Dina acordou alarmada e sentou-se na cama bruscamente. O rosto estava coberto de suor, e alguns fios de cabelo se haviam grudado em sua testa. Respirou pesadamente por alguns instantes, sentindo o peito subir e descer, e fechou os olhos suavemente até se acalmar. Esfregou o rosto com as mãos e afastou o cobertor. O mesmo sonho, todas as vezes. Inclinou-se e esticou o braço para pegar o copo com água em cima da mesinha de cabeceira, e bebeu devagar. Colocou os pés para fora da cama.

As imagens do sonho ainda estavam vívidas em sua cabeça. Ela, muitos anos mais jovem, em meio às plantas do jardim na casa onde costumava morar. Estava deitada de bruços, os olhos grandes e infantis divertindo-se ao acompanhar o voo baixo de uma borboleta colorida. Apoiava-se no chão erguendo o busto, e ao mover a mão sentia a dor aguda de uma queimadura. Gritava, reconhecendo uma estranha lagarta acinzentada com manchas cor de fogo arrastando-se onde alguns segundos antes estava sua mão. Encarava-a, amargurada, e quando voltava a procurar a borboleta ela havia desaparecido. Sentia então que sua pele começava a endurecer, formando uma casca grossa. Numa tentativa desesperada de voltar ao normal, ela esfregava as mãos nos braços, na cabeça, nas pernas, mas era tudo em vão. Caía deitada em posição fetal, os olhos cerrados com força, até que se sentia completamente encasulada. Começava a ferver em seu coração uma força estranha e ancestral, uma espécie de fogo que se expandia sem parar até sair dela e romper o casulo. Ela erguia-se, colossal, estendia as asas para os lados e erguia a cabeça, inspirando com toda a força. Alçava voo, procurando aproximar-se de uma gigantesca poça d’água para ver o próprio reflexo. Quando reconhecia em si mesma uma mariposa, sentia um desespero imenso e algo lhe sufocava a garganta. A poça ficava cada vez mais perto, cada vez mais perto, até que ela se via imersa e sem conseguir respirar. Era nesse ponto que, todas as noites, acordava.

Caminhou até a janela e apoiou as mãos no peitoril. Encostou o rosto no vidro, que estava frio. Não entendia o que aquele sonho significava, e não entendia porque ele se repetia todas as noites. Uma tia velha costumava dizer, rindo alto, que sempre sonhava com profecias e adivinhações. Já ouvira de alguém que lembranças traumáticas às vezes se modificam e assumem uma forma exagerada nos sonhos. Fosse o que fosse, o cansaço de todas as madrugadas que passava em claro depois de não conseguir mais dormir por causa desse mesmo sonho fazia com que ela apenas quisesse entender o que havia por trás dele.

A rua diante dela estava completamente deserta. A escuridão ainda imperava, uma ou duas estrelas destacando-se no céu nublado e o asfalto alaranjado pelos postes de iluminação. Lembrou-se da garota de mais cedo. A garota da outra noite. Como se chamava? Anja. “Papillon, como borboleta!”. Provavelmente havia sido apenas a sua imaginação, mas tinha a clara impressão de ver no rosto dela uma leve decepção quando apontou que também poderia significar mariposa.

“Ninguém gosta de mariposas” pensou consigo mesma “Por isso é que não é um sonho, mas sim um pesadelo”. Bocejou, esfregando os olhos, e deixou-se cair sentada na cadeira diante da escrivaninha. Havia ali alguns livros empilhados, papéis, tudo numa familiar desordem. Decidiu que arrumaria tudo. Não conseguiria dormir de qualquer maneira, então o mínimo que podia fazer era ocupar bem o seu tempo. Colocou todos os livros num canto e estava juntando os papéis quando algo lhe chamou atenção. Segurou-a diante dos olhos: uma pequena folha quadrada, com uma ilustração científica de uma mariposa ao lado do qual havia a gravura de uma bruxa daquelas medievais, os olhos profundos e escuros, os lábios torcidos para baixo deixando-a com uma expressão de insatisfação, os cabelos desalinhados. Em letras de imprensa lia-se, debaixo das imagens, “E assim acreditava-se que na hora do mal, pela madrugada, as bruxas transfiguravam-se em mariposas e voavam em bando cobrindo os céus”. Ela não sabia muito bem de onde surgira aquele pedaço de papel, e achou estranho encontra-lo naquele momento. Ajeitou-se na cadeira para sentar de cavalo, o peito pressionando o encosto, e ficou encarando as ilustrações. Foi quando ouviu um leve baque de algo se chocando contra o vidro. Deslizou na cadeira giratória até a janela, mas não viu nada.

Sentiu que algo estranho acontecia. Tomou um dos lápis atirados num canto da escrivaninha e começou a escrever na parte de trás da folha com a mariposa e a bruxa.

BORBOLETA: Como é que se chama?

MARIPOSA: Eu me chamo D, embora nunca me chamem pelo meu nome.

BORBOLETA: Ora, eu sou A, e me chamam A. Como é que te chamam senão D?

MARIPOSA: Me chamam bruxa.

BORBOLETA: E por que é que na má hora da madrugada revolvem-se todas como você em bando ao redor da luz?

MARIPOSA: É para que não haja luz alguma, e apenas escuridão. Por isso somos bruxas, privamos a todos os seres de luz nas madrugadas.

BORBOLETA: Essa é a diferença então. Eu levo para os seres as cores, e você lhes entrega a escuridão.

Dina encarou o que havia escrito por alguns instantes. Bufou. Amassou o pedaço de papel e ia jogá-lo no lixo quando algo a deteve. Cerrou os lábios e enfiou a bola de papel amassado em um dos bolsos na mochila, que já havia sido livrada de todos os cacos de vidro. Deu mais alguns giros na cadeira, recostou-se na escrivaninha colocando a cabeça apoiada nos braços e ficou encarando as duas figuras que estavam antes no globo de neve que se quebrara até, milagrosamente, adormecer.