Mariposas
2 Anja
— Anja Feuer.
— Pode soletrar? A-N-I-A F-E-U-E-R? — a secretária ajustou os óculos e revirou a caneta entre os dedos, entediada.
— É A-N-J-A, com jota. Só se pronuncia “Ania”. O Feuer está certo — a garota respondeu, distraída. A secretária escreveu alguma coisa em uma ficha e olhou por alguns instantes para a tela do computador.
— E qual a situação exatamente?
— A minha confirmação de matrícula não foi enviada. Recebi uma notificação dizendo que tinha tido algum problema, mas recebi até os horários do semestre, como se tivesse dado tudo certo.
— Acontecem algumas falhas como essas. Pode me passar seus dados? Eu posso confirmar agora.
Anja abriu a bolsa de carteiro pendurada no ombro e tirou de lá uma folha de papel meio amassada. Entregou para a secretária e apoiou-se de costas no balcão, esperando. Entreteve-se reparando em detalhes nas pessoas que passavam com suas bolsas e mochilas, os sorrisos, as expressões cansadas, as unhas coloridas, casais com os braços entrelaçados, uma garota com uma mancha em formato de estrela acima da sobrancelha, uma argola no lábio. Ouviu o barulho da impressora e se voltou para receber uma folha.
— Essa é a confirmação, seu comprovante. Já está matriculada em tudo, tinha sido uma falha no sistema mesmo.
Anja agradeceu e dobrou a folha de papel. Caminhou até um mural na parede e procurou com o indicador a sua primeira aula. “Cálculo II”, na sala doze. Voltou-se e esbarrou numa garota com a mochila pendurada em um dos ombros, o cabelo escuro preso para trás com uma presilha vermelha. Era a garota da noite anterior, que carregara o celular na loja para pedir um carro. As duas se encararam num silêncio constrangedor por alguns instantes, até que Anja deu um sorriso e estendeu a mão.
— Olá outra vez!
— Olá — a outra garota respondeu, mas com o olhar petrificado que tinha pareceu que sua boca se movia contra a sua vontade.
— Você estuda aqui?
Ela confirmou com um aceno de cabeça. Inclinou-se para o lado e estreitou os olhos na direção do mural, apontando então para os horários do curso de Artes Cênicas. Anja pareceu surpresa.
— Artes Cênicas? Desculpe a surpresa, é só que você parece tão...
— Tímida? — a garota abriu um sorriso — Eu sou sim. Estou fazendo habilitação em dramaturgia na verdade, então eu só escrevo. Mas uso as aulas de atuação para ver se... Ajuda em qualquer coisa. E você estuda aqui? Eu nunca tinha te visto antes de... Bem. Ontem.
Anja riu.
— Eu me transferi para cá a partir desse semestre. Eu estudava em uma universidade em Essen, mas... — por um instante assumiu uma expressão de desagrado, e encarou o chão, mas logo retomou o sorriso — Bem, acabei tendo de me mudar para cá. Faço Arquitetura.
— Ah, sim.
— E como vai a sua mão? — Anja disse, após um silêncio constrangedor de alguns instantes. A garota pareceu confusa. Olhou então para a própria mão, viu o curativo e se lembrou.
— Ah! Está tudo bem. Era só um corte superficial, uma coisa de vidro tinha quebrado dentro da mochila, então...
— Entendi. Que bom! — ela deu um sorriso vigoroso e olhou para o relógio perigosamente pendurado na parede, sua expressão se alarmou — Não sei como é a exigência quanto ao horário no seu curso e nessa universidade mas... Já se passaram sete minutos da hora de início da primeira aula.
— O quê? — a garota se voltou bruscamente para o relógio e seus olhos se escancararam — Eu não fazia ideia! Bem... — fez menção de dar um passo, sem saber muito bem se devia apenas ir embora, se deviam se cumprimentar. Por fim abriu um sorriso tímido e ergueu uma mão, se despedindo. Começou a andar rapidamente ao longo do corredor.
— Espere!
Ela se voltou.
— Qual o seu nome mesmo? Acho que não chegamos a nos apresentar. Eu sou Anja Feuer. Anja com jota, só se pronuncia “Ania”.
— Bem, eu sou Dinorá Papillon. Costumam me chamar de Dina.
— Papillon! Como borboleta!
— Sim — Dina disse, antes de sair correndo para a aula — Ou mariposa!
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