharia tudo que precisava e mais um pouco. Não me enganei sobre isso.
Lá estavam, todos eles.
Liv parecia levar uma bronca do diretor do jornalismo, enquanto Teddy sorria vitorioso.
Parei diante da cena e logo os três me notaram.
Minha aprendiz não parecia exatamente com medo, mas irritada por não poder responder as acusações que recebia.
—Posso saber o que diabos pensa que está fazendo com essa garota chefe Todd? –E meu humor foi para o inferno.
—Ela arruinou a entrevista de ontem na casa do Stark. –Ele estava convencido.
—Ela? –Olhei para o imbecil do Jones que engoliu em seco.
—Sim. Teddy disse que além de parecer perdida horas antes da entrevista ela não o ajudou como deveria. Por isso ele fez papel de idiota lá. –E Todd é um idiota como sempre.
—Só tem um erro nisso tudo. –Ele me encarou. –Eu falei para mandar a Liv, porque ela é competente e você foi retardado o suficiente para acreditar no incompetente-mor da emissora: Teddy Jones, o repórter que prefere morrer a admitir que é um fracassado. –Olivia acabou rindo dessa parte.
—Não me desafie Tom, eu posso te mandar embora. –E lá vinham as ameaças de Todd.
—Então faça. –Ele pareceu surpreso. –Acha mesmo que preciso dessa emissora para ter uma carreira? Sou um dos últimos jornalistas investigativos sérios da televisão que não está em programas sobre crimes em formato fixo. Sou um dos últimos que coloca a cara e a vida na linha de fogo quando precisa e não foge quando um mafioso resolve ter uma conversa séria. Quer me mandar embora? Faça. Mesmo que eu nunca mais arrume um emprego nessa área ainda vou ser dez vezes mais competente que o Teddy sem um olho e um braço para ajudar.
—Isso não é justo, eu sou mais antigo que a Liv. A reportagem deveria ter sido minha desde o começo. –Teddy realmente parece uma criança mimada.
—Não adianta ser mais velho na carreira ou na emissora sendo um completo inútil. Você poderia ter trinta anos de carreira e mesmo assim ela ainda seria dez mil vezes mais competente, porque Liv tem talento e futuro, no investigativo e em todos os outros, por isso mandei ela explorar todas as possibilidades antes de pensar em voltar para as investigações.
Todd me olhou parecendo surpreso.
—Espera. Você a tirou do investigativo e mandou para outras áreas? –Assenti e ele encarou Teddy. –Você disse que ela desistiu do investigativo por ser pesado demais, por isso não podíamos contar com ela para nada.
—Mas ela desistiu. –E Teddy estava ficando sem saída.
—Eu não desisti. –Todos nós encaramos Liv que levantou de onde estava e seguiu para a porta. –Meu pai e eu sempre amamos jornalismo investigativo, mas me senti forçada quando comecei a estudar jornalismo porque ele ficava repetindo que eu tinha que fazer aquilo. –Ela sorriu para mim. –Eu realmente amo o investigativo, só acho que sou despreparada de muitas formas para poder entrar nisso de cabeça, então eu ficava insegura e o Tom percebeu isso. Foi o Tom que me ajudou e orientou, por isso eu estou melhorando sempre, porque ainda vou ser uma grande jornalista investigativa que vai fazer meu pai e o Tom sentirem mais orgulho do que imaginam ser possível.
—Eu sei que vai. –Comentei dando um tapinha leve no seu ombro. –Da próxima vez que eu falar “manda a Liv”, apenas faça isso. Porque do contrário você vai ter o resultado de mandar um Gareth Grimm falsificado, como ontem. –Me virei para sair e parei encarando meu chefe. –E só para você saber, não vamos conseguir salvar nada de útil desse idiota, mas se não colocarmos nada dele a entrevista é toda da Nathalie Everheart, que foi genial de verdade.
Todd suspirou e me encarou parecendo exausto.
—Faça o que puder com o que tem, eu assumo a responsabilidade se algum dos grandes quiser brigar.
Concordei e saí com Liv ao meu lado.
—Onde vamos agora Tom?
—Editar todo o material na minha casa com o resto dos envolvidos. Vamos precisar fazer uma reunião estratégica para algumas informações sobre o assunto, mas no geral não quero que isso vaze. –Tentei evitar o assunto até entrarmos na vã onde Keith nos esperava.
—Você ficou dando voltas, afinal, isso tem algo a ver com o fato da tal de Claire ser filha do Capitão América? –Olhei surpreso para ela. –Por favor Tom, você me ensinou muito melhor do que imagina e, mais do que tudo, a juntar as peças do quebra-cabeça de forma calma e atenta para não perder os detalhes que possam aparecer. – Ela riu. –E tive dois dias inteiros para analisar todas as informações e fotos que conseguimos dela, o que ajudou muito quando peguei uma foto da mãe dela de vinte anos atrás junto do Capitão.
—É, eu fiz isso.
—Então, o que vamos fazer nessa edição para precisarmos fugir para a sua casa a fim de conseguirmos trabalhar?
—Vamos dar o primeiro passo para o problema deles ser resolvido, um passo que só nós podemos dar.
Liv e Keith sorriram animados e eu sabia que em algum lugar no caminho para a minha casa Brant, Zhou e Everhart faziam o mesmo.
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—
—
Continua...
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