Marion Blanchard.
25 Solidão
Notas iniciais

Longe da superfície, em um lugar onde olhos inocentes jamais poderiam enxergar, existia um mundo de sombras e dor. O Sheol, ou Inferno, possuía inúmeras províncias, cada qual com sua particularidade, embora gritos de desespero pudessem ser ouvidos em todas as partes, como uma sinfonia de agonia incessante. Era, definitivamente, o último lugar cujo alguém desejaria estar, até mesmo para demônios.
E ali estava ele, parado de pé a beira de um dos inúmeros precipícios da região. A terra escura, ressecada ao ponto de evidenciar profundas rachaduras era um contraste violento com o vento gélido, e as chuvas grosseiras que se abatiam sobre o local. As raras árvores que podiam ser vistas pela extensão das planícies possuíam seus troncos negros, além da notável ausência de folhas. Uma paisagem caótica, como qualquer outra daquele reino amaldiçoado.
Itachi observava de cima toda complexidade das criaturas habitantes daquela dimensão. Horrendas, inescrupulosas e sedentas. Aquela região em específico pertencia a um lorde Satanis – uma casta de diplomatas –, devido a isso quase não se viam seres acima do solo torturando almas perdidas, o líder só permitia que tais atos fossem cometidos em seus incontáveis calabouços no subsolo. Segundo ele, os gritos eram desagradáveis o suficiente para irritar-lhe os sentidos.
Um sorriso irônico brincou nos lábios do Grão-duque quando lembrou da excentricidade do líder daquele território.
– Senhor Aion. – Uma criatura a suas costas o chamou, curvando-se em respeito – Meu Senhor o convida para vosso castelo.
– Que delicado de sua parte. – Zombou ainda de costas para o subalterno, a voz grossa e imponente – Diga que só estou de passagem.
– Como queira. – Pronunciou ao sair, ainda em sua postura submissa.
Não estava ali para cordialidades e sabia que o líder daquele pedaço imundo de terra também não o desejava, tudo fazia parte de um protocolo baseado em cobiça e piadas sujas. Era respeitado por seu título, Grão-duque, estando apenas abaixo do Soberano daquele mundo, Lúcifer, apenas por isso.
Breves minutos de silêncio. Quando teve certeza de que estava novamente sozinho expandiu suas asas rubras e rumou para o leste, a parte mais afastada da região. Sua rota era precisa, mesmo já fazendo séculos desde a última vez que estivera naquele local.
Lembrava-se perfeitamente da derradeira vez que havia ido até ali, inclusive de toda a cautela que precisou ter para ocultar seus passos. Bastava um erro e seria derrubado, afinal não faltavam voluntários para destroná-lo. Essa era uma das leis do Inferno: para ascender para uma posição superior era necessário derrotar um oponente da casta ao qual se desejava alcançar. E derrota naquele antro significava morte.
Depois de cruzar o deserto de solo negro, atravessou uma extensa área de neblina, as asas cortando violentamente o espaço ao redor, produzindo lâminas afiadas de vento cujo destroçavam pedras e árvores. Tinha pressa. Voou ainda por um curto tempo até que a névoa desse lugar novamente ao céu sempre cinza e a terra virasse gelo. Fechou as asas abruptamente e pousou com um baque estrondoso, os pés formando um pequeno afundamento no solo.
Enquanto erguia-se novamente, seus olhos vasculharam o local, sempre atentos. Não havia absolutamente nada além de morros de neve e pedras sobressalentes. Andou até o centro da paisagem, respirou fundo e fechou os olhos, deu vinte passos para o norte, estacionou, tomou folego para o impulso e saltou. A velocidade cujo subia era excepcional, suas asas retraídas apenas aceleravam o movimento contínuo. Quando sentiu atravessar uma fina película, expandiu as penas e planou, somente agora abrindo os olhos. Um sorriso satisfeito brincou em sua face.
Havia-o reencontrado.
❈ ✝ ❈
O dia amanhecera calmo, com poucas nuvens e ventos amenos. Aos primeiros raios de sol da manhã Jiraya já iniciava mais uma vez o treinamento da dupla de garotos, sendo fielmente observado por Marion. Haviam se passado poucos dias desde que Sasuke havia falado sobre o livro dado por Dorank e, diferente de antes, o moreno e Naruto treinavam técnicas específicas. Enquanto o loiro meditava, concentrando-se em aperfeiçoar o rasengan, o Uchiha treinava golpes e sua agilidade.
Era quase o meio da manhã quando os treinos individuas acabaram, dando lugar a peleja. A luta estava muito mais equilibrada, os movimentos muito mais rápidos e precisos. Tudo corria normal, permitindo
que o grisalho relaxasse e se aproximasse da rosada para uma conversa.
– O que acha? – Indagou referindo-se ao avanço dos pupilos.
– Ainda não é o bastante. – Afirmou com os olhos fixos em Sasuke.
– Eu não esperava que eles fossem evoluir tanto, você sabe, a gravidade ao meu redor é alterada. – Riu do fato de nenhum dos dois ter notado isso ao chegarem ali.
– Esqueça o que disse antes – Referia-se ao fato de querer que o grisalho revelasse quem era – Não conte a eles. – Ordenou convicta.
– Você está sempre tão séria... – Olhou para o lado da rosada, na direção onde o livro Sacru estava – Sabe, eu não acredito que Dorank tenha o enganado, não faz o estilo daquele velhote.
– Não deveria dizer isto com essa aparência. – Desdenhou maliciosamente.
– Sabe que essa não é minha verdadeira forma. – Fingiu estar ofendido, antes de rir de si mesmo.
– Então o que acha que aconteceu?
– Não sei... Talvez o garoto ainda não tenha poder o suficiente – Pareceu refletir um pouco mais, desviando os olhos para a luta – Certo, vamos intensificar as coisas.
Voltando para perto da dupla, Jiraya chamou a atenção para si ao erguer um dos braços. Quando notou que tanto Sasuke, quanto Naruto haviam parado e agora lhe olhavam deu um sorriso irônico, era um alerta evidente dos planos que possuía.
– Muito bem, agora quero ver o que conseguem fazer com magia.
– Tem certeza? – Questionou Naruto.
– Da última vez quase tivemos problemas com aqueles anjos... – Relembrou Sasuke.
– Vocês já fizeram isso antes, digo, quando apostaram. – Sorriu os vendo envergonhados – Não há “perigo” em nenhuma rota próxima daqui, não se prendam.
– Bom, se o Jiji está falando que podemos... – Sorriu Naruto apertando firmemente a faixa que trazia amarrada a testa.
– Eu vou tostar você, Dobe! – Provocou Sasuke retirando a camisa.
– Quero que façam melhor que antes, vamos ver até onde aguentam. – Sorriu discreto.
Voltou para onde estava antes, ao lado de Marion, e pôs-se a observar o embate. O começo havia sido tranquilo, os oponentes apenas observavam-se, estudando a melhor técnica para se utilizar. O primeiro a fazer um movimento ofensivo fora Naruto, com uma sequência pesada de socos e giros, Sasuke em contrapartida aproveitava-se de sua agilidade para desviar e investir com golpes surpresa.
Ambos estavam em níveis equiparados, o que o loiro possuía em experiência e força bruta o Uchiha possuía em agilidade e inteligência. Aos poucos, a medida que o combate ia ficando mais intenso, Jiraya e Marion podiam sentir o chakra de ambos expandindo-se, as bolas de fogo de Sasuke estavam mais intensas e maciças, o rasengan de Naruto mais estável, embora ainda não completo, fazendo assim com que crateras já pudessem ser vistas no descampado.
Sasuke estava focado, via ali sua chance de revanche, uma vez que havia perdido para Naruto na peleja anterior. Naruto investiu mais uma vez na luta corpo a corpo, falhando em acertar golpes diretos. Aproveitando um momento de distração do adversário, Sasuke esperou que Naruto tentasse um golpe por baixo e, assim que o loiro atacou com uma rasteira violenta, saltou tão alto quanto pode, ganhando maior impulso na hora de atirar suas chamas.
Naruto pego de surpresa, apenas tentou proteger-se com as mãos. Quando o fogo acabou, o loiro estava chamuscado, uma pequena chama ainda queimava seu cabelo, as vestes ficaram enegrecidas e o rosto sujo de fuligem. Seus grandes olhos azuis estavam arregalados, não conseguia pensar direito. Sentiu algo se desprendendo de seu pescoço e caindo no chão. Olhou para baixo e, sem acreditar, sufocou ao notar o que havia acontecido. No chão residia um cordão parcialmente destruído e um pingente de cristal trincado. Antes que pudesse se dar conta do que estava acontecendo, sentiu o calor dentro de si se expandir e explodir numa onda violenta e palpável de chakra.
– Kuso! – Gritou o grisalho entrando no meio do combate.
Contudo, Jiraya ao menos teve tempo para impedir, tamanha era sua surpresa. Em um piscar de olhos Naruto havia avançado contra Sasuke, completamente colérico, o rasengan com o dobro do tamanho em suas mãos. O golpe fora certeiro. Sasuke fora lançado para trás numa velocidade absurda, sendo assim atirado ao vazio do penhasco. Se havia sobrevivido ao golpe, morreria pela queda.
Desobedecendo completamente ao que Jiraya havia pedido, Marion partiu como um raio através do descampado, saltando atrás de Sasuke. Quando o alcançou expandiu suas asas, liberando uma onda explosiva de poder, o moreno estava desacordado, sangrando pela boca e com uma ferida grotesca no dorso. Ódio a consumiu. Apertando o pacto contra si, rasgou o espaço de volta para cima, caindo com um estrondo e deixando uma profunda cratera onde havia pousado. Olhou com sede de sangue para o loiro, agora desacordado, ao lado de Jiraya. A entidade da Terra a olhou especulativo, com medo de sua reação, porém a garota apenas o olhou e sibilou ameaçadora, antes de deitar o moreno ao chão:
– Apenas mova os olhos para longe dele e eu irei rasgá-lo.
❈ ✝ ❈
Enquanto isso, próximo dali dentro da Catedral no vilarejo, Hinata ajudava Dorank a organizar alguns documentos. Estava tudo tranquilo quando parou de súbito o que fazia. Desde mais cedo havia sentindo pequenos pontos de energia colidirem-se, porém nada que a fizesse focar sua atenção nisso, contudo agora uma dessas energias desconhecidas fora liberada de forma descontrolada a fazendo ficar atenta ao próximo passo.
Foi ai cujo sentiu. Um poder massivo, demoníaco e que esbanjava clara intenção assassina. Mesmo que agora fosse completamente obscuro, reconheceu aquele chakra. Esqueceu completamente o que fazia e partiu bruscamente na direção de onde o poder estava vindo.
– Essas crianças... – Resmungou Dorank, apanhando os livros que o anjo havia derrubado no caminho – Mais bagunça!
Suas asas cortavam o vento como navalhas afiadas, ofegava pelo susto, não esperava que a energia de Sakura fosse se manifestar tão intensa daquela forma. Algo deveria ter acontecido, deveria estar pronta para um cenário de batalha. Moveu suas mãos inconscientemente até a bainha da adaga que carregava sempre consigo. Não havia tido tempo de buscar o arco e a aljava, não havia tido tempo ao menos de pensar. Apenas partiu.
Avistou de longe uma clareira – parcialmente destruída – a beira de um penhasco, um chalé rústico amplo mais ao fundo e a densa floresta ao redor. Parou violentamente seu percurso ao avistar quatro pessoas ali. Duas estavam feridas e deitadas, um jovem humano loiro e outro moreno. Ao lado do loiro estava um senhor grisalho, suas vibrações eram puras e suaves, não era humano. Seus olhos focaram-se para a figura de pé ao lado do garoto de cabelos escuros.
❈ ✝ ❈
Resolvendo focar sua atenção na presença recém aparecida ali, Marion virou-se e encontrou Hinata planando no ar, vários metros acima deles.
– Parece que temos visita. – Avisou a Jiraya, que olhou estupefato na direção da guerreira celeste.
– Por Deus! – Sussurrou aproximando-se de Marion e indo na direção da alada.
Hinata sorriu vitoriosa, voltando a sua postura ereta e superior. Viu o ferimento causado por ela ainda não cicatrizado no braço de sua ex-comandante e apenas orgulhou-se ainda mais. Observou o grisalho aproximar-se e voltou a focar sua atenção nele.
– Sou Jiraya, o Deus da Terra. – Apresentou-se curvando-se de forma respeitosa.
– Hinata. – Disse simplesmente – General das arqueiras, quinta divisão.
– E o que uma General está fazendo aqui? – Indagou confuso.
– Tenho assuntos inacabados. – Disse esnobe.
– Bom, estamos um pouco ocupados agora... – Tentou argumentar.
– Fique fora disso. – Falou séria – Finalmente te encontrei – Voltou a olhar para Marion, as pupilas dilatando – Sakura-chan.
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A floresta teve sua paz e silêncio interrompidos, animais encolhiam-se acuados em suas tocas ao mesmo tempo em que um leve tremor no solo podia ser sentido. A chuva constante já começava a transpassar as espessas copas das árvores mais altas, fazendo o ambiente tornar-se ainda mais abafado. As folhas mexiam-se ferozmente a cada vez que os corpos as atravessavam, numa perseguição incessante
de vida ou morte, a terra úmida grudava aos pés do caçador, assim como ao corpo da criatura que fugia mais a frente. Sem tirar os olhos da vítima, o predador acelerou a corrida, os cabelos como chicotes ao vento. Um salto e o bote fora certeiro.
Um grito angustiado seguido do som de baque, a criatura capturada debatia-se furiosamente enquanto o predador fincava as garras em sua carne. Não existia mais como se salvar, seu corpo havia sido dilacerado da cintura para baixo, estava quase perdendo a consciência, tendo tempo apenas para enxergar olhos brancos sugando-lhe a alma.
O caçador, após controlar sua sede de sangue e alimentar-se da energia vital da presa – um pequeno youkai –, levantou-se de forma desengonçada, revelando a pele e os trajes cortados pelos galhos mais afiados durante a corrida, os cabelos grudavam na face. Não havia conseguido uma presa que sanasse temporariamente suas necessidades, havia gasto mais energia do que o permitido na caça e agora sentia os efeitos. Ainda estava fraca e seguiria eternamente assim caso não conseguisse reencontrar aquilo de que fora afastada.
Moveu os pés de forma imprecisa, muito diferente da forma de quando corria, e partiu a procura de uma caverna qualquer. Estava fraca, por diversas vezes caiu durante o caminho que fazia, cortando-se ainda mais nos espinhos e pedregulhos afiados. Após um tempo arrastando-se encontrou um galho ao qual usou de apoio, equilibrando de forma mais segura seu próprio corpo.
Sua pele era incomumente pálida, possuía os cabelos longos e extremamente brancos assim como suas roupas – embora estivessem sujos de sangue, lama e folhagens. Os olhos eram completamente opacos, de um tom cinza nebuloso demonstravam o vazio cujo qual havia caído. Era sempre assim quando acordava depois de um longo período de hibernação, sentia fome mas nunca encontrava uma presa que a saciasse, contudo dessa vez fora bem menos do que esperava.
Seguindo o caminho contrário ao fluxo de águas de um pequeno rio acabou por encontrar uma gruta profunda e escura, suas paredes possuíam pequenos cristais azulados cujo iluminavam o ambiente. Sentou-se ao fundo da caverna, ao lado de um pequeno córrego e juntou os joelhos aos seios, os abraçando, como uma criança indefesa. Seu corpo coberto por vestes minúsculas exibia curvas femininas, assim como o rosto angelical. Respirou fundo, mordendo os lábios, mas não conseguiu conter as lágrimas.
– Estou aqui... – Implorava, balançando-se de trás para frente copiosamente – Estou aqui...
Continuou balbuciando apelos desesperados mesmo que soubesse que estava longe demais para ser ouvida, seu peito comprimia-se cada vez mais. Sabia que estava morrendo, a cada dia mais que passava longe “dela”... Estava quase em seu limite.
Sentia culpa por ter sido abandonada naquela situação, pensava que se tivesse sido mais forte jamais estaria ali agora. Tentou por incontáveis décadas redimir-se, reencontrar o ser cujo guardava o dom de sua vida, porém não havia um único resquício de sua presença na terra. Em um ato desesperado atirou o corpo violentamente para trás, chocando-se contra a parede. Estava com frio, exausta e com medo. Muito medo.
Suas lágrimas transformaram-se em sangue, suas unhas arranhavam a face delicada, seguindo uma trilha conturbada até transformarem-se em insanos puxões de cabelos. Um grito angustiado ecoou pelas paredes da gruta. Por que ela não vinha? Já havia entendido que era uma má garota, então por que ela não voltava?
– Eu prometo. – Chorou esperneando deitada, abraçando-se de forma protetora – Prometo ser mais forte...
Gritou por mais um tempo, até sentir. O sono a rondava, reivindicando seu corpo, não queria dormir, queria ficar acordada e esperar por ela, mas sabia que logo mais estaria inconsciente, a caça havia tomado toda sua energia. Ficou inerte no chão, os olhos vidrados na parede a frente, as forças a abandonavam
gradativamente. Entretanto, antes de fechar os olhos para um período indefinido de hibernação, pode sussurrar seu último apelo:
– Venha me buscar... Mamãe.
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