Notas iniciais
the rite of spring - stravinski

A lua erguia-se alta e deslumbrante. Seu brilho intenso e fantasmagórico se projetava sobre a cidade, como que anunciando que algo estava para acontecer. Era a primeira em muitas noites que o céu estava completamente limpo. Percorrendo a maioria das ruas, alguém poderia ouvir apenas um silêncio profundo e misterioso, sob o olhar de alerta dos postes de luz acesos. Como que num feitiço, florezinhas despontavam quase despercebidas em frestas na calçada, na grama, em arbustos. E as árvores quase que numa dança coloriam-se de todos os tons. Era todo um ritual magnífico e inacreditável que se desenrolava em silêncio na primeira noite da primavera. Não fazia frio.

Uma mariposa voava desenfreadamente, desenhando arcos no ar. Quase parecia que tinha algo a resolver com urgência, como seria com uma pessoa. O brilho embranquecido de uma das janelas da casa tinha um efeito magnético e hipnótico sobre ela, que ao se aproximar se chocou contra o vidro fechado. Enlouquecida, balançava as asas com ainda mais vigor e continuava desferindo-se contra o vidro como se ele pudesse desaparecer. Alarmada pelo barulho, Dina, que se encontrava sentada com as mãos no colo encarando o próprio reflexo no espelho, voltou-se para a janela e viu o terrível espetáculo. Não conseguiu pensar em nada que pudesse fazer enquanto via a mariposa se debatendo e não desistindo da empreitada de atravessar aquela janela e chegar a seu objetivo máximo, a lâmpada dentro do quarto, até que após um último esforço voou para longe em fadiga. A garota continuou olhando para a janela por algum tempo, absorvendo com dificuldade a situação estranha que acabara de vivenciar, e que produzia nela algum tipo de efeito abissal demais para que ela pudesse compreender. Finalmente soltou um longo suspiro, fechou os olhos delicadamente para depois abri-los e voltar-se outra vez para o espelho.

Acompanhou com o olhar a linha que contornava os lábios pintados de marrom, as sobrancelhas um pouco desalinhadas, as narinas assimétricas. Seguiu ainda a linha do pescoço, até chegar à clavícula e observou com cuidado a pele exposta pelo decote do vestido. Fazia já algum tempo que não usava um vestido. Piscou e se levantou num impulso súbito, enfiando os pés nas botinas antes que mudasse de ideia. Empurrou a porta decidida, desceu as escadas. O padrasto estava sentado em uma das poltronas da sala, encarando o nada com uma expressão enigmática. Ao ouvi-la se aproximando, voltou-se lentamente. Parecia cansado.

— Está usando um vestido — foi a melhor coisa em que conseguiu pensar para dizer. Dina olhou para baixo, para o próprio corpo, e assentiu com um movimento de cabeça. O homem ficou em silêncio por alguns instantes, e como se tentasse fazer uma boa impressão acrescentou:

— Está bonita.

— Obrigada — ela respondeu. Encarou-o. Parecia muito diferente em relação a poucas semanas, talvez até dias, atrás. Tinha um aspecto exausto e desolado que ela não havia notado até então. Pareceu-lhe menos ameaçador. Ela hesitou — Você está bem?

Ele pareceu surpreso. Olhou para ela por alguns instantes e sorriu.

— Estou apenas cansado — fez uma pausa — Tenho sido bastante exigente com você. Peço desculpas. Acabo me preocupando muito com a sua mãe e não penso direito.

Quem estava surpresa então era ela.

— Eu também não fui das mais gentis — admitiu. Os dois ficaram em silêncio por algum tempo.

— Vá — ele balançou a mão, indicando a porta. Sorriu mais uma vez — Vá aproveitar a juventude. A primavera da vida.

Ela foi. Caminhou sozinha, procurando manter a respiração firme, e aos poucos pôde ouvir o barulho ficando mais alto. A música, em conjunto com as conversas paralelas de centenas de jovens, os pés frenéticos deslizando e batendo no chão conforme dançavam, as garrafas abertas. Parou diante das duas portas abertas. Não retribuiu o olhar de algumas pessoas apoiadas na parede, rindo fora de si e fumando qualquer coisa estranha. Comprimiu os lábios, e logo sentiu uma mão grande e quente repousando sobre o seu ombro.

— Estou completamente embasbacado — Tom disse — O que mais essa primavera trará a essa cidade?

— Vamos, deixe de ser exagerado — Anja surgiu por detrás dele. Os cachos pareciam mais volumosos e belos que nunca, e seu rosto parecia emitir um brilho tão intenso quanto o da lua. Ela sorriu — Ela já deve ter ido a pelo menos uma festa na vida.

— Nunca! — o garoto fez a réplica enfaticamente, e alargou o sorriso, dando tapinhas no ombro no qual tinha repousado a mão — Mas há uma primeira vez para tudo!

Entrelaçou o enorme braço no da desorientada Dina e entraram os três. Parecia que tinham adentrado um outro universo. As luzes piscando e os holofotes coloridos passavam a impressão de que tudo acontecia numa outra realidade, produziam um efeito estranho sobre a percepção do tempo e tornavam as formas dançando e se deslocando quase inumanas. Havia na atmosfera uma mistura forte de cheiros de álcool, fumaça, suor e perfume. A música alta praticamente impossibilitava qualquer diálogo. Os jovens deslocavam-se em grupos, dando uma sensação de eterno movimento. A garota sentiu-se completamente perdida e ao mesmo tempo absorvida por aquele ambiente. Olhou para os dois amigos erguendo as sobrancelhas. Anja sorriu.

— Vamos começar a noite! — gritou, e mesmo assim Dina apenas entendeu o que dizia porque conseguiu fazer leitura labial. A outra desapareceu em meio à multidão e retornou em seguida equilibrando três copos com alguma coisa, e por causa da iluminação nem sua cor podia ser identificada. Estendeu um copo a Tom, que o recebeu de bom grado, e um outro a Dina, que parecia não saber o que fazer com ele — A nós!

Dina deu um gole e sentiu que a garganta queimava. Tossiu, fazendo uma careta, e piscou fortemente. Os dois amigos riram e beberam de uma vez.

— A nós! — Tom repetiu.

Anja agarrou o pulso de Dina, encarando-a.

— Vamos dançar!

A garota balançou a cabeça negativamente, arregalando os olhos. Tentou se desvencilhar e dar um passo para trás sem muita convicção. Anja insistiu.

— Venha! O Tom também virá. Os três juntos! — ao que o garoto concordou com um aceno de cabeça alegre.

— Eu não sei dançar — protestou Dina.

— Não ligue para os outros! Somos só nós três!

Antes que ela pudesse protestar outra vez, Anja puxou-a para o meio da confusão na pista de dança, seguida por Tom. Girou-a habilmente, e assim que a soltou ergueu os braços e moveu-se como que num feitiço com a composição das luzes e a densidade na concentração de pessoas, o sorriso resplandecente. Girava em torno do seu eixo, seus braços a acompanhando, e a cabeça pendendo para trás. Era como mágica. Tom reproduzia o pulso da música com os pés, movendo a cabeça circularmente e curvado para a frente como sempre estava. Dina hesitou. Acompanhava o ritmo com a cintura, timidamente, mas não sabia direito o que fazer. Encarava todos os que a rodeavam como que buscando por alguma orientação. Sentia o coração batendo na garganta. Mal percebeu quando a sorridente Anja se aproximou e sussurrou em seu ouvido:

— Dance absolutamente como quiser!

Pareceu que alguma coisa aconteceu dentro dela naquele momento. Num ímpeto enlouquecido, saltou para cima e abriu os braços na horizontal, expandindo o movimento de cintura que já estava fazendo antes. Deslizou os pés pelo chão, os olhos fechados. Aventurava-se nos planos médio, baixo e alto, desenhando formas curiosas com as mãos e cotovelos e joelhos. De tempos em tempos saltava, imensa, como na primeira vez. Dando piruetas, deslocava-se e batia os pés um no outro. Era uma dança absolutamente louca, ensandecida e maravilhosa. Esquecia-se de tudo. Contorcia a coluna, para depois desfazê-lo. Sentiu-se absolutamente cheia de alguma coisa, sentiu que explodia. Ergueu os braços e deteve-se na ponta dos pés, a respiração ofegante, o coração aos pulos. Encontrou lentamente seu equilíbrio outra vez e abriu os olhos devagar. Ninguém parecia ter prestado especial atenção à sua loucura. Olhou ao redor e não encontrou nenhum dos dois amigos. Pensou em chamar os seus nomes, mas era impossível que fosse ouvida. Abriu caminho por entre o aglomerado humano, empurrando as pessoas com as mãos. Sentia que algo inacreditável tinha se desenrolado em seu interior, e precisava compartilhá-lo. Precisava dizer a Anja, precisava dizer que se sentia como uma borboleta, que acreditava que se atirasse dos telhados naquela noite misteriosa, poderia voar.

O sentimento foi crescendo em intensidade, a respiração cada vez mais intensa. Estreitava os olhos procurando. Não os encontrava. Não a encontrava. Deteve-se subitamente como se tivesse ido de encontro a algum tipo de parede invisível. Tudo se fez estático, desesperadamente congelado. Sentiu que o coração lhe saía pela garganta. Perdeu o equilíbrio e sentiu-se um pouco tonta. Estaria enjoada? Mentalizou que daria um passo, mas não conseguiu se mover. Os olhos estavam fixos nas duas silhuetas quase fundidas uma na outra, nas carícias, naquelas mãos delicadas e desconhecidas deslizando por entre os cachos volumosos, nos olhos fechados e serenos de Anja e na sua boca avermelhada colada à de uma garota alta e bonita. Os corpos colados, pareciam nem se lembrar de que estavam no contexto da festa. Dina sentiu que o ar lhe escapava, e não conseguia nem pensar em mandar ao seu corpo que respirasse. Sentiu que estaca caindo para trás. O barulho, as cores, o cheiro, tudo se fundiu numa confusão profunda como se ela estivesse no olho de um furacão. Precisava sair dali. Cambaleou, quase sonhando, por entre as pessoas, que lhe davam passagem pensando que estivesse embriagada. Sentia-se cada vez mais sufocada, procurando por ar. Quase caiu. Por fim estendeu a mão para a frente e conseguiu projetar-se para fora. Ficou de pé, ofegando, parada de costas para uma das portas de entrada. Não ouviu quando as pessoas fumando apoiadas na parede lhe chamaram para se juntar a eles. Quase não percebeu quando Tom apareceu do seu lado, as maçãs do rosto levemente avermelhadas pela bebida. Mas não estava muito alterado.

— Resolveu sair? — ele perguntou, bem-humorado — Eu estava achando o calor lá dentro insuportável. Fazia tanto tempo que não sentia calor.

Esperou alguns segundos. Como ela não lhe respondeu, ele se voltou para enxerga-la um pouco melhor. Franziu as sobrancelhas, a típica ruga de preocupação se formando entre elas.

— Dina? Está tudo bem?

Ela se voltou bruscamente e o encarou.

— É meu melhor amigo — disse, e era quase como se não soubesse que palavras estava dizendo — Você é incrível, Tom, muito obrigada por tudo. Ter passado esses anos todos ao seu lado foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido, e praticamente me salvou em muitos momentos na minha vida. É muito especial para mim.

Ele abriu a boca sem dizer nada. Relaxou as sobrancelhas e abriu os olhos, surpreso. Não era comum ouvir esse tipo de declaração da amiga. Coçou o cabelo timidamente e pigarreou.

— Você... Também é muito especial para mim, Dina.

Dina ergueu uma sobrancelha imperceptivelmente, como se algo nela tivesse notado algo particular no tom de voz do garoto antes mesmo de que ele se aproximasse suavemente e colocasse a mão por trás de seu ouvido. Ela recuou, assustada, e provavelmente o encarou com uma expressão terrível, já que o garoto recuou também e perdeu a cor do rosto. Abriu a boca para falar mais uma vez, mas parecia que engasgava.

— Dina, eu... Dina... Eu não queria... Eu tinha entendido que... Sou um imbecil, me perdoe, por favor! Não consigo acreditar, não sei no que estava... Dina, me desculpe...

Ele recuava e respirava pesadamente. Passou a mão pelo rosto, e era notável seu desespero.

— Tom, eu estou passando mal — ela disse, quase num murmúrio. De fato sentia-se vazia de um jeito estranho, da mesma maneira que antes se sentira cheia. Parecia que sua pressão tinha baixado e tinha vontade de vomitar.

— Passando mal? — ele se aproximou muito temeroso como se quisesse acudi-la, mas não tivesse coragem de tocá-la outra vez — O que está sentindo?

— Acho que vou morrer, Tom — ela sussurrou, as pernas cedendo um pouco. Ele a segurou a tempo e deixou que recostasse a cabeça, que parecia infinitamente pesada e pulsando, em seu peito.

— Você bebeu água alguma vez? Está com vontade de vomitar? — era claro que ele se esforçava ao máximo possível para deixar de lado o que quer que estivesse sentindo para se ocupar da situação mais urgente, mas também era claro que era custoso — Dina, precisa se esforçar para se manter acordada.

— Tom, pode me levar para casa?

— É claro.

Ele a ajudou a se aproximar lentamente de um carro. Abriu a porta e a fez sentar. Logo assumiu a direção e eles se afastaram da festa. Seguiram em um silêncio terrível. Chegaram à porta e ele a ajudou a entrar antes de ir embora, derrotado. Ela nem percebeu que as mãos que a levaram da porta até o quarto eram as de sua mão. Nem percebeu que a fizeram beber água, que a deitaram em sua cama e apagaram as luzes. Percebeu apenas que a lua erguia-se, alta e deslumbrante.