Deixou a cabeça pender para trás. O ar parecia denso, mais denso. Como se ao se mover ela atravessasse uma espécie de massa com resistência. Não dava muito atenção ao cheiro forte de amoníaco e percorria distraidamente as frases com as quais as paredes do cubículo haviam sido preenchidas. Enfim levantou-se e deu a descarga, tudo lentamente como se seu corpo não respondesse na velocidade comum. Voltou-se para abrir a porta e ouviu o gemido de dobradiças que indicava que mais alguém entrara no banheiro. A princípio foi apenas uma intuição, ficou de pé, parada, sem sair do cubículo e num tipo de estado de suspensão. Depois veio o cheiro suave cavando seu caminho através do amoníaco. Dina comprimiu os lábios e sentiu-se ridícula, imóvel como estava. Do outro lado, abriram a torneira. Ela conseguiu imaginar a figura se recurvando para a frente, apoiando os cotovelos na pia, puxando com uma mão os cachos para trás e com a outra levando um punhado de água ao rosto. Tinham depois, na noite anterior, dormido de imediato e se despedido cedo na manhã seguinte sobre o pretexto de que tinham coisas a estudar. Nem chegaram a assistir a qualquer filme, o que era na verdade o intuito primeiro da reunião amigável que ela havia planejado. Pelo menos ela pensava que era. Não haviam se encontrado desde então. A torneira foi fechada. O barulho seco das folhas de papel toalha sendo arrancadas, uma, duas, as duas sendo amassadas, jogadas no lixo. Passos ligeiros até a porta do banheiro que se detiveram no último instante. Dina procurou engolir a tensão. Olhou para os próprios pés e deu instintivamente um passo para trás, sentia-se vista. Alguns segundos de silêncio.

— Dina, é você?

Silêncio. Comprimiu os lábios com mais força, começou a brincar com a barra da camiseta com uma das mãos. Os passos se aproximaram bem pouco, lentamente.

— Dina?

Balançou a cabeça e cerrou os olhos. Prendeu a respiração.

— Olá — respondeu, soltando todo o ar de uma vez. Do outro lado, Anja ficou parada por alguns instantes. Deu mais um passo.

— Você está bem?

“Estou” ela pensou, imediatamente. Mas sentia-se confusa a ponto de imaginar que tivesse respondido em voz alta. Jogou o peso de uma para a outra perna. A mão, contra a sua vontade, deslizou suavemente até a tranca da porta. O barulho metálico pareceu se destacar do silêncio profundo. Não empurrou a porta a princípio. Talvez destrancá-la fosse suficiente.

— Dina, se não quiser conversar é só me dizer — Anja murmurou. Por uma fresta de abertura da porta do cubículo Dina quase conseguia ver os olhos escuros encarando qualquer coisa, os braços balançando ao redor do corpo. Balançou a cabeça mais uma vez e empurrou a porta, dando um passo para fora. Encararam-se em silêncio.

— Me desculpe — Dina disse, inclinando um pouco a cabeça. Anja ergueu uma sobrancelha. Deixou-se pender para o lado, apoiando-se na parede de um dos cubículos.

— Por que está pedindo desculpas?

— Não sei — admitiu a garota — Acho que não sei como. Eu não sei o que eu deveria fazer.

— Se você não sabe, eu certamente sei menos ainda — Anja respondeu. Dina sentiu que os olhos escuros conseguiam atravessar-lhe sem esforço algum. Coçou a cabeça. Procurava desesperadamente qualquer coisa para falar, chegava a sentir que os lábios se moviam sem emitir som algum, mas nada lhe ocorria. Agarrou-se ao primeiro pensamento que surgiu com mais clareza.

— Por que saiu de Essen?

As duas sobrancelhas de Anja se ergueram em surpresa. Pareceu desconcertada por alguns instantes, ajeitando-se, mas logo pareceu mais tranquila. Girou a cabeça e encarou algum ponto no espelho.

— Bem, talvez seja tempo de eu contar para alguém mesmo — disse, distante. Dina esperou — A minha mãe... A minha mãe teve um quadro clínico de depressão. Foi bastante séria a coisa, uma vez eu cheguei em casa e a encontrei com um punhado de comprimidos coloridos na mão. Ela não fez nada, mas de qualquer jeito. Pouco tempo depois o meu pai descobriu sobre. Ele descobriu que eu gostava de garotas — fez uma pausa — Ele achou que a depressão da minha mãe... Achou que a minha mãe estava como estava por causa de mim. E achou que eu. — seus lábios estavam um pouco trêmulos e ela parou para respirar por alguns instantes. Num movimento brusco dirigiu-se à pia e lavou o rosto mais uma vez. Apoiou-se na pedra — Ele não gostava mais que eu ficasse perto dela. E os dois estavam brigando, e ela estava completamente apática, e. Estava insustentável, entende?

Os olhares das duas garotas finalmente se encontraram através do espelho. Dina assentiu lentamente.

— Meu pai me expulsou de casa, me mandou para morar aqui com a minha tia. Pouco depois minha mãe também expulsou ele de lá e ele veio também. Ele acha que tudo o que aconteceu... As brigas deles, tudo. Ele acha que é tudo culpa minha, e do fato de que eu gosto de garotas.

As duas fizeram um silêncio profundo por alguns instantes que pareceram eternos. Dina percorria com o olhar cada canto do banheiro, procurando algo para que olhar, algum apoio, algo que dizer. Tudo lhe parecia confuso, e olhava para Anja e não conseguia entender como podia ser assim, não conseguia entender como aquela que para ela era a borboleta, aquela que para ela parecia tão resolvida e cheia de confiança, como aquilo poderia ser sua vida. A boca entreabrira-se sem que ela percebesse, e Anja a encarava pensando que ela diria algo.

— Eu não fazia ideia — Dina disse, por fim, e sentiu que foi algo estúpido a se dizer. Anja deu de ombros.

— Não tinha como saber — sorriu, e pareceu cansada — Eu não tinha contado nada. E não venha ficar com pena de mim, ou qualquer palhaçada dessas — acrescentou, bem-humorada — Não preciso de nada disso.

— Tenho certeza de que não — Dina respondeu, retribuindo o sorriso. Pensou por alguns instantes — Você tem vontade de voltar? Para Essen?

Anja pensou por alguns instantes. Empurrou a pia com as duas mãos e voltou-se para Dina.

— Acho que sim, talvez. Mas aqui de fato está parecendo cada vez melhor.

Dina enrubesceu brutalmente e se sentiu mortificada por ter enrubescido brutalmente. Anja teve de se esforçar para não sorrir em resposta. Ficaram alguns segundos em silêncio. Dina se aproximou da pia e começou a lavar as mãos devagar, encarando-as. Sentiu o olhar da outra garota sobre si, mas por algum motivo ele já não parecia tão assustador. Secou as mãos.

— Podíamos ir tomar sorvete um dia — disse. Conseguiu ver com o canto do olho que Anja sorria.

— Podíamos.