Marion Blanchard.
26 Mirach
Notas iniciais
No capítulo anterior de Marion Blanchard...
(…) Hinata ajudava Dorank a organizar alguns documentos. Foi ai cujo sentiu. Um poder massivo, demoníaco e que esbanjava clara intenção assassina. Esqueceu completamente o que fazia e partiu bruscamente na direção de onde o poder estava vindo. Suas asas cortavam o vento como navalhas afiadas, ofegava pelo susto, não esperava que a energia de Sakura fosse se manifestar tão intensa daquela forma.
Avistou de longe uma clareira – parcialmente destruída – a beira de um penhasco, um chalé rústico amplo mais ao fundo e a densa floresta ao redor. Parou violentamente seu percurso ao avistar quatro pessoas ali. Seus olhos focaram-se na figura de pé ao lado do garoto de cabelos escuros.
Resolvendo focar sua atenção na presença recém aparecida ali, Marion virou-se e encontrou Hinata planando no ar, vários metros acima deles.
– Parece que temos visita. – Avisou a Jiraya, que olhou estupefato na direção da guerreira celeste.

Capítulo atual.
Em algum lugar, muito tempo atrás...
Folhas foram arrastadas, fazendo cócegas em suas bochechas, rodopiando de forma encantadora pelo céu antes de se perderem de vista, levadas para muito longe. Sorriu com isso. Os galhos da frondosa árvore – fincada quase a beira daquele precipício – dançavam serenamente ao som de uma sinfonia silenciosa e delicada, orquestrada pelo vento matreiro da manhã. Era magnífica a presença mágica que emanava naquele santuário.
Fora algo inusitado encontrar aquele recanto de paz e serenidade, apenas caminhava sem destino pelos vales e, quando deu por si, estava diante do cenário mais puro e acolhedor ao qual jamais estivera antes. Era seu segredo, seu porto seguro. Não importava o quão solitária fosse, ali se sentia completa. Hinata, a doce flor de lírio, havia encontrado fora de seu jardim aquilo cujo tanto buscava. Deixou seus dedos encostarem no tronco espeço e majestoso, uma gesto involuntário, apenas uma carícia. Fechou os olhos.
Sentiu atrás de si a brisa morna percorrer livremente a relva, voltando para seu espaço no céu, um balé inocente e caprichoso. Tirou a fita de cetim cujo prendia seus cabelos e deixou-os serem acariciados assim como as folhas. Seu corpo delicado, pequeno, era motivo de constantes ofensas vindas de seus companheiros, o fato de ser tímida e corar com facilidade só contribuía para as piadas, sempre maldosas. Não tinha força física para suportar os treinos pesados ao qual as arqueiras eram ordenadas pelo General a se submeterem, sua comandante sabia disso e fazia o possível para encobri-la, mas não era o bastante, sempre acabava sendo deixada para trás. Com o tempo, aceitou o fato de ser inferior as demais e recolheu-se a parte tática, ali sim sentia-se confiante, quem sabe até mesmo forte.
O que lhe faltava em desenvoltura corporal, sobrava em inteligência e perspicácia. Acabou imaginando como seria caso fosse uma mortal, como seria tratada pelas pessoas ao redor, que tipo de trabalho teria... Amava seus irmãos, não havia espaço para dúvidas quanto isso, porém sentia-se acuada quando o assunto era combate. Doía-lhe pensar assim, mas anjos podiam ser bem mesquinhos quando queriam. E foi assim, perdida em pensamentos, que não notou quando mais alguém juntou-se a ela.
– Então é aqui onde se esconde. – Moveu sutilmente as asas, as trazendo encolhidas ao corpo.
– Comandante! – Recobrou a postura, nervosa por ter sido descoberta tão longe do local onde supostamente deveria estar – Desculpe-me, eu...
– Estamos só nós duas aqui. – Sorriu serena, os longos cabelos planando harmoniosamente ao seu redor, sendo tocados pelo invisível como os de Hinata – Me chame como sempre chamou.
– Sakura-chan... – Suspirou aliviada – Me perdoe, sei o quanto tenta me proteger nos treinos, mesmo que eu sempre dê um jeito de fugir.
– Deveria mesmo perdoá-la? – Indagou aproximando-se – Está fazendo isso por influência ou por sua própria vontade?
Não compreendeu a princípio o motivo daquela pergunta, contudo ao olhar fundo nos olhos de jade de sua irmã sentiu o tom de seriedade escondido por trás da face calma e suave:
– Sim, perdoe-me por tais atos. – Suspirou virando-se novamente para a árvore – Faço isso porque é minha vontade, sei o quão débil sou.
– Não és fraca. – Afirmou fechando os olhos e deixando-se levar pela brisa – Olhe para si mesma, quantas estratégias já não desenvolveste com maestria? Salvaste inúmeras irmãs, mesmo sem ter estado em um combate direto. Sua força pode não estar nos músculos ou na perícia no manejo de uma arma... Mas está na mente, você é uma articuladora nata, use isso a seu favor.
– E-eu... – Deixou a voz morrer, pensando sobre o que acabara de ouvir. Por fim, falou confiante, sorridente – Obrigada, Sakura-chan.
– Mostre-me seu potencial, Hina-chan...
Agora ali estava ela, pronta para mostrar o quanto havia evoluído, planando quase acima da clareira parcialmente destruída – ainda no espaço vazio do penhasco. Seus olhos estavam focados na figura feminina de exóticos cabelos cor-de-rosa. A afobação do voo havia passado e sua mente, após um breve devaneio causado por memórias tão antigas quanto podia-se recordar, voltara-se para o fato de finalmente a ter encontrado.
Aos poucos foi perdendo altura, a postura impecável, as asas abertas e movendo-se de forma elegante, um aviso claro de imponência. E que asas! As penas de Hinata possuíam uma tonalidade branca leitosa, as pontas levemente banhadas em tom lavanda. Foco. Não perderia a cabeça como da última vez, a voz impetuosa de Miguel ainda ressoava em sua mente as ordens de não atacar.
– Então era aqui onde se escondia. – Recolheu as asas junto ao corpo, olhando atentamente ao redor.
– O que quer? – Foi direto ao ponto.
– Maus modos. – Depreciou voltando a olhar para o demônio – Não é assim que se recebe um amigo.
– Não tenho amigos. – Respondeu fria.
– Isso fere meus sentimentos, Marion-chan – Reclamou Jiraya, ainda longe.
– Fique fora disso. – Ordenou, lançando-lhe um olhar sério.
Jiraya entendeu o quão delicada a situação era.
– O que pretende? – Indagou Hinata, direta.
– Oh, então é isso. – Riu debochada, virando-se e indo até Sasuke – Miguel enviou-me um vigilante, admirável.
Parou ao lado do jovem moreno e se abaixou, concentrando sua energia de cura no ferimento exposto no peito do rapaz. Hinata espantou-se. O silêncio seguinte durou alguns minutos, até o momento em que Jiraya abaixou-se ao lado de Naruto e Marion finalizou o processo de cura, deixando apenas uma ferida superficial, onde algumas infusões com ervas fariam o resto do trabalho.
O selo que possuía limitava e muito seus poderes, a deixando irritada. Após alguns instantes Sasuke despertara e pusera-se sentado, com dificuldade e ainda zonzo. Olhando de relance para Hinata, a rosada não pode deixar de erguer as sobrancelhas de forma sarcástica. Segurou a mandíbula de Sasuke com a mão esquerda, aproximou o próprio rosto ao do rapaz e, em um gesto provocante e desdenhoso, lambeu vagarosamente o sangue que escorreu pelo canto da boca, devido o esforço do mesmo para levantar-se.
– Você me enoja – Cuspiu Hinata, incrédula.
– Que encanto. – Debochou – Volte para casa, criança.
– Por que agora? – Continuou sem se importar.
– Hn? – Sibilou a olhando com falsa inocência, terminando de lamber o sangue na face do rapaz e descendo para o pescoço.
– Desde sua queda nenhum relato na superfície sobre seu nome fora ouvido – A cena a estava enjoando – Por que só agora?
– Estava entediada. – Disse, a boca percorrendo o pescoço do moreno.
– Pare com isso. – Esbravejou corada e irritada – Seja o que for que esteja planejando...
– Arrancar a cabeça de todos vocês, cães imundos. – Cortou, afastando-se de Sasuke e levantando.
– Não passará por nós. – Declarou firme.
– Verdade? – Sua face tornou-se sombria.
– Marion... – Alertou Jiraya, interrompendo – Não aqui.
– Como queira. – Deu as costas, ajudando Sasuke a se levantar e o levando para dentro da casa.
Hinata parecia frustrada e aliviada. Sem Marion no local respirar era uma tarefa muito mais fácil, tranquila. Ainda não estava acostumada com a essência demoníaca, muito menos com Sakura a emanando. Passados alguns minutos silenciosos, a voz de Jiraya rebateu nos ouvidos do anjo:
– Desculpe-me os modos – Começou enquanto levantava com Naruto em seus braços – Preciso cuidar dos meus pupilos. Com licença. – Finalizou caminhando lentamente rumo a casa.
– Você sabe o que ela é e ainda sim a protege. – Acusou Hinata, a voz novamente suave.
– Sim, eu sei. – Falou pesaroso.
– Espero que saiba também as regras que está quebrando. – Avisou calma.
Fazendo uma breve pausa antes de recomeçar a andar, Jiraya finalizou – Mesmo assim, não permitirei que haja mais lutas neste lugar.
Hinata o viu desaparecer através da porta dos fundos. Olhou para o céu e suspirou cansada.
❈ ✝ ❈
Rios de lava corriam aos montes, vindo dos cumes dos vulcões e despencando das bordas daquela ilha flutuante, caindo como cascata para o reino abaixo. Itachi moveu-se com destreza, desviando dos gêiseres de vapor de enxore, as asas produzindo o vento necessário para afastar a fumaça nebulosa que borrava a paisagem cruel.No centro da grande ilha suspensa havia, construído no interior da maior montanha, algo muito semelhante a um castelo deformado, feito de rochas pontiagudas, lava fria e cristais mágicos.
Por fora podia-se apenas ver as paredes de pedras negras – banhadas pelo magma expelido através do cume – e o grande portal, sustentado por um conjunto de colunas de formato cilíndrico, ostentando no topo de cada uma, pequenas esculturas demoníacas já corroídas pelos gases tóxicos.
Itachi sabia que aquilo tudo era proposital, a fachada gastaera apenas um disfarce para esconder a verdadeira grandeza do interior.Uma grande estrutura complexa, comtetos a se perder de vista e corredores entrelaçados como um sistema de labirinto mortal, onde o menor erro no percurso levaria ao encontro de uma criatura assassina, verdadeiras bestas sedentas por sangue.Contudo, não se intimidou. Atravessou o portal de entrada e seguiu firme seu caminho, as asas ricocheteando lâminas de vento nas paredes rachadas.
Ao dobrar o último corredor encontrou um grande caminho em linha reta, sem aberturas nas laterais, o teto desgastado era sustentado por fileiras espaçadas de colunas idênticas as do portão de entrada. Havia apenas uma porta no final, sua extensão ia de uma parede a outra, do chão ao teto. Diferente de tudo dentro do castelo, a porta estava impecavelmente intacta, seu forte tom mogno vibrando em contraste evidente. Parou em frente a ela, não se detendo a olhar os detalhes esculpidos em um conjunto de filigranas douradas.
Ganhou um pouco mais de altitude e estabilizou o voo, pairando exatamente na metade do monumento. Posicionou as mãos na madeira, uma de cada lado, focou sua energia nos dedos, os olhos rubros brilharam. Respirando fundo, proferiu o encanto:
– Aperi ostium rufus.
Começando de cima, as filigranas brilharam evidenciando aquilo cujo formavam, era como se um livro contando a história desde a queda dos primeiros anjos tivesse sido esculpido ali. Primeiro as nuvens e os anjos, depois a guerra, o expurgo vinha em seguida e finalmente o Sheol. Um tremor reverberou por todo o lugar no exato momento em que a porta dupla começou a se abrir.
O calor escaldante o atingiu violentamente assim como o vento seco, jogando seus longos cabelos para trás. A sua frente estava o maior salão do castelo, localizado exatamente em seu centro. Não era possível ver onde se findavam as laterais, todos os objetos ali eram muito maiores do que o habitual e mesmo assim não ocupavam um terço da total extensão.
Moveu os olhos sondando o ambiente, procurando aquele cujo qual seu foco seria posto. A quantidade de armas e ferramentas de metal espalhados sobre longas mesas era assombroso para os desacostumados. O encontrou de costas, perto da grande fornalha ao centro, bem embaixo da abertura do cume da montanha. Agitou as asas enquanto aproximava-se. Pousou logo em seguida.
– Mirach. – Chamou em alto e bom som.
O tinido do metal que estava sendo forjado parou subitamente de ecoar. A criatura, levemente curvada, ergueu-se ereta, virando-se para seu visitante.
– Aion. – Saldou, a voz grossa e um sorriso medonho brincando em sua face coberta por marcas – Deveria ter avisado que viria, assim poderia recebê-lo em meu traje de gala. – Brincou referindo-se a sua verdadeira aparência.
Enquanto em sua forma humanoide, Mirach era um homem corpulento, de elevada estatura, seu corpo uma verdadeira montanha de massa e músculos. Nada amigável. Possuía, assim como na face, incontatáveis cicatrizes de batalhas antigas, seus cabelos lisos e negros estavam sempre postos para trás. Já em sua verdadeira forma era uma criatura bestial, algo muito semelhante a um dragão, suas asas em puro osso e uma fina membrana quase transparente.
– Surpresas são sempre mais agradáveis. – Rebateu, o vendo retirar a fuligem do rosto com um pano aos frangalhos.
– Não as suas. – Reclamou, irritado com a ineficiência do resto de tecido cujo se limpava.
– Não posso ser tão desagradável assim. – Desagradou-se com o comentário.
– E não é. – Confessou sério – Mas os assuntos que o trazem sim.
– Muito perspicaz, para o pouco cérebro que possui. – Descontou com desdém.
– Não preciso de cérebro para quebrar alguns ossos. – Ameaçou, a voz aumentando algumas oitavas.
– Tudo bem, tudo bem. – Ergue as mãos em sinal de rendição – Desculpe.
– Qual arma precisa que eu forje dessa vez? – Voltou-se para a fornalha, recolhendo a lâmina, incandescente, do fogo e a colocando na água.
– Na verdade... – Começou sorrateiro – Preciso localizar uma que já existe.
– Ora essa, então diga logo. – O som do metal colidindo voltou a ser ouvido – Qual dos meus filhos precisa encontrar?
– Antares. – Disse sério.
Mais uma vez o silêncio.
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