Marion Blanchard.
15 Flor
Notas iniciais

Já estava anoitecendo. Fazia exatos dois dias que Sasuke e Marion haviam ido até o vilarejo. Nesse meio tempo a guerreira não havia retornado a casa e as meditações de Naruto e Sasuke ficaram mais intensas, não deixando assim espaço para que o moreno fosse atrás da garota.
Jiraya parecia não estar preocupado com a ausência dela, afinal, sabia que ela ainda estava na cachoeira. Mesmo assim, quando os garotos estavam ocupados tentando aumentar sua concentração de chakra, o grisalho ia até onde Marion estava e a observa de longe.
Nesse momento, contudo, fora Sasuke que burlou o treino e seguiu na direção da queda d’ água. Já havia ido lá, no mesmo dia do incidente com a pimenta, porém ela apenas o ignorou, permanecendo calada.
Com passos apressados e cautelosos, chegou ao seu destino.
– Marion... Não está cansada de ficar ai? – Questionou, parando perto da água, tentando iniciar uma conversa.
– Não. – Respondeu seca, ainda de olhos fechados – Você devia estar treinando.
– Fiz uma pausa. – Disse sentando e a olhando.
– Enquanto você faz uma pausa, seu sensei pode estar sendo torturado.
– Eu não preciso que ninguém me lembre disso. – Falou, antes de trincar os dentes.
– Então o que ainda está fazendo aqui? – Perguntou, respirando fundo e expandindo sua aura avermelhada por mais dois metros, em todas as direções.
– Ei, sua energia não está muito espalhada? – Disse admirado.
– Não, ela ainda está muito retesada. – Franziu as sobrancelhas – Porque não volta ao treino? – Cuspiu de forma azeda.
– Quanto tempo mais ficaremos aqui? – Perguntou mudando de assunto – Devíamos estar procurando pistas sobre o que, ou quem, está por trás de tudo isso!
– Fraco do jeito que é, seria morto até pelo mais desprezível oponente. – Desdenhou.
– Sabe, quando te conheci e contei sobre as coisas que meu sensei falou antes de sumir... – Começou especulativo – Você parecia interessada de uma forma como se soubesse por quem ele estava buscando.
– Aonde quer chegar? – Indagou, abrindo os olhos e os direcionando ao rapaz.
– Você sabe quem é o inimigo, não é? Por isso me trouxe pra cá.
– Isso não soou como uma pergunta. – Semicerrou os olhos, o analisando.
– Por que se recusa a me falar?
– Não há certeza. – Confessou, recolhendo sua aura – Apenas suspeitas.
– Então as compartilhe comigo. – Disse de forma pedante.
– Não tente se impor a mim. – Respondeu enojada – Você chega a ser mais insuportável do que ele. – Disse para si mesma, enquanto levantava-se, porém Sasuke foi capaz de ouvir.
– De quem está falando? – Questionou a vendo chegar à margem.
– Daquele miserável do Chrno. – Falou arisca, vestindo suas roupas.
– Quando pretende me contar quem diabos era ele? – Disse tomado pela frustração.
– Por que contaria? Você é apenas um pirralho. – Finalizou a conversa, adentrado a mata rumo à casa de Jiraya.
Sasuke ainda ficou algum tempo parado, apenas olhando a direção tomada pela guerreira. A revolta crescente dentro de si parecia não querer apaziguar. Se havia algo que odiava mais do que ser subestimado, era ser privado de respostas. Permanecer no escuro o dava repulsa.
Olhou para o céu e notou a ausência completa dos raios solares. A lua ainda não podia ser vista. Observou ao redor, tudo parecia tão mais obscuro sem a luz da aura de Marion, que o causou arrepios. Seguiu o mesmo caminho feito pela garota anteriormente, ainda frustrado pela falta de respostas.
Quase a margem que dava para a clareira, quando já podia ver a casa de Jiraya, esbanjando claridade pelas janelas, parou e deixou-se descontar sua raiva em socos numa árvore qualquer. No fim das contas não havia avançado em nada com relação à Marion, fora um tolo em ter pensado isso. Mas, ainda sim, precisava de respostas. Era a vida do seu sensei que dependia daquilo.
Precisava de alguém que tirasse todas as suas dúvidas, mas quem? Marion não revelaria nada para ele, Naruto a conhecia a menos tempo que ele próprio e Jiraya parecia ser fiel somente a rosada. Então, a que alternativa ele recorreria para ter suas dúvidas sanadas?
Voltou a caminhar, atravessando o descampado. Lenta e silenciosamente, subiu os poucos degraus da varanda, atravessou-a e tocou na porta para abri-la. Foi ai que teve uma ideia. Lembrou-se da garota no subconsciente da rosada. Ela sim deveria saber de algo, afinal estava dentro de Marion! Não sabia se daria certo, entretanto, o simples fato de ter sido capaz de lembrar-se disso o deixou orgulhoso. Esperaria a oportunidade certa e voltaria até o cenário do lago, mesmo tendo sido expulso da última vez em que se falaram.
A primeira coisa que ouviu quando entrou foi a voz escandalosa de Naruto, ele parecia bastante animado. À medida que avançava seguindo o som, pode reconhecer também a voz de Jiraya. Contudo, a voz crescente de Naruto calou-se no mesmo instante cujo uma pancada fora ouvida. Quando chegou a cozinha, com as sobrancelhas arqueadas, compreendeu o silêncio repentino.
Jiraya olhava preocupado para as panelas rústicas ao fogo, enquanto Marion tinha uma expressão irritada e Naruto uma emburrada. Pode notar uma marca vermelha na face esquerda do loiro, semelhante à deixada por um soco. Não precisou pensar muito para saber quem havia feito aquilo.
– Ai está você, teme! – Animou-se Naruto.
– Por que tanto barulho? – Perguntou Sasuke sentando ao lado do loiro.
– Jiraya disse que só serviria o jantar quando você chegasse. Mas eu estou morrendo de fome, então... – Dizia rapidamente.
Enquanto Naruto voltava a falar sem pausas, alto e animadamente, Sasuke deixou seus olhos correrem para onde Marion estava, analisando-a. Viu a hora que ela levantou e se aproximou do garoto escandaloso. Tentou fazer um sinal para que ele cala-se a boca, porém não funcionou. No fim, depois de um combo de cinco socos fortes, o silêncio finalmente predominou.
O jantar correu tranquilo, com poucas conversas já que Naruto ainda sentia as dores das pancadas, contudo, uma delas chamou a atenção de Sasuke.
– Pretende voltar à cachoeira hoje, Marion? – Começou Jiraya, saboreando o ensopado.
– Não, preciso descansar. – Disse de onde estava, sentada ao chão, do lado do portal que ligava a cozinha a pequena sala.
– Então, você realmente meditou seguidamente durante esses dois dias? – Continuou o diálogo – O quanto mais conseguiu expandir a aura?
– Cerca de dois metros. – Respondeu, parecendo decepcionada.
– Foi um excelente avanço. – Elogiou.
– Não para mim. Isso não é o suficiente.
Aquela frase soou sombria, o clima ficou tenso, inexplicavelmente, por alguns segundos. Entretanto, bastou Naruto, que estava alheio a tudo, elogiar a comida e tudo voltou ao normal. Se não tivesse certeza de ter sentido a tensão do momento, Sasuke poderia jurar que nada daquilo ocorreu. Afastando tudo aquilo da mente, voltou a pensar no plano de encontrar com a misteriosa garota e aquela conversa o mostrou a chance perfeita.
Só havia dois cômodos, fora o banheiro, na parte superior da casa. Um não sabia o que escondia, mas sabia pertencer, exclusivamente, a Jiraya, o outro era o quarto cujo ele divida com Naruto. Ela só poderia dormir naquele.
Ao termino da refeição, o primeiro a recolher-se fora Naruto. Sasuke ainda permaneceu mais algum tempo, ajudando Jiraya a arrumar a cozinha e logo retirou-se também. Tomou seu demorado banho, enquanto repassava os detalhes do plano mentalmente. Ao sair do banheiro, pode ouvir vozes no andar de baixo, reconhecendo o timbre sutil de Jiraya e o melodioso de Marion. Porém estavam tão baixas que mal pode compreender o assunto que tratavam.
Continuou seguindo para o quarto. Havia três camas simples ali, uma próxima a janela na qual dormia Naruto, a do meio ocupada por ele, e uma encostada a parede, próxima a porta, vazia. Deitou-se e esperou que a rosada entrasse, o que não demorou a ocorrer. Esperou um tempo razoável e virou na direção dela.
Ela estava sentada sobre a cama com as costas apoiadas na parede. Mesmo estando de frente para ele, sua cabeça baixa e a pouca luminosidade não permitia uma clara visão de sua face. Entretanto, teve certeza de que ela estava adormecida quando a viu soltar um suspiro. Sem mais demora, fechou os olhos e se concentrou. Sua mente focada apenas na imagem daquela que seria capaz de responder seus questionamentos.
Mas uma vez se viu diante daquele caminho obscuro, rodeado de vagalumes. Caminhou por um curto tempo, até que a claridade do grande descampado ferisse brevemente seus olhos. Sentiu o ar leve e extremamente puro invadir seus pulmões, entorpecendo-o momentaneamente. Olhou ao redor, capturando o máximo possível do cenário. Encontrou-a. Estava do mesmo jeito que antes, sentada, observando o grandioso lago enquanto acariciava a rosa em tom champagne. Seus olhos opacos miravam o nada.
Sasuke permanecia parado a margem da clareira, atento a completa falta de movimentos da garota. Então, lenta e progressivamente, os olhos dela se encontraram com os dele. Mesmo já tendo os visto antes, a profunda ausência que eles exaltavam o deixava fascinado.
– Havia dito para não voltar aqui. – Pronunciou neutra – Por favor, vá embora.
– Eu preciso de respostas. – Começou, aproximando-se – Você conhece bem a Marion, não é? Digo... Você está dentro dela, deve saber de algo!
– Não há nada que possa ser feito. – Iniciou, voltando os olhos mortos para o vazio a frente – Você está dentro do universo, mas não sabe o que se passa ao seu redor.
– Não tente me confundir, por favor. – Pediu abaixando-se ao lado da garota – Não se negue a me esclarecer algumas coisas, é importante pra mim. Está se tornando insuportável conviver com ela!
O silêncio durou um tempo considerável, antes que ela tornasse a falar:
– Seja cauteloso. Marion é extremamente arisca com os humanos. – Focou toda sua atenção à flor em suas mãos.
– Jiraya me falou algo sobre isso... – Questionou, sentindo-se satisfeito por vê-la colaborar – Mas, por que toda essa implicância?
– Implicância? – Pareceu refletir – Não... Isso, definitivamente, não é algo tão banal.
– Então o que é? O que pode ser além de puro capricho? – Indagou erguendo as sobrancelhas.
– Ira. – Respondeu, levando o pendão com a rosa até seu nariz e inalando o perfume.
– O q... – Interrompeu-se, não podia perder o foco – Me ajude a entendê-la. Só assim poderei conseguir algum progresso na minha missão. A vida do meu mestre depende disso.
– Ela irá ajuda-lo. – Revelou calma, depois de mais um tempo – Você só precisa ser paciente.
– Não me sinto aliviado ao ouvir isso. Sempre que tento uma aproximação sou repelido bruscamente.
– Você é o primeiro a quem ela toma por pacto. É um desafio constante a paciência dela. Tente não provocá-la.
– É tão frustrante essa situação! Então, eu não posso provocá-la, mas posso ser constantemente humilhado? Quem a colocou nesse pedestal? – Exaltou-se.
– Não seja rude, por favor. – Repreendeu. A voz ainda sem o menor resquício de vida.
– Me perdoe. – Respirou fundo, voltando a olhá-la e mudou de assunto – Como se chama?
– Meu nome... – Ergueu o rosto, sentindo a brisa fresca – Eu já não o possuo mais. – Respondeu, os olhos fixos em algo muito além do que qualquer um podia ver.
Por um momento, Sasuke pode sentir algum sentimento vindo dela. Não soube identificá-lo, mas uma onda de nostalgia absurda o atingiu como um chute em meio à face. Contudo, como um simples piscar de olhos, tudo voltara ao normal.
– Me chame pelo nome que desejar e eu o atenderei. – Finalizou.
– Pensarei em algo que se encaixe. – Sorriu tomando coragem para retornar ao assunto principal – Preciso de ajuda para encontrar pistas, me ajude! – Implorou.
– Eu não funciono dessa forma. Não posso falar sobre o mundo ao qual não pertenço. – Confessou tranquila – Apenas posso ajudá-lo a entender como funciona a mente de Marion.
– Isso seria de extrema importância! – Empolgou-se, sorrindo abertamente – Você é realmente o oposto dela. Como veio parar aqui?
– Cada coisa a seu tempo. – Olhou-lhe vagamente.
– Desculpe... – Respirou aliviado com o progresso feito até ali – Entendendo o motivo de todos os caprichos dela, posso fazer algo por mim mesmo. Argh! Como alguém consegue ser tão... Irritante dessa forma?– Falou fazendo careta.
– É hora de voltar. – Disse tranquila.
– Mas ainda tenho tantas perguntas! – Choramingou.
– Permitirei que regresse aqui, entretanto, nunca mencione sobre mim, muito menos venha quando Marion estiver desperta.
– Tudo bem. – Concordou decepcionado, levantando-se e sentindo o corpo ser expulso daquele cenário de serenidade.
Pode ainda ouvir uma pergunta feita pela garota misteriosa, mas antes que pudesse respondê-la, estava de volta ao quarto na velha casa. Sua mente parecia focada apenas em encontrar a resposta para o que foi dito, tanto era, que ao menos notou olhos verdes incisivos direcionados a si. Quando tomou consciência do fato, corou brevemente. O olhar de Marion era tão intenso que o fazia sentir a pele queimar.
– O que está fazendo acordado? – Perguntou autoritária.
– Tive um sonho... Estranho. – Desconversou.
– Isso não é motivo para ficar me encarando. Volte a dormir. – Cuspiu azeda, semicerrando os olhos.
– Hunf! – Resmungou virando-se de costas.
Dormir, naquela noite, seria a última coisa que ele seria capaz de fazer. A pergunta feita antes de deixar o subconsciente da rosada ardia recente em sua mente.
“– Me diga... Uma flor que teve suas pétalas arrancadas, ainda pode ser considerada uma flor?”
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