Dina tentava enxergar através da espessa cortina de chuva fria e cinzenta. Os olhos semicerrados, conseguia sentir o peso das gotas sobre o abrigo de chuva amarelo que não fazia realmente muita diferença. Sentia-se cansada e desanimada, e procurava distrair-se contando os postes de luz pálida e amarelada pelos quais passava. Um, dois, três, quatro. De vez em quando algum carro corria, ofuscando sua visão com seus faróis e encharcando-a ainda mais, e ela suspirava cobrindo o rosto com a mão para não acabar engolindo a água. Encontrou finalmente uma loja com toldo, e abrigou-se debaixo dele se abraçando por causa do frio. Sentia o celular vibrando no bolso da calça, e com alguma dificuldade tirou-o de lá.

— Onde você está? — a voz do outro lado da linha soava preocupada.

— No caminho ainda. Está chovendo muito.

— Quão longe está?

— Não tão longe. Tenho que desligar, mãe.

— Não demore.

Ela suspirou, recostando a cabeça na vitrine iluminada. Achou alguma graça naqueles manequins posando e nos rostos pintados em suas cabeças. A verdade é que por mais desagradável que estivessem a chuva e o frio, Dina não estava ansiosa para chegar em casa e encontrar seu padrasto apoiado no batente da porta com os braços cruzados, encarando-a de cima a baixo e dizendo algo sobre como era irresponsável a maneira como agia. Deixou que a mochila escorregasse até o chão, já que estava pesando em suas costas, e alarmou-se quando ouviu o nítido barulho de vidro estilhaçando assim que ela aterrissou.

— Merda!

Abaixou-se e abriu o zíper da mochila, desajeitada, apenas para ver todo o seu conteúdo molhado e coberto por cacos de vidro e flocos falsos de neve. Sacudiu a cabeça, repreendendo-se por não ter se lembrado de que o globo estava ali dentro, e procurou com cuidado as duas figuras em miniatura: uma garota e um cachorro desproporcionalmente maior que ela. Conseguiu não se cortar no processo, e assim que achou as duas figuras colocou-as no bolso da calça junto com o celular. Talvez pudesse arranjar um outro globo no qual coloca-las? Fechou a mochila e colocou-a nas costas outra vez.

— Merda — repetiu, com menos convicção e mais desânimo. Pensou em chamar um carro. Não estava muito longe então não devia ficar tão caro. Incerta, desbloqueou o celular apenas para ver a tela se apagando logo após o aviso luminoso de “SEM BATERIA”. Escondeu o rosto nas mãos para abafar algo como um grito de insatisfação, e recuou assustada quando as luzes na loja atrás dela se acenderam e uma garota apareceu, encarando-a com uma sobrancelha erguida. Estava enfiada num pijama de bolinhas coloridas, os pés aquecidos por pantufas cor de rosa. Dina desejou que o vidro entre elas fosse uma parede de sólido concreto, para que a outra não pudesse ver o sangue subindo-lhe à cabeça pela vergonha que sentia. Ergueu uma mão como que para se desculpar. A garota apontou para a mão com um indicador e ergueu ainda mais a sobrancelha. Só então Dina notou que um pequeno corte sangrava ali. Quase conseguiu não se cortar. Sorriu, sem graça, e abaixou a mão. A garota, que até então segurava um molho de chaves, enfiou uma na fechadura e abriu a porta de vidro devagar. Hesitou por um instante.

— Você está bem? Está perdida? — perguntou. Dina abriu a boca para responder mas sentiu-se incapaz de dizer qualquer coisa. Queria desaparecer. Balançou a cabeça.

— Eu estava andando para casa e parei por um instante por causa... Por causa da chuva.

A garota olhou para o abrigo velho de chuva que Dina vestia.

— Quer um guarda-chuva?

— Eu... — ela pensou por um instante — Posso carregar meu celular? Ia chamar um carro mas a bateria acabou.

Arrependeu-se instantaneamente ao ver a expressão desconfortável da garota, que cerrou os lábios e olhou de Dina para dentro da loja.

— Eu não poderia deixar entrarem a essa hora — fez uma careta e chacoalhou a cabeça — Mas que seja. Tem uma tomada aqui do lado da vitrine.

Empurrou a porta, deixando que a outra entrasse. Dina dirigiu-lhe um olhar agradecido e abriu o bolso da frente da mochila para pegar o carregador. Cerrara o punho na mão em que estava o corte, mas o sangue começava a escorrer pelo seu antebraço. A garota apontou outra vez.

— Já que já está aqui, quer lavar isso aí? Acho que tenho algum curativo na gaveta do balcão.

— É... Muito obrigada.

Ela lavou a mão e colocou o curativo com personagens de desenho sobre o corte. Então sentou-se ao lado da tomada e encarou a tela de vidro esperando a carga. As duas ficaram num silêncio constrangedor, a garota de pé e de braços cruzados bocejando algumas vezes. O celular enfim ligou, e Dina logo viu os faróis do carro que pediu detendo-se em frente à loja. Tirou o carregador da tomada e o enfiou rapidamente na mochila.

— Muito obrigada. Mesmo — disse, enquanto saía. A garota apenas sorriu, os olhos semicerrados de sono. Dina ainda a viu enquanto fechava a porta da loja, apagava a luz e desaparecia nos fundos. Entrou no carro e sentiu-se exausta.