Uma brisa despretensiosa despenteava alguns cachos e fazia com que o tecido leve da camiseta balançasse suavemente. As duas mãos agarravam-se à alça da bolsa de carteiro, como se sua dona procurasse nela algum tipo de apoio, já que o chão não parecia suficiente. De vez em quando a mesma brisa arrastava uma ou duas flores caídas no chão, e o farfalhar produzido fazia com que ela se voltasse alarmada, procurando um alguém qualquer – e inexistente – que a estivesse observando por detrás. Não sabia, honestamente, porque estava tão nervosa. O que aquilo, ser convidada para uma noite de filmes entre amigas, representava, claramente era algo positivo e que gerava nela alguma reação positiva. E de fato, tudo entre as duas estava indo muito bem. Talvez o que a assustasse fosse justamente essa circunstância: a de que estava tudo absolutamente bem, e de que o impulso que crescia nela silenciosamente se tornasse maior do que ela própria e escapasse em algum gesto, palavra, alguma coisa inesperada que pusesse tudo a perder. Como que por vontade própria uma de suas mãos se ergueu e parou a um centímetro do botão envelhecido da campainha. Hesitou por mais um instante, o coração na boca, e deixou que o próprio peso a fizesse pender para frente, empurrando o dedo na direção do botão. Um toque simpático de sino soou abafado. A mão rapidamente voltou a procurar a alça da bolsa, e ela jogou o peso de uma perna para a outra nervosamente. “Recomponha-se” pensou.

O homem alto e cansado que abriu a porta pareceu confuso por alguns instantes ao vê-la. Compreendeu então e sorriu como pôde, puxando mais a porta na sua direção de modo a convidá-la a entrar. Ela sorriu, tentando projetar alguma confiança, e afastou uma madeixa de cabelo dos olhos. Entrou na casa e sentiu imediatamente um cheiro forte de queimado. O homem fechou a porta e apontou para uma outra num dos cantos da sala de estar em que se encontravam.

— Está na cozinha, tentando recuperar o irrecuperável — ele disse, sem realmente querer ser engraçado. Subiu então as escadas, deixando-a sozinha. Anja umedeceu os lábios e caminhou até a porta da cozinha, apoiando-se no batente. Dina estava de cócoras na frente do forno, abanando-o com um pano de prato dobrado. Atrás de si havia uma mesa redonda de madeira, sobre a qual repousava uma assadeira que definitivamente era a fonte do cheiro de queimado que tomara a atmosfera da casa. O que devia ser algo como um bolo mais parecia algum objeto qualquer – carbonizado.

— Não sabia que era possível fazer isso com um bolo — Anja disse, e sorriu. Dina se voltou, alarmada. As mechas curtas estavam presas para trás com grampos coloridos, mas algumas escapavam e caíam sobre seu rosto. Ela sorriu, sem graça. Levantou-se e fechou o forno atrás de si.

— Eu também não sabia — admitiu — A verdade é que eu achei que se fosse tomar banho enquanto ele assava eu ia voltar para cá e ainda ter de esperar um pouco para que ele ficasse pronto. Claramente estava errada.

— Talvez seja possível escavá-lo para encontrar qualquer miolo comestível no meio.

— Tenho certeza de que está inteiro comestível — defendeu-se Dina, sorrindo — Apenas não muito agradável ao paladar. Apesar de que tem gente por aí que gosta de comer coisa queimada.

Anja riu e olhou ao redor, tentando não espirrar por causa do cheiro de queimado.

— Tom ainda não chegou?

— Ah, não — Dina abanou a mão e colocou o pano de prato na mesa, aproximando-se e indicando que as duas saíssem da cozinha — Ele não vai poder vir. Recebeu uma visita inesperada da avó, ela é de fora do país então é raro que ela venha. Vai ficar com ela.

Anja sentiu que enrubescia e torceu muito para que não fosse muito perceptível. Tom ainda se apresentava como uma espécie de apoio – como a alça da bolsa de carteiro – mas ele aparentemente não passaria a noite ali também. Ela se lembrou em um instante do dia no cais, de todas as coisas que Dina havia dito, lembrou-se de Dina dançando como num feitiço no dia da festa, de Dina confiante e alegre no fliperama, e até mesmo de Dina contrariada na primeira vez em que a encontrara, na frente da loja e na chuva. Ergueu as duas sobrancelhas ao notar que Dina já estava no meio da escada, subindo. Apressou-se e a seguiu.

O andar de cima consistia basicamente em um pequeno corredor com quatro portas: um banheiro, o quarto do casal, uma espécie de escritório e o último no fundo era o quarto de Dina. Na escrivaninha estavam atirados vários papéis, rascunhos de alguma coisa cheios de rabiscos e notas em vermelho. Anja estava andando na direção de todos os papéis quando Dina a deteve.

— São rascunhos para a aula de dramaturgia — disse — São todos ruins.

— Tenho certeza de que estão incríveis. Não posso ver? Mesmo?

Dina comprimiu os lábios e cedeu. Sentou-se na cama, os braços cruzados como com algum tipo de expectativa. Anja sentou-se na cadeira diante da escrivaninha e escolheu um dos papéis para ler, uma folha amarela com os escritos em algum tom de azul. Reclinou-se para trás.

MARIPOSA: É que estava em apuros.

BORBOLETA (aflita): Você estava em apuros?

MARIPOSA: Sim, eu estava em apuros e então não tive outra alternativa a não ser usar um feitiço para desaparecer.

BORBOLETA: Quer dizer que foi assim que ficou como é hoje? Quando queria desaparecer?

MARIPOSA: Sim. Quando não se tem nas asas as cores mais belas e o brilho mais suave, quando não se voa com toda a delicadeza, então você se torna invisível. (pausa) Mesmo que por algum motivo alguma pessoa mais atenta consiga enxergar algo como eu, só há então duas coisas que ela pode fazer: ou escolher conscientemente agir como se nunca tivesse enxergado, ou dar um fim à minha existência para que não tenha mais que enxergar.

BORBOLETA (escandalizada): Mas isso parece terrível!

MARIPOSA: Ser aquilo que os outros não desejam que se seja, é isso o que é. Não me querem porque sou uma mariposa, assim como não me querem porque sou uma bruxa.

Anja ficou em silêncio por alguns instantes olhando para a folha de papel. Finalmente voltou-se e encarou Dina.

— Ser aquilo que os outros não desejam que se seja parece de uma liberdade tremenda. E uma angústia infinita. — fez uma pausa e sorriu suavemente — É bonito, o que você escreve. Como é que nunca tinha me mostrado nada?

Dina deu de ombros.

— Não sei, não mostro esse tipo de coisa para muita gente. Eu não sei. Você gostou mesmo?

Anja assentiu. Depositou cuidadosamente o pedaço de papel em cima da escrivaninha com todos os outros e girou na cadeira até chegar pero de Dina, ao lado da cama. Deu ainda algumas voltas, rindo.

— Cadeiras giratórias nunca perdem a graça.

Dina interrompeu o movimento, segurando o encosto da cadeira com a mão.

— Perdem quando você fica tonta — lembrou, e sorriu. Em um milésimo de instante em que tudo pareceu entrar num estado de absoluta suspensão, Anja prendeu a respiração e achou que aquele era um dos sorrisos mais bonitos que já tinha visto na vida. Quase que pôde sentir acariciando o seu rosto a fumaça do cigarro da mãe, impassível e distante e inalcançável na varanda em Essen. Quando seu olhar encontrou o de Dina, pensou que de algum jeito a mãe também estava ali, ao lado de Dina, encarando-a como se perguntasse o que ela faria a seguir. Sem reprovação, sem aprovação, sem expressão alguma como sempre estava aquele olhar. Foi num átimo. Anja se inclinou para a frente e esqueceu-se completamente de tudo o que existia pelo instante que durou o beijo suave com que surpreendeu a outra garota. Assim que afastou o seu rosto, sentiu que o sangue gelava. Abriu a boca sem dizer coisa alguma e sua cabeça se encheu de coisas incompreensíveis.

— Anja — Dina disse, quase sem dizer. Se encararam por um instante mais e então se beijaram mais uma vez.