Anja comprimiu os lábios alternando o olhar entre o saco plástico com uma maçã que tinha em mãos e a multidão amontoada ao redor da cafeteria. Fechou os olhos e suspirou ao sentir o delicioso aroma de canela e açúcar caramelizado. Resmungou qualquer coisa e ia se afastando do movimento na direção de um banco de madeira quando esbarrou em alguém. Ergueu os olhos, recuperando do chão o saco com a maçã que havia caído. Sorriu.

— Continuamos nos esbarrando — disse. Dina correspondeu o sorriso, tímida, e coçou a cabeça sem jeito. O olhar de Anja se fixou no bolinho de canela que a outra carregava, e ela engoliu em seco. Dina notou o movimento.

— Você quer um pedaço?

— Não vou recusar já que ofereceu com tanta gentileza — deu uma mordida pequena no bolinho e apontou para o banco — Quer se sentar comigo? Eu estava indo para lá. Não tenho muito com quem passar o tempo já que acabei de chegar.

— Pode ser, sim, eu só... — Dina ergueu o braço e se voltou, como se tentasse chamar a atenção de alguém, o que de fato estava fazendo. Um garoto desproporcionalmente alto, ainda que ficasse um pouco recurvado para a frente, aproximou-se. Estava enfiado num casaco azul claro de lã, carregava em uma das mãos um achocolatado de caixinha e tinha uma expressão amável. Dina se voltou e apontou de um para o outro — Hm. Anja, Tom; Tom, Anja.

— É um prazer — Anja disse. Tom parecia surpreso, olhando de uma para a outra. Sorriu.

— O prazer é meu. Perdoe a minha surpresa, é só que faz algum tempo que não vejo a Dina com... Seres humanos.

— E você seria o que então?

— Qualquer outra coisa — Tom riu. Os três caminharam juntos até o banco e se sentaram, Dina entre os outros dois. Ficaram em silêncio por algum tempo, o garoto ainda procurando evitar a encarada estupefata que dirigia a Anja. Ela, por sua vez, achava tudo muito engraçado. “Eu bem disse que ela parecia tímida” pensou. Decidiu romper o silêncio.

— Como é que conseguiu o bolinho? Eu não ousei me aproximar daquela multidão enfurecida.

— Este? – Dina olhou para o bolinho — Tem uma outra lanchonete, perto das salas de ensaio para a graduação de música. É um pouco mais longe, mas por isso mesmo é mais tranquila.

— Bom saber — Anja fez uma nota mental.

— Você é nova? — Tom ajustou-se para conseguir ver as duas, sentando-se de lado.

— Sou. Eu morava em Essen até semestre passado, acabei de me transferir. Sou da Arquitetura.

— Essen! Que impressionante. Eu nunca saí daqui — explicou o garoto.

— É. Eu passei a vida inteira lá, é realmente uma ótima cidade.

— E por que mesmo disse que tinha saído de lá? — Dina se voltou.

— Eu... Eu não disse. — Anja desviou o olhar e repousou as mãos nos joelhos. Respirou profundamente, com a imagem nítida da expressão de tristeza no rosto da mãe, e a impassibilidade do pai.

— Me desculpe! Eu não quis...

Tom repousou a enorme mão no ombro de Dina.

— Você não sabia que ela se incomodaria — disse, tranquilo, e voltou-se preocupado para Anja — E você está bem?

— Estou, é claro — ela recuperou o sorriso e tirou a maçã do saquinho plástico, dando-lhe uma mordida — E ele tem razão, você não sabia. Não se preocupe. A verdade é que aconteceram algumas coisas... Problemas familiares. Mas está tudo bem. — ela riu e olhou para Tom — E ela por acaso te disse como é que nos conhecemos?

Os olhos de Dina se arregalaram e ela enrubesceu. Anja sorriu e começou a contar o episódio. Enquanto falava, via transcorrerem em sua mente todas as mesmas cenas que a perseguiam todos os dias. A mãe de pé na varanda, o cigarro entre os dedos compridos e trêmulos, o olhar vazio fixo em algum ponto inexistente. Ela apoiada no batente da porta, encarando-a, quando sentiu um puxão forte pelo braço para trás e deu de cara com o olhar preciso e frio do pai.

— Por que está olhando a sua mãe assim? No que está pensando?

Ele a segurava pelos punhos, levantando-os, o olhar crescendo em um ódio que tirava dele qualquer vestígio paternal que pudesse haver. No que está pensando? Me responda! E o cheiro do cigarro que a mãe continuava tragando lá fora, como se nada tivesse acontecido. Como se nada nunca acontecesse.

— ... Anja?

Ela ergueu as duas sobrancelhas. Tom e Dina a encaravam. Ela não percebera que havia parado de falar. Sorriu sem convicção.

— Eu me distraio com alguma facilidade. Não liguem para mim. Em todo caso, não é um começo divertido de amizade, Tom?

Ele hesitou por um instante e voltou a sorrir, assentindo.

— Eu não esperava outra coisa dessa aí — apontou para Dina, que revirou os olhos.

— Eu não pedi pela chuva... E pela bateria do meu celular acabando... E...

Os três riram.

— Em todo caso, foi ótimo. Não sabia muito bem quão rápido ia conseguir achar amigos por aqui — admitiu Anja — Um incidente feliz.

— E já conheceu a cidade toda?

— Na verdade não fui muito além do lugar onde estou morando, aquela vizinhança, e a universidade.

Tom e Dina se entreolharam, cúmplices. Ele curvou-se para frente, uma expressão determinada.

— Vamos te mostrar os melhores lugares.

— Não vai se arrepender de ter se mudado para cá — Dina sorriu, como se tivesse se esquecido da própria timidez por um instante. Quando sorria, pequenas linhas se formavam no canto dos olhos escuros. Anja também sorriu.

— Tenho certeza disso! — ela disse, e sentiu um arrepio percorrendo-lhe o corpo.

No que está pensando?