Marion Blanchard.
14 Vilarejo
Notas iniciais

– Onde conseguiu a carroça? – Indagou Sasuke, de pé, terminando de tomar seu leite quente em um copo branco de latão, já descascando.
– Com um velho amigo. Ele mora mais ao norte, próximo as montanhas. Fui durante a noite até lá e pedi emprestada. – Riu o grisalho, acariciando o focinho do único cavalo.
– Já podemos ir? – Perguntou Marion para Jiraya, assim que guardou a pequena lista dos mantimentos necessários para uma semana.
– Só mais uma coisa! – Falou posicionando as mãos de cada lado da cabeça da rosada, sem tocá-la, fazendo uma suave luz tomar o corpo dela – Pronto, agora podem ir.
– M-mas o q... – Deixou cair o copo na grama úmida do orvalho após ver como a garota estava – O que aconteceu?
– Não acredito que além de não poder usar meus poderes, ainda terei de andar assim. – Cuspiu Marion observando os fios de seu cabelo, antes rosados, agora negros.
– Desculpe, mas você precisa estar mais parecida o possível com uma humana. Seu cabelo rosa era chamativo demais.
– Hunf, assim que eu voltar desfaça essa porcaria. – Ordenou se posicionando no lugar de comando da carroça – Suba logo Sasuke, vamos sair daqui antes que ele resolva me privar de algo mais. – Falou enjoada.
– Até logo Jiraya-sama. – Despediu-se o moreno sentado ao lado da garota.
– Espero que você mantenha a calma, Marion. – Sussurrou o grisalho, apanhando o copo do chão, e os vendo se distanciar.
A manhã estava realmente agradável. O vento suave, o som dos pássaros e a temperatura ainda amena revelavam que ainda era muito cedo. Sasuke estava sentado desleixadamente quando uma das rodas da carroça passou por um buraco maior e o arremessou para cima de Marion.
– O que pensa que está fazendo ai? – Perguntou o olhando com uma das sobrancelhas arqueada.
Sasuke estava, inesperadamente, com o rosto entre os seios da garota. Não sabia como havia parado naquela posição, mas estava extremamente vermelho.
– Desculpe, não foi minha intenção. – Disse se afastando rapidamente e virando o rosto na direção oposta.
– Não me interessa suas intenções. – Respondeu irritada – Encoste em mim novamente e eu o farei conhecer a verdadeira dor.
– Já disse que foi sem querer. – Falou entediado – Seria bem mais rápido se você apenas usasse suas asas. – Cruzou os braços.
– Prometi a Jiraya que não usaria, além do mais qualquer mínima magia que eu use cancelaria a transformação.
– E ainda demorará até chegarmos? – Questionou observando alguns alces correndo entre as árvores.
– Ali está. – Falou olhando para frente – O formigueiro.
Mais alguns minutos e finalmente a carroça parou. Embora fosse cedo, muitas pessoas já se encontravam nas ruas tornando assim o local consideravelmente barulhento. Marion prendeu o cavalo em uma pequena cerca apropriada, embora mantendo a máxima distância possível das outras carroças presentes no lugar e entregou a lista de mantimentos ao garoto.
– O cheiro desse lugar me enjoa. – Disse azeda.
Sasuke parecia extasiado, os olhos brilhavam enquanto fitava todas aquelas pessoas, afinal, fazia muito tempo desde que esteve em um lugar assim. Começaram comprando os grãos e especiarias.
A rosada, vez ou outra, soltava um murmúrio de reclamação quando o som do grito de algum comerciante ou choro de uma criança chegava a seus ouvidos sensíveis. Foi enquanto Sasuke conversava com um negociante que a situação fugiu de controle. Marion estava um pouco mais afastada olhando em todas as direções com sua típica face enojada, quando um rapaz ruivo, alto e jovem se aproximou.
– O que uma garota bonita como você está fazendo desacompanhada no meio de toda essa gente? – Indagou galante.
Não acreditou no que estava ouvindo. Olhou para o atrevido e franziu a testa em desaprovação ao constatar que estava recebendo elogios de um mortal.
– Dê o fora daqui. – Disse seca virando o rosto para onde Sasuke ainda estava.
– Ora essa, então além de linda é arisca? Gosto disso em mulheres. – Riu chegando mais perto. Aproveitando a aparente desatenção da rosada, segurou-lhe a mão e depositou um cortês beijo ali.
– Você tem exatos três segundos para me soltar. – Disse fechando os olhos, enquanto controlava a respiração.
– Não diria que sou capaz de me separar de mãos tão macias. – Continuou o cortejo sem parecer notar o perigo.
– Eu avisei. – E proferindo tais palavras, virou-se para ele e num rápido movimento socou a parte sensível de seu torso, bem abaixo do peitoral e acima da barriga.
Sasuke havia acabado a negociação quando se virou e viu a cena, arregalou os olhos e correu até lá. O ruivo estava desmaiado e as pessoas ao redor a olhavam completamente espantados.
– Não acredito nisso! – Encarou-lhe descrente – Mas o que foi isso agora?
– Agradeça por eu ter prometido a Jiraya que não usaria minha magia. – Falou simplesmente ignorando o moreno.
Continuaram o percurso como se nada houvesse acontecido, mesmo o garoto estando curioso sobre o que poderia ter ocorrido para que Marion reagisse daquela forma. Não demorou muito para que os cochichos das pessoas que presenciaram a cena se espalhassem pela feira e chegasse a seus ouvidos.
– Você o socou porque ele estava a elogiando? – Questionou ao saírem de mais uma tenda de especiarias.
– Não.
– Então...
– O soquei porque tocou em mim. – Disse em forma de aviso, fazendo o moreno abrir a boca incrédulo.
Assim o tempo decorreu, entre pechinchas e resmungos. Sempre que chegavam a alguma barraca mais movimentada, de alguma forma, eram atendidos logo. Sasuke só descobriu o motivo quando olhou furtivamente para trás e viu Marion com um olhar assassino direcionado ao vendedor. Balançou a cabeça negativamente e quando se afastaram a parou.
– Se pretende negociar é bom melhorar o seu humor.
– Não reclame, graças a minha presença você conseguiu bons descontos. – Respondeu impaciente.
– Isso é porque as pessoas estão com medo de você! – Falou gesticulando com a cabeça como se dissesse para olhar ao redor. As pessoas mal se aproximavam de onde ela estava parada.
– Hunf, eu não estou nem ai pra isso. Só quero acabar logo com essa porcaria toda.
Quando já se aproximava o meio da manhã, finalizaram as negociações. Sasuke estava sentado na mureta de proteção da pequena fonte ao lado das carroças e Marion permanecia de pé, com feições claramente incomodadas. Por um momento remexeu o nariz de forma engraçada e fez o moreno soltar uma pequena risada.
– Do que está rindo? – Questionou autoritária.
– Nada, nada. – Respondeu levantando e distanciando-se, a deixando parada sem entender. Pouco tempo depois voltou trazendo dois espetinhos de cogumelos assados, oferecendo um a ela.
– Não vou comer isso. – Resmungou com uma das sobrancelhas erguidas.
– Vamos lá, eu gastei minhas últimas moedas para comprar isso. – Insistiu já mordendo o seu.
A garota cheirou rapidamente a comida e, cautelosa, levou a boca. Mastigou por apenas alguns segundos e parou. A expressão vaga.
– Marion? Está tudo bem? – Perguntou preocupado, um rubor quase imperceptível se formava nas bochechas dela.
– Volte pra droga da carroça agora. – Ordenou arrancando a corda da cerca de forma bruta, já subindo no veículo e começando a guiá-lo. Sasuke precisou correr um pouco para conseguir subir.
– O que foi isso agora? Está tudo bem? – Continuava a perguntar, agora limpando a boca com a manga da camisa.
– Fique calado. – Mandou ríspida.
A carroça seguia em uma velocidade, relativamente, perigosa para aquela estrada sinuosa, mas Sasuke simplesmente parecia não conseguir se opor. O olhar compenetrado da rosada e sua expressão séria o faziam ficar concentrado em segurar-se para não ser projetado do veículo. Mesmo com o peso relativo dos sacos de mantimentos o cavalo cujo guiava o transporte parecia não se importar.
Chegaram à casa do velho Jiraya com apenas a metade do tempo que levaram para ir até o vilarejo. Marion, ainda descendo da carroça, liberou sua aura avermelhada de vez, fazendo a transformação ser cancelada e seguiu na direção da cachoeira. Jiraya que apareceu para ajudar a guardar os produtos olhou intrigado a cena.
– O que aconteceu? – Questionou começando a descarregar os sacos.
– Não faço a menor ideia. – Disse ainda olhando para onde a garota seguiu – Ela estava bem até momentos atrás, mas quando pedi para que comesse um espetinho de cogumelos ela mudou drasticamente de humor. – Revelou ajudando o grisalho a levar as coisas para dentro da casa – Acho que ela não gostou do sabor.
– Cogumelos? – Insistiu desconfiado.
– Sim. Cogumelos assados e temperados com pimenta. – Disse sem compreender.
– Pimenta? – Perguntou alarmado – Você deu algo temperado com pimenta para ela comer?
– É um tipo raro de pimenta, ela não deixa cheiro e é bastante saborosa. Qual o problema com isso? – Olhou para o homem com uma das sobrancelhas arqueadas.
– Marion tem os sentidos mais apurados do que os humanos. – Começou a falar levando a mão à testa – O que para você é como um leve ardor, para ela é como se ateassem fogo diretamente em sua boca.
– Eu não sabia disso! – Falou sentindo-se culpado – Então era por isso que ficava reclamando do cheiro das pessoas... – Sussurrou compreendendo – Eu só queria que ela melhorasse o humor.
– Entendo sua intenção, mas devia ter consciência de que o corpo dela é uma máquina de guerra, tudo é mais intenso.
– Acho que levarei um pouco de água pra ela... – Pareceu refletir um pouco.
– Não, a deixe só. – Sugeriu – O gosto não irá sair assim facilmente, ela precisa meditar para poder suportar a dor. – Completou terminando de guardar os mantimentos.
Sasuke ainda ficou um bom tempo parado, sentindo-se culpado. Não queria causar-lhe dor, por mais que às vezes ela merecesse. Apenas queria tentar ser amigo dela, compreender o que se passava em sua mente, mesmo que fosse apenas um pouco.
Foi somente quando Jiraya subiu para despertar Naruto, cujo os roncos podiam ser ouvidos do andar inferior, que o moreno tomou coragem de ir atrás de Marion, mesmo que Jiraya tivesse dito para que não o fizesse.
. . .
Uma sala de decoração luxuosa. A mesa de madeira nobre estava apenas com um cálice vazio em cima, a poltrona grandiosa encontrava-se de costas para a porta, posicionada de frente para a grande janela.
– Senhor, trago informações da Haled. – Falou após ajoelhar-se.
– Prossiga. – Ordenou de olhos fechados.
– O calabouço de Hizel... Está vazio. – Revelou hesitante.
– Interessante. – Riu olhando através da vidraça.
– Quais minhas ordens? – Questionou o subalterno ainda de cabeça baixa.
– Nenhuma. – Disse tranquilo.
– C-como assim? Quem estava lá era... – Foi interrompido.
– Apenas saia. – Disse sério.
– Sim, meu senhor. – Falou retirando-se, deixando a figura misteriosa novamente sozinha.
– Então a duquesa começou a se mover. – Disse pensativo, apoiando o queixo nos dedos entrelaçados – Até onde você será capaz de ir, Marion Blanchard?
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