Notas iniciais
Voltei. Editei toda a história até aqui enquanto estive ausente, então teve algumas mudanças. Comecei a fazer umas artes para os personagens hoje (agorinha) e vou começar a anexar em alguns capítulos. A desse é do James (e como já falei antes, mudei a descrição dele). Devo conseguir postar mais duas vezes esse semestre ou pelo menos uma em Junho, então já sabem quando esperar meu retorno. Aproveitem que esse capítulo é... uma delicia. BOA LEITURA.

19 de Outubro

Encarei o relógio mais irritado do que gostaria.

Ainda eram sete da manhã e meu humor, que não é conhecido por ser dos mais amigáveis, já estava pior do que o normal.

Droga!

Levantei da cama e segui para tomar um banho gelado, o que não ajudou muito a me acalmar, mas valeu a tentativa.

Coloquei minhas roupas normais e me preparei para um dia sem aulas e treinos pela primeira vez em anos quando senti aquela sensação tão familiar que me fez virar assustado.

Helena.

O que ela estava fazendo aqui?

—Podemos conversar?

Engoli o xingamento que me ocorreu.

—Não posso.

—Quero te ver James. –A sua voz era quase uma súplica, o que me deixou irritado.

Forcei minha raiva para dentro e suspirei cansado.

—Já disse, agora não.

—Você me afastou a semana inteira, eu só quero ficar com você.

Encarei Helena me sentindo oco.

—Eu te falei que não posso ficar com você agora, tenho algo para resolver.

—Tem mesmo? –Eu podia sentir a ironia na voz dela.

Aquilo me irritou.

—Tenho! –Ela recuou um passo assustada. –Quer saber a verdade? –Ela não respondeu e não me movi de onde estava. –Estou farto de você me procurar apenas quando é bom para você e me deixar de lado quando não precisa de mim. Agora eu preciso de atenção, da minha atenção e não posso, nem vou ficar esperando que você se importe comigo o bastante para entender que não posso atender aos seus caprichos.

Droga!

Estou com raiva.

Raiva de mim.

Raiva dela.

Raiva da minha mãe biológica.

Raiva do meu pai.

—Eu me importo com você. –Foi um sussurro.

—Eu sei. Apenas… Apenas vá embora, não sou uma boa companhia agora.

—Você vai me ligar?

—Não sei. –Fui sincero.

Não sou idiota.

Amo Helena desde que a conheci e a desejo ao meu lado desde que tinha idade suficiente para saber que quero me casar com ela, um sentimento que só piorou quando fiz quinze anos.

Só não sei se posso continuar com isso por mais tempo sem que um de nós se machuque de forma irrecuperável.

—Vou te mandar uma mensagem segunda-feira, tudo bem?

—Respondo assim que puder. –Ela pareceu querer falar mais alguma coisa e, por fim, concordou. –Vá para casa Helena. –Ela acenou e desapareceu.

Suspirei exausto e bati a cabeça contra a parede.

Sou um idiota.

Abri a porta do quarto e sai ignorando todos os alunos ou cometeria um homicídio.

==========X==========

Eu não costumo tirar dias de folga, salvo quando acabo indo para Miami com Helena.

Então é de se esperar que as pessoas achem estranho que eu não esteja trabalhando em plena quinta-feira, quando normalmente estou fazendo da vida de todos os alunos que vão para as casas dos pais ou responsáveis legais um verdadeiro inferno nos treinamentos.

Aliás, esse é um dos muitos motivos, porém não o único, que faz com que eles me chamem de “Carrasco do Inferno”. Não que eu ligue.

Eles até podem chamar Alexis de “Demônio” ou de “Bruxa Aproveitadora” (o que nunca vou entender, porque ela é a mais doce das minhas irmãs), mas eu sou o “Carrasco”.

Sendo sincero, eu bato em quem xinga Alexis.

Dou uma sessão de treinamento infernal para essas pessoas e arrebento a maior quantidade possível de ossos que posso de cada um. Não ligo se são homens, mulheres ou crianças, até porque é minha função bater neles para que fiquem mais fortes (ou mais humildes, como tia Natasha gosta de dizer).

Levantei do sofá em que havia deitado meia hora antes atraindo os olhares de alguns estudantes e me deparei com os gêmeos Lehnsherr.

—Precisam de algo?

Os dois trocaram um olhar típico de irmãos e sorriram.

—Vai voltar a nos treinar? –Charlie segurou o tecido da minha calça.

Notei alguns alunos olharem para a menina assustados.

—Não é uma opção segura. –Não que eles me olhassem de forma mais agradável. –Eu bato com força.

Alguns dos presentes engasgaram.

Eles realmente acham que não sei que não consigo pegar leve?

—O tio Victor também bate com força, estamos acostumados. –Derek fez todos ali congelarem.

Acabei sorrindo, me ajoelhei até estar quase na altura deles e baguncei o cabelo dos dois.

—Não é um problema trocar as provas onde a dor está presente por aquelas em que a habilidade deve ser o foco, afinal vocês vão voltar a sentir dor nos treinos pesados comigo e a tia Natasha uma hora. –Parei para pensar. –Não que a Claire, a Laura ou meu pai peguem leve, mas acho que já entenderam, não é? –Os dois assentiram sorrindo. –Então vão para a próxima aula.

Eles concordaram e saíram correndo animados.

Olhei ao redor e vi vários alunos me encarando como se não me reconhecessem.

Ridículo.

Eles nunca me conheceram.

E, ainda que possa reconhecer que parte da culpa é minha, nunca fizeram isso pelo mesmo motivo que nunca procuraram conhecer Alexis.

Eles se acham superiores a nós por nunca terem matado ninguém e acreditam que conseguiram isso porque são melhores, não porque nós tomamos o lugar de pessoas fracas demais.

Às vezes eu reconheço que Nathan tem razão em querer fazer cada um deles experimentar as mesmas dores que minha família enfrenta nas missões. Infelizmente estou bem consciente de que essas pessoas não sobreviveriam a cinco minutos de algo assim.

E eu devia descansar.

Esse dia tá uma merda.

==========X==========

Assim que abri a porta da biblioteca me arrependi imensamente e me virei pra sair.

—James? –Droga. –Espera, quero falar com você.

—Você tá ocupada Chris, eu volto mais tarde. –Tentei sair, mas até parece que minha irmã pegaria leve com isso.

—Não seja idiota. –Parei na mesma hora, ela havia ganho. –Amor, vai dar uma voltinha. –Eu não precisei me virar para encarar Andrew e ele não me olhou ao passar por mim, muito envergonhado. –Pode virar, já estou vestida.

Voltei a entrar na sala e sentei na poltrona de frente para minha irmã.

—Você sabe que deveria trancar a porta, não é?

—Isso é tão inútil quanto levar um guarda-chuvas para um furacão. Metade dos alunos aqui tem habilidades que tornam a tranca uma completa perda de tempo.

—O que você quer falar afinal?

—Vai ver sua mãe biológica, não é?

—Como? –Eu fico curioso sobre como ela adivinhava aquelas coisas.

—Claire comentou o que sentiu sobre sua mutação e seu humor está um desastre, o que poderia ter relação com a Helena, mas você a afastou a semana inteira. Somei dois mais dois.

—Está certa, mais alguma coisa?

Christine passou alguns segundos me encarando.

—Teve uma época em que pensei que a sua mãe era a Mística.

—Como é que é?

—Bom, sua mutação secundária é meio que física, isso eu sempre soube e seu pai é conhecido por já ter transado com meio mundo. –É, eu tinha que concordar com aquilo. –E como você não é meu irmão de sangue, apesar dos nossos pais já terem dormido juntos… Pensei que pudesse ser ela, afinal a Raven tem uma mutação física que pode ser complicada, um passado turbulento e muitos motivos para não ficar com o filho.

—Tudo bem, você usou uma boa lógica, ainda que falha. –Notei que ela ainda me encarava, dessa vez com um sorriso irritante. –Não vai perguntar o que minha mutação secundária faz?

—Não, eu tenho minhas teorias, Sunshine.

—Sua…

—Relaxa, eu não tenho interesse em me meter nisso. Acho que depois de tudo, existe uma razão para ela não ter ficado por perto. O que quero mesmo saber é por que afastou a Helena?

Fiquei encarando o chão por alguns segundos.

—Eu não sei mais se devo ficar perto dela. –Vi uma expressão surpresa surgir no rosto normalmente impassível da minha irmã mais nova. –Ultimamente, quando penso na minha situação com ela é como se não fizesse sentido e… –Suspirei exasperado com a questão. –Não paro de pensar na letra de Naked.

—James Arhtur?

—Faz sentido, não faz?

—O pior é que faz. –Ela não parecia feliz com aquela parte. –E o que vai fazer? Desistir dela não parece fazer o seu estilo e não acho que você consiga se entregar a um outro relacionamento com tanta facilidade. Diferente da Claire que não tinha fortes sentimentos pelos ex, você ama e é apaixonado pela Helena.

—Eu posso tentar. Talvez encontrar alguém que seja pelo menos uma boa companhia e me aceite.

—Então é isso? Vai sair por aí dormindo com todos os homens e mulheres da cidade?

—Você diz isso como se fosse errado.

—Não mude o rumo da conversa.

—Nenhum de nós é exatamente hétero, Chris, não tem nada demais.

—Nikolai é, então não tente voltar a conversa contra mim. Eu não acho que esteja errado em querer mais, até apoio isso, mas você é apaixonado pela Helena desde que se conheceram e tinha, o quê? Seis anos? –Eu sabia que minha irmã tinha razão, só não quero ter que… –Converse com ela uma última e única vez, coloque tudo em pratos limpos e, se for terminar essa coisa torta de vocês, terminem de uma vez, sem deixar nada pela metade.

Fiquei encarando Chris por um tempo antes de responder.

—Não dá para fugir de você, não é?

—Não quando estou certa.

—Ás vezes me pergunto como seu namorado te aguenta ou como você nunca transou com a Claire.

—Eu e a Claire somos fraternas demais para isso, assim como nós dois. –Tive que concordar. –E não mude de assunto ou vou te fazer me contar sobre todas suas experiências com garotos antes de começar a ficar com a Helena.

—Olha, eu não quero falar disso hoje. Minha mãe já é problema demais para um dia.

—Tudo bem, posso deixar isso passar por hoje, com uma condição.

—É claro que você tem uma condição, por que não estou surpreso?

—Crescemos juntos, isso é normal. Agora, converse comigo.

—Sobre?

—Qualquer coisa.

Fiquei encarando Christine por uns dois minutos até ver que ela não estava brincando.

—Ainda é estranho saber que você faz sexo. –Ela gargalhou. –Não sério, você e o Andy estavam em uma situação pra lá de embaraçosa e eu nem sou do tipo que acha isso estranho.

—Namoro com ele a tempo o bastante para colocá-lo no meio das minhas pernas, supere isso irmãozinho.

—Eu sou o mais velho. –Ela deu de ombros. –Sério, como ele te suporta? –Notei que algo a incomodou. –O que houve?

—Como?

—Você parece preocupada com algo.

Houve um momento de hesitação, do tipo que não é ruim, mas não é exatamente legal para quem vai falar.

—Hank disse que minha forma humana é um disfarce. –Aquilo fazia sentido considerando o que sempre vi da mutação dela. –Minha verdadeira forma é a carapaça de diamante vermelho, por isso meus poderes reagem sem que eu pense, é meu verdadeiro corpo.

—Algum dos filhos da nossa mãe é normal?

—Não.

—Você diz isso com uma calma que chega a ser assustadora.

—Espera até a Rose e a Cara começarem a fazer coisas parecidas com as que eu e a nossa mãe fazemos, aí sim você vai ver o que é assustador.

—Por Deus Chris, elas ainda são crianças.

—Não James, elas são adolescentes e, por enquanto, Cara é obcecada demais com seus estudos para notar outros humanos enquanto a Rose é infantil demais para notar qualquer um além da Cara. O dia em que isso mudar, o mundo tremerá.

—Tenho medo só de imaginar, quatro mulheres de sangue Frost causando pelo mundo. –Parei por um momento encarando minha irmã. –Você disse que só o Nikolai é hétero?

Ela gargalhou.

—Vai dizer que nunca percebeu isso?

—Não, eu percebi algumas coisas e sei que apesar do relacionamento com a Claire a Laura também é, o que é outra história. Sei que você é apaixonada demais pelo Andy para traí-lo, mas não duvido que coloque outra mulher na cama se ele concordar. Ou mais de uma pessoa, você é desse tipo.

—Andrew me falou a mesma coisa uma vez.

—Então…

—Ele é quente demais para a maior parte das pessoas e eu gosto de ter exclusividade sobre aquele corpo. –Então ela abre mão das orgias pela dominância sobre o namorado, assustador. –Não que ele ache isso um problema, é que eu vejo o olhar dele e é tão sexy.

Acabei rindo.

Acho que meu cunhado também exerce certo domínio nessa relação depois de tudo.

—Em todo o caso, você não é nem de longe muito diferente da Claire ou da Alexis, só teve mais sorte que todos os outros juntos. –Ela concordou. –Até agora a maior parte dos filhos da nossa mãe são bi, assim como eu, acho.

—A gente nunca tentou se aprofundar nessas nomenclaturas, não é?

—Precisa? –Para alguém inteligente, minha irmã é bem relaxada com certas coisas.

—Sei lá. –Aquela resposta me fez rir, porque é a cara dela.

—Rahne e Danielle nunca se rotularam, o que é legal e mostra que elas não precisam disso para serem felizes. Nós mesmos apenas usamos os termos porque é complicado ficar explicando como o fato de não sermos hétero não muda o fato que temos relacionamentos heteroafetivos ou quase isso no meu caso.

—Isso é tão chato. –Christine parecia aborrecida, o que era engraçado, já que ela parece uma criança.

—Bom, ninguém nunca veio me perguntar e duvido que questionem você.

Chris riu e me encarou fazendo algo que odeio: ser sexy sem tentar.

Entenda, essa é uma das características mais irritantes da nossa mãe e Christine a herdou em sua totalidade absoluta e, para piorar tudo, elas muitas vezes fazem isso sem perceber.

—Eles têm medo de você e deduzem que, porque sempre estive com o Andrew, eu sou hétero, não são muito espertos.

—Sexy sem necessidade. –Avisei e ela recuou dando leves tapinhas no rosto. –E você tem razão, mas isso não explica a Cara e a Rose.

—Acha que elas vão ser muito diferentes de qualquer um de nós? –Neguei. –Se ser LGBT+ fosse genético, esse seria o gene dominante da família Frost.

—Nossa mãe dormiu com meu pai e o Hank, além do seu pai e… –Hesitei. –Acho que com mais meio mundo.

—Acredite, é um milagre que depois de conviverem por tanto tempo juntas, tia Ororo e Jean não caiam no charme da nossa mãe ou na cama dela. Já peguei muitas alunas suspirando quando ela passa pelo corredor, várias vezes.

—Urgh. Não preciso dessas imagens na minha mente. –Parei por um momento pensando em algo que ouvi uma vez e estremeci. –Por favor, nunca deixe a Rachel ouvir esse seu comentário, um desastre poderia acontecer.

—Por que?

Hesitei pensando se deveria dizer aquilo e, por fim, deixei rolar.

—Tia Jean e nossa mãe não são, nem de longe, as pessoas mais hétero desse lugar.

Vi Christine me encarar por alguns longos segundos, como se esperasse que eu falasse algo mais desmentindo minha afirmação, então sua expressão mudou para um misto de surpresa e desagrado.

—James!

—Foi você quem começou. –Retruquei de forma infantil.

==========X==========

O almoço era uma tortura, não melhorava a conversa descabida que tive com Chris só meia hora antes, por isso resolvi me trancar na estufa atrás de paz.

A primeira hora foi tranquila, exatamente como eu queria.

Tirei meus quadros da minha sala pessoal e os espalhei em volta da mesa principal, depois comecei a mexer no primeiro deles, acrescentando detalhes a imagem dela naquela noite em Miami. Eu podia não querer falar com Helena ou tê-la ali, isso não significava que ela não estaria na minha mente durante boa parte do dia.

E isso se repetiu por mais meia hora até ter terminado os detalhes do segundo quadro e parar para observar o que ainda faltava em ambos.

Ironicamente eu ganhei uma companhia inesperada.

Esperanza decidiu me visitar com muita comida em sacolas, toneladas de comida vinda de diversos restaurantes e algumas que eu tinha certeza de nunca ter comido, o que é algo raro.

Enquanto devorávamos tudo que ela trouxe, notei que seu olhar ficava vagando para os meus quadros inacabados que agora estavam secando.

—Eu posso guardá-los se isso…

—Não! –Ela parecia um pouco envergonhada. –Desculpa, é que isso me dá um pouco de inveja.

—Como?

—Essa visão… –Ela me encarou. –Sinto inveja de você por ser capaz de se sentir assim sobre alguém.

—Inveja?

Notei que minha amiga parecia estar envergonhada.

—Eu nunca consegui me sentir assim sobre ninguém. –Ela voltou a encarar o quadro. –Esse desejo intenso e sincero que você retrata é tão constrangedor quanto invejável para alguém como eu.

—Você não deveria se sentir assim, não tem nada de errado em não sentir desejo por alguém.

—Pode ser, mesmo assim eu te invejo um pouco. –Esperanza suspirou triste. –Acho que invejo cada um com essa capacidade um pouco.

—Você sabe que existem pessoas que não sentem desejo sexual, certo? Não é algo do outro mundo.

—Eu sei, não acho que sou anormal, só não queria ser desse jeito. Acho que queria poder me sentir assim por, pelo menos, uma pessoa no mundo. –Ela riu. –Tipo sua irmã com a Claire.

Acabei rindo.

Era irônico e estranhamente reconfortante pensar que Laura e Claire estavam juntas apesar de tudo, apesar de minha irmã ser hétero e nunca ter se sentido atraída por uma garota. Eu sabia que ela provavelmente não amaria outra pessoa como ama a Claire, homem ou mulher, o que me fazia ter esperança de que uma pessoa encontraria e ficaria com alguém certo para ela, não importando quão inesperado fosse.

—Eu entendo o que quer dizer.

—Devo ser muito estranha para pensar assim, não é?

—Acho que você seria estranha se não desejasse isso pelo menos uma vez na sua vida. –Ela me encarou surpresa. –Todos desejamos ser amados e poder amar alguém sem preocupações, então o resto acaba estando no pacote pelo menos uma vez.

Esperanza sorriu de forma gentil e triste.

—Obrigada.

—Não por isso.

Voltamos a comer e ela mexeu no celular por alguns minutos antes de parar.

—Dios mio. –Foi um sussurro, mas eu ouvi.

—O que foi?

—É a lista de músicas do show especial da Dazzler. –Ela me mostrou a lista e logo entendi. –Ela vai cantar “Lost Child”.

—Legal. –Dei um sorriso leve e ela me encarou. –O que foi?

—Por que não vem comigo no show? Sei que disse que não gosta das músicas dela, só que assistir a uma performance dessas é uma chance rara.

—Bem, eu não duvido disso, mas tenho alguns compromissos complicados hoje, então não sei como estarei amanhã.

—Não pode desmarcar?

—Não.

Foi estranho, Esperanza ficou me encarando por vários minutos antes de sua curiosidade vencer.

—O que está acontecendo?

Hesitei, preocupado de algo soar mais estranho do que deveria.

—Vou ver minha mãe biológica hoje e é complicado.

—Ah, desculpe. Você comentou que ela teve depressão pós-parto e te deixou com a Emma.

—Podemos mudar de assunto?

—Tudo bem. –Ela colocou o celular sobre a mesa e me encarou. –Sei que você não gosta das outras músicas dela, mas já pensou em pintar algo enquanto ouve “Lost Child”?

Eu a encarei por alguns segundos antes de ficar preocupado.

—Isso é alguma brincadeira?

—Não, eu realmente me pergunto que tipo de imagem viria até você.

—Acho que nada muito interessante na verdade. –Evitei o olhar dela e suspirei um pouco decepcionado. –Admito que fiz isso uma vez, só que o resultado foi ridículo de tão ruim.

—Mesmo? –Assenti. –Que pena, você é um pintor extremamente talentoso.

Me senti mal por aquilo, já que estava mentindo.

Eu realmente havia pintado algo enquanto ouvia "Lost Child", só não gostava do resultado porque era doloroso de ver. Então Emma mandou o quadro para minha casa em Miami e minha mãe biológica o colocou em uma sala privativa, onde ninguém poderia entrar.

—Acho que todo artista tem seus momentos ruins.

Esperanza concordou e passamos metade da tarde conversando sobre botânica, algo que ela também gostava.

==========X==========

Depois de horas agradáveis na companhia de Esperanza eu precisei ir me arrumar para o meu encontro familiar, então passei na cozinha pegar algo para comer, porque precisava e não por querer. Então segui para o escritório de Emma, que ainda estava atolada em trabalho, e me encarou preocupada.

—Vai desistir? –Questionou quando sentei.

—Não sou esse tipo de pessoa. –Ela pareceu aliviada. –Só vim confirmar como eu vou para Nova York.

—De carro. –A encarei um pouco incrédulo. –Tália tinha um jantar com os Lang e Hope, então não ia atrapalhar.

—Não, eu entendo. Também acho que é melhor deixá-la com eles, já que todos ali parecem gostar dela. –Sorri diante do pensamento que me ocorreu. –Posso pegar qualquer carro?

E minha mãe riu da minha ideia.

—Desde que você pague as multas por velocidade depois, fique à vontade.

Tinha imaginado que a resposta dela seria aquela, então não me preocupei.

—E como é o restaurante que ela reservou?

—Caro, então se vista bem. Camisa social, seu melhor jeans e aquele sapato que te dei a um ano devem bastar. Não esqueça de usar o blazer, vocês estarão em um ambiente com humanos normais e se você não usar nenhum agasalho vai ser complicado. –Ela ainda lia alguns relatórios, mesmo que sua atenção frequentemente fosse desviada na minha direção.

—Pensei que o restaurante estivesse reservado para isso. –Comentei um pouco preocupado.

—E está, mas é melhor não arriscar. –Emma suspirou e me encarou seriamente. –Eu sei que você não gosta disso, mesmo assim preciso te lembrar: ela é sua mãe, então seja gentil.

Hesitei.

—Eu sei.

—Eu entendo que é difícil já que ela não te criou ou conviveu com você, mas sua mãe sabia que não era a melhor pessoa para cuidar de você e, às vezes, essa pode ser a maior prova de amor que uma mãe pode dar a um filho: admitir que não pode ser uma boa mãe.

—Eu entendo isso, de algum modo, é só…

Deixei a frase inacabada e ela levantou da sua cadeira, contornou a mesa e parou na minha frente estendendo a mão. Acabei levantando e Emma me abraçou com força, para em seguida depositar um beijo na minha testa e acariciar meu rosto.

—Você sempre foi um menino tão bom e dedicado, desde o primeiro dia que o vi naquela sala tão quietinho e preocupado com a sua mãe. Você sabia que tinha algo de errado com ela e queria tanto ajudar mesmo sem saber, porque você sempre a amou e isso nunca mudou, por isso tem dificuldade de lidar com ela.

Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e voltei a abraçar minha mãe de criação com força, porque ela me entendia melhor do que eu mesmo jamais me entendi e era por isso que eu a amava tanto. Emma retribuiu o abraço e passou vários minutos acariciando meus cabelos até que conseguisse me recompor.

—Eu vou tomar um banho e me arrumar para sair. –Falei ainda me sentindo envergonhado por chorar daquele jeito.

Minha mãe fungou, os olhos um pouco vermelhos por também ter chorado.

—Não se esqueça que ficou marcado para as sete e meia.

Olhei o relógio sobre a mesa dela, quatro horas.

—Eu fico pronto em menos de meia hora. –Ela riu da minha resposta.

—Vá com cuidado.

Concordei e fui para o meu quarto.

==========X==========

Meia hora mais tarde encarei meu reflexo no espelho.

Garanti que tinha aparado um pouco a barba, passei o perfume suave que Claire me deu no Natal passado, coloquei o cinto com fivela cromada que Christine me deu na mesma ocasião, deixei o cabelo o mais alinhado possível, a camisa estava passada e a calça limpa, assim como o sapato que nunca tinha usado, mas era confortável. Como não pretendia voltar para o Instituto naquela noite, coloquei algumas roupas dentro de uma mala para dormir na Shield e quem sabe ficar lá no dia seguinte, já que não sabia como meu humor ficaria.

Observei a pequena pedra que Helena me dera a algum tempo sobre a minha mesinha de cabeceira e a coloquei no bolso da calça, peguei minha carteira, vesti o blazer e sai do quarto, dando de cara com um monte de alunos curiosos.

Todos pareciam assustados com a minha aparência, já que normalmente só uso moletons e camisetas ou regatas para tudo, no máximo algum agasalho. Dessa vez eu daria um desconto para eles, já que minha aparência também me surpreendeu quando terminei de me arrumar e cheguei a pensar que me daria bem como ator de cinema, exceto pelo meu péssimo humor.

Estava quase na saída para a garagem quando Rachel cruzou meu caminho e me encarou confusa.

—Vai a algum encontro?

—Não exatamente. –Não pensei em mentir pra ela.

—Negócios?

—Um misto dos dois, eu acho. –A ruiva parecia ainda mais curiosa. –Minha mãe está na cidade.

Ela levou algum tempo para processar a informação, já que eu costumo chamar Emma de mãe também.

—Sua mãe biológica? –Assenti. –Nossa. Isso é bom, certo?

—Ainda não sei. –Sua expressão me disse que ela não entendia. –A gente não se fala de verdade há alguns anos.

—Vai precisar de alguma ajuda? Ligação de emergência para te tirar de um momento difícil ou coisa do tipo? –A encarei surpreso.

Rachel tinha muitas qualidades e defeitos que eu conhecia, mas nunca soube que entre as qualidades estava ser cúmplice daquela forma, talvez com Franklin, e ele não conta.

—Tudo bem, Emma já cuidou dos detalhes e eu meio que preciso encarar isso de frente dessa vez.

—Nesse caso, eu te desejo boa sorte.

Agradeci e entrei na garagem pegando as chaves do Mustang preto com detalhes verdes, satisfeito em saber que ele seria meu companheiro essa noite.

==========X==========

A viagem até Nova York foi tranquila.

Eu exagerei um pouco na velocidade em alguns trechos, ainda que no geral tenha ficado dentro do limite legal, o que me deixou na frente do restaurante faltando dez minutos para o horário marcado, mesmo que eu tenha dado uma volta maior dentro da cidade até chegar ali.

Encarei meu reflexo no espelho retrovisor me sentindo ansioso, como quando a encontrei pela primeira vez aos cinco anos e até certo ponto eu ainda me sentia exatamente com a mesma idade todas as vezes que nos encontrávamos assim. Só que eu não podia ficar parado como um garotinho de cinco anos esperando a mãe ir ao seu encontro.

Saí do carro e fui até o funcionário na frente do restaurante, que pareceu assustado e se adiantou.

—Desculpe senhor, o restaurante foi reservado para…

—Eu sei. Sou James Carter Howlett, a senhorita me espera para o jantar.

O rapaz, talvez da minha idade, assentiu e pegou a chave fazendo uma curta reverência ao abrir a porta. O homem mais velho do lado de dentro me encarou por um segundo até ouvir meu nome e então me guiou pelo salão até um ponto mais discreto onde uma mesa já estava colocada e alguém sentado.

Me aproximei enquanto o maitre ficava mais afastado e observei a mulher sentada com calma.

Ela continuava bonita, como nas fotos antigas e vídeos que eu via quando criança, mas a maquiagem de hoje era discreta e seu longo cabelo castanho cacheado com luzes loiras, que geralmente estava solto, foi arrumado em uma trança simples. Suas roupas também eram discretas, em uma versão feminina da minha própria, como se ela realmente não quisesse ser alvo de qualquer atenção naquele momento.

Quando notou minha presença, ela se levantou e me encarou um pouco surpresa, os olhos estreitos levemente arregalados, provavelmente pelo tempo que não me via.

—Olá mãe.

—Olá Carter.

Acho que nos encaramos por tempo o suficiente para o maitre perder a paciência diante da nossa enrolação.

—A senhorita Dazzler deseja alguma bebida?

—Vinho é um bom começo. –Comentei indicando que deveríamos sentar.

O homem concordou e voltamos à mesma interação de antes, com um silêncio incômodo.

Aquele jantar poderia ter sido uma péssima ideia depois de tudo.

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Continua...

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No próximo capítulo: Oscilação de Energia.

Notas finais
Nos vemos em Junho.