Mariposas
12 Dois
Quando acordou e viu o teto e as manchas de infiltração no teto, o acolchoado esverdeado, a mesa de cabeceira, a caixa de papelão com as roupas, a janela, a porta. Quando acordou e viu as coisas, e sentiu cheiro de café e bolor, e ouviu um ou outro carro passando. Quando acordou e percebeu o mundo, pensou que naquela manhã ele se parecia com uma espécie de quebra-cabeças. Era como se dividisse em vários pedaços coloridos de papelão, várias coisas individuais, e era ela quem devia juntar tudo com um exercício mental. A ideia não a desanimava. Muito pelo contrário, sentiu-se tão instigada que se sentou na beirada da cama, a ponta dos pés roçando o frio do chão, e decidiu que queria muito dedicar-se ao complicado quebra-cabeças que estava diante dela. Ainda sentada, usou o elástico que passara a noite deixando uma marca em seu pulso para prender os cachos em um rabo de cavalo alto. Despiu-se e, encarando o armário de pé, escolheu vestir suas roupas favoritas. Abriu a porta e se esgueirou até a cozinha. A tia já havia saído, o pai também. Encontrou menos de uma xícara de café na garrafa térmica, que bebeu devagar. Ficou na ponta dos pés para abrir o armário mais alto ao lado da geladeira, o que continha as guloseimas deliciosas e proibidas da tia. Decidida, estendeu a mão para pegar a mais preciosa de todas: uma caixa azul decorada de dourado com biscoitos de toda sorte. Sentou-se em cima da mesa e comeu todos os biscoitos que restavam, um a um, para depois colocar a caixa outra vez onde a encontrara. Sentia-se ótima.
Desceu as escadas ruidosamente, empurrou a porta de vidro da loja e a trancou atrás de si. Na rua, além dela, não havia ninguém fora um velho apoiado em um carro, o olhar perdido em qualquer coisa. Ainda sentindo o gosto dos biscoitos, ela caminhou marcando quase que um ritmo com os pés, o olhar direto sempre à frente e os braços balançando ao seu lado. A bolsa, que tinha um chaveiro, fazia um barulho metálico a cada passo que ela dava. Não precisava pensar para tomar o caminho de todos os dias. Chegando na parada de ônibus, nem precisou se sentar já que o coletivo já estava ali, como se esperasse por ela. Quando desceu, deteve-se de pé. Voltou as costas para a faculdade e ficou olhando para a rua, para os carros e pessoas que passavam. Uma mãe arrastando o filho pela mão, um adolescente sendo levado por um cachorro na coleira, um motorista de táxi com o braço para fora da janela e um olhar entediado, um homem alto e corpulento enfiado num terno de executivo. Fazia calor.
Ela sorriu, sem saber ao certo o motivo, e atravessou o pátio da entrada. Não prestou um mínimo de atenção nas primeiras aulas, e assim que terminaram ela começou a caminhar até o banco ao lado da lanchonete mais isolada onde se encontravam sempre. Sentia coisas. A princípio não estranhou o fato de que só Tom estava ali sentado, recurvado sobre si mesmo como sempre, olhando para as próprias mãos. A verdade é que demorou para notar que ele não trazia a expressão descontraída e divertida de sempre, e que pelo contrário parecia distante e triste. Ele, por sua vez, também demorou para perceber que ela se aproximava. Assim que ela conseguiu ver seu rosto com mais clareza, foi desacelerando os passos e uniu as sobrancelhas. Lembrou-se então do que Dina havia dito, além de tudo o mais que havia dito, e entendeu porque ele estava ali sozinho e não acompanhado por ela, e porque tinha aquela expressão no rosto. Parou de pé. Ele não olhou para ela imediatamente. Parecia bastante concentrado nas próprias mãos, ou em qualquer outra coisa que estivesse vendo em suas mãos. Vendo-a perifericamente, a Anja, deduziu que ela já sabia pelo modo como o encarava. Então apenas ergueu um pouco o rosto.
— Ela está bem? — perguntou. Anja se sentou ao seu lado.
— Está tentando descobrir várias coisas, por isso está confusa. E ficou confusa.
— Mas está bem?
Ela pensou. Pensou que se a conversa que as duas haviam tido tivesse sido para Dina como havia sido para ela, a garota certamente estava bem, sentindo alguma coisa incompreensível e instigante, e pensando bastante. Mas não disse nada disso.
— Sim — foi direta. Esperou. Ele parecia ter muita dificuldade em dizer qualquer coisa. Passou a mão devagar pelos cabelos, ajeitou-se no banco.
— Isso é bom — ele disse, enfim. Suspirou — Eu não acredito que estraguei tudo — fez uma pausa — Nem sei há quanto tempo já somos amigos, e eu nem pensei duas vezes. É impressionante — ele abriu um sorriso triste e encarou-a — Como nós garotos somos narcisistas. É só uma garota fazer um elogio qualquer, dizer que somos boa companhia, que assumimos automaticamente que está perdidamente apaixonada por nós. Honestamente não sei como vocês aguentam conviver conosco.
Anja riu. Tom suspirou mais uma vez e balançou a cabeça. Olhou ao redor com uma esperança sem muita convicção, como se Dina fosse aparecer caminhando, tranquila. Sentiu a decepção apesar de já esperá-la.
— Não acha que deveria perguntar a ela como ela se sente?
— Eu quero, e quero muito. Mas sinto que mais que tudo eu tenho que respeitar o espaço dela, eu — ele desviou o olhar — eu não quero ser invasivo. Não sei se ela está lá muito a fim de falar comigo. E eu entendo completamente se ela não estiver.
— Bem, ser cauteloso é bom de fato. Mas mesmo que isso mude a amizade de vocês para sempre — o garoto fez uma cara desesperada, e ela ergueu uma mão indicando que não tinha terminado — e eu não acho que vai acontecer qualquer coisa muito definitiva, mas mesmo que acontecesse, não seria bom que vocês tivessem uma conversa tranquila? Quer dizer, você mesmo disse, já são amigos há muito tempo.
— Você falaria com ela? Digo, perguntaria se ela quer conversar? Só por isso, para ela não precisar — ele pensou por um instante — bem, ver minha cara, literal e metaforicamente, se ela não quiser.
— Eu posso falar com ela sim.
— Obrigado. De verdade. Você não deve tê-la visto logo depois da festa... Estava terrível, Anja. Já não parecia bem e acho que a deixei ainda pior. Por isso estou tentando tomar o máximo de cuidado possível... Quando eu a levei para casa, porque estava passando mal, não trocamos uma palavra. Eu entendo, eu provavelmente também não quereria conversar se... Enfim, com certeza ela estava se sentindo muito mal, muito pior que eu. É só que...
— Está tudo bem — Anja interrompeu — Eu sei que você se preocupa muito e leva muito em consideração os sentimentos dela. Mas você pode dizer que também está triste com tudo isso.
Ele suspirou.
— É, talvez — e se voltou — Vocês têm se aproximado bastante, não é? Isso é bom. Sabe, eu nunca tinha visto ela querer fazer muitos amigos por aí. E com você parece que está dando muito certo.
Anja enrubesceu. Tom ergueu uma sobrancelha por um instante, como se não tivesse entendido bem a reação da garota, mas não deu muita atenção àquilo.
— É, acho que sim — ela disse — Eu fico feliz. Dina é uma pessoa incrível.
— É mesmo. Dina é uma pessoa incrível.
Os dois ficaram sentados até que se iniciou o período da tarde, e não precisaram trocar mais nenhuma palavra por todo esse tempo – os dois pensando carinhosamente na mesma pessoa.
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