Marvel Universe: All Different World
52 Capítulo LII: Laura – Folga?
Notas iniciais
Laura
Data Terrestre: 11 de Outubro
Saímos da cama bem mais tarde do que o normal.
Não era algo exatamente estranho com tudo que aconteceu nos últimos dias e, sendo sincera, foi bom ficar largada na cama sem ter nada para fazer ou se preocupar com alguma obrigação.
Fury nos colocou de folga completa por dois dias, então também teríamos amanhã livre, o que era mais do que esperávamos quando a semana começou. Na verdade, quando saímos para a missão de caçar os terroristas, tínhamos uma previsão de passar a semana inteira trabalhando como duas condenadas não apenas em missões variadas, como também como instrutoras.
Eu sei que no final vamos mesmo trabalhar muito, talvez até mais do que o normal, porém os dias de hoje e amanhã definitivamente eram folgas muito bem-vindas.
Claire bocejou pela quinta vez em dez minutos.
—Acho que precisamos levantar. –Ela comentou. –Não sei se consigo tirar outro cochilo de cinco minutos.
Concordei e ambas levantamos.
Apesar de estarmos deitadas já tínhamos tomado banho e trocado de roupa mais cedo, depois voltamos para a cama e ficamos enrolando. Notei o bordado na calça do moletom preto da Shield que ela usava e acabei sorrindo sem perceber, porque é óbvio, para qualquer pessoa inteligente, que Claire vai seguir os passos dos pais.
—O agasalho do Instituto fica bem em você. –Seu comentário me assustou.
—Como?
—Você fica bem de amarelo e azul, embora eu ache que laranja e preto também daria certo. –Vi um sorriso divertido se formar em seu rosto. –Para ser sincera, eu acredito que quem pode substituir o tio Logan quando ele resolver se aposentar é você.
—Substituir? –Do que diabos ela tá falando?
—Sim, como Wolverine.
—Não acho que serviria para a função. –E não sei se James realmente abriria mão do nome.
—Seu irmão já me disse que não tem exatamente um grande interesse em usar o nome, afinal ele só assumiria o manto se for para manter com uma pessoa minimamente decente. E nos últimos dias me ocorreu que você seria uma ótima substituta para o nome, pelo menos em comparação com as outras opções em geral.
—Mesmo que você diga isso, será que meu pai um dia vai se aposentar?
—Pergunto o mesmo sobre os meus pais às vezes, não que essa seja a questão, certo?
—Não sei, você vai pegar o manto do Capitão?
—Do meu pai? –Assenti. –Nunca pensei sobre isso, sabe? Para mim, não sou uma candidata a Capitã América, sou a Stardust.
—E com quem ficaria o posto do seu pai?
Claire deu de ombros.
—Às vezes acho que vai ficar com o meu irmão ou com o Elijah Bradley, talvez a filha do tio Bucky ou do Sam.
—Elijah não é o neto do Isaiah, o cara que passou por experimentos para replicar o resultado do seu pai?
—Ele mesmo.
—Ele tem poderes ou algo do tipo?
—Uma transfusão de sangue do avô fez essa parte a alguns anos atrás, embora eu ache que ele tem o coração necessário mesmo sem isso. –Notei que ela falava sério sobre não pegar o manto do pai.
—E se você precisar ser a Capitã América? –Ela pareceu pensar.
—Se tiver que ser assim vai ser, mas pessoalmente gosto de ser apenas a Stardust.
—Nunca me contou porque escolheu esse nome. –Comentei.
Claire sorriu um pouco travessa.
—Meu pai é o símbolo da América e aquela estrela no peito dele é a marca desse símbolo, do seu heroísmo e idealismo. Toda estrela tem essa coisa em volta delas, especialmente as estrelas cadentes, com seu rabo de fogo, poeira estelar. Stardust.
—Não é um pouco diminuído?
—Você acha? –Ela sorria divertida. –O universo é cheio de poeira de estrelas e o que chama mais atenção depois de uma estrela cadente passar é a poeira estelar que a sua cauda deixa para trás. Mesmo os cantos mais escuros e distantes do universo estão repletos de poeira estelar. –Acabei rindo. –Qual a graça?
—Você é mais arrogante e inteligente do que parece.
—Não acho que sou arrogante. –Ela ficou emburrada e acabei rindo mais.
—Só o necessário. –Comentei. –Vamos comer?
Claire assentiu e saímos do quarto direto para o refeitório, que deveria estar cheio por conta do intervalo das aulas.
==========X==========
Fui parada por meia dúzia de estudantes perguntando porque James estava estressado, o que significa que a coisa tá feia, já que ninguém nunca tenta falar comigo sobre esses assuntos. Então me separei da minha namorada, por minha própria sugestão.
Encontrei Claire no jardim, longe de quase todos, apoiada em uma árvore e observando o céu gelado do outono.
—Achei que fosse me esperar na porta. –Ela se assustou com a minha aproximação. –O que aconteceu?
—Nada em particular, alguns alunos vieram reclamar sobre a Alexis, então mandei todos irem se ferrar.
—Ouvi algumas coisas enquanto falavam do meu irmão. –Me apoiei ao lado dela. –Não acho que o Nathan estava certo, só não consigo achar que estava errado.
—Te entendo. –Ela suspirou. –Não é por falta de tentar, sabe? –Concordei. –Muitos dos alunos esquecem que do lado de fora dessas cercas, na maior parte do mundo, eles serão tratados de formas tão ou mais cruéis do que tratam Alexis. Agem como se o fato dela ser um mestiça de humano com demônio ou algo do tipo a faça ser menos do que eles, mesmo que seja assim que os humanos comuns vejam os mutantes.
—Eu nunca entendi isso. –Claire me olhou curiosa. –Em muitos momentos, somos mais preconceituosos uns com os outros do que nos apoiamos, acho que é por isso que o Magneto consegue tantos aliados.
—Porque ele não gosta muito de julgar a utilidade dos mutantes que o procuram, foca em como é a melhor forma de usar esse poder em benefício de todos os mutantes. –E eu sabia que ela entendia isso. –Acho que de certa forma a Shield e o tio Tony perceberam isso também, algo bem no estilo “por que excluir os mutantes se podemos incluí-los e melhorar os resultados?”. Não posso dizer que não aprovo esse raciocínio.
—Ainda assim voltamos ao ponto de partida, nunca vamos conseguir conquistar a aceitação dos humanos se continuarmos nos tratando dessa forma.
—Então acho que nunca vamos sair desse ciclo.
—Não acha que podemos mudar? –Fiquei preocupada.
—Somos humanos no final de tudo Laura, mesmo que a gente mude, vamos achar outros para ocupar o espaço que hoje é dos mutantes. Precisamos de um alvo para as nossas frustrações, até eu preciso.
—E quem é o seu alvo? –Acho que ela está um pouco abalada depois dos últimos acontecimentos.
—Em geral os alvos das minhas missões, quando não tem nada acho que me volto um pouco contra mim mesma e me forço ao limite.
—Isso tem mudado um pouco. –Tentei animá-la.
—Não mudou não. –Ela sorriu. –Eu agi de forma impulsiva na escola e gerei esse problema, mesmo sabendo que deveria me controlar. Me deixei abalar pelo que houve com Jeanne e usei meus poderes sem necessidade, descobrir que as drogas podiam ter ligação com terroristas também me abalou. E...
—Nada disso é sua culpa e não é como se pudesse controlar todas as variáveis. –Ela me encarou um pouco descrente. –Você mesma disse, mutantes ou não, somos apenas humanos e é por isso que erramos, não porque não conseguimos aguentar o tranco. Além disso, é difícil encontrar alguém mais capacitada para segurar as pontas em situações difíceis como a da bomba ontem.
—Só fiz o que era certo, os danos teriam sido maiores se não tivesse pulado sobre o cara.
—E pelo menos vinte e cinco por cento dos federais e policiais da cidade teria hesitado ou corrido pelas suas vidas.
—E os outros setenta e cinco por cento? –Ela parecia curiosa.
—Não sei você, gosto de pensar que eles seriam os idiotas altruístas que colocam a vida dos outros acima das próprias ou dos sentimentos de suas famílias.
—Idiotas altruístas?
—Também chamados de boas pessoas.
—Por que idiotas altruístas?
—Porque eu acho que, às vezes, para se sacrificar por certas pessoas egoístas é preciso ser no mínimo um pouco idiota ou não dá para fazer o que é preciso. Você é um pouco assim.
—Então você também é. –Ela riu da minha cara. –Você só se sacrifica por mim hoje em dia, mas em situações normais, você entraria em um prédio em chamas para salvar qualquer um que estivesse lá dentro com ou sem mutação.
Dei de ombros.
—Você não foi a única criada para fazer o certo sem pensar duas vezes e, de certo modo, nós fomos criadas por idiotas altruístas, então não podíamos ser diferentes.
Claire riu e me puxou para um beijo que me deixou tonta, sem ar e completamente sem direção.
Não que isso fosse difícil, uma vez que quase todos os beijos dela me deixavam assim, o que é algo complicado.
Beijar Claire, desde o primeiro dia era algo que me fazia sentir em queda livre ou como se tivesse acabado de dar a volta ao mundo em cinco segundos: exaustivo, intenso e incrivelmente recompensador. E não eram nem os grandes beijos, mas bem-dizer qualquer um, o que apenas tornava a minha situação mais ridícula e absurda, ainda que verdadeira.
Ela se afastou e sorriu, enquanto ainda me sentia perdida.
—Vamos ver como estão as coisas por aí. Parece que os filhos do Erik passaram na prova do seu irmão ontem, não está curiosa sobre o potencial deles?
Concordei mesmo que ainda estivesse um pouco confusa e meu coração acelerou quando Claire segurou minha mão, aquecendo meu peito de uma forma confortável.
Ela ainda vai me enlouquecer.
==========X==========
Encontrar os gêmeos Lehnsherr foi fácil.
Os dois estavam em um treino com meu pai e logo mais à frente podia ver os gêmeos LeBeau sendo massacrados por uma das rotinas da minha família sob a supervisão de James, que estava no modo “Carrasco do Inferno” (ou qualquer que seja a explicação para o olhar assassino dele).
—Acho que seu irmão se desentendeu com a Helena. –Claire não parecia animada com aquela perspectiva.
—Não sei bem o que rola entre eles, então nem imagino.
—É, mas eu sei. –Minha namorada não voltou a comentar, apenas negou com a cabeça e suspirou antes de encarar meu pai. –Hey tio!
Ele nos olhou surpreso.
—O que estão fazendo aqui crianças? Pensei que estavam de folga. –De algum modo ele não estava fumando um charuto hoje.
—Estamos, só que o Diretor Caolho nos mandou pra cá por hora.
Logan assentiu e me encarou.
—Como está Sarah?
E ele é a única pessoa que me chama assim.
—Bem, especialmente com a folga que ganhamos.
Ele sorriu quase nada.
—Aproveite, ouvi que o Coulson conseguiu autorização do Fury para encher vocês de estudos e trabalhos internos com treinamentos. –Tanto Claire quanto eu já imaginávamos aquilo, mas ter certeza era totalmente diferente. –Isso vai ser bom pra mim. –Ele apontou para os pequenos. –Eles são talentosos, então seria bom ter uma visão e apoio externo para explorar melhor as habilidades deles. Tanto as que podemos ensinar como as que Erik já cuidou para que aprendessem.
—Se eles são bons assim não vejo problema em ajudar. –Claire comentou observando atentamente os movimentos das duas crianças.
E eu sabia o que ela via: habilidade de aprender, criatividade, flexibilidade além da parte física e potencial para mais, muito mais.
—Acho que o pai deles fez um excelente trabalho, embora eles também digam que a mãe é muito talentosa. –Logan nos encarou tenso. –Sei que não gostam de fazer isso, mas podem farejar eles com calma? –Ambas ficamos surpresas. –O cheiro que deveria ser da mãe deles, parece que já senti e mesmo assim não consigo lembrar.
—Tentou ver isso com James? –Tentei me livrar daquela confusão.
—Seu irmão me disse que já viu isso com Helena, como se houvesse um feitiço impedindo o cheiro da mãe dela de se manifestar de forma clara para qualquer um. Ele acha que também afeta a energia que pode ligar as duas, não que eu tenha entendido essa parte, só sei que a alguns anos ele recebeu um igual que bagunça até o meu nariz e eu sei quem é a mãe dele.
—Então nem adianta tentarmos tio. –Claire não parecia animada. –Uma vez perguntei sobre isso para a Helena, fui bem direta, e ela me disse que a mãe dela desenvolveu esse feitiço para alguns outros, incluindo ela mesma, para impedir que pessoas do meu tipo, Alexis ou até mesmo deuses, como a garota asgardiana, pudessem associar pais e filhos. Confesso que fiquei confusa, hoje eu sei que ela falava de pessoas com capacidades olfativas únicas, demônios e deuses, só não sei para que alguém precisaria se esconder de tanta gente.
Meu pai suspirou vencido.
—Não sei o que é pior, a explicação fazer sentido ou o fato de que sei que estou perdendo uma coisa importante com a falta da informação sobre a mãe deles.
—Acho as duas coisas ruins e boas. –Ele me encarou. –Saber disso poderia apenas complicar ainda mais a coisa toda, como acontece com todos os outros que não sabem quem são seu pai ou mãe. –Logan pareceu tenso diante da minha afirmação. –Não se preocupe, imagino que por mais frustrante que seja você faz isso pelo meu bem. –Encarei as crianças. –Então, se formos mesmo analisar as possibilidades, podemos dizer que deixar a informação sobre a maternidade deles poderia gerar problemas não apenas para ambos, como para outras pessoas.
—Se esse realmente for o caso, acho que o fato de Emma ser a única a saber quem é a mãe deles é uma coisa boa. –Olhei para ele curiosa. –Afinal, seja por bem ou por mal, não conheço melhor pessoa para guardar segredos complicados de outras pessoas sem falhar. –Logan respirou fundo. –Querem participar do treino?
—Hoje não tio, talvez depois do final de semana. –Ele encarou minha namorada surpreso. –Acredite, essa folga não pode ser desperdiçada, não depois daquela bomba.
Meu pai concordou rindo e saímos da área de treino, mesmo eu tendo certeza de que ainda veríamos os dois casais de gêmeos antes do fim do dia.
==========X==========
Eu não estava errada, encontramos os Lehnsherr e os LeBeau mais cedo do que esperava.
A garota asgardiana tinha aparecido há algumas horas, só que apenas cruzamos com ela no corredor por acaso quando o horário de almoço estava para começar, ao lado dela estavam Nathan e Alexis, que até onde consta deveria estar de repouso por causa dos poderes demoníacos dela. Então, por instinto ou um pouco de bom senso, deixamos os três conversarem sozinhos, o que pode ter sido uma ideia inteligente ou não, especialmente com eles indo para o refeitório.
Sorte ou não, tínhamos decidido almoçar antes dos outros alunos, para aproveitar o mínimo de silêncio que era possível naquele período e acabamos indo novamente para o jardim, principalmente pelos poucos alunos. A maioria estava indo almoçar e havia um bom número dos que não queriam ficar no frio do outono, o que para mim e Claire não era algo preocupante.
Nossos corpos percebem o clima de forma um pouco diferente, talvez porque não sentimos dor da mesma forma que a maioria das pessoas, mutantes ou não.
No meu caso é um pouco pela mutação que herdei do meu pai, mas James já comentou que nossos casos também podem ter influência de nossas mães. Ele não me contou nada sobre quem seria a dele ou a minha, só que nosso pai não estava fazendo aquilo por crueldade. Meu irmão também disse que nosso pai sente mais dor do que qualquer um dos filhos dele e que Rose não tem o mesmo nível de resistência que eu ou ele.
E a Claire... Bom, a mesma mutação genética que amarrou o soro ao gene X dela e lhe deu todas as habilidades não mutantes também fez com que sua capacidade de sentir dor fosse no mínimo cinquenta por cento menor que em qualquer outro ser humano, talvez até menos. Ela mesma já confessou que por um tempo isso começou a interferir em coisas simples, como seu tato, o que levou a meses de treino apenas para segurar um copo sem quebrá-lo. Um pouco depois acabaram descobrindo que isso era só um pico de crescimento, mesmo assim minha namorada confessou que foi um pouco assustador no começo.
O fato é que independente da temperatura estar dez graus ou quarenta e cinco, não sentimos uma grande diferença, ainda que tentemos pelo menos fingir ligar para isso.
Foi no jardim, sentadas em um dos bancos de concreto, sem nada para fazer além de observar as plantas se preparando para o inverno, que tivemos o desprazer de ver Oliver e Rebecca LeBeau tentando atacar, sem sucesso, Charlie e Derek Lehnsherr.
Olhei para a cena um tanto surpresa, porque apesar de os Lehnsherr estarem em clara vantagem estratégica e de poder de fogo, eles apenas mantinham os LeBeau afastados. Isso sem falar que eu conhecia as habilidades de luta de Becky e Ollie, muito inferiores as que vi os dois pequenos demonstrarem no treino de mais cedo. Suspirei cansada ao constatar que Charlie e Derek tem plena consciência de sua superioridade, o que significa que não estão atacando para evitar machucar os LeBeau.
Droga.
Eles são o pior tipo de pessoa para entrarem em uma rixa com os dois encrenqueiros do Instituto: são espertos e competentes demais para se deixarem levar por provocações.
—Eles não vão revidar. –Claire comentou parecendo conformada. –Por que os melhores têm que lidar com os idiotas?
—Por que é natural? –Ela me encarou como quem tem dúvidas. –Todos já passamos por isso uma vez ou duas.
—Verdade. –Claire levantou. –Deixa eu resolver isso, até porque tem uma dupla ali que precisa de uma bela bronca a algum tempo.
—Fique à vontade, vou ficar por perto. –Comentei a seguindo.
Não foi algo que os LeBeau esperavam, afinal, poucas pessoas tem paciência ou capacidade de driblar as habilidades combinadas deles.
Felizmente Claire é uma dessas pessoas.
Senti a leve tensão no corpo dela desaparecer, sinal de que havia liberado sua mutação e a vi estalar o pescoço enquanto regulava a força com que bateria nos filhos de Vampira ou não...
Claire agarrou Oliver pela gola da blusa e o arremessou contra a parede mais próxima com uma facilidade que tive certeza que ele tinha quebrado meia dúzia de ossos só com o impacto. O golpe seguinte foi um soco na boca de Rebecca e juro que além de ver uns seis dentes voarem ainda ouvi o osso da mandíbula dela ser destruído.
—Não. –Os Lehnsherr gritaram formando uma barreira em volta de Claire.
Infelizmente para os dois isso não funcionou.
Minha namorada atravessou o escudo de força e seguiu até as duas crianças se abaixando até ficar da altura deles.
—Não interfiram.
Os dois pareciam assustados, mas não recuaram.
—Não pode matar os dois. –Charlie parecia fazer força para enfrentar Claire, o que é compreensível.
—Não vou matá-los. –E o pior é que mesmo eu duvidaria da minha namorada se não a conhecesse.
—Você atacou os dois, não vamos deixar que os machuque mais. –E nem Derek conseguia parecer valente ali.
Claire suspirou e deu um peteleco leve em cada um, os fazendo cair.
—Em primeiro lugar, vocês não podem me deter e mesmo que fossem mais fortes, não teriam como fazer nada. Segundo, sou uma das poucas pessoas que consegue fazer os dois ficarem na deles, então essa surra que dei neles... Encare como um combo por tudo que eles vem fazendo com os outros alunos, incluindo vocês.
As duas crianças hesitaram e, por fim, recuaram, o que fez minha namorada ir até Rebecca, a puxando pelo pé até onde Oliver estava caído. Ela largou os dois um ao lado do outro de qualquer jeito e se aproximou da cabeça de ambos.
Os LeBeau tremiam de dor e o medo estava estampado nos seus olhos de uma forma muito mais evidente que a raiva.
Os poderes de Ollie não funcionariam em Claire enquanto sua mutação estivesse ativa e Becky... Controlar seus poderes sempre foi algo difícil para a garota, então eu sabia que eles não iriam nem mesmo sonhar em reagir.
Vi Ororo a distância, mas ela não se aproximou.
Havia um acordo entre os professores que dizia que eles não deveriam interferir em certos assuntos, salvo para garantir a vida dos alunos, e mesmo assim exceções poderiam ser feitas considerando cada caso. Eu não sabia os detalhes, só que Claire tinha carta branca para quebrar todos os ossos dos LeBeau se fosse necessário.
—Vamos analisar as ações recentes dos dois encrenqueiros. –E a voz calma da minha namorada pode ser bem assustadora. –Tenho informação que nas últimas duas semanas vocês vem atrapalhando as aulas de professores, perseguindo alunos e fazendo bulliyng, destruindo itens de outros alunos e até mesmo xingando professores. –Realmente ela ficou bem irritada com o lance deles chamarem Rasputin de “vadia”. –E por fim, mas não menos importante, além de espalharem rumores sobre a Alexis, ainda invadiram o quarto dela quando ela estava vulnerável e instável. –Claire suspirou um pouco irritada. –Devo apenas continuar quebrando seus ossos até que sejam capazes de pedir desculpas a todos e principalmente a Alexis ou posso poupar meu trabalho e tempo simplesmente despachando-os para a enfermaria e depois vão fazer isso assim que forem liberados.
Ouvi um grunhido irritado de Rebecca e Oliver resmungou:
—Ela é uma aberração.
Se isso fosse uma aula o professor diria “resposta errada”.
Claire nem piscou, apenas quebrou um dos braços de Becky e o bom de Ollie.
—Tentem novamente. –Ela disse depois de alguns gritos de dor deles. –E eu sugiro que tentem a resposta certa dessa vez.
Bom, eles não ouviram a minha namorada e ela precisou quebrar mais alguns ossos deles antes de desistir ou ia matar os dois de verdade.
Só quando Claire levantou e ficou ao meu lado um grupo de estudantes que se dedicam a cuidados médicos se aproximou com Hank e Sussan junto. Ororo se aproximou apenas quando os LeBeau já estavam estabilizados para transporte e encarou minha namorada que suspirou.
—Eles não parecem ter cedido. –Foi o que ouvi Tempestade dizer. –Pegou leve?
Claire fez uma careta que eu entendia muito bem.
—Até parece. –Ela encarou o céu. –Acho que nunca precisei quebrar tantos ossos deles quanto hoje e os dois não cederam. –Minha namorada olhou para a professora mais velha. –Eu acho que eles não tem mais salvação nem pela força e tortura tia.
Ororo suspirou.
—Acho que todos nós sabíamos que um dia isso aconteceria e temíamos esse momento, mas não podemos fazer mais nada para resolver o caso deles. Nossas opções agora são ignorá-los e esperar que o pior aconteça ou mandá-los embora, o problema é que eles tem só quinze anos e não sei quem os aceitaria.
—O que é o pior que pode acontecer? –Acabei perguntando um pouco curiosa.
A risada seca de Claire me disse que a coisa não tinha graça.
—Ou eles matam um aluno ou um aluno mata os dois. –E minha namorada não estava brincando. –Em todo o caso, as opções são uma merda.
—Infelizmente. –Ororo comentou. –Vou acompanhar o tratamento e informar Emma sobre tudo. Desculpe por fazê-la lidar com os dois.
Claire deu de ombros.
—Acho que demorei um pouco para fazer isso e Alexis ou Nikolai não se sentem seguros o suficiente para agir contra eles sem perder o controle de seus demônios, já a Tália... Bom, vamos deixar ela como está. –Minha namorada suspirou em um misto de cansaço e raiva. –James definitivamente os mataria e Christine... Vamos dizer que ela já fez o estrago ontem e não resolveu. –Ela encarou Ororo. –Vou ficar por aqui, tudo bem?
—Apenas descanse. –E sem esperar mais, Tempestade voltou para dentro do prédio.
Senti a mão de Claire segurar a minha enquanto ela olhava para o céu.
—Isso não é algo divertido. –A ouvi resmungar.
—Ter que torturar os LeBeau?
—Também.
—Então, do que está falando?
—Da minha intuição. –Ela me encarou e notei que estava preocupada. –Tenho a sensação de que a presenta dos Lehnsherr vai ser uma bela fonte de problemas, especialmente com os LeBeau. O que não vai melhorar se alguma coisa mudar entre o Nate e a Alexis.
—Acha que ele tem alguma chance?
—Não sei, mas a Christine acha que as coisas vão mudar para ele e para o James.
—Helena?
—Parece impossível, não é?
Tentei não soar dramática, só que era difícil.
—Eu teria apostado em um novo fim do mundo antes disso.
Claire riu.
—Não posso discordar. –Ela inclinou a cabeça e sorriu. –Quer voltar a ver as plantas?
Hesitei.
Porque a ideia era boa, só que eu queria um pouco de paz e quem sabe relaxar com ela, mesmo que não soubesse bem o que poderíamos fazer. Minha única certeza é que queria ficar apenas com ela e me sentir menos armada do que estava desde que saímos do quarto.
—Podemos ir a uma das bibliotecas? –Ela pareceu surpresa quando falei e dei de ombros. –Talvez seja legal ler alguma coisa.
O sorriso dela foi mágico e aqueceu meu peito de uma forma lenta e aconchegante.
—Alguma preferência? –Neguei. –Então eu tenho um livro que pode ser interessante.
Concordei e ela me puxou para dentro da escola.
==========X==========
Rachel sabe ser a pessoa mais chata do mundo quando quer.
Preciso me lembrar de falar isso para ela quando a ruiva chegar.
Se bem que tenho me metido em cada confusão desde que voltei para o Instituto que nem sei se ela é tão ruim assim.
—Laura. –Ray havia acabado de virar no corredor com Claire logo atrás, então levantei do chão e segui até ela. –Achou meu irmão?
Controlei minha vontade de xingá-la, já que a ruiva havia interceptado eu e Claire a caminho de um momento relaxante na biblioteca, mesmo assim acho que fui um pouco mais grossa do que o normal.
—No depósito com a Alexandra, então sugiro que não tente entrar porque as coisas estão bem quentes lá dentro.
A cara dela foi hilária.
—Você não quer dizer... –A risada da minha namorada foi a melhor resposta. –Não acredito. É o depósito dos professores.
—Então agradeça que não é o dos alunos, isso sim seria trágico com as crianças entrando lá a toda hora. –Comecei a andar na direção que a ruiva veio com Claire.
—Para onde vocês vão? –E Rachel veio com a gente.
—Levando em conta que a porta tá trancada e não temos que vigiar os dois, aproveitar a nossa folga soa bem interessante. –Claire respondeu.
—Se parecer interessante até podemos ver o que o garoto alienígena veio fazer aqui, embora aposte que veio seguir a garota asgardiana. –Acrescentei tentando afastá-la.
—Quando foi que ela chegou ao Instituto exatamente? –A ruiva estava confusa com tudo que estava acontecendo naquele dia.
Não que possa culpá-la.
—Antes de levantarmos. –Respondi um pouco surpresa de Rachel não ficar grudada na porta do depósito e frustrada por estar nos seguindo.
—Curiosa sobre os dois? –Claire provocou.
—Não exatamente, só acho que vale a pena conhecê-los melhor. Sem falar que a Kitty ainda não falou onde a filha dela se meteu. –Do que diabos a ruiva tá falando?
—Ela tem uma filha? –E minha namorada não saber disso é novidade.
—Com o Quill. A garota é meio surtada, ou é o que os dois fazem parecer quando falam dela. –Ray deu de ombros.
—Surtada como? –Esse termo é meio genérico por aqui, então fiquei confusa.
—Do tipo que prefere viver nos planetas malucos deles que pôr os pés na Terra. –Não que Rachel parecesse ligar.
—Não posso culpar. Esse planeta, além de maluco, normalmente só atraí gente que quer destruir tudo, sem falar que não vejo lógica nenhuma quando falam que somos o centro do Universo. –As observações da minha namorada são bem mais certeiras do que parece.
Rachel não falou nada sobre aquele comentário.
E apesar de saber que o que Loki fez a vinte e um anos nos salvou, isso não muda o fato que um monte de alienígenas malucos continuaram vindo para a Terra atrás de poder. Só não consigo imaginar que tipo de poder eles acham que vão encontrar aqui depois daquela guerra que quase nos matou e o resto do Universo.
Eu até pensei em perguntar isso algumas vezes, até para a Rachel e para a Christine ou para a Claire, mas acho que seria uma bela perda de tempo. Até porque elas não parecem interessadas nesse assunto e seria uma informação inútil.
Pelo menos eu acho.
Estávamos no meio do caminho para o refeitório onde em teoria Ur estava quando dei de cara com James conversando com Daniel e foi curioso ver como meu irmão parecia ter arrumado um amigo, até porque ele é meio complicado em alguns momentos e um idiota em outros, o que só pela cara dele poderia jurar que era o caso.
—Sequestrar uma garota pode ser complicado cara. Um tigre vai dar menos trabalho. –Do que eles estavam falando afinal de contas?
—E por que eu sequestraria um tigre ao invés da garota que eu gosto?
—Pode aproveitar para treinar.
—Acredite, ninguém é pior que a filha do Quill e da Pryde, ela é doida.
Era a segunda vez que ouvia falar daquela garota e acabei ficando realmente curiosa a respeito dela, então me intrometi na conversa dos dois.
—Afinal, qual o nome dessa garota? –Daniel me encarou por alguns instantes antes de responder.
—Eles deram o nome de Melody para a garota, só que os povos dos planetas a apelidaram de Aura. –Acho que ele notou a cara de todos ali. –Ela tem um poder difícil de explicar e muito poderoso, então vamos apenas deixar por isso mesmo, pode ser?
Todos acabaram concordando e de alguma forma aquilo também me cansou.
Segurei a mão de Claire e sai a puxando, ignorando Rachel que tentou nos seguir, só que fechei a porta da biblioteca na cara da ruiva, que felizmente não tentou entrar ou bater.
—Você parece exausta. –Não é como se minha namorada não entendesse, ela apenas gosta de fazer brincadeiras.
—Podemos apenas ficar aqui um pouco?
Ela assentiu e sentei no sofá maior enquanto Claire pegava um livro na estante, sentando na ponta oposta. Sorri e deitei a cabeça no colo dela, que logo abriu o exemplar de poemas e começou a ler de forma calma.
Fechei os olhos e me deixei envolver por aquela sensação agradável que o som da voz dela transmitia. Não dormi, mesmo assim me senti mais descansada do que posso explicar.
==========X==========
Felizmente (ou não) estávamos dispensadas da reunião no Instituto.
Ainda assim tivemos que participar, porque somos instrutoras e seria irritante ter que ficar pedindo para outros repetirem os tópicos discutidos. Não que isso tenha sido um problema de verdade, a coisa só mudou de aspecto quando recebemos uma mensagem de Aisha Monroe: a princesa estava a caminho em um voo vindo de Tokyo.
Não preciso nem dizer que quase todos ficaram com a mesma cara de “que merda é essa?” por vários minutos antes de alguém reagir.
E foi Christine.
A Frost 2.0 (e eu ainda quero entender por que, além da semelhança física com Emma, deram esse apelido para ela) se ofereceu para ir buscar a princesa no aeroporto, levá-la para a Shield e depois trazer a mesma para o Instituto. Isso tudo no caso de não ter nada de errado com a vinda dela. Claro que a loira recrutou eu e Claire como acompanhantes, o que foi aprovado até pelo Diretor Fury, que designou Andy como agente responsável pela agência para a missão.
Então, depois de um dia nem tão relaxante e nem tão estressante, aqui estamos nós, esperando Aisha desembarcar.
Sorte ou não, o FBI e o pessoal da segurança do aeroporto também foram acionados, embora a principal função deles fosse manter qualquer repórter longe da princesa, que não é conhecida por ser a pessoa mais paciente do mundo. Alguns deles até pareciam preocupados com a nossa presença, mas no final acho que eles concordam que é melhor cada um cuidar da parte do problema que receberam.
As preocupações do nosso grupo por outro lado não diminuíam, especialmente com a quantidade de passageiros que reconheceram eu e Claire dos vídeos que circulavam na internet desde a segunda-feira. O anúncio em duas emissoras diferentes sobre a entrevista não melhorava essa parte, já que vários trechos sem nossas vozes estavam sendo vinculado na chamada com uma narrativa curta de Harrelson e Brant para o dia seguinte, o que seria meio que o grande evento da semana depois do atentado na manhã do feriado de Colombo.
O que me lembra que a gente deu muito azar de pegar um monte de pessoas com dia livre nas ruas. Foi um azar tão grande que Claire só lembrou que segunda-feira foi feriado nacional quando olhou no calendário hoje de manhã e ela é doida por feriados e comemorações (parece ser o lance da família, então talvez vire meu lance um dia).
Os passageiros saíram parecendo apressados e alguns corriam ainda mais quando nos viam, como se fossemos uma visão do diabo, o que apenas alertou ainda mais os agentes da alfândega e fronteiras a conter essas pessoas e passá-las por inspeções. A maior parte só estavam com medo, já outros, bom, eles provavelmente vão acabar em celas por alguns anos ou com uma mancha em seus passaportes.
Como era de se esperar, Aisha foi a última pessoa a sair e quando passou pela porta todos pararam para olhar, só não sei se por ela ser muito bonita ou pela imensa pantera negra ao seu lado. Embora eu possa admitir que nunca ouvi falar de um animal que parece com esse com marcas azuis no corpo.
—É um animal raro de Wakanda. –Claire comentou. –A pantera do palácio deu à luz a um casal de filhotes e cada criança do rei ganhou um como símbolo de sua posição. Parece que os filhotes se ligaram muito aos donos e agora os seguem para todos os lugares como guarda-costas.
Assenti e notei o olhar divertido de Aisha para Claire.
No segundo seguinte a princesa tentou dar um soco na minha namorada e foi arremessada para trás. Diversas pessoas exclamaram assustadas e os federais pareciam em dúvida do que fazer, não que possa culpá-los. Minha namorada suspirou e andou até a princesa em quem tentou dar um soco, só que Aisha virou eletricidade e desviou fazendo Claire parecer cansada.
—Satisfeita alteza? –É, minha namorada ficou de mau humor.
A garota negra gargalhava enquanto abraçava Claire, que continuava com a cara fechada.
—Que bom te ver aqui Princesinha da América. –E as informações de que Aisha fala alto são verdadeiras, a garota parece ter um megafone no lugar da boca.
Notei várias pessoas cochicharem sobre o apelido, um que Claire odeia.
Ela agarrou a princesa pelo colarinho.
—Não me chame por esse nome.
Aisha riu.
—Relaxa, todo mundo que te conhece não liga se você tem o sangue de um, dois ou mil militares, só que cada um deles é mais importante que o outro. Princesinha.
E antes que Claire tivesse a oportunidade de tentar dar um soco de verdade na Princesa de Wakanda, Christine interferiu.
—Aisha! –A Frost se jogou nas costas da mais nova. –Senti sua falta.
—Eu também garota. –Aisha retribuiu o abraço selvagem da mais velha. –Nossas mães ainda trabalham juntas na papelada do Instituto?
—Muito. –Chris soltou a princesa e a encarou. –Agora, por mais que eu ame te ver e queira colocar o papo em dia, temos que ir para Shield, ordens do Fury e da sua mãe.
—Imaginei. –Aisha não parecia animada com aquilo. –Ben me pediu para avisar a família dele que vem para o país em breve, talvez alguns dias.
—Avisamos tio Peter e Mary Jane mais tarde. –Claire comentou pegando as malas da princesa junto com Andrew. –Podemos ir?
Todos concordamos e seguimos para a saída, o que quase foi um momento sem problemas.
Quase.
Um repórter de uma rede gritou uma pergunta sobre Aisha ser uma simpatizante de mutunas e a princesa não segurou a língua: Aisha gritou para quem quisesse ouvir que sendo ela, o irmão e a mãe mutantes não havia como eles não gostarem de mutantes. A maior parte das emissoras ali presentes estava ao vivo e todas as pessoas assistindo televisão ouviram a declaração dela.
Claire e Christine riram enquanto Andrew segurava o riso.
Até eu ri um pouco, especialmente da cara dos jornalistas que não pareciam saber onde enfiar a cara. Aisha Monroe ainda deu muito trabalho arrumando discussões com Fury e até mesmo com Ororo, mas no final tudo terminou bem.
Apesar de que eu não tenho certeza se confio completamente na afirmação dela sobre ter vindo para o país apenas para ajudar a apoiar Claire no meio dessa confusão. Não quero falar nada agora porque pode parecer que estou julgando a garota sem nunca tê-la visto, só acho o momento um pouco complicado para ela aparecer.
Que eu esteja errada.
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Continua...
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No próximo capítulo: Encontros.
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