Marvel Universe: All Different World

44 Capítulo XLIV: Harrelson – As Impressões de Um Repórter: Parte 3.


Notas iniciais
Atualmente posto minhas fics nos seguintes sites/plataformas de fanfics e histórias: Spirit https://www.spiritfanfiction.com/perfil/eucaristia Nyah! https://fanfiction.com.br/u/175167/ Wattpad https://www.wattpad.com/user/LillielEucaristia Acompanhe. Comente. Incentive. Todo autor precisa de sua dose de retorno para que as histórias não morram. Também escrevo uma série baseada em Percy Jackson e os Olimpiano, quem tiver interesse pode visitar meu perfil.

Harrelson

Data Terrestre: 10 de Outubro

Fomos acordados por uma voz ecoando pelo quarto que recebemos para dormir em um aviso calmo.

São sete horas e trinta e cinco minutos. Levantem, se arrumem e sigam o agente na sua porta para orientações.”

Gemi na minha cama ainda querendo dormir e resmunguei.

—Alguém me diz que pegou isso, por favor.

—Talvez a câmera reserva tenha pego, não garanto. –O cinegrafista, cujo nome eu ainda não tinha decorado, respondeu levantando junto com o meu colega. –Como vamos dividir o banheiro.

Virei para o outro lado com o celular em mãos.

—Podem ir na frente, vocês tem que arrumar o equipamento para as filmagens e eu posso usar esse tempo para ficar pronto.

O rapaz da outra emissora parecia surpreso, mas assentiu e correu para o banheiro, provavelmente com medo que eu mudasse de ideia.

—O Grimm deve ser um tremendo filho da puta para o Zhou Fao-Kun sair correndo desse jeito. –Keith, meu amigo e parceiro de trabalho comentou e fiquei surpreso dele conseguir pronunciar o nome do outro rapaz.

—Como diabos você consegue falar o nome dele?

—Sou bom em trava línguas e tenho um monte de amigos com nomes exóticos. E o nome dele nem é tão diferente assim, é só que mesmo sendo um excelente repórter o senhor ainda é uma negação para decorar os nomes de quem não faz parte das matérias.

—Não sou não.

—Chefe, o senhor levou cinco anos para acertar o meu nome e não tem como dizer que Keith Jones é um nome difícil.

Suspirei vencido e concordei abrindo o e-mail da emissora sobre a reportagem da noite anterior e fazendo uma careta ao ver o que tinha acontecido.

—Keith, eu vou matar o imbecil do seu irmão e o meu chefe.

Ele fez uma careta ao me ouvir.

—Mandaram ele no lugar da Liv?

—Parece que ele passou na sala do chefe e disse que a Olivia não tinha capacidade para lidar com aquela matéria, já que ela pulou fora do investigativo. –Suspirei exasperado. –Eles não entendem que eu incentivei a Liv a ir para outras áreas por que o investigativo não podia tirar proveito de tudo que ela tem a oferecer agora?

Ouvi a risada do meu colega.

—Bom, nem todos tem a sua visão e a minha de que a Liv pode se tornar a melhor repórter investigativa que já houve, só não pode ser algo forçado como o pai dela queria. Se bem que mandar o inútil do Teddy é pedir pra dar errado, meu irmão é um completo imbecil e digo isso ciente que deveria apoiá-lo, mas não tem como. –Não discuti com Keith, não havia o que falar.

Quando conheci Teddy, alguns anos depois de Keith começar a me acompanhar, notei que o garoto tinha muito mais em comum com Gareth Grimm que comigo; ainda tentei ajudar ele a aprender mais sobre o ramo e, quem sabe, encontrar um caminho próprio. Nada disso aconteceu e quando conheci Liv Colton, tão dedicada e radiante, com energia e paixão pelo jornalismo, Teddy ficou morto de ciúmes.

Olivia era uma jovem esforçada e cheia de uma energia transbordante em aprender e ajudar, apenas não parecia tão animada com o investigativo, que é realmente muito pesado para alguém em começo de carreira. Por acreditar no futuro dela, não apenas na minha área, como em outras, incentivei Liv e inclusive cobrei favores para que lhe dessem a chance de tentar outros ramos e ela conseguiu.

Mesmo hoje, anos depois e cheia de trabalhos menores, todos muito elogiados, Olivia ainda encontra tempo para me ajudar e pedir a minha opinião sobre o que faz, o que para um homem com uma relação tão ruim com os próprios filhos é muito mais do que mereço, ela é como uma filha. Uma filha de profissão.

Ah.

Que droga, estou começando a entender mais do que bem como as pessoas desse lugar parecem ver a Claire.

Notei que o outro rapaz já havia saído do banheiro e mexia na câmera, menos de cinco minutos depois Keith voltou para o quarto e fui tomar um banho rápido. Quando voltei me troquei e vi se os rapazes precisavam de alguma ajuda, depois deles se arrumarem paramos na frente da porta.

—Estamos prontos. –Disse alto.

A porta apitou e abriu, revelando um homem loiro de olhos verdes e uniforme de agente.

—Bom dia aos três, a senhorita Brant será encaminhada a sala de monitoramento por outro agente devido à localização da sua instalação. –O homem respirou fundo e nos encarou. –Sou o Agente Raymond Morrison, podem me chamar de Morrison. Antes que perguntem, sim, eu era o agente em campo ontem com as duas e não, não darei entrevistas sobre os procedimentos pós ataque. Devem saber que as garotas já acordaram e foram examinadas uma primeira vez e depois deixadas para descansar, o que é obvio que não fizeram, mas eu entendo isso, só que elas vão ter que ser novamente avaliadas por conta disso, então esperamos um pouco mais do que o pretendíamos para chamá-los. Alguma dúvida?

—Só confirmando, elas continuam no quarto em que foram dormir?

—Correto. –Ele olhou para nós três em busca de outra pergunta, porém não teve nenhuma. –Podemos ir?

Todos concordamos e logo Morrison nos guiou até a sala de monitoramento, onde encontramos uma mulher fazendo o serviço que no dia anterior era de Maines, conversando com Brant animada.

—Morrison, quais as chances de você explicar para aquelas duas que o descanso delas não inclui sexo? –E a mulher não parecia preocupada com a presença da equipe.

—Nenhuma. Isso seria tão inútil quanto usar luvas para tocar o Sol. –O agente não parecia preocupado com o motivo da pergunta.

—E essa é a sua resposta para “por que não repreendemos as crianças sobre suas atividades pessoais”. Sem falar que elas estão sempre sendo monitoradas, então elas simplesmente não teriam uma vida se nos levassem em consideração. –A mulher comentou com a minha colega.

Me aproximei de Brant que esticou o bloco de notas na minha direção onde pude me inteirar da conversa e descobri que a agente se chama Heather Rivers. Notei que tudo que Rose Brant havia feito foi confirmar o que havia acontecido antes de chegarmos e também algumas perguntas disfarçadas de brincadeiras e piadas, que iriam nos ajudar bastante na sala de edição.

—No geral como estamos agora? –Comentei olhando para o monitor.

—Elas estão terminando a avaliação e logo devem ser liberadas para o café da manhã, hoje vão ficar nas cadeiras de rodas. –Morrison não parecia feliz em dizer aquilo. –Se pelo menos aquela idiota desse atenção para o que os outros falam...

—Qual é Ray, se a Claire ouvisse o que as outras pessoas falam quando estão preocupadas com ela ninguém teria dor de cabeça nesse lugar. –Rivers sorriu irônica e eu me perguntei por que aquela frase parecia tão familiar. –Afinal, ela é ou não é a Princesinha da América?

Hein?

—Você sabe que ela odeia quando a chamam por esse nome, não é? –Morrison tinha uma careta no rosto ao dizer aquilo.

—Bom, no lugar dela eu também odiaria, mas ela é. –A monitora pareceu ouvir algo e sorriu. –Sim senhora. Stardust e Okami estarão liberadas para o dia delas em breve. Alguma orientação para elas? –Houve um silêncio de quase cinco minutos antes de Rivers voltar a falar. –Sim senhora. –Ela se virou para Morrison em um sorriso torto e sem vontade. –Hill disse que é prioridade manter as duas longe de problemas e preocupações.

A careta de Morrison foi autoexplicativa: aquilo poderia ser a pior missão do ano

—Como se isso dependesse de mim. –Ele resmungou antes de encarar o monitor e abrir a porta da sala. –A Doutora Simmons acabou de indicar que elas estão liberadas para o café da manhã, vamos.

—Eu te cubro daqui Raymond. –Heather comentou recebendo um aceno do outro agente.

E nós?

Bom, seguimos a regra que diz que o repórter corre atrás da notícia e não o contrário, então seguimos Morrison como se estivéssemos na cola de um serial-killer: tão próximo quando era humanamente seguro.

==========X==========

Encontramos Laura e Claire desacompanhadas no meio do caminho para o refeitório.

As cadeiras de rodas que elas usavam eram motorizadas e acho que não colocaram outros agentes junto com elas porque literalmente todos os agentes que cruzavam com elas perguntavam se as duas estavam bem ou se precisavam de alguma coisa.

Bom, não é como se não fosse escolta demais, mesmo sem precisar.

Logo que viram eu e a Brant as duas acenaram de leve e sorriram, ainda parecendo cansadas, como se realmente não estivessem bem de verdade e, se for o caso, isso é algo preocupante, porque sei que pessoas que fingem estar bem para não preocupar as outras são os tipos que mais se ferram.

Ah!

Droga!

Me meti mesmo em um problema com essa reportagem.

Tanto eu como Brant acabamos sentando na mesa com as duas, enquanto nossos cinegrafistas ficaram na mesa ao lado para conseguir um enquadramento melhor enquanto comiam.

—Acho que não fomos apresentadas, meu nome é Rose Brant, estou substituindo o Gareth Grimm. –Rose se apresentou assim que sentamos.

—Você é noiva do Maines não é? –Claire parecia ter sido informada.

—Alguém te contou isso? –Brant não parecia incomodada, mas eu entendia: era difícil estar em um lugar onde você estava sendo estudada quando normalmente essa é a sua função.

—Não, você tem um cheiro parecido com o de gente que é casada, e como o Maines não é casado eu estou apostando em noivos ou namorados de longa data. –Não que Claire fosse exatamente óbvia.

—Cheiro? –E nós dois ficamos curiosos agora.

—Bom, quando alguém vive muito tempo com uma pessoa, uma parte do cheiro desse companheiro passa a ficar preso no corpo dela, como uma espécie de marca. Se é um companheiro como um amigo ou um irmão de convivência o cheiro é dê um jeito, mas se é uma pessoa com quem você é íntimo e faz sexo o cheiro é outro. Filhos também carregam parte do cheiro dos pais biológicos no corpo e irmãos dividem uma parte desse traço, no geral não é algo que seja muito complicado.

—E você pode sentir esses cheiros? –Brant parecia animada agora.

—Nós duas na verdade. –Laura comentou pela primeira vez. –E o meu irmão mais velho e minha irmã mais nova. Acho que o filho lobo do Loki também e a irmã dele, mas acho que no caso dela é mais perecido com a Helena.

—Também tem a Tália, a Alexis e o Niko, só não sei se o caso deles conta. –Claire não parecia preocupada com o que dizia. –Afinal, eles são parte demônios. Se bem que eles ainda usam o nariz, então deve contar.

—E tem o filho caçula do Loki, mas é o mesmo que a irmã, deve ser mágica. –E Laura parecia menos preocupada que a namorada.

—Parte demônio? Existem pessoas que são parte demônios? –Agora confesso que sou eu que estou curioso.

—É como nas lendas sobre semideuses, pelo menos no caso da Tália, já que o pai dela é filho de um demônio mutante e uma mutante, o que faz dela um quarto demônio. Já a Alexis e o Niko é diferente, a mãe deles foi levada para um dos infernos e basicamente “infectada” com as energias das trevas de lá pelos anos em que ficou presa e virou um tipo de meio-demônio mutante. –Achei engraçado como Claire fez as aspas na palavra infectada. –Não muda do fato de que eles são melhores do que algumas pessoas que são humanas, não mutantes e ainda se dizem boas. A Alexis então, é tão tímida e insegura sobre certos assuntos que mais parece um anjo.

—O cara com quem ela transa e que quer namorá-la certamente concorda com você em vários níveis que são difíceis de explicar. –Laura comentou distraída.

—E pensar que ela te ajudou a me dar uma chance. –Claire encheu a boca de comida.

—Ela é boa em dar conselhos, não em aceitá-los. Aliás, esse parece seu um problema geral do nosso grupo. –Laura engoliu um sanduíche quase inteiro e me dei conta de que as duas estavam comendo tanto quanto um pequeno exército.

—Verdade. Vamos concordar, com a quantidade de problemas e dramas que cada um tem é até que compreensível. –A loira continuava comendo sem parar, enquanto falava de forma clara.

—Que tipos de drama? –Brant não ignorou o detalhe.

—A mãe da Alexis e do Niko não aparece nesse plano a uns dois anos, James nunca fala sobre a mãe dele, ninguém parece saber quem é a mãe da Helena e do Maximillian, a mãe da Cassie batia nela por ser lésbica, tia Emma pegou a guarda da Tália quando ela tinha três anos porque o tio Kurt é instável perto da filha. –Claire não parecia preocupada com o que dizia.

—A Vampira sumiu depois da morte do Remi e deixou aquelas duas pestes para trás, Chris está sempre tentando convencer a tia Emma a contar quem é o pai dela, o filhos do Loki na Terra e eu nem quero imaginar quais os problemas deles. Meu irmão e a Lena, que acha mesmo que ninguém sabe que ela tá transando com ele a anos, minha família sinistra e eu nem saber o que diabos eu sou. –Notei que no final Laura parecia um tanto irritada, mas Claire colocou a mão no seu ombro. –Eu tô legal, só cansada. –Ouvimos um barulho alto e Morrison acenou na direção da cozinha. –E com fome.

As duas riram e eu acabei perguntando.

—Como diabos vocês conseguem comer tanto?

—Metabolismo acelerado. –Claire comentou pegando mais ovos na tigela. –Já leu alguma coisa do Flash? –Confirmei. –Então, é parecido. Um mutante ou um humano modificado tem certas limitações dependendo do seu poder e de como ele age. Por exemplo, tem mutantes que funcionam como portões para seus poderes, então se a trava está quebrada eles precisam de uma ferramenta que permita que eles controlem a passagem do poder, mas se tá tudo certo com a trava eles precisam de concentração mental par controlar o fluxo de poder. Se é um mutante que tem o controle sobre um aspecto como o magnetismo isso vai cansá-lo física e mentalmente, o que vai exigir descanso por um tempo e reposição de nutrientes em variados níveis.

—Nós somos do tipo que os poderes usam diretamente muito do nosso corpo. Nutrientes, energia, concentração mental e preparo físico, muitos dizem que somos o pacote completo de problemas para recuperação, porque sempre que exageramos precisamos de muita comida e descanso. Nossos corpos curam melhor, temos mais estamina e força, só que isso não é como mágica ou milagre, pagamos o preço por usar o poder que recebemos. –Laura não parecia particularmente preocupada com aquilo. –No nosso caso nós não morremos de exaustão, porque mesmo com os problemas que nossos poderes nos causam existem outros pontos de compensação, isso não significa que não seja perigoso, em vários níveis, deixar as coisas irem tão longe.

—E isso não é uma informação sigilosa ou coisa do tipo? –Fiquei preocupado.

—Se fosse o Morrison já teria dado um tapa na minha cabeça e me xingado por mais de meia hora. –Claire riu daquilo.

—Teria mesmo. –O agente concordou.

—Na verdade, qualquer um que se dedique a pesquisar os mutantes ou humanos aprimorados de forma decente e saudável vai descobrir isso em menos de um ano. É uma coisa ridiculamente simples sendo sincera. –E Laura ainda parecia não prestar atenção na conversa.

—E não é perigoso que pessoas que não gostem de vocês usem essas informações para atacá-las? –Aquilo realmente me preocupava, mas Claire me encarou como se eu tivesse feito uma pergunta infantil.

—Tom, essas pessoas já sabem disso a muito tempo. Por que acha que quando eles nos atacam para matar sempre levam pelo menos um de nós? –Eu admito que fiquei chocado. –Eles não divulgam para a população que sabem como nos matar porque querem que a gente ataque no meio do caos para saírem como os heróis depois de nos matarem. Eles não são inocentes como se dizem e muito menos boas pessoas como divulgam, muitos tem uma ficha criminal que faria inveja a alguns terroristas e criminosos de guerra.

—Deixando isso de lado... –Encarei Laura ainda muito surpreso com o que tinha ouvido, sei que Brant e os rapazes também estão meio chocados. –A entrevista vai ser depois que terminarmos?

—Ah. Eu acho que sim. –Brant tomou a frente e encarou Morrison, que se inclinou na direção de Claire.

—Você precisa falar com a família do rapaz de ontem.

Vi a garota ficar tensa.

—Vai ser proposto?

—A doutora deve mandar algo em alguns minutos, mas parece que sim. –O agente não tinha uma expressão que me permitisse entender sobre o que falavam.

—Entendo. –Claire voltou a comer e Laura apenas encarava um ponto longe, como se não estivesse realmente olhando para aquele lugar.

—O que houve? –Minha preocupação cresceu.

—No momento essa informação é confidencial. Lamento. –Foi a resposta curta e vaga de Laura que ainda olhava para o nada.

==========X==========

Quando as duas terminaram o café da manhã o tal relatório que Claire deveria ler chegou e, para um arquivo que parecia tão longo, ela leu tudo em questão de três minutos antes de seguir um caminho até a área médica com todos a seguindo. Mesmo Laura não falava com ela e Morrison tomou alguma distância delas até chegarmos a uma porta com uma identificação curiosa: no-SHIELD.

Claire abriu a porta e pude ver uma jovem junto de um casal com cerca de cinquenta anos ao lado da cama com um rapaz intubado.

—Posso entrar? –Os três concordaram e ela apontou para nossa equipe. –Se quiserem eles ficam de fora, mas se quiserem eles podem filmar.

—Faz diferença?

—Depois vocês podem pedir para cortar as suas cenas, caso não desejem que as pessoas saibam sobre isso, também podem pedir para eles nem entrarem.

—Acho que eles podem entrar, por enquanto. –O homem que parecia ser o pai do rapaz na cama comentou desconfiado.

Morrison tomou posição como se fosse uma espécie de interceptador entre as três pessoas e Claire, enquanto Laura ficou ao lado da namorada. Eu e Brant nos escondemos no canto ao lado da porta enquanto nossos cinegrafistas se posicionaram na porta, para não lotar o cômodo mais ainda.

—A doutora Simmons já explicou o caso do seu filho senhor Booker?

—Um pouco. Eu confesso que não entendi muito bem o que ouve com o Clay.

—Entendo. Antes de mais nada eu preciso que você sente Brandi. –A jovem mulher parecia confusa, o que pareceu irritar Claire. –Por Deus, você está grávida e se seus sogros ainda não sabem disso não vem ao caso, mas por favor se cuide um pouco.

—Você está grávida? –A senhora Booker pareceu mais surpresa do que eu poderia imaginar.

—Pelo cheiro dela eu acho que faz umas dez semanas, então ela sabe, não é? –A jovem assentiu e sentou na cadeira que o sogro liberou. –Foi por isso que seu noivo serviu de escudo para você, não é? –Brandi confirmou. –Tente não se desesperar com o que vou falar até ouvir tudo.

Notei que Morrison posicionou uma lata de lixo vazia e limpa ao lado da noiva do rapaz em coma e não pude deixar de pensar que ele estava, de alguma forma, adiantando algum pedido de Claire ou mesmo Laura.

—Vou ser direta em tudo que vou falar, mas sincera, então me desculpem se soar indelicado ou até repetitivo. –Os três assentiram. –Nas atuais condições em que o Clayton se encontra os tratamentos humanos convencionais de um hospital não vão ajudar em nada, as melhores tecnologias da Shield podem ajudar, porém as sequelas serão grandes considerando os danos analisados pelos nossos aparelhos, o que pode incluir danos consideráveis a memória, funções motoras básicas e até mesmo morte prematura durante o tratamento. –Estando como um expectador daquela conversa eu podia ver o senhor e a senhora Booker tão chocados quanto eu estaria e Brandi, parecendo prestes a desmaiar. –Sem nenhuma intervenção dentre as classificadas como seguras as chances de vida dele começam em 50% nas primeiras duas semanas e diminuem até algo muito próximo de zero em mais ou menos um mês.

E eu percebi na frase dela, assim como Brant ao meu lado, algo que soava perigoso e ao mesmo tempo cheio de promessas.

—Você disse “intervenção segura”, o que significa isso? –E o senhor Booker havia percebido também. –Você basicamente disse que em todas essas formas meu filho morre cedo ou tarde, então o que mais existe que não é seguro?

—Existem duas drogas que, dependendo do seu filho ser ou não compatível com elas podem ser usadas. A primeira, caso ele não seja, vai sofrer de alucinações paranoicas e surtos de violência, se houver compatibilidade, então ele vai se curar e viver. Pode ser que haja alguma perda de memória, ainda que considerando o tamanho do dano cerebral, é o menor problema que poderia surgir. –Então Claire pareceu um pouco mais desconfortável e continuou. –A outra droga tem mais efeitos colaterais. Caso Clay não seja compatível ele morre na hora e no caso de compatibilidade... A primeira opção diz que ele vai ter um surto de regeneração absurdo e se recuperar fisicamente em menos de uma semana, perda de memória parcial ainda é possível em todos os cenários dessa droga, mas ele pode voltar a sua vida normal em duas semanas.

—E a segunda opção? –Realmente o Booker não perdeu aquele ponto.

—Essa droga só funciona em quem tem o gene X, o gene que pode te tornar mutante ou aos seus descendentes, por isso ele pode morrer em falta de compatibilidade, só que existe uma opção oposta para quem mesmo tento o gene X não é mutante. Ao ingerir essa droga ela pode causar uma ativação temporária dos poderes, que pode ser de uma semana a um mês, ou uma ativação completa que vai durar para sempre. –Claire encarou o senhor Booker. –Em outras palavras, se o seu filho não morrer ele pode voltar a ser como sempre foi ou se tornar um mutante caso tenha o gene X.

—E vocês já sabem qual das drogas ele pode receber? –Eu imagino que o senhor Booker já sabe a resposta.

—A droga para mutantes. –Laura disse no lugar da namorada. –E ele ainda tem uma alta probabilidade de se tornar mesmo um mutante. Sem falar que, pelos níveis que ele apresenta, é provável que essa criança que a Brandi espera seja mutante no futuro, especialmente porque ela também tem o gene X.

—Como sabem disso tudo? –A senhora Booker parecia chocada.

—Vocês três tiveram que fazer exames de sangue não é? –Eles concordaram. –Depois de examinar o DNA do Clay a doutora Simmons achou por bem verificar o de vocês, no caso da Brandi porque ela teve um palpite certeiro de que sua nora estava grávida. Vocês tem parentes mutantes na família?

—Meu pai tem um primo de terceiro grau, mas eu não... –Brandi tremia e eu me preocupei um pouco com isso.

—Eu tenho um primo, sempre achamos que essa coisa de mutante fosse acaso. –O senhor Booker parecia confuso. –Uma loteria genética aleatória.

—Sim e não, embora ainda seja genética simples. –Claire parecia ter se recuperado. –O gene X é recessivo na maior parte da população, por isso nascer mutante é mais raro que nascer humano, porém a verdade é que mais de 25% da população mundial carrega o gene mutante em seu DNA a vida toda sem nunca sonhar. Embora uma pesquisa mais recente indique que o número já pode estar em mais de 30%, o que não vem ao caso. –Ela encarou os pais e a noiva do rapaz e respirou fundo. –Se ele receber essa droga ele vive. Perda de memória sempre é possível, mas ele vai viver. Só que provavelmente o gene X dele vai será ativado e a mutação não vai desaparecer.

—Com alguma sorte vai ser uma mutação menor, algo mais simples, só que ninguém pode calcular ou prever se vai ser algo simples ou grande. E se for algo grande a vida dele nunca mais vai voltar ao que era, então vocês tem que decidir o que vão fazer. –Laura parou e encarou os três. –Deixar ele morrer usando os meios seguros ou usar a droga e arcar com as consequências quando elas aparecerem.

—Por que ninguém sabe sobre essas drogas fora daqui? –O senhor Booker parecia desconfiado. –Eu sou parte da indústria farmacêutica, tenho um pequeno laboratório na nossa cidade e nunca ouvi falar disso.

—A primeira droga usa DNA alienígena como base e só serve para quem tem o DNA Inumano, os humanos normais meio que enlouquecem quando a usam. A segunda... –Encarei Morrison que falava com os olhos fixos em Claire, que havia voltado a encarar o chão. –Já ouviu falar em HCM?

—Hormônio do Crescimento Mutante. Era uma droga comum a uns vinte e cinco anos, mas perdeu a graça quando os efeitos se tornaram muito grandes e os clientes morriam por overdose ou... Vocês vão dar HCM para o meu filho? Perderam o juízo? Isso nem funciona em casos como o dele.

—Esse funciona. –Claire ainda olhava para o chão.

—Não funciona, eu estudei essa coisa quando tentaram justificar o uso como remédio na minha cidade. –O senhor Booker parecia mesmo ofendido.

—Não esse. Eu vi esse HCM curar um homem com câncer em metástase que havia se espalhado pelo cérebro dele e já havia tirado cinquenta por cento das suas funções motoras. Esse homem não apenas se curou por completo, adquirindo uma mutação que o mudou completamente, ele se tornou o que para muitos é um monstro em aparência, mas continuou a mesma pessoa gentil de sempre. –Claire não encarava mais o chão, e sim as próprias mãos.

—Como isso é possível?

—O mutante que produz esse HCM é imune a todas as doenças da Terra e todas que se tem notícia de fora do planeta. –Como é que é? Isso é brincadeira comigo agora ou a Claire falou mesmo isso?

—É impossível alguém ser imune a todas as doenças. –E o Booker também tá confuso.

—Cólera, HIV, sífilis, a Peste, raiva, hepatite em geral e outras, além de venenos como cianeto, drogas como a heroína ou piores e envenenamento por radiação em último grau. Esse mutante pode comer um pedaço de urânio ativado e não vai morrer. –Por que eu não estou gostando o rumo que essa conversa está tomando agora?

—Como isso aconteceu? Como alguém assim pode existir? –Booker continuava assustado e eu também.

Por favor, que eu esteja errado, por favor.” Era a única coisa que passava pela minha mente.

—Esse mutante herdou dos pais uma genética fantástica que transformou seu DNA na droga mais poderosa e milagrosa do planeta, mas por algum motivo isso se amarrou ao gene X que ele tem e restringiu as possibilidades. –E quando Claire disse aquilo eu entendi mais do que queria.

Merda!

—É você. –Tanto eu como Laura e Morrison olhamos assustados para o Booker. –Você é o tal mutante capaz de tudo isso. –Ele então pareceu olhar mais atentamente para a garota na cadeira de rodas e se aproximou da cama do filho que ficava entre ele e Claire. –Peggy Carter...

Eu não sei quem ficou mais surpreso na sala: o Booker, Morrison, Laura ou Claire.

—Ah, sim. Você a conheceu?

—Uma vez, o meu pai era amigo dela. O seu pai também era amigo dela e casou com a sobrinha dela, não foi?

—Conheceu meu pai?

—De vista. Uma vez. –Booker respirou fundo e voltou a encarar Claire. –Foi dele que você herdou esse DNA maluco não é? –A garota assentiu. –Tudo bem, eu acredito. –Ele encarou a mulher. –Vamos fazer isso Mira.

—Tem certeza Carl?

—Podemos confiar no que ela falou, cada palavra. –Ele então encarou Brandi. –Vamos fazer isso.

A garota respirou fundo e sorriu.

—Se o senhor acredita neles eu vou acreditar no senhor, espero que esteja certo.

O senhor Booker voltou a encarar Claire.

—Eu sei que estou.

Claire assentiu e pegou o comunicador de Morrison.

—Tia Jemma, pode trazer. –Quando ela devolveu o comunicador encarou a família Booker. –Vocês vão ter que sair já que o procedimento é violento para o corpo dele e pode ser traumático assistir pessoalmente, se quiserem vai ter uma sala de observação. Quando for seguro voltar vão avisar vocês.

—Você vai ficar aqui para participar? –O senhor Booker parecia preocupado.

—Não será necessário. A doutora Simmons já fez isso outras vezes e eles tem o HCM armazenado para essas ocasiões.

—Entendo.

Vi a doutora Simmons entrar no quarto com uma bandeja ao lado de uma enfermeira que não era nenhuma das suas filhas e Claire encarar a seringa.

—Tem bastante dessa vez. –Ela comentou.

—Diferente do que usamos em pessoas teimosas que se arriscam ou decidem fazer coisas idiotas ou casos envolvendo ferimentos de missões essa é a dose recomendada para casos médicos graves, como o do Matthew Maines.

Notei que Brant também ficou curiosa com a menção ao sobrenome do noivo dela e acho que a lembrança da entrevista com Marshal mal mencionando o fato da Claire ter salvo a vida do irmão dele também a deixou curiosa.

—Bom, eu procuro nem saber muito sobre isso porque a manipulação é restrita. Acho que vou indo, essa parte me deixa um pouco desconfortável. –Claire encarou o senhor Booker. –Eles vão precisar amarrá-lo a cama, embora seja certo que as amarras vão arrebentar. Vão precisar tirar a intubação para que a cânula não quebre na traqueia dele e provavelmente vão precisar silenciar os aparelhos por conta do excesso de barulho que vão fazer, o que é realmente sinistro, mas ele vai viver. Eles sempre vivem.

Os cinegrafistas se afastaram da porta e Claire saiu seguida por Laura, Morrison e a equipe de filmagens, enquanto que a família Booker foi para outra sala.

Eu e Brant corremos atrás dos nossos cinegrafistas quando todos se afastaram demais. Acho que ela, assim como eu, ficou muito preocupada com tudo aquilo, mais do que o normal para a nossa profissão.

Entramos em uma sala mais afastada em tempo de ver por um monitor ligado Simmons silenciar as máquinas e aplicar uma injeção no coração de Clayton, como se fosse adrenalina, enquanto a enfermeira o tirava da intubação. Menos de dois segundos depois que a doutora esvaziou a seringa, ela e a enfermeira saíram do quarto enquanto Clay começou a convulsionar de forma assustadora, mesmo as amarras não pareciam capazes de o segurar, já que a cama começou a se mover com a força violenta das convulsões.

—Ele não vai morrer, vai? –Perguntei assustado.

—Não, isso é normal. –Morrison comentou enquanto Laura e Claire nem olhavam para a tela. –Em termos gerais é como se ele estivesse sendo atingido por um raio ou por uma dose muito alta de adrenalina ou até mesmo os dois ao mesmo tempo.

—Pessoas não morrem dessas formas? –Brant parecia confusa.

—Algumas, nem todas. –Eu preferi não discutir com Morrison sobre aquilo, até porque a cena seguinte me chocou mesmo.

Clay ainda convulsionava quando as primeira anormalidade surgiram: havia sangue saindo dos seus olhos, ouvido, nariz e boca, metade das amarras da cama já haviam arrebentado e eu podia ver que sua pele estava vermelha quando ele urrou alto.

—O que...? –Mas eu não terminei de falar.

—Mutação. Ele tem 90% de chances de que seja permanente e 10% de ser temporário, o que aparecer agora é para sempre se for permanente. –Morrison resumiu.

Na meia hora seguinte eu e Brant observamos Clayton Booker urrar enfurecido e desesperado esmurrando as paredes do quarto e com seu corpo tendo literalmente dobrado de tamanho até que uma peça de metal brilhante caiu de sua cabeça. Ele então caiu de joelhos como se algo tivesse acontecido e ficou daquela forma por cinco minutos, que foi o tempo que levou para seu corpo perder um quarto do tamanho que tinha e sua pele começar a voltar ao tom normal, ainda que não por completo.

Seu corpo ainda era bem maior do que antes da injeção e havia uma centena de marcas vermelhas pela sua pele, na sua cabeça parecia ter surgido uma espécie de crista que seguia pela sua coluna até o quadril e do ponto perto do cóccix uma cauda crescia a olhos vistos em uma cor vermelha intensa e com o mesmo padrão da crista.

Quando ele olhou para a câmera do quarto eu pude ver claramente seus olhos em um amarelo intenso e seus dentes afiados enquanto seu rosto parecia se distorcer um pouco enquanto ele tentava falar.

—Você consegue dizer que tipo de mutação é essa? –Deixei a pergunta escapar mais rápido do que pude segurar.

—Permanente. –Claire comentou e tomou o rumo da porta. –As temporárias teriam apenas alterado a pele talvez um pouco do tamanho dele, mas não tanto assim. Vai levar mais uma hora até ele estar estável para avaliação, podemos fazer outra coisa?

—Sim, podemos. –E não questionei a decisão de Brant, era o melhor a se fazer naquele momento.

Continua...

No próximo capítulo: Harrelson.

Notas finais
Atualmente posto minhas fics nos seguintes sites/plataformas de fanfics e histórias: Spirit https://www.spiritfanfiction.com/perfil/eucaristia Nyah! https://fanfiction.com.br/u/175167/ Wattpad https://www.wattpad.com/user/LillielEucaristia Acompanhe. Comente. Incentive. Todo autor precisa de sua dose de retorno para que as histórias não morram. Também escrevo uma série baseada em Percy Jackson e os Olimpiano, quem tiver interesse pode visitar meu perfil.