Mariposas
11 Docas
Notas iniciais
Dina estava de pé, uma brisa suave arrastava consigo alguns fios de cabelo para a frente de seus olhos, além de carregar o sal e o cheiro de maresia. Os poucos barcos coloridos atracados, um ou dois contêineres gigantescos, a madeira escura do cais, e a infinidade serena do oceano de águas escuras e misteriosas compunham uma paisagem que para ela havia sido um refúgio por boa parte de sua vida. Não se ouvia nada além do ruído branco do mar e alguns estalos da madeira. Normalmente ela teria caminhado diretamente até o contêiner maior, no qual apoiaria as costas ao se sentar, e entraria num pedaço de sua existência que era absolutamente particular e precioso. Mas naquele dia, no centro de seu refúgio havia algo diferente, um ser estranho, o que mudava tudo. Dina estava de pé há vários minutos, em silêncio, como se tentasse em seu íntimo compreender como é que alguém poderia ocupar aquele espaço sem mais nem menos, dissolver tudo o que ele significava. Contemplava a silhueta feminina, apoiada com os braços para trás, os cachos balançando levemente, e sentia-se traída por alguma coisa, pelo universo. Sua indignação crescente enfim se tornou insuportável. Ela imaginou que gritaria, que se manifestaria com frieza e objetividade, que seria imensa. Ela na verdade soou tímida, um pouco triste.
— Você descobriu as docas sozinha então.
Anja levou alguns instantes para se voltar. Assentiu, sem dizer nada.
— Pensando bem foi estúpido pensar que você nunca as encontraria se eu não mencionasse sua existência — Dina continuou, como se estivesse falando consigo mesma. A outra garota a encarava com expectativa, e parecia convidá-la a se sentar ao seu lado. Dina, contudo, ainda estava de pé no mesmo ponto onde estivera até então. Engoliu em seco — Tem o mar como na praia, mas é vazio e mais silencioso.
— Tem razão — Anja concordou, falando por fim. Parecia identificar que algo estava errado, ou estranho, mas não conseguia entender o que — Vai ficar aí de pé?
As pernas de Dina pareceram mover-se contra a sua vontade, levando-a até o centro do cais onde Anja estava. Ela se abaixou e ficou de cócoras, mas não quis se sentar. A cabeça latejava, apesar do comprimido que ela tomara mais cedo naquela manhã. Ela evitava olhar diretamente para a outra, concentrando-se em algum ponto nas águas calmas que balançavam levemente os cascos dos barcos atracados. Queria dizer alguma coisa, queria protestar sem saber direito sobre o que, mas as palavras pareciam agarrar-se com toda a força à sua garganta, recusando-se a sair de lá. Conseguia sentir o olhar curioso da outra garota sobre si, e tentava ignorá-lo.
— O que há, Dina? — Anja perguntou, por fim — Estou te incomodando?
Ela não respondeu de imediato. Nem sabia direito como responder. Abriu a boca e fechou-a em seguida. Pensou por mais alguns instantes e abraçou as próprias pernas.
— Eu te vi mais tarde na festa — disse, em tom neutro. Anja não entendeu.
— Eu perdi você e Tom logo no começo, quando começamos a dançar. Procurei vocês, mas era realmente uma festa muito cheia de gente — ela sorriu, e fez uma pausa — Você dança muito bem.
— Não, eu te vi mais tarde na festa — Dina se voltou — Você não estava me vendo.
Anja pareceu ainda mais confusa. Sem saber ao certo o que dizer, esperou que a outra continuasse.
— Estava com uma garota — Dina acrescentou, após algum tempo, e desviou o olhar mais uma vez. A outra ergueu as sobrancelhas, compreendendo. Voltou-se, sentando-se de frente para ela. Parecia esperar qualquer coisa, mas nada acontecia.
— Sim — ela disse — Eu nem sei direito como aquilo aconteceu.
— Você não pensou em nos contar?
— O quê? — Anja ergueu uma sobrancelha.
— Não pensou em nos contar? Que você.
— Não estou entendendo, Dina.
— Por que não contou para Tom e para mim que você... Que você gosta de.
— De garotas — Anja se endireitou, franzindo o cenho — É difícil dizer em voz alta?
— Eu não consigo entender porque não nos contou. Devia ter contado. Quer dizer, eu gostaria de ter sabido. Eu não entendo porque não pensou em. Nem chegou a pensar em?
— Não contei — ela interrompeu — Não achei que era importante. Não achei que fazia diferença. Estava enganada? — fez uma pausa, e como Dina não respondeu ela insistiu — Faz diferença?
— Não é que... Eu. — Dina calou-se. Não conseguia entender o que estava sentindo naquele momento. Parecia que sua cabeça girava, como na noite anterior. Não sabia responder. De fato, por que aquilo seria importante? Ela tentava balbuciar qualquer coisa, mas sentia-se completamente desorientada.
— Dina — a voz séria de Anja despertou-a de sua divagação — Isso muda alguma coisa?
— Não devia — foi o que Dina conseguiu responder. Sua respiração estava um pouco entrecortada, e não conseguia encarar a outra garota de frente. Patética. Era isso, sentia-se patética. Uma aparição completamente ridícula, que nem sabia direito o que estava dizendo ou pensando.
— Não devia... Então muda? Eu preciso dizer que isso me deixa um pouco chateada... Dina?
A garota recurvara-se para a frente sobre si mesma, apoiando as duas mãos no chão como se fosse vomitar. Estava trêmula. Sem dizer nada, Anja se aproximou suavemente e repousou uma das mãos em seu ombro. Dina procurou concentrar-se naquele toque gentil. Cerrou os olhos e respirou profundamente algumas vezes, até conseguir se acalmar um pouco. Anja a ajudou a sentar-se numa posição mais confortável.
— O que está acontecendo, Dina?
— Eu não sei — ela admitiu. Encarou o rosto preocupado de Anja, os lábios em formato de coração, os olhos grandes e misteriosos. Naquele momento sentiu mais uma vez o impulso inexplicável de contar a ela tudo sobre tudo, de passar horas a fio conversando sobre tudo sobre o que se pode conversar, e encarando como um enigma aqueles olhos escuros. Respirou fundo — Me desculpe, Anja. Eu não sei o que deu em mim. Tenho estado estranha.
— Desde que eu cheguei?
— Eu pensava que sim — Dina suspirou — Mas na verdade acho que só te usei como um pretexto. Tenho estado estranha há algum tempo, não sei bem o que está acontecendo ou por que está acontecendo. Às vezes eu me sinto como uma estranha em mim mesma, uma intrusa, fora de mim. Tento me reconhecer em alguma coisa, qualquer coisa, sabe? Em pessoas diferentes, em alguma coisa que eu escreva, em alguma coisa na graduação, em lugares como essas docas, em insetos como borboletas. Mas não me reconheço em nada, porque talvez eu nem me conheça em primeiro lugar para poder me reconhecer. Eu sinto uma coisa estranha às vezes, principalmente de madrugada. Não sei bem se é uma solidão, não parece que é. É como se de repente eu não entendesse mais nada, não conseguisse perceber o que as coisas significam ou que elas são o que elas são. Eu me sinto enfeitiçada por qualquer coisa, e a lua ainda fica me encarando, desdenhosa, porque ela sabe que é lua e eu não sei que sou eu. Meu padrasto está triste, e eu não sei por que, e nem me dei ao trabalho de perguntar. Eu não gostava dele, mas de repente sinto que temos algo em comum que eu nunca tinha visto antes, e que ele só quer que minha mãe se sinta amada e feliz. É o tipo de coisa que eu não percebo porque não tenho percebido nada. Sabe, ontem quando eu dancei eu achei que tinha encontrado alguma coisa, eu achei que finalmente tinha reconhecido alguma coisa. Mas aí depois me senti completamente vazia. E te vi beijando aquela garota, e você parecia tão segura como sempre parece, e eu me senti patética. E depois o Tom tentou me beijar, e eu não sabia o que fazer porque eu não enxergo ele dessa maneira, e ao mesmo tempo que eu preciso muito de seu companheirismo eu não quero força-lo a conviver comigo se ele sofrer porque ele gosta de mim de outro jeito. Eu...
Ela prendeu a respiração. Anja a encarava, e Dina não sabia o que sua expressão queria dizer, o que a deixava ainda mais desesperada. Por que tinha dito tudo aquilo? Enrubesceu e comprimiu os lábios, desviando o olhar. Uma pequena onda quebrou num dos cantos do cais, e algumas gotas salpicaram em seu rosto.
— Eu acho que estou segura do que eu sou, isso é verdade — Anja disse — Mas isso não significa que seja mais fácil ou que eu seja incrível por isso. As pessoas as vezes não gostam do que você é, e a sua segurança as incomoda ainda mais.
— Mas a coragem que se precisa ter para assumir esse incômodo! — Dina exclamou — Eu queria ter um terço dessa coragem.
Anja encolheu os ombros.
— Não sei. Acho que independentemente de tudo isso, todo mundo se sente patético às vezes. Você disse que eu parecia segura beijando aquela garota... Eu nem sei bem se eu queria que aquilo tivesse acontecido — ela, que estivera encarando o chão, voltou-se mais uma vez para Dina — Você diz coisas malucas. São inacreditáveis. Eu queria dizer coisas assim também.
— Anja, se você fosse um animal, qual você acha que seria?
— Eu sei lá. Um furão?
As duas riram. Ficaram alguns instantes em silêncio.
— Bem... Vou te deixar sozinha com suas docas. Preciso ir trabalhar na loja, de qualquer jeito — Anja sorriu — Até mais, Dina.
Ela se levantou e foi embora. Dina continuou ali sentada por um bom tempo.
Fale com o autor