Marvel Universe: All Different World
38 Capítulo XXXVIII: O Tempo de Cada Um.
Notas iniciais
Data Terrestre: 09 de Outubro
Sarah encarou a carta da Universidade sobre sua escrivaninha e o e-mail de seu pai falando sobre os problemas que poderiam alcançá-la mesmo na Inglaterra. Ela gostaria de dizer que não ligava ou que aquilo não era problema seu, mas era mentira.
Uma das grandes.
A garota andou até o guarda-roupas e se olhou no espelho por um momento, antes de desviar o olhar para a foto da mãe colada no canto do mesmo.
Ela sabia que aos vinte quatro anos já era mais velha do que sua mãe jamais foi, assim como podia ver todos os dias por aquela foto que era tão parecia com Gwen quanto um clone, fosse pelos cabelos loiros e olhos azuis ou mesmo pelo formato do rosto. A única coisa que havia herdado de seu pai eram os poderes Aranha.
Abriu a porta do guarda-roupas desviando sua atenção da foto para a caixa fechada no fundo falso que nunca ousou abrir desde que havia se mudado para Londres. Pelos menos não até o dia anterior.
Sarah sabia que seu irmão esperava que ela um dia abraçasse o legado Aranha da família ao seu modo, como ele havia feito, mesmo que Peter não tivesse pedido ou perguntado uma única vez se a filha desejava aquilo. Tudo que seu pai fez com ela e Gabriel foi entregar os trajes de Aranha e dizer “com grandes poderes vem grandes responsabilidades, mas deixo a decisão final com vocês”.
Eles tinham acabado de fazer dezoito anos na época e Sarah nunca mais olhou para a caixa diretamente, apenas a enrolou em um pano e quando se mudou para seu atual apartamento levou aquilo como estava e colocou no fundo falso.
Desde então havia passado quatro anos.
No dia anterior tinha aberto o fundo falso e passado horas encarando a caixa sem conseguir se aproximar o suficiente para se quer tocá-la, nem mesmo para recolocar o fundo falso no lugar. Engoliu em seco e estendeu a mão tocando no velho lençol que usará para envolver a caixa anos antes, respirou fundo e retirou aquilo do guarda-roupas.
Não conseguia parar de pensar que seu irmão escolheu usar os poderes e ela, mesmo tendo registrado um nome junto a Shield, nunca conseguiu se jogar naquela vida como o resto de sua família. Por algum motivo insano, sempre que a mais vaga ideia de seguir uma vida de heróis vinha a sua mente quando mais nova, lembrava da trágica morte da mãe e de todas as vezes que Mary Jane quase morreu apenas por ser a companheira do Homem-Aranha.
Sentia medo do que assumir o legado da sua família significaria para sua vida, incluindo das pessoas que amava ou poderia vir a amar. Às vezes chegava a pensar que talvez fosse por isso que não conseguia manter um único relacionamento por mais de seis meses desde seus quinze anos: tinha tanto medo do que sua herança poderia causar a eles que os afastava até que não houvesse uma forma de continuar com aquilo.
Desenrolou o lençol e encarou a caixa-preta onde sabia que um uniforme de aranha a esperava, intacto e que, com certeza, ainda serviria nela.
Sentiu o celular vibrar e o aviso de uma mensagem de MJ a fez parar o que fazia para ouvir o que sua madrasta havia respondido sobre sua pergunta de mais cedo. Ativou o áudio e esperou até ouvir a voz calma e carinhosa da mulher que aprendeu a chamar de mãe.
—Oi Sarah, desculpe não retornar seu contato mais cedo querida, as coisas estão meio corridas por aqui. Não vou me estender no que aconteceu, resumindo: a Claire e a namorada pararam um ataque terrorista, te mando detalhes disso depois pela linha segura.—A garota se surpreendeu um pouco com a informação do ataque, mas resolveu deixar para depois. —Eu te entendo meu anjo e não acho que você está errada de não querer abraçar o legado do seu pai como se fosse a coisa mais importante da sua vida, até porque esse não é o único legado que você pode escolher. Você poderia ter escolhido a carreira de cientista como a identidade civil do seu pai, a de policial do seu avô ou mesmo de repórter da sua mãe, até a minha como atriz. Não é porque você escolheu o seu próprio caminho como fotografa profissional que está desmerecendo qualquer um, apenas decidiu que queria algo seu e o mesmo se aplica a se tornar ou não uma Aranha.
Sarah notou uma pausa no áudio e alguns ruídos ao fundo antes de voltar a ouvir a voz de Mary Jane.
—O que quero dizer é que você não precisa se culpar por não se sentir pronta para qualquer coisa ou achar que seu pai não aprova isso. A verdade é que Peter se sente aliviado a cada ano que passa e você não veste o traje, porque se ele pudesse nem mesmo Ben atuaria como Aranha-Sombrio ou May ganharia seu próprio traje.—Sarah parou a gravação e encarou a caixa a sua frente.
Seu pai não queria que ela e os irmãos assumissem o legado Aranha?
Então por que ele havia dado o maldito traje para eles?
Afastou as perguntas que começavam a lhe corroer por dentro, respirou fundo se acalmando e decidiu esperar o que MJ ainda tinha para falar.
—Mas mesmo que ele queira manter vocês protegidos de tudo e de todos, seu pai sabe que não pode impedir que vocês tomem suas decisões, como ir estudar em Londres porque se sente sufocada, ir trabalhar nas filiais do oriente para ficar junto da namorada ou estar tão ansiosa para trabalhar como heroína que causa dor de cabeça nos seus pais. –Um longo suspiro foi ouvido no áudio. —O que eu quero dizer é que você nunca vai decepcionar o seu pai por fazer as coisas do seu jeito, exceto se o tal jeito for ferindo pessoas inocentes e cometendo crimes, mas sei que te criei bem o suficiente para saber disso. Então apenas faça aquilo que acredita ser o certo e o melhor para você, não para os outros, se fizer isso, eu e Peter vamos ter muito orgulho de você, assim como sua mãe. E eu sei que ela estaria tão orgulhosa de você que seria enjoativo assistir, porque ela te amava muito. Sei disso porque era a melhor amiga dela até o fim. Se cuide minha princesa.
Sarah engoliu em seco e voltou a encarar a caixa.
Não podia dizer que entendia os motivos de seu pai nunca ter cobrado uma resposta sua ou não parecer decepcionado por não tomar parte no legado Aranha, porém MJ havia conseguido a deixar menos desconfortável com o que faria, mesmo que a posição de Peter ainda a incomoda-se. Afinal, ele a treinou para saber usar os poderes desde sempre e, principalmente, a lutar, tanto que nunca abandonou a prática dos treinos e ia a base da Shield em Londres três vezes por semana para se exercitar.
Afastou aqueles pensamentos por um momento respirando fundo e abriu a caixa usando o leitor de digitais. Para a sua surpresa dentro da caixa havia outra, quase do mesmo tamanho e sobre ela duas cartas, uma de Peter e outra de Gwen.
Sua respiração pesou ao ler o nome da mãe que morreu quando ela não tinha nem mesmo um ano, saber que seu pai havia colocado aquela carta ali em vez de lhe entregar a irritou. Por que colocar a carta ali? Era algum tipo de teste ou de castigo?
Respirou fundo e esperou a raiva passar.
Brigaria com o pai mais tarde, agora queria saber o que tinha na carta de Gwen.
Assim que abriu o papel reconheceu a letra da mãe das muitas cartas e diários que Peter tinha guardado para que ela e Gabriel pudessem ler durante a infância.
“Minha doce Sarah, se você está lendo essa carta significa que minha intuição estava certa e eu morri antes de você ter idade para se lembrar de mim.
Provavelmente Peter vai aceitar meu pedido e colocar essa carta no uniforme de herói que sei que ele fará para você e seu irmão, embora algo me diga que você não sairá usando isso na mesma hora como Gabriel. Não você que agora, enquanto eu escrevo, me olha de uma forma intensa e calma, como se soubesse o que estou fazendo e o porquê.
Eu quero que saiba, Sarah, que quando eu aceitei vir para a Inglaterra, logo depois de descobrir que estava grávida de você e seu irmão, não pretendia machucar seu pai, apenas queria não sentir a dor da perda do meu pai; especialmente depois que eu acabei descobrindo que Peter era o Homem-Aranha.
Vai parecer estranho, mas eu só precisava ficar sozinha e meus tios concordaram em me deixar ficar até vocês nascerem.
Não vou contar isso para o Gabriel porque tenho certeza que seu irmão vai ser do tipo estourado e que se martiriza por coisas que nunca poderia mudar, a verdade é que no dia em que vocês nasceram e eu os segurei em meus braços algo me disse que eu morreria em breve.
Talvez seja sexto sentido de mãe, intuição feminina ou mesmo algo de vocês que ficou em mim devido aos genes do Peter, o que importa é que de algum modo eu sei que isso pode ser apenas paranoia ou um pressentimento que não pode ser ignorado. Por isso escrevi uma carta para o Gabe e outra para você.
Eu preciso que você saiba, minha filha, que não importam os caminhos que você tome, estarei ao seu lado e vou te apoiar de onde estiver para que seja bem sucedida em tudo. Mais do que isso, tenha coragem e siga em frente sem medo de alcançar seus sonhos, não importa o quão difíceis eles pareçam. E não é porque eu sou sua mãe que digo isso, e sim porque posso ver nos seus olhos todos os dias, e agora mesmo, que você é capaz de superar qualquer problema ou medo.
Você é como seu avô, seu tio-avô e seu pai.
Uma pessoa com um coração forte e puro, capaz de abraçar o mundo.
É por isso que eu estou voltando para os Estados Unidos e deixando vocês com meus tios, porque eu preciso ser corajosa e conversar francamente com Peter antes de voltarmos para buscá-los.
Eu tenho orgulho de ser sua mãe e da mulher que se tornou.
Com amor, Gwendolyne "Gwen" Stacy.”
Sarah sentia as lágrimas cobrirem suas bochechas, enquanto matinha a carta afastada para não danificar a única lembrança de sua mãe que era exclusivamente sua.
Aquela carta era tudo.
Era sua herança individual.
Ela sabia que seu pai não havia aberto a carta e isso significava que ela era a primeira pessoa a ler aquelas palavras.
Sarah sentia o peito arder como o inferno e a respiração ficar irregular em meio ao choro que insistia em escapar de sua garganta.
Levou mais de vinte minutos para a garota conseguir se acalmar e guardar a carta de Gwen novamente no envelope. Ela encarou a carta de Peter e abriu dando de cara com a caligrafia característica de seu pai.
“Sarah.
Peço desculpas por não ter entregue a carta da sua mãe em mãos, porém era o desejo dela que as cartas fossem colocadas junto dos uniformes. Acho até que trapaceei ao usar duas caixas, mas a uma altura dessas já me sinto culpado o bastante por ter concordado em fazer isso dessa forma.
Antes de mais nada quero que entenda algo meu anjo: eu não preciso que você vista o traje.
Eu vejo como a ideia de se tornar uma Aranha te amedronta e sei que parte disso é pela história do que aconteceu com a sua mãe; eu não preciso que se torne uma Aranha para ter orgulho de você.
Você e Ben são meus presentes.
A única pessoa que consegue ser tão importante para mim quanto vocês é a Annie.
E não precisa pensar o que MJ diria a respeito, porque ela concorda comigo, sobre os três.
Então, se você decidir usar o traje por mim, porque acha que é o que esperam de você, porque alguém disse que é sua obrigação (e pode mandar a Jocelyn a merda nesse caso) ou qualquer outro motivo que não seja pela sua decisão de livre e espontânea vontade, não faça.
Não faça isso se não for por você mesma.
Não faça isso porque as pessoas estão pedindo por um herói.
Faça apenas se você estiver decidida a ser a heroína deles, mas não porque eles estão pedindo.
Um herói não atende as pessoas que pedem por socorro para nascer, ele nasce pela sua necessidade de se mover contra o perigo para salvar as pessoas porque isso é maior que ele.
É uma vocação que nasce com você.
Nasce pequena e com o tempo cresce até fazer seu corpo se mover na direção do perigo por vontade própria, não importa o quanto se lute contra.
Um herói pode lutar contra a sua vocação por anos, décadas, mas em algum momento isso vai superar seus esforços de ficar longe do perigo e jogá-lo direto aonde ele é necessário.
Por isso, se você for vestir esse uniforme porque é sua vocação eu vou te apoiar de todas as formas possíveis, porém, se decidir apenas escondê-lo para sempre e seguir uma vida normal eu também vou te apoiar incondicionalmente.
Apenas tenha certeza de que independente do que decida é pela sua vontade e não dos outros.
Com muito amor e orgulho, Peter Parker.”
Pela segunda vez no mesmo dia Sarah teve dificuldades de respirar e se acalmar.
As lágrimas haviam voltado e ela agora abraçava o próprio corpo com força tentando conter os soluços que escapavam de sua garganta.
Depois de mais quinze minutos e um copo de água ela voltou a encarar a caixa e as cartas.
Tinha certeza que em qualquer lugar do mundo entregar duas cartas como aquelas seria considerado um golpe baixo de primeira linha, mas ignorou aquilo por um momento.
Não sabia o que faria ao abrir a caixa, apenas sabia que precisava olhar para aquilo pelo menos uma vez. Tocou o leitor de digitais da segunda caixa, pressionando a ponta dos dedos levemente até ouvir a trava abrir.
Levantou a tampa e se deparou com uma terceira carta sobre o papel que envolvia o traje.
—Que não seja outra carta da minha mãe ou do meu pai.
Pegou o envelope e viu o nome Mary Jane escrito, então abriu a carta.
“Querida Sarah.
Não sei quanto tempo vai levar para você um dia abrir essa caixa, se é que um dia vai.
Mesmo assim, se e quando esse dia chegar, eu espero que você esteja em paz com sua decisão.
Esse traje foi baseado em uma brincadeira minha e da sua mãe antes dela ir para a Inglaterra. Estávamos pensando em como poderia ser o traje versão feminina do Homem-Aranha e começamos a confabular sobre qual de nós duas deveria ser o modelo para o estilo. No final dividimos um pouco, embora as contribuições da Gwen foram bem melhores que as minhas (admito que ela ganhou essa).
Quando Peter falou de fazer um traje para você fui procurar no meio das lembranças que guardei dela e mostrei para seu pai. Ele levou para o Tony e depois de alguns ajustes com a ajuda minha e da Pepper esse foi o resultado.
Teve algumas modificações do designer original e acho que ficou bem melhor (e sua mãe tinha razão sobre as teias pelo uniforme, elas não servem para esse desenho).
Espero que você goste.
Mary Jane Watson Parker.”
Sarah tentou mesmo não se sentir intimidada depois de saber que sua mãe de criação havia escolhido um projeto de brincadeira que ela e Gwen haviam feito há tantos anos, mas sabia que Mary Jane provavelmente sabia melhor do que qualquer um o que estava fazendo sobre aquilo.
Respirou fundo e tirou o papel que cobria o traje, se surpreendendo com o que viu ao puxar a peça para fora da caixa.
Havia preto, branco, um tom de vermelho opaco com desenho de teias em detalhes, um capuz e algo que lembravam sapatilhas azuis no lugar de botas.
Sorriu ao lembrar que seu pai ou tio ou mesmo a mãe e a tia se preocuparam com o amor dela pelo balé, algo que sempre a ajudou a se acalmar e que havia conseguido integrar com as técnicas de luta que aprendeu desde sempre.
Levantou e pegou a carta da Universidade que chegará pela manhã por meio de um emissário relendo seu conteúdo.
“Cara senhorita Sarah Georgina Stacy Parker.
Depois de uma série de denúncias anônimas sobre seu parentesco com o senhor Peter Parker, conhecido como Homem-Aranha, e a relação desse parentesco com incidentes ocorridos dentro do campus da Universidade, fomos forçados a abrir investigações sobre os mesmos e percebemos que direta ou indiretamente a senhorita sempre acabava envolvida.
Também coletamos evidências que provam que a senhorita interferiu de forma suspeita nesses incidentes, o que ainda não ficou claro se foi para impedi-los ou provocá-los.
Uma reunião do conselho será realizada no dia 10, terça-feira, a partir das dez da manhã no auditório central para decidirmos sobre a sua situação em nossa instituição. Apurações poderão ser solicitadas, mas medidas provisórias serão tomadas para a segurança e melhor convívio de todos os alunos do campus.
Caso tenha reivindicações ou provas de defesa deve comparecer no dia, local e horário indicados para apresentá-las.
Respeitosamente, A Reitoria.”
Há uma hora Sarah ainda estava na dúvida do que fazer sobre a Universidade.
Havia se perguntado se eles achavam que faziam caridade com ela para tratar a aluna que pagava uma das mensalidades mais caras do lugar para poder estudar com os melhores professores daquela forma. Chegou mesmo a questionar se deveria ter deixado aqueles alunos serem atropelados a três meses ou se devia não ter jogado teias nas rodas daquele carro desgovernado que quase acertou entrada da Universidade no semestre anterior.
Lembrou dos três alunos violentos que derrubou desde que começará o curso e como os outros estudantes pareceram aliviados por alguém colocá-los na linha, mesmo assim não precisou usar mais do que seus reflexos e o treinamento marcial que recebeu contra eles. Também teve a vez em que precisou despistar os amigos usando uma blusa de capuz para poder dar a volta e pegar um grupo de marginais que os estava ameaçando na saída de um bar. Aquela foi uma surra pesada que deu nos candidatos a bandidos.
Todas essas dúvidas ainda assolavam sua mente a uma hora quando decidiu encarar a caixa com o uniforme no fundo do seu guarda roupas.
Dúvidas que haviam assolado sua mente o dia inteiro.
Agora, ela não tinha mais nenhuma.
Encarou o relógio sobre a escrivaninha.
Quatro e dez da tarde.
Sabia que em Nova York era meio dia e dez, mas não incomodaria ninguém que pudesse estar preso em uma crise com aquilo.
Pegou o telefone e ligou para a primeira pessoa da sua lista que poderia ter um espaço na agenda para voar até ali.
—Sue? Sim, eu sei que é raro eu ligar. Preciso de um favor. Será que você pode vir até Londres hoje, trazendo o Leo Fittz e a Ally Mackenzie? Sim, estou com um pequeno problema e acho que vocês são as pessoas de que preciso no momento. Quem? Ah, sim. Conheço, pode trazer junto. Até que horas preciso que vocês estejam prontos para me ajudar? O circo começa às dez da manhã de amanhã, acha que dá tempo? Ótimo. Nos vemos em algumas horas.
Assim que desligou o contato com Sue Storm, Sarah pegou a mascará de dentro da caixa e encarou seu reflexo no espelho novamente para mais uma vez observar a foto de Gwen e, por fim, voltar a olhar para seu reflexo.
Sarah sorriu e tocou a foto.
—Sabe mãe, eu nunca tinha percebido isso até agora, mas eu estava esperando por você todos esses anos. Por você e pelas palavras diretas do papai, vocês acalmaram a tempestade de incertezas que eu estava carregando. –Ela voltou a olhar para a foto de Gwen. –Eu sempre soube o que queria, porque o papai está certo, eu posso lutar contra o que nasci para ser, mas no final é quem eu sou. –Ela encarou a máscara em sua mão. –O que eu nasci para ser é maior do que um uniforme ou uma máscara, preenche meu ser até transbordar e reage instintivamente quando alguém precisa. Agora que sei disso, mesmo que o medo ainda exista, eu sei o que vou fazer.
Sarah seguiu até o computador e abriu a tela de login da Shield digitando o código de ativação para o nome que escolhera a tantos anos sem hesitar.
A Aranha-Fantasma finalmente estava pronta.
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Quando saíram da Torre Stark, Max pensou que o clima entre ele e Jason ficaria mais leve, a verdade era que os dois não conseguiam iniciar uma conversa ou mesmo se olharem.
O que era irônico depois de terem flertado descaradamente na sala do Sanctum a poucos dias, mesmo assim não era como se aquilo fosse algo normal para Maximillian e, ele desconfiava, que também não era comum para Jason.
—Você parece mais tranquilo que aquele dia. –Comentou em uma tentativa frustrada de começar qualquer conversa.
—Ah, bom, sim. Quero dizer, a Ur não tá com um surto mágico que pode destruir o mundo, então isso é algo bom.
—Minha irmã também tem desses, assim como a Rasputin; eu não me meto no meio dos problemas delas ou já estaria morto.
Jason parou de andar na mesma hora o que chamou a atenção do Strange.
—Quem tem esse problema além das nossas irmãs?
—Alexis Rasputin. –Max parecia um pouco preocupado com a expressão do asgardiano. –Ela tem um irmão. Nikolai Rasputin, e a mãe dela, Illyana Rasputin, é meio que a rainha do Limbo.
—Limbo como em um dos sete principais infernos do nosso universo?
—Isso mesmo, por quê?
—Porque eu conheço a mãe dela.
—Como?
—Ela esteve em Asgard uma vez a uns cinco anos, talvez até um pouco mais. Illyana foi conversar com meu pai e minhas mães, a reunião durou horas e eu não consegui descobrir nada sobre. –Jason suspirou cansado de lembrar daquele dia. –Quando ela partiu ouvi Encantor falar sobre algo que estava ficando complicado.
Max ficou preocupado com o que ouvia.
—Acha que eles estão armando alguma coisa?
—Depende. –O jovem Strange esperou a resposta. –Qual o poder da Alexis?
—Basicamente fogo.
—E o da sua irmã é magia pura. –Max concordou. –Fogo do Inferno. Magia Nascente. Gelo Jotunh. –Jason suspirou. –Eu nem preciso saber que essa não é uma combinação que deveria acontecer de dois em três durante a mesma geração, muito menos três de três.
—Pelo visto isso não é bom, certo?
—Não mesmo.
—Você sabe por quê?
—Não. –Jason encarou Max. –O livro “Manifestações Elementais Incomuns, Raras e Perigosas”, que deveria ter isso, não está disponível ao meu acesso.
—E o que isso quer dizer?
—Que meu pai sabia que se eu lesse entenderia o porquê de três pessoas com esses poderes terem nascido na mesma época, o que poderia interferir nos planos dele ou em algo que não devo me meter. –Jason suspirou e então sorriu para Max de uma forma culpada. –Acho que não era esse tipo de conversa que tinha em mente quando combinamos de sair, não é?
—Não, mas já tive encontros bem piores na minha vida. Esse ainda está pelo menos interessante.
—Você não deve ter tido nenhum bom encontro na sua vida para conseguir dizer isso.
—Bom, eu gosto de falar de magia e as coisas envolvendo ela, então não é exatamente como se houvessem muitas opções de bons encontros para caras gays versados em alta magia.
Jason gargalhou e passou o braço em volta da cintura de Max enquanto sorria de forma convencida.
—Acabou de ganhar o encontro do século com o semideus nerd gay versado em alta magia, Strange.
E dessa vez foi Max que riu.
—Não me decepcione Lokison.
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Hill havia saído do tribunal o mais rápido que pode para evitar mais ofensas de Maggie Lang.
Na verdade, ela, a assistente social e a psicóloga saíram de lá tão rápido que tinha certeza que o juiz Morgan teria rido das suas caras se não entendesse a situação que queriam evitar.
Dentro do carro Maria pediu que Amanda verificasse as atualizações pelo sistema da Shield e a garota relatou todos os incidentes da manhã, que foram muitos. Por conta da audiência Hill havia evitado tomar conhecimento de qualquer situação que não fosse um caso de fim do mundo ou do país, por isso não sabia ainda da missão de Claire e Laura ou dos resultados. Um e-mail de Fury avisava sobre as medidas tomadas e dos tópicos da reunião que teve com Coulson, Rogers, Carter e Stark, mas sem os detalhes e no final uma pequena nota que dizia “te espero até a uma da tarde para almoçarmos”.
Sorriu ao olhar no relógio e confirmar que ainda não passava do meio dia e meia.
Seu almoço seria bom, ainda que regado a trabalho e relatórios.
Havia o relatório de atualização de Jemma Simmons sobre as garotas e o fato de ter colocado o Capitão para dormir antes de deixá-lo ir ver a filha.
Por fim uma mensagem incomum de Sue Storm falando do contato de Sarah Parker e um documento hackeado pela Mulher-Invisível do servidor da Universidade da garota: outra Caça às Bruxas estava começando com outro dos jovens por medo, inveja e ignorância. Junto a mensagem havia o pedido de liberação de alguns agentes, os quais Hill prontamente atendeu e ainda disponibilizou o uso de recursos humanos e tecnológicos da filial britânica para o acesso de todos os envolvidos.
Tinha também o aviso de ativação de um codinome: Aranha-Fantasma.
Aparentemente Sarah havia pedido a ajuda de Sue, mas também havia finalmente aberto a caixa do traje e tomado sua decisão.
Precisaria lembrar de avisar Peter, Mary Jane, Pepper e Tony, além de pedir ao Stark para verificar se o traje não precisaria de ajustes devido as mudanças recentes. Mesmo assim sabia que poderia contar com Sue para lidar com o assunto junto com Sarah e os outros agentes, por isso não se preocupou.
Havia uma mensagem incomum de Tony para Hill, Emma e Sharon que dizia apenas:
“Conversei com Ur e Tristan com Daniel. Precisamos nos encontrar para uma longa conversa sobre esse problema. Pepper estará junto”.
Aquele era o tipo de mensagem que dizia claramente que ela não gostaria nada do que ouviria, mas pediu que Amanda confirmasse que iria.
Assim que terminou de ser atualizada Hill estacionou na frente da entrada principal da Shield, que agora estava livre dos manifestantes, o que permitia o livre trânsito de carros e pedestres que entravam e saiam do prédio sem uma guerra de pessoas se empurrando.
As primeiras pessoas que a Comandante viu quando saiu do carro foram Cassie e Tália que, para sua surpresa, estava com o holo desligado mesmo fora do prédio. Do outro lado do carro das garotas estavam, Marian e Vinicius lançaram um olhar convencido para a mãe; Hill deixaria aquela passar já que ambos tinham feito um bom trabalho cuidando das garotas.
Hill se aproximou de Cassie e acenou uma pasta que tinha nas mãos.
—É oficial, você está sob guarda da Shield. –A garota sorriu. –Como seu pai e a Hope tem um apartamento na área dos alojamentos, por passarem muito tempo trabalhando em projetos e missões, vou te colocar para morar com eles. Já informei o juiz disso e ele concordou, mas você não pode ir para o apartamento civil deles sem autorização.
—Tudo bem Comandante. Mais alguma orientação?
—Pegue uma pulseira de localização na área de tecnologia, uma igual à que a Claire tem usado, eles sabem qual é. Além disso, está autorizada a ir para o Instituto, apenas lembre-se de me avisar onde está indo e como. E caso vá passar a noite fora me mande pelo menos uma mensagem de texto. –Depois Hill encarou Tália que engoliu em seco. –Se ela esquecer de me avisar faça você e, ainda que eu duvide que isso seja possível, tentem esperar mais um pouco para ignorar minhas orientações de ter calma e não abusarem da sorte.
—Sim senhora. –Tália respondeu engolindo em seco.
A Comandante encarou os filhos.
—Marian, acompanhe as duas até a residência do Scott e da Hope nos alojamentos e depois entregue para a Cassie o novo cronograma de aulas dela. –A garota assentiu. –Vinicius, vá almoçar, o Diretor Fury vai precisar de você depois. –O garoto concordou e virou na mesma hora entrando no prédio. –Amanda, acompanhe a doutora Simmons na liberação de Claire e Laura, depois acompanhe o agente de monitoramento que vai vigiar os repórteres. Erick Mackenzie vai te ajudar para que nenhum dos dois fiquem sobrecarregados e não se esqueça de usar os poderes dele em caso de problemas. –A garota assentiu e seguiu o caminho do irmão para dentro do prédio.
—Novo cronograma? –Cassandra parecia na dúvida.
—Eu havia montado vários cronogramas baseados nas possibilidades de mudança legal da sua guarda, então você vai pegar o novo onde te inclui mais nas atividades internas de treino da Shield. Isso também significa que você está oficialmente inserida no programa de cooperação com o Instituto. O novo cronograma é puxado no começo, mas acho que você vai gostar mais dele que do antigo.
Cassie acabou sorrindo.
—Obrigada.
—Apenas não me dê dor de cabeça e vamos ficar bem.
A garota assentiu e logo seguiu com Marian e Tália para sua nova casa.
Hill seguiu os jovens até o hall dos elevadores, seguindo para o andar onde ficava sua sala e a de Nick. Olhou no relógio e confirmou que ainda não era uma hora, bateu à porta e abriu a mesma dando de cara com o marido imerso em uma dezena de telas de relatórios.
—Você parece realmente ocupado.
O Diretor desviou o olhar para a porta fechada e sorriu.
—Um pouco, mas eu realmente gostaria de almoçar com você.
—Já tem um cardápio em mente?
—Nada muito elaborado, realmente só pensei que queria poder te ver um pouco.
—Eu entendo isso.
—E como foi a audiência da Cassandra?
—Ela está oficialmente sob a nossa guarda e o juiz não vai implicar com o possível namoro dela com a Tália, então já pedi que Marian a leve até o apartamento do pai e da madrasta. Também passei outras orientações e informei que ela tem um novo cronograma.
—Bom, apesar de saber que vamos enchê-la de aulas e treinos, fico feliz em saber que Cassie está longe da mãe maluca. Como Scott e Hope reagiram?
—Como o esperado de duas pessoas que eram mantidas de fora: não ficaram irritados, só decepcionados consigo mesmos. –Hill sorriu. –Agora, sem querer parecer rude, eu realmente estou com fome.
—Pode ser o prato do dia?
—Vou amar o prato do dia.
E enquanto esperavam a comida que pediram para o secretário de Fury, um atualizava o outro das notificações sobre eventos e questões que poderiam ter que tratar nos dias que viriam. O tipo de conversa que seguiria durante o almoço e depois enquanto colocavam o trabalho em dia.
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James esperou até o final do horário de almoço para procurar alguém para conversar.
Podia seguir o conselho sábio e amigo de Nathan, mas realmente não queria conversar com a mãe biológica sobre seus poderes.
Imaginava o que seu pai falaria sobre o assunto e como McCoy provavelmente diria o mesmo que Nate, assim como Ororo.
Talvez por esse motivo procurou Emma no escritório.
Encontrou sua mãe de criação sentada lendo três relatórios ao mesmo tempo enquanto tomava uma xícara de chá.
—Tem um minuto?
A loira encarou o garoto parado na sua porta e apontou para a cadeira a sua frente.
—Para você eu tenho até trinta. –James riu sabendo que aquilo era uma brincadeira com fundo de verdade e sentou no lugar indicado. –Então, o que houve? Além, é claro, da sua fuga para Miami com Helena Strange no fim de semana.
—Claro que a senhora saberia disso.
—Eu te criei James, sei até quando começou a ter sonhos pervertidos na adolescência, por que não saberia que fugiu para a casa da sua mãe biológica passar um final de semana com sua quase não namorada? –O garoto corou diante das palavras sinceras e tão diretas de Emma Frost. –Então, qual o problema?
—Meus poderes.
As sobrancelhas da mulher fizeram um movimento mínimo.
—A sua mutação secundária, eu suponho.
—Está ficando um pouco difícil de controlar e conter por longos períodos.
—E por que não tenta usá-la um pouco mais para ver se ameniza os sintomas?
—Você sabe que eu não gosto muito desse poder.
—Você não gosta que ele te faça lembrar tanto da sua mãe, esse é o seu problema.
O garoto ficou em silêncio e Emma esperou que ele tomasse coragem de falar o que pensava.
—Eu não tenho nenhuma ligação verdadeira com ela ou com esse poder, foi você que me criou e cuidou de mim, me ensinou a ser uma boa pessoa. Você é minha mãe.
A Rainha Branca levantou e sentou na cadeira ao lado de James.
—Eu sei que sou sua mãe. –Ela apontou para o peito dele sobre o coração. –Mas ela é sua mãe. –E depois para a veia pulsante no pulso de James. –Além disso, vocês dividem mais de uma paixão em comum, então você tem uma ligação com ela, mesmo que isso não tenha sido causado pela convivência.
—Então o que eu faço?
Emma suspirou e olhou para a janela.
—Talvez esteja na hora de vocês terem uma conversa mais longa do que mensagens de texto eventuais para o uso da casa de Miami.
—Emma, eu não quero...
—Me deixa terminar. –O garoto assentiu. –Seus poderes da mutação secundária são vindos dela e, quer queria quer não, uma hora essa conversa vai ter que acontecer. –James pareceu frustrado e Emma segurou sua mão. –Você não precisa ligar para ela ou marcar o encontro, eu mesma posso fazer isso.
—Não tem outro jeito?
—Não se você quiser pelo menos tentar resolver isso. –Emma levantou e voltou para sua cadeira. –Até porque a opção não envolve apenas você.
—Helena?
—Também.
James levantou e seguiu até a porta.
—Pode marcar o encontro com ela.
—Quando?
—Te deixo decidir, mas se possível em um dia de semana.
—Um jantar em um restaurante?
—Acho que é mais seguro, evita brigas ou discussões, além de limitar nosso tempo de conversa.
—Vocês vão precisar de mais de um encontro desse jeito, tudo bem por você?
—Acho que não tem outro jeito.
—Te aviso assim que tiver alguma coisa.
—Tudo bem.
E sem voltar a encarar Emma, James saiu da sala e seguiu para a aula que tinha marcada.
Ainda precisava descontar sua frustração em alguém e os alunos em uma aula de combate avançado eram uma excelente opção.
—
—
—
Continua...
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