Notas iniciais
Atualmente posto minhas fics nos seguintes sites/plataformas de fanfics e histórias: Spirit https://www.spiritfanfiction.com/perfil/eucaristia Nyah! https://fanfiction.com.br/u/175167/ Wattpad https://www.wattpad.com/user/LillielEucaristia Acompanhe. Comente. Incentive. Todo autor precisa de sua dose de retorno para que as histórias não morram. Também escrevo uma série baseada em Percy Jackson e os Olimpiano, quem tiver interesse pode visitar meu perfil.

Data Terrestre: 11 de Outubro

Ainda estava preocupado com a situação de Alexis, que não parecia ter melhorado em nada mesmo depois de mais de vinte e quatro horas, mas não tive muito tempo para pensar nisso. Especialmente porque assim que vi a filha do Loki passando pela porta do Instituto achei que estava sonhando.

Para começo de conversa, não pareceu, nas últimas semanas, que ela estava realmente a fim de conhecer qualquer um de nós que vive no planeta, porque para começar eu sabia muito bem como as coisas parecem para essa garota.

O pior é que ela não está tão errada quanto outros podem imaginar.

Fui até ela, que ainda esperava na porta parecendo um pouco perdida.

—Oi. Tudo bem? –Ela me encarou por alguns instantes me deixando tenso.

—Tudo. Você é o Nathan certo?

—Só Nate, por favor. –Ela pareceu achar aquilo engraçado. –Veio conhecer o Instituto?

—Sim. –Ela parecia tão calma que me assustava um pouco. –Na verdade, acho que preciso falar com alguém para poder fazer isso, mas enfiei na cabeça chegar até aqui sozinha, então não peguei nenhuma autorização.

Fiquei um pouco surpreso.

—Veio sozinha do centro de Nova York até aqui?

—Sim. Eu aprendi sobre a internet de vocês, o sistema monetário e alfabético, além de assistir a alguns seriados para adaptação de costumes e roupas. –Acho que ela percebeu que eu parei para ver se tinha alguma diferença entre as roupas de quando ela chegou e agora. –A parte das roupas não é o meu forte, então fiquei com versões simples das minhas. Minha mãe diz que mendigos usam roupas mais apresentáveis.

Eu acho que Sif diz isso porque as roupas da filha lembram trajes de viajantes árabes do deserto depois de dias andando e não roupas de uma princesa divina, o que não é ruim, resolvi ficar quieto por hora.

—Nossos mendigos não usam roupas feitas por asgardianos. –Ela acabou rindo. –Sobre a visita acredito que nenhum professor irá se opor, se me acompanhar posso levá-la a sala do diretor.

Ur concordou em um breve aceno e seguimos pelos corredores lotados de alunos.

—Como vão suas namoradas? –Eu levei um susto. –As duas garotas. A morena teleportadora e a loira.

—Como sabe disso?

—Tempo conecta pessoas de muitos modos, assim como o sangue. Ainda que seja um pouco raro. Você é apaixonado pela loira, não é?

—Bom, vendo dessa forma realmente é óbvio. Elas estão bem, se bem que a Tália não é mais minha namorada, ela tem outro problema agora. –Ur pareceu vagamente interessada na minha fuga de resposta então terminei a explicação. –Uma garota de dezesseis anos chamada Cassandra. –Notei um sorriso mínimo surgir no rosto dela e continuamos andando antes de eu fazer a pergunta seguinte. –Seus pais se amam?

—Espero que sim, vão me dar um irmão mais novo.

—E as outras esposas dele?

—Eram para ser concubinas ou amantes, se preferir. Viveriam com a gente, mas sem muitos direitos. Como ter mais de uma companheira era uma ordem de Odin meu pai achou justo invocar uma lei antiga que permite que alguns membros da família real reconheçam mais de uma união como válida.

—Isso não responde se ele as ama.

—Acho que ele confia à própria vida a Verity e precisa de Encantor tanto quanto de poder, mas não sei até que ponto ele ama ou não cada uma. Todos se entendem e convivem em paz, acho que é o que importa.

—E você sabe sobre o pai da Christine. –Dessa vez ela riu um pouco. –Foi você que disse que o tempo pode conectar as pessoas como o sangue.

—Não é meu assunto para começo de conversa e muito menos quero me meter em algo complicado assim.

—Sei como é. –Chegamos à porta do escritório do meu pai e me virei para ela uma última vez. –Sabe dos pais dos outros?

—Só se eu vir o pai ou mãe de cada um. –Acho que minha cara dizia bem que eu não acreditei naquilo. –Eu não fico procurando problemas, só concluo sobre o que está na minha frente e nada mais. Sim, posso fazer um encanto de busca ou de resposta, até um ritual da verdade, só que isso seria errado e não faço isso nem com meu pai sem ordem de Odin e em último caso.

Acho que ela entendeu o suficiente para saber que me senti aliviado com aquela resposta.

—Obrigado Ur.

Ela apenas acenou e entrou na sala quando abri a porta dando passagem.

—Bom dia, podemos conversar?

Fiquei em silêncio perto da porta enquanto meu pai encarava a garota.

—Sim, perfeitamente. –Ele levantou em cumprimentou Ur tentando soar o mais normal que podia, mesmo que eu soubesse que estava desconfiado. –Em que posso ajudá-la?

Antes mesmo de sentarem eu percebi que meu pai desconfiava do que se tratava.

—Na verdade eu gostaria de conhecer o Instituto, talvez alguns alunos, conversar com alguns professores.

—Algum motivo particular para isso ou para escolher hoje?

—Nenhum quanto à data de fato. Esperei para conhecer mais do seu mundo e costumes, não posso dizer que as roupas são meu forte, embora a comida vale a pena. Quanto à porque querer conhecer o Instituto é mais uma questão de identificação.

Aquela frase poderia ter alarmado outros, mesmo assim eu entendi algo como um flash: ela sabia como ser diferente podia ser complicado. Parte vanir, parte Jotunh, nascida em Asgard como membro da família real e sobrecarregada de responsabilidades.

—Seus irmãos ou Daniel virão?

—Espero que meus irmãos fiquem longe de mim nesse momento e o Dan deve aparecer uma hora, ele sempre me encontra.

Meu pai pareceu ponderar e notei que ele me encarava, porém tudo que fiz foi dar de ombros. Para bem ou para mal, aquela garota parecia uma boa pessoa.

—Tudo bem, fique à vontade. Nathan vai guiá-la a princípio. –Encarei meu pai irritado com o fato dele me arrumar trabalho em um dia que deveria apenas cuidar de Alexis, só que ele me ignorou. –Caso se interesse por alguma aula ou tenha dúvidas se sinta livre para perguntar.

—Muitíssimo obrigada. Tentarei não atrapalhar.

Ur levantou calmamente e seguiu até a porta abrindo-a, isso me fez pensar que ela podia ser uma pessoa muito formal para quem era mais nova do que eu.

Sai da sala e fechei a porta.

—Então, por onde quer começar o seu passeio? –Já que teria uma função, mesmo contra a minha vontade, tinha que fazer direito pelo tempo que pudesse ficar ali

—Estou aceitando sugestões.

—Vamos pelas aulas chatas, caso nada chame a sua atenção pode tentar as aulas de esportes ou sobrevivência mais à tarde.

—Vou precisar perguntar que tipo de referência é isso de aulas chatas.

—As maçantes ou mais teóricas.

—Então vou te decepcionar ao dizer que, entre outras coisas, gosto de ler.

—Uma forma de ficar amiga da Chris e da Claire, as duas se matam pelas bibliotecas do Instituto.

—Ou os quartos com seus parceiros. –Ela comentou com um sorriso leve e divertido.

Acabei rindo.

—Isso também, mas não deixe a mãe da Chris e o pai da Claire te escutarem falando isso calmamente.

—Não vou deixar.

Desconfiei que ela, pelo menos, tentaria não deixar minha mãe e Emma ouvir aquilo.

Não significa que teria sucesso.

==========X==========

De alguma forma Ur realmente se interessou muito pelas aulas, mesmo as que ela não entendia.

Admito que mesmo tendo ouvido ela falar um milhão de vezes que não é como o pai ou a mãe isolados eu ainda tinha minhas dúvidas. Os alunos pareceram um pouco curiosos com a presença dela, mesmo que não muito confiantes, não que Ur passe uma aura muito amigável na maior parte do tempo. De um modo diferente, ela me lembra muito a forma como Alexandra age com todos, como se quisesse protegê-los os afastando, só que a sensação não é a mesma.

Mesmo assim, foi quase na hora do almoço, quando estávamos a caminho do refeitório que vi Alexis pela primeira vez no meu dia. Ela parecia exausta pela manhã por causa do seu lado demoníaco e, aparentemente, o que quer que a "Festa do Limbo" realmente seja isso esgota as forças mentais e físicas dela. Só que o que realmente chamou a minha atenção foi o fato dela começar a sorrir ao ver Ur, o que me deixou com um pouco de ciúmes, eu admito.

Realmente gosto dela, só que essa russa é teimosa como a mãe, orgulhosa como meu pai, perigosa como o Logan e arisca como a Emma ou, se preferir, pode chamar de a pior combinação de características do mundo quando você acrescenta que ela também é, na verdade, muito tímida e insegura sobre muitas coisas, principalmente seu lado demoníaco.

—Bom dia. Visitando nossa escola? –Ela parecia mais calma hoje.

—Sim. Espero que não se importe por ter bloqueado sua energia demoníaca quando cheguei, parecia muito intensa. –Como é?

—Imaginei que tinha feito isso, nem sei como agradecer. Minha mãe não é boa de conversar sobre isso e não é como se as aulas sobre magia com a Tempestade fossem as melhores ou mais completas do mundo para natureza demoníaca.

—Não sabia que isso podia ser tratado com magia. –Eu realmente me senti excluído.

—Nem eu até ela fazer. –Alexis parecia realmente tão feliz com aquilo que nem sabia se isso era bom ou não. –Quanto tempo dura?

—Infelizmente apenas um dia humano e só posso fazer novamente depois de uma semana por pessoa.

—Que pena. –Dessa vez ela parecia desapontada com o que Ur falou, mesmo assim Alexis sorriu. –Vamos almoçar?

Ur concordou e segui as duas sentindo o monstro em meu peito se agitar com um ciúme intenso.

Nenhuma delas falou nada enquanto pegava comida, o que apenas me deixou mais desconfortável, assim que sentamos a pergunta que imaginei ser a próxima de Alexis saiu calmamente:

—Pode me ensinar mais sobre magia?

Ur ficou olhando para ela por alguns instantes em dúvida.

—Eu nunca tentei ensinar para alguém fora de Asgard ou no caso para qualquer um além das minhas irmãs, mas posso tentar. –Depois ela olhou mais atentamente para Alexis enquanto as duas comiam. –Mesmo que magia baseada em energia demoníaca não seja a minha especialidade, acredito que algumas lições gerais avançadas vão te servir. Talvez algo que li sobre Muspelheim, só vou precisar ter certeza para não fazer algo errado.

Alexis riu e engoliu mais uma garfada da comida.

—Acho que esse é um daqueles momentos que vou adorar você sempre falar a verdade, porque estranhamente me sinto mais calma. –Reparei que Ur esperou um complemento, algo que Alexis não fez e então eu fiz.

—Ela estava desmaiada na cama de manhã, porque o lado demoníaco acordou no meio da noite anteontem. É raro ela ficar do jeito que ficou, parecendo realmente possuída por algo tão intenso, mesmo que já tenha acontecido antes. –E Alexis pareceu agradecida por eu ter falado aquilo.

Já Ur pareceu surpresa.

—Nesse caso vou precisar fazer um estudo de linhagem para determinar a porcentagem demoníaca em você. Só depois vamos poder determinar qual é o caminho mais seguro para seguimos em aulas, porque quanto mais alta e forte a linhagem demoníaca, maiores os cuidados para qualquer treino.

E tudo que Alexis fez foi dar de ombros despreocupada.

—Não deve ser muito, sabe minha mãe é originalmente humana e conseguiu a parte demoníaca depois de um tempo no Inferno de Belasco, o Limbo.

Reparei que Ur pousou o garfo na mesa, realmente preocupada com o que ouviu.

—O que foi? –Só depois que fiz a pergunta Alexis reparou no que acontecia.

—Isso não acontece.

—Qual parte? O que a Alexis falou de errado?

—Filhos de humanos que foram corrompidos por energias demoníacas raramente se tornam meio-demônios e menos ainda são afetados dessa forma por energias demoníacas externas. –Acho que a cara da Alexis explicou que não tinha entendido. –Ou sua mãe em algum momento virou um demônio completo antes do seu nascimento ou o seu pai é um demônio, em ambos os casos, com base na intensidade do poder que você exalava quando eu cheguei, no nível do Mephis.

—Mephis é o... –Não precisei completar a frase para receber a confirmação pela cara da deusa.

—Certo. –Alexis hesitou. –Em todo o caso, isso complica ou simplifica minha situação com a “Festa do Limbo”?

—Ambos. –Ur pegou o garfo e voltou a comer. –Não é uma festa ou evento do Limbo, nem mesmo algo complicado, mas se quer um conselho, fique bem longe do seu namorado ou qualquer parceiro sexual até passar. Sempre.

Alexis pareceu surpresa com o que ouviu e um aviso soou na minha mente, um que sempre tentei ignorar, então banquei o idiota.

—Agora isso não faz muito sentido. Por que ela deveria ficar longe de mim?

—O que vocês chamam de “Festa do Limbo” acontece quantas vezes por ano? Duas?

—Normalmente acontecia umas três ou quatro vezes no máximo. Pelo menos uma vez por ano era certo, mas a frequência aumentou esse ano depois do meu aniversário. –Assim que Alexis terminou de falar pareceu ficar um pouco confusa e até surpresa, porque ela também havia entendido que aquilo que ignoramos era real. –Isso é possível?

—Demônios têm características confusas, especialmente quando tem crias com outras espécies. No entanto, sim, são seus períodos férteis, os quais eu ouso dizer que nunca funcionaram iguais aos humanos ou se quer existem como os dos humanos.

Enquanto Alexis parecia chocada, eu estava ao mesmo envergonhado e culpado por ouvir aquela conversa, mais ainda porque nunca quis tratar aquela possibilidade (ou Alexandra provavelmente fugiria para o Limbo, literalmente, o que pode se tornar um problema). Fosse quando Nikolai me confidenciou sua suspeita, mesmo que Tália tivesse falado algo sobre o organismo da Alexis funcionar de forma diferente e eu saber que ela não menstrua. Ou quando minha mãe tentou me interrogar.

—Então eu...

—Não se preocupe, a maioria são falsos. –Ur finalmente encarou Alexis nos olhos. –Demônios não são uma espécie que se reproduz com a mesma facilidade que acreditam os humanos, pelo menos não os humanoides como Belasco e Dormammu ou o Mephis. No entanto, um a cada dez normalmente é de fato verdadeiro, mas como você é meio humana eu arriscaria no máximo um a cada seis ciclos ou quem sabe seja o oposto e então seriam um a cada vinte. Posso descobrir mais depois do estudo de linhagem e alguns feitiços, só vou ter que pedir alguma ajuda da Encantor e do meu pai para aprender a executar isso corretamente.

Alexis parecia estar tensa como eu, mesmo assim ela voltou a comer.

—Obrigada. Eu vou aceitar a ajuda.

—Não se preocupe, entendo como se sente. Gigantes do gelo são igualmente complicados nesse assunto.

Por fim Alexis levantou da mesa e saiu do refeitório visivelmente perturbada.

—Não precisava ter falado tudo aquilo. –Tentei parecer mais calmo do que me sentia com relação a tudo aquilo, o que era mesmo muito difícil.

—Só vá atrás dela e pare de ser um idiota. –Ela pareceu surpresa e então suspirou. –Daniel chegou. Acho que ele vai arrumar um guia para me encontrar, então vá atrás da sua namorada e tente conversar com ela. Na pior das hipóteses você vai ser socado.

Não precisei que uma deusa asgardiana com problemas sentimentais me desse mais algum conselho sobre a garota que eu gosto.

Demorei mais do que o normal, mas acabei encontrando Alexis em uma antiga sala de estudos, atualmente um tipo de deposito para os professores. Ela estava sentada no fundo da sala, seus olhos estavam úmidos, mesmo que nenhuma lágrima caísse. Sentei ao seu lado e esperei um pouco.

—Você pode fingir que não ouviu nada e ir descansar, quem sabe falar com a Claire e ir para Nova York relaxar. Pode até arrastar a Christine ou a Rachel, deus sabe que preciso de um tempo das perguntas inconvenientes dela. –Porém tudo que recebi de resposta foi silêncio. –Não é a melhor notícia, ainda podia ser pior.

—Eu sei. –Então ela me encarou. –Não fiquei tão perturbada assim com a coisa do período fértil, isso nem é tão assustador, mesmo eu achando que nunca teria um filho na vida é a parte mais fácil de aceitar. Até já havia pensado sobre isso uma vez, só não achei que fosse mesmo possível.

—Certo. Agora fiquei confuso.

—Independente da minha mãe ou do meu pai serem demônios, consegue imaginar alguém que é filha de um cara com o nível de poder do Mephis?

—Eu poderia dizer que tenho mais medo de quando a Ray tenta arrumar briga com a Chris, mas tudo bem, isso pode ser assustador também. –Depois dessa recebi um tapa no ombro, o que no caso da Alexis é igual a um soco. –Foi mal.

E ao invés da bronca que imaginei que viria sobre levar a sério aquilo, Alexis me beijou, o que eu gostei sem problema algum, até porque foi melhor que o normal e me acendeu; especialmente que ela não é do tipo que toma a iniciativa com frequência.

—Caramba. Isso foi bom. –Guardei a parte que queria mais do que o beijo agora, ou levaria outro tapa daqueles.

Mesmo que valesse a pena a tentativa te chamá-la para o meu quarto.

Só que as ações de Alexis não eram tão familiares ao que eu estava acostumado, muito menos a frase dela:

—Então tira a roupa.

Juro que na mesma hora eu olhei para ver se não era a Tália ali, só que era a mesma Alexis de sempre com o rosto quase em chamas de tão vermelho.

—A garota agardiana não disse...

—É, disse. E eu não estou de muito bom humor para aceitar conselhos. Não hoje.

Até pensei em dizer que aquela era uma má ideia e que em todo o caso aquilo podia terminar mal (o que seria mentira, porque está nos meus planos ter filhos com ela um dia), mas quando ouvir Alexandra dizer “tira a roupa” em um lugar que não seja um quarto (o meu ou o dela) for comum vou pensar em me sentir pelo menos um pouco culpado. Aliás, quando ouvi-la dizer “tira a roupa” for no mínimo algo comum entre nós penso nisso.

Olhei em volta e achei um cobertor novo escondido na caixa ao lado, algo que deveria ser um presente para alguém, e puxei para fora estendendo no chão com a minha telecinese.

—Você que manda.

Na mesma hora ela ficou ainda mais vermelha e eu adorei ver aquilo.

==========X==========

Foram os alarmes do relógio e do celular que me acordaram, assim como Alexis.

—Que horas são?

Ela parecia um animal perdido quase sempre que acordava fora do próprio quarto, o que acho uma graça. Especialmente porque logo que percebe que tem alguém junto, ela começa a puxar suas roupas e tentar se cobrir enquanto fica muito envergonhada cada vez que olha na minha direção.

Para alguém que é meio-demônio, Alexis tem um lado puro totalmente angelical.

—São três e meia. –Ela parecia confusa no porque o alarme tocar àquela hora. –Vai ter uma reunião as quatro.

Ela parecia surpresa.

—Tínhamos uma reunião de monitores hoje?

—Sim. –O leve arquear da sobrancelha dela era uma pergunta óbvia. –Como mais cedo você não estava bem e tirei o dia para cuidar de você, minha ideia era te poupar dessa e perguntar para os outros como foi depois.

Pensei que ela brigaria, mas Alexis sempre me surpreende em alguns momentos óbvios.

As roupas em suas mãos caíram novamente no chão e ela enlaçou meu pescoço me beijando de uma forma intensa que me surpreendeu, especialmente se tratando dela.

Era como se a Alexis estivesse gritando “Eu te amo” naquele beijo em um turbilhão de emoções que normalmente nunca seriam minimamente demonstrados. Tudo isso me fazia querer ficar mais com ela o tempo todo.

Só que isso não era uma opção e quando Alexis se afastou me contive para não puxá-la para outro beijo, mesmo que ela estivesse com aquela expressão que me faz ficar fora do sério. Um sorriso e olhar apaixonado que essa garota nem deve imaginar que tem quando está me encarando desse jeito com as mãos entrelaçados entre os fios dos meus cabelos.

—Acho melhor a gente ir. –Ela pareceu incomodada com aquilo, algo raro, e desviou o olhar. –Sério, estou tentando ser legal aqui e não te agarrar mais uma vez. O que é difícil pra caralho, se quer saber.

Ela riu e beijou o canto da minha boca.

—Tudo bem, vou deixar você ser o cara legal por hora.

—Posso passar no seu quarto mais tarde? –Ela sorriu.

—Não. Eu passo no seu. –Essa era a resposta favorita dela e isso eu gostava de ouvir sempre.

Colocamos nossas roupas correndo e seguimos para a sala de reuniões, entramos juntos com a cara de nada que sempre usamos quando estamos lado a lado. Eu sei que um bom número de pessoas nessa sala sabe sobre nós, especialmente depois de ontem, só não ligo para isso.

“Sua mãe está me lançando olhares do tipo ‘sei onde e o que estavam fazendo’, isso é assustador.” Ouvi Alexandra sussurrar telepaticamente para mim como se fosse um segredo.

Sentei e encarei Alexis com um sorriso de canto que a fez bufar.

“Ela dorme no quarto do lado do meu e é telepata. Óbvio que ela sabe o que a gente faz.”

“Odeio que sua mãe seja telepata.”

“E eu que sua mãe não tenha te explicado o que é a ‘Festa do Limbo’ antes de sumir.”

Ela bufou contrariada antes de sermos interrompidos na nossa conversa telepática pela Emma e minha mãe.

“Prestem atenção na reunião ou seu pai vai dar uma bronca em vocês sobre tudo na frente dos outros monitores.” Minha mãe parecia mais preocupada com a possível bronca do meu pai do que com o que a gente fazia, o que acho algo bom.

“O que a Jean quer dizer é que o Scott sabe sobre os dois desde a época em que eram três e esse não-relacionamento de vocês. Só que ele não está nada feliz.” A explicação da Emma foi seguida de uma Alexis tensa na mesa de reunião.

E apesar do aviso da Emma e da minha mãe a reunião durou uma hora bem calma.

A única coisa que pareceu preocupar um pouco alguns monitores foi a presença de Ur, mas só durou alguns instantes até que Alexis, eu e Ray falarmos que passamos algum tempo com ela e o Daniel e nenhum deles era um problema em potencial maior que os gêmeos Raven.

Precisei bloquear meus pensamentos sobre as informações que Ur nos deu, porque não queria Jean, Emma ou Rachel fazendo perguntas. Não queria nem que Alexis me pegasse pensando sobre o fato de que depois de receber as novidades ela havia passado a agir de forma estranha, o que se possível ainda queria esclarecer com a deusa asgardiana.

Então esperei que a reunião acabasse e como todos já estavam cientes de que a melhora de Alexis podia ser temporária, nós dois fomos dispensados, assim como Nikolai e Tália receberam mensagens para permanecerem longe até que confirmássemos as novidades. Só que o meu candidato a cunhado não respondeu ou visualizou a mensagem, o que deixou algumas pessoas preocupadas, ainda assim como o GPS do celular dele continuava ligado e funcionando todos acharam melhor esperar.

Só mais um dia comum e cheio de coisas estranhas no Instituto.

==========X==========

Encontrei Ur parecendo cansada em um dos corredores assim que a reunião terminou.

—Tudo bem? –Ela havia sido boa para Alexis, então não quero vê-la prejudicada.

—Daniel é um pouco cansativo.

—O problema é mesmo ele? –Ela negou e não insisti. –Deixando isso de lado, a Alexis parece um pouco mais receptiva a minha presença, algum conselho?

Ur pareceu pensar e suspirou.

—Bom, meu feitiço não é capaz de simplesmente apagar toda a energia demoníaca que ela produz, então isso pode ser redirecionado. Como Alexis parece ser mais demônio do que sabe, a minha melhor teoria é de que a energia excedente que o feitiço é incapaz de conter pode ter sido redirecionada a algo que a parte humana gosta tanto quanto a parte demoníaca.

—É a sua forma de me pedir desculpas dizer que ela está ignorando seus instintos normais de me afastar para ficar perto de mim?

—Não. Tanto o lado humano dela como o demoníaco gostam de você, isso é um pouco obvio quando se analisa a forma como a energia dela se prende a sua.

Até pensei em falar para a deusa que aquilo provavelmente se aplicava a ela e Daniel, mas acho que não preciso. Ur com certeza sabe disso melhor do que eu.

—Vou ignorar a piada que faria sobre isso e voltar para o meu dia.

—E eu agradeço por ignorar. –Ur não parecia brincar sobre a gratidão.

É, acho que viver em Asgard é quase tão complicado quanto viver em meio a um monte de adolescentes.

—Em todo o caso, espero que tenha aproveitado a visita. –Não me importei em sorrir, sei que com essa garota não preciso tentar ser educado.

—Foi interessante. –Ela olhou por cima do meu ombro e suspirou. –Eu tenho que ir, avise Alexis que assim que ela estiver melhor podemos fazer a analise de linhagem demoníaca dela. Deve ajudar em algumas coisas e explicar outras para ela, mesmo que não possa garantir se vai dizer quem é o pai dela.

—Não acho que ela se importe. –A deusa parecia surpresa. –Alexis é uma das poucas pessoas que não liga muito sobre quem é ou não o pai dela.

—Não posso dizer que é uma escolha errada. –Ur se moveu passando por mim. –Aproveite que os dois lados dela te querem por perto por enquanto, embora eu ache que isso também pode ser bem problemático.

Ignorei que ela podia saber mais sobre o estado atual de Alexis do que tinha admitido no almoço.

—Não se preocupe, sou capaz de arcar com as consequências dos meus atos e escolhas, mesmo que ela não queira. –Não estava mentindo ao dizer aquilo.

—Por que vocês são tão problemáticos? –E eu sabia que ela falava de mim e Daniel mais do que dos humanos em particular.

Ur seguiu pelo corredor e pude ver Daniel a esperando com um sorriso brilhante, mesmo que a deusa asgardiana parecesse cansada.

Infelizmente eu entendo os dois muito melhor do que gostaria.

Ignorei aquilo e segui para o refeitório, onde encontrei Alexis pegando comida de forma despreocupada, como se não ligasse para o fato de que no dia anterior vários alunos a tivessem visto como um demônio, literalmente.

Me aproximei pegando um pouco de comida.

—A magia da garota asgardiana parece ter alguns efeitos colaterais. –Comentei distraído.

—Toda a magia tem efeitos colaterais, Helena pode explicar melhor se precisar. –Ela não estava preocupada. –No momento só de não estar completamente sujeita aos efeitos do meu lado demoníaco já é bom o bastante. –Alexis suspirou. –Queria que os efeitos durassem mais tempo, porque não sei como vou estar depois.

—Quanto a isso não se preocupe, vou ficar ao seu lado.

Ela riu e seguimos para uma mesa livre sentando sob os olhares dos alunos.

—Isso é um pouco cruel da sua parte. –Seu sorriso era gentil e triste ao mesmo tempo. –Eles vão continuar me encarando pelo resto do ano ou até algo mais bizarro do que eu mastigando o braço do Ollie acontecer, não é mesmo?

—Fiz algo bem bizarro depois dos LeBeau terem me desobedecido e eles continuam te encarando, então não apostaria nisso. Embora não me oponha a quando as minhas aulas voltarem continuar tentando matá-los com os meus jogos psíquicos. –Não fiz questão de falar baixo, o que atraiu olhares assustados de alguns alunos.

Alexis me olhou com uma cara feia.

—Isso me lembra que você usou o Jogo do Caçador e, até onde lembro, não te dei permissão para usar o meu treino psíquico com mais ninguém além de mim, dei?

Dei de ombros.

—Te ajudei a desenvolver aquele cenário e sou seu oponente, tenho direito de usá-lo de vez em quando.

—Não tem não. –Ela estava furiosa. –Desenvolvemos aquilo para prender o meu demônio caso ele realmente saia de controle ou o do Nikolai, talvez o da Tália e com alguma sorte a Helena. –Alexis respirou fundo e rosnou. –A versão mais leve daquele jogo é capaz de deixar sua mãe e tia Emma uma semana na enfermaria, então não dá para simplesmente usar nos alunos.

Acabei sorrindo.

—Você realmente é uma pessoa muito mais decente do que eu.

—Você é bom Nate, só é meio idiota às vezes.

—Sou idiota todos os dias e ainda sou elogiado como um gênio.

—Você é um gênio.

—Emma me treinou, não tem nada de genial em ser quase uma versão masculina dela. –E aquilo ela não retrucou, porque era verdade.

Terminamos de comer enquanto vários alunos nos encaravam um pouco tensos.

Alguns deles tinham ouvido a nossa conversa, o que não me dava nenhuma esperança de que algo mudaria, porque no final do dia eles veriam apenas aquilo que queriam e não as verdades que tinham ouvido.

Alexis ainda seria a vilã e eu o mocinho.

Ninguém ligaria para a bronca que ela me deu ou para o fato de que eu estava me lixando para o trauma que causava nos alunos com os Jogos.

—Ainda estamos de folga até segunda ordem? –Encarei Alexis. –Avisamos a todos que a minha melhora pode ser temporária. –Assenti. –Já que Claire foi com Laura e Christine buscar a princesa, ainda estamos liberados?

—Até onde sei sim, afinal não é como se soubéssemos se sua melhora vai durar.

—Certo. E vai fazer o que até ir dormir?

—Não tinha nada em mente, embora a princípio fosse ficar perto de você. –Dei de ombros. –Não que isso seja algo que eu ache ruim.

—E se importa de irmos logo?

Encarei Alexis surpreso.

—Para o meu quarto?

—É.

Levantei de onde estava.

—Não precisa pedir duas vezes.

—Você é um idiota.

—Com certeza.

E apesar dos olhares surpresos e um pouco enciumados de alguns alunos seguimos para a ala de dormitórios dos professores conversando até entrar no meu quarto.

Podíamos não agir como um casal, mas aquele momento valia muito a pena para um cara possessivo como eu.

Além disso, não me importava que eles nos vissem juntos e se o feitiço que Ur usou estava de alguma forma causando aquele momento “foda-se” nas preocupações de Alexis, era a melhor coisa que podia pedir, porque sei que isso pode não se repetir tão cedo.

E a minha noite foi bem interessante.

—

—

—

Continua...

—

—

—

No próximo capítulo: Laura.

Notas finais
Atualmente posto minhas fics nos seguintes sites/plataformas de fanfics e histórias: Spirit https://www.spiritfanfiction.com/perfil/eucaristia Nyah! https://fanfiction.com.br/u/175167/ Wattpad https://www.wattpad.com/user/LillielEucaristia Acompanhe. Comente. Incentive. Todo autor precisa de sua dose de retorno para que as histórias não morram. Também escrevo uma série baseada em Percy Jackson e os Olimpiano, quem tiver interesse pode visitar meu perfil.