Marion Blanchard.
22 Verdades
Notas iniciais

O som forte das águas chocando-se constantemente preenchia o ambiente, alguns salpicos ainda podiam ser sentidos, mesmo as duas figuras presentes ali estando mais afastadas da beira do pequeno rio. Vez ou outra um animal aparecia por perto para saciar a sede, mas ao sentir uma presença ameaçadora, voltava acuado para sua toca.
Marion estava parada, de pé, observando o garoto escorado na árvore, não fazia muito tempo que Sasuke havia proposto uma trégua. Suspirou cansada, ultimamente estava sempre fadigada devido o uso continuo de sua magia. Por mais que já tivesse adquirido um controle maior sobre ela, ainda doía usá-la repetidas vezes.
– É a terceira vez que você suspira desde que concordou me falar o que sabe. – Observou cruzando os braços – O que está acontecendo?
– Eu posso lidar com isso. – Afirmou desconfortável – Não há nec-
– Vai confiar em mim ou não? – Perguntou sério, interrompendo a fala da rosada.
– Hunf... – Bufou irritada – É apenas... Incômodo usar tanto assim esse poder.
– Você sente dor, não é? – Indagou a fitando com olhos especulativos.
– Nós ainda não temos esse tipo de relação, contente-se.
– Tudo bem, tudo bem. Uma coisa por vez. – Ponderou, não podia botar as coisas a perder agora.
– Sente-se. – Ordenou assim que fez o mesmo, apoiando suas costas na madeira enegrecida do velho carvalho.
Sasuke obedeceu. Estavam agora sentados lado a lado, os ombros quase se tocando. Marion mantinha um olhar distante, como se estivesse pensando na melhor maneira de falar aquilo. E estava. Não podia simplesmente dizer suas suspeitas dessa forma, causaria pertubações desnecessárias, afinal, Sasuke era humano acima de tudo e possuía uma crença.
– Não precisa se preocupar tanto. – Afirmou repentinamente – Eu acreditarei no que me contar.
– Então você já consegue sentir minhas vibrações? – Perguntou se referindo ao elo entre pacto e contratante.
– Não, ainda preciso de mais tempo de treino. É você. – Sorriu vendo o desentendimento na face feminina – Sua expressão está mais fácil de ler.
– Entendo. – Os olhos voltaram a vagar perdidos. – Lembra da noite em que nos conhecemos, não é?
– Sim, você quase me matou.
– Naquela noite eu tomei a decisão de ajudá-lo. – Confessou neutra.
– Imaginei que havia sido isso, você estava muito mais disposta a me ouvir no dia seguinte.
– Eu estava aprisionada em Hizel a algum tempo, precisava de alguém para me soltar dos grilhões.
– Você causou todo um alarde. – Balançou a cabeça negativamente.
– Quantas vezes preciso lhe dizer que aquele local havia sido evacuado?
– Você disse quando estávamos na colina, mas o local não estava completamente abandonado.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou não compreendendo – É impossível, mesmo selada eu teria sentido as alterações de chakra.
– Aquela não foi a primeira vez que eu havia ido até lá, atrás de você. – Revelou sério – Haviam dois guardas cercando o local, era impossível se aproximar. Eu passei um bom tempo estudando as falhas no perímetro, nada escapava aos olhos e ouvidos daqueles brutamontes.
– Espere um momento. – O parou, olhando-lhe de forma descrente – Está me dizendo que não apenas um, mas dois vigias estavam guardando o calabouço? Isso é impossível.
– Acredite em que preferir. O curioso foi que, de uma hora para outra, os dois sumiram do local. Eu não parei para pensar nisso na época, mas agora vejo o quão estranho realmente fora.
– Aion não me disse nada sobre isso... – Sussurrou para si mesma, semicerrando os olhos.
– Por que tocou nesse assunto?
– É um assunto delicado, eu preciso sentir que você está pronto para ouvir sobre isto.
– Estou pronto, acredite em mim. – Respondeu convicto.
Marion o estudou minuciosamente, cada pequena alteração na respiração, a expressão facial e até mesmo as vibrações de energia. Sasuke estava completamente tranquilo, focado na conversa. Não havia uma mínima atitude que demonstrasse seu receio. Era hora de arriscar.
– Não há outra forma. – Suspirou mais uma vez, nem isto estava mais ajudando a aliviar a tensão da conversa – Sasuke, você acredita em Deus, não é? – Remexeu o nariz ao pronunciar o santo nome.
– Sim. – Foi rápido – Qual o problema?
– Tsc. – Irritou-se com a resposta rápida – Quando você estava sozinho, sem a única pessoa a quem podia chamar de família, o que Ele fez por você?
– Talvez eu ainda não tenha feito nada que valesse apena para ele, já que nunca fui agraciado com sua benção. – Sua voz soou melancólica.
Um silêncio pesado se instalou por poucos segundos antes da garota continuar, agora com o timbre mais cuidadoso. Sabia pouco sobre humanos, porém sabia que este era um assunto extremamente delicado para eles.
– Continuaria acreditando se Ele fosse um dos responsáveis pelo desaparecimento do seu mestre?
– Mas o que... – Sua voz morreu de súbito. Não podia compreender o que estava ouvindo.
– Deixe-me explicar melhor. – Consertou a postura desleixada para uma mais ereta – O céu é divido em camadas, sete para ser mais precisa. Na última camada, a mais distante e de difícil acesso, é onde está o palácio de Yaweh, só os Arcanjos possuem permissão para ir até lá.
– Eu pensei que todos os anjos...
– Não. – Riu de forma desdenhosa – O grande Soberano não possui tempo para lidar com seus medíocres filhos, isso é trabalho para seus príncipes herdeiros.
– Eu não imaginava que fosse dessa forma, como sabe tanto? – Questionou curioso.
– O fato é – ignorou a pergunta feita – que Ele não é visto desde o final do sexto dia, quando se recolheu em Tsafon* para o descanso.
– Não compreendo como isso tem a ver com minha busca.
– Pense um pouco. – Respondeu franzindo um pouco a testa com a dor incessante em seu braço – Quando nos conhecemos, de quem você havia dito que seu Sensei tinha raiva?
– Do sol, mas essas coisas... – Teve sua fala interrompida pela garota.
– Miguel é o sucessor direto de Yaweh, o que guarda o poder de governar. – E finalizou encarando-lhe de forma intensa – E detém o singelo apelido de Sol Celestial.
– Hey! – Sua respiração estava descompassada, o medo era evidente em sua face – Está dizendo que nosso inimigo é o Criador?
– Não, Ele virou as costas para todos, deixou tudo a mercê do tempo. – Pensou numa forma mais fácil de explicar – Estou dizendo que ele é o culpado pela existência de um inimigo.
– Certo, eu havia dito que acreditaria em qualquer coisa que me contasse... Mas, isso não faz o mínimo sentido!
– Não tenho certeza dos fatos, mas as chances são altas demais para serem ignoradas. – Explicou tranquila – O que quero dizer é que Miguel é nosso inimigo direto.
– Um Arcanjo! – Bufou contrariado – Me deixa mais calmo saber que meu oponente será o primogênito de Deus. – Riu sarcástico.
– Seu oponente? – Questionou confusa – Não se superestime. Miguel é meu, eu irei destroná-lo, você apenas trará seu mestre de volta.
– Você lutará sozinha contra um príncipe? – Perguntou assustado – Sei que é imensamente poderosa, mas não existe algo como castas e níveis de poder entre os seus?
– Eu sou um demônio, Sasuke. – Olhou-lhe de uma forma estranha, intensamente incômoda, a voz agressivamente amarga – Estou banhada em sangue e desgraça. Meu poder não vem do seu Deus.
Dor. Sasuke sentiu algo dentro de si se acender, algo como uma chama intensa e crepitante. Não soube explicar no começo de onde vinha essa angustiante sensação de traição, mas bastou tocar sutilmente seu ombro na pele da garota e pode compreender. Ele sentiu, por um milésimo de segundo, o que Marion sentia. Tomou um susto, sabia que estava sentindo apenas uma fração do real sentimento, porém isso fora o suficiente para atordoá-lo.
Teve uma súbita falta de ar, seguido de um desespero assombroso. Não estava preparado para o uso do elo e isso causou reações. As pupilas dilataram e ele, num ímpeto, tomou uma decisão, algo que pôs todo o credo de uma vida abaixo. Colocando os fatos numa balança imaginária, sentiu o lado da racionalidade pender para baixo. Acreditava em Deus porque lhe foi ensinado dessa forma, mas era exatamente como Marion havia dito: desde que se entendia pro gente nunca havia sentido sua proteção. Pelo contrário, se via constantemente desamparado nos mais dolorosos momentos. Foi assim com a morte de seus pais e depois com aquele a quem chamava de família.
Estava disposto a lutar, lutar por aquela que cedeu sua vida através do pacto para protegê-lo.
– Eu irei junto. – Disse confiante.
– Você tem noção do peso do que acaba de dizer, não é? – Indagou. Não imaginava que ele tomaria tal decisão.
– Seja lá o que for, ou para onde serei enviado por tamanha heresia – começou firme –, não deixarei que você lute sozinha. Não importa se estamos indo contra Deus, eu lutarei ao seu lado.
– Eu não tenho nada a perder, Sasuke, mas você ainda tem sua alma. – Alertou.
– Cuido disso depois. – Finalizou o assunto.
– Não me culpe por isso no futuro. – Fez uma breve pausa, incomodada pela dor no braço.
Sasuke havia percebido a inquietação da rosada e direcionou os olhos para a ferida. Mesmo com as intensas sequências de meditação e tendo se passado uma semana nenhum progresso se via. Pode sentir seus ombros pesarem de culpa, ao mesmo tempo em que se recordava que ainda não havia dito a Jiraya o que Dorank o havia entregado.
– Venha. – Chamou abaixando sutilmente a gola de sua camisa. Um convite aberto.
– Já disse que não será o suficiente. – Respondeu posicionando-se entre as pernas do moreno e puxando a gola mais para baixo, deixando o pescoço masculino totalmente visível.
– Mas ajudará, do contrário não estaria aqui agora. – Riu provocativo, antes de sentir a forte mordida – Auch!
Uma das mãos de Marion estava nas costas do rapaz, puxando o tecido da camisa para baixo, enquanto a outra tinha os dedos entrelaçados nos fios negros revoltosos. Fazia tempo que não tomava o sangue de Sasuke, por isso se deixou levar pela sensação de alívio que percorreu seu corpo. Fechou os olhos e suavizou a mordida, permitindo – inconscientemente – que seus dedos fizessem uma sútil carícia nos cabelos do garoto. Em resposta a isso, o moreno a segurou próximo a altura dos quadris.
Estava um clima calmo, silencioso. Até o momento em que um ruído fora captado pelos ouvidos treinados da guerreira. Seus olhos abriram-se e rapidamente passaram a vasculhar todo o local. A lua nascia tímida ao canto, mas, mesmo assim, ela era capaz de enxergar. Foi quando galhos quebrando e um resmungo de dor foi ouvido, para em seguida, um Naruto atrapalhado aparecer entre os arbustos que margeavam a clareira.
– Finalmente achei vocês e... – Parou de falar quando notou a situação – Uou, me desculpem! – Exclamou colocando as mãos em frente aos olhos, porém com os dedos deixando brechas enormes.
– O que você quer, Naruto? – Indagou Sasuke enquanto Marion ainda sugava seu pescoço.
– Er, Jiji me pediu para chamá-los e... – Olhou mais atentamente para ambos, notando Marion afastar a cabeça do pescoço do moreno e lhe olhar – Santa mãe de Deus! – Exclamou notando a boca da garota suja de sangue.
– Diga que já estamos indo. – Respondeu a rosada, limpando-se adequadamente.
– T-tudo bem! – Saiu correndo na frente, aos tropeços.
– Ele fará uma terrível confusão com tudo isso. – Concluiu levantando-se e oferecendo a mão para a guerreira.
– Isso é um problema seu. – Desdenhou aceitando a ajuda e pondo-se a andar na frente.
– Muito obrigado pelo apoio. – Ironizou a seguindo.
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