Os olhos faiscavam. Apoiada no batente da porta com os braços cruzados e uma tensão descarregada nos ombros, ela encarava a silhueta robusta, os braços repousando no joelho que faziam com que ele se recostasse para frente. A barba havia crescido um pouco, ele parecia sujo. Ainda não havia percebido a presença da garota, que enrijecia o maxilar como se tentasse com todas as forças resistir ao impulso de dizer coisas horríveis. O brilho da televisão iluminava o rosto do pai com um brilho azulado. A boca recurvava-se levemente para baixo em um dos cantos, o que desde a juventude dera àquele homem uma quase permanente expressão de insatisfação. Ela comprimiu os lábios e pensou em simplesmente se voltar e ir embora. A verdade é que estava prestes a fazer isso quando ele se voltou.

— O que está fazendo aí parada? — disparou, brusco. O olhar ainda era o mesmo, frio e preciso. Ela não se dignou a responde-lo. Retribuiu a frieza do olhar e começou a caminhar decididamente pela porta do quarto. Ele a agarrou pelo pulso e ela se deteve, alarmada, os olhos arregalados — Eu te fiz uma pergunta, insolente. Onde estava até agora? Num prostíbulo?

Anja sabia que não valia a pena tentar se desvencilhar. Apenas respirou profundamente e esperou, em silêncio. Ele a puxou para trás, forçando-a a ficar de frente para si. Ela evitou seu olhar, encarando os próprios pés, a boca trêmula.

— Responda!

Ela conseguiu ver o rosto da tia com o rabo do olho. A velha esticou o busto para fora de sua porta, observou a situação por alguns instantes, soltou um bufo de desdém e voltou para o isolamento. Aquilo fez com que a garota a odiasse ainda mais. Arfou por um instante quando o pai aumentou minimamente a pressão em seu pulso.

— Me solte! — gritou. Ele obedeceu, provavelmente por surpresa, mas ela não ousou simplesmente sair dali. Ele continuou encarando-a de forma inquisitória — Estava em uma festa da faculdade. Eu avisei a tia que iria.

— Então estava em um prostíbulo — o pai replicou, desdenhoso.

— E onde é que você estava nas últimas semanas? — Anja disparou, sem pensar. Arrependeu-se imediatamente, mas sustentou o olhar intenso e faiscante. O pai estreitou os olhos.

— Isso não é da sua conta.

— Já acabou? Posso ir dormir?

Ele se levantou, fazendo-se notar seu enorme tamanho.

— Você não vai me tratar desse jeito — disse, ríspido. Ela fechou os olhos devagar. Percebeu que cerrava os punhos com tanta força que a unha do dedo médio havia perfurado sua pele, e um fio de sangue quente escorria pela palma de sua mão.

— Estou cansada, pai — ela sussurrou, e de fato estava. O homem simplesmente a olhou de baixo para cima com desprezo, renegando-a mil vezes, deu as costas e foi para o próprio quarto. Como que aliviada de algum tipo de fardo, Anja soltou a respiração e apoiou-se com os braços no sofá. Balançou a cabeça, repetindo para si mesma que havia sido uma boa noite, havia sido uma boa noite.

Deslizou até o próprio quarto e fechou a porta atrás de si. Viu-se sozinha, as costas pressionadas contra a parede, abraçando-se a si mesma. Respirou profundamente por alguns instantes e procurou afastar do pensamento o pai. Quando fechou os olhos, reapareceu em sua mente a imagem feitiço de Dina movendo-se como se nada mais houvesse. Acompanhou mais uma vez cada troca de peso com o olhar, os braços acompanhando cada torção, e seu rosto brilhando. E mais uma vez perdeu-a para a multidão. Suspirou. Caiu de joelhos na cama, sem conseguir conter o sorriso leve que se manifestou em seu rosto. Enterrou a cara no travesseiro, apenas para erguer-se novamente e apoiar a testa no vidro da janela. Imaginou quase uma aurora boreal, colorida e graciosa, dançando como Dina dançara. Esticou o braço para abrir a gaveta da escrivaninha e tirou de lá a caixinha de cigarros de chocolate, que havia roubado do balcão da loja no andar de baixo quando a tia não estava olhando. Lentamente, como que distendendo o tempo, levou um dos cigarrinhos à boca e repetiu seu ritual. Mas dessa vez desenhava na fumaça imaginária os movimentos daquela dança mágica.

Não havia encontrado nenhum dos dois amigos quando a festa acabou. Por um instante sentiu-se... Abandonada? Mas logo deixara o sentimento de lado, sem conseguir pensar em outra coisa que não fosse Dina rodopiando. Aquele momento, em seu quarto, sentiu um gosto estranho na boca e levou alguns segundos para identifica-lo. Batom. O batom que usava aquela garota desconhecida a quem ela beijara. Sobressaltou-se. Por algum motivo tinha esquecido completamente desse momento da noite. Sentiu-se mal pela garota por um instante, mas rapidamente se deu conta de que ela provavelmente também não se lembrava. Não queria realmente tê-la beijado, e não conseguia pensar no que a havia motivado a fazê-lo. Estava confusa. O quarto parecia pequeno. Olhou por alguns instantes para a noite lá fora e lhe ocorreu uma lembrança muito antiga da mãe.

— Feliz aniversário, Anja.

Ela tinha, como em outras lembranças, um cigarro pendurado na boca. Mas dessa vez sorria. Os olhos ainda tinham um brilho quase adolescente. A pequena Anja, com pouquíssimos anos de idade, caminhara timidamente até um pequeno embrulho quadrado num canto da varanda. Sentiu o olhar terno da mãe enquanto rasgava cuidadosamente o papel de presente e abria a caixa. Retirou de dentro, com todo o cuidado, uma miniatura de casinha. Cada detalhe havia sido pintado a mão, e apesar de pequena a garota imaginou que a mãe provavelmente era quem tinha feito tudo aquilo. Observou a fumaça do cigarro da mãe se dissipando no ar, e se sentiu muito feliz com o presente que havia ganhado.

Engoliu em seco. Não tinha uma lembrança boa para associar à mãe havia muito tempo. Ergueu as duas sobrancelhas ao sentir a lágrima dependurada no queixo cair sobre a mão. Estou chorando? Levou a mão ao rosto e sentiu um gosto salgado e suave. Também não chorava havia muito tempo.