Mariposas
13 Fliperama
Dina esperava sentada em um dos bancos de madeiras pintados de um vermelho cereja gritante. Distraía-se olhando para as poucas pessoas debruçadas sobre as máquinas de jogos, as duas moças apoiadas no balcão com os bonés vermelhos desalinhados, fazendo bolhas imensas de chiclete e conversando sobre qualquer coisa para não se entediar no trabalho. O fliperama fora construído aproveitando a estrutura de um dos prédios mais velhos da cidade, para que não fosse demolido. O orçamento para sua construção tinha sido surpreendentemente generoso, de modo que máquinas de jogos de todos os tipos e tamanhos distribuíam-se pelo saguão formando labirintos coloridos. Apesar disso, eram poucas as pessoas que de fato frequentavam aquele lugar, ou sequer sabiam de sua existência. De tempos em tempos Dina e Tom costumavam ir para lá e gastar qualquer dinheiro que tivessem para jogar acumulando quantidades exorbitantes de tickets que ao fim seriam trocados por alguma pelúcia pequena e estranha e doces baratos. Tinham várias memórias agradáveis associadas àquele saguão.
Foi por isso que a garota decidiu que seria ali que se reencontraria com os dois, aos quais estivera evitando ao longo da semana toda. Precisava ver a si mesma um pouco sozinha, e pensar, de modo que evitara qualquer lugar onde pudesse encontra-los e reduzira seu itinerário da semana de casa para a sala de aula, e da sala de aula para casa, além de não dar muita atenção ao celular. Passada uma semana, sentia que estava pronta para vê-los outra vez e mandou mensagens para os dois para que se encontrassem todos ali, onde não havia nada de hostil à vista para que ela tivesse a sensação de que nada de ruim pudesse acontecer. Já estava esperando há algum tempo e sua ansiedade começara a inventar todo tipo de teoria sobre eles não querendo vê-la quando chegou primeiro Anja e alguns instantes depois Tom. Dina se levantou. Os três ficaram por alguns instantes num silêncio constrangedor.
— Não te vejo desde as docas — Anja disse, por fim — Por onde esteve?
— Por aí. Estava pensando.
— E já acabou de pensar?
— Não — ela admitiu, sorrindo — Mas fiquei com saudades de vocês.
Anja sorriu e se adiantou para o balcão, a fim de trocar seu dinheiro por créditos para jogar. Os outros dois ficaram em silêncio por um tempo.
— Então... — Tom disse, sem jeito — Nós estamos bem?
— Você é meu melhor amigo, e vai continuar sendo — ela fez uma pausa— A não ser que você não queira. De qualquer jeito, eu... eu adoraria se pudéssemos seguir sendo melhores amigos.
— Eu adoraria também — ele comprimiu os lábios e encarou-a — Me desculpe por deixar as coisas estranhas por esse tempo todo, Dina.
— Quem desapareceu do mapa fui eu — a garota sorriu — De qualquer jeito. Eu estou bem, Tom, de verdade. Estou feliz já que vocês vieram. Por um instante eu pensei que não viriam.
— É claro que pensou — ele retribuiu o sorriso gentil — Não seria Dina se não tivesse pensado. Vamos conseguir créditos, já que a competição já está na vantagem — e apontou para Anja, que balançava o cartão com os créditos desafiadoramente.
Os dois estenderam ao mesmo tempo as notas de dinheiro para as atendentes entediadas, e trocaram algumas risadas cúmplices enquanto elas levavam uma eternidade para colocar os créditos nos dois cartões. Assim que os receberam, eles se juntaram a Anja e cada um dos três iniciaram a missão de acumular mais tickets que os outros dois. Dina e Tom estavam em vantagem, já que eram conhecedores dos segredos e macetes de cada uma daquelas máquinas, além de que passavam horas seguidas ali nos dias de maior energia. Anja, por sua vez, contentava-se em desferir tapinhas cautelosos em qualquer máquina que ela não conseguia entender, e puxava com força os tickets ao ver o quanto os outros dois já tinham acumulado.
Dina sentia um alívio imenso, já que tudo estava correndo muito bem. Ao jogar com os dois, era quase como se aqueles eventos conturbados nunca tivessem acontecido. Apesar disso, ela se lembrava bem de que tinham acontecido. Conseguia ver que apesar de Tom se mostrar mais descontraído, ainda estava bastante cauteloso e por vezes parecia distante. E com Anja, sabia que alguma coisa estava diferente depois daquela conversa nas docas, que provavelmente tivera efeitos ainda mais significativos que os eventos da festa. Aquelas pequenas mudanças pareciam na verdade parte de alguma coisa muito maior que estava acontecendo, que estava para acontecer. Jogavam tranquilamente, mas parecia que havia no ar algum tipo de estado de suspensão, a iminência de alguma coisa que ainda era indefinida, mas que seria imensa. Dina, no entanto, não se sentia mais tão desesperada diante dessa suspensão. Estava se divertindo sinceramente, e sentia que estava bem acompanhada para enfrentar o que quer que pudesse acontecer.
Despertou de seus devaneios quando a máquina apitou na sua frente, expelindo mais um tanto considerável de tickets. Ela os arrancou, sorrindo, e se dirigiu com os outros dois até uma daquelas máquinas de basquete. Os três decidiram fazer uma aliança, já que aquela era uma das máquinas que mais liberava tickets. Cada um se debruçou, jogando freneticamente as bolas que iam surgindo na cesta. Eram um conjunto surpreendentemente habilidoso. Num instante, uma bola de cor diferente desceu a rampa e Dina e Anja a seguraram juntas. Encararam-se por um segundo que pareceu eterno, as docas ecoando na cabeça de cada uma das duas.
— Vai acabar o tempo! — Tom riu. Anja soltou a bola e Dina fez a sexta final. Abaixou-se para arrancar e dividir os tickets, e nesse meio tempo Anja desviou o olhar e comprimiu os lábios. O garoto notou o movimento e ergueu discretamente uma sobrancelha. Alternou o olhar de uma para a outra, sem que nenhuma delas notasse. Ergueu então as duas sobrancelhas, os olhos se abrindo com o lampejo de uma ideia que nunca lhe ocorrera até então. Observou-as mais uma vez, Anja de pé tamborilando os dedos na máquina, Dina com o olhar fixo em alguma coisa inexistente com uma expressão indecifrável, as docas. Nesse momento ela se levantou e entregou aos outros dois seus tickets.
— Meus créditos já acabaram — declarou.
— Os meus também — Anja disse.
Tom levou ainda alguns segundos procurando compreender aquilo no que estava pensando.
—– Tom?
— Ah, sim, os meus também!
Os três dirigiram-se até o balcão e conseguiram trocar os tickets por uma espécie de dromedário de pelúcia e três sacolas cheias de doces baratos. Sentaram-se na calçada na frente do fliperama para aproveitar as balas e chocolates minúsculos e de cores suspeitas e ficaram ali em silêncio. Para Tom, tudo estava tão claro quanto poderia estar.
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