Marion Blanchard.
20 Missão
Notas iniciais

A noite era anunciada através do pôr do sol rajado ao fundo, os pássaros já voltavam em bandos para seus ninhos e as tochas no vilarejo humano já podiam ser vistas acesas. Fazia sete dias desde que Sasuke havia ido até a catedral e o clima continuava delicado. Marion ainda não havia voltado da cachoeira e o moreno não tinha coragem suficiente para ir até ela, o único que o fazia era Jiraya.
Seu tempo era apenas dedicado ao treino de controle de chakra – ao qual vinha progredindo consideravelmente – e habilidades em combate. Parecia muito mais determinado a evoluir seus poderes do que antes, era agora o primeiro a levantar e o último a se recolher. Naruto apenas observava de longe, estudando toda aquela empolgação, porém não perdia uma oportunidade sequer de irritar o amigo.
– Ei, teme! – Chamou o loiro ao vê-lo efetuar uma sequência quase perfeita de giros seguidos de suas bolas de fogo.
– O que foi agora, dobe? – Gritou do outro lado da campina.
– Aposto que sou melhor que você em um combate. – Riu provocativo.
– Se pensa que é tão melhor assim, por que não vem até aqui, seu idiota? – Respondeu de forma irritada.
Era sempre assim agora. Naruto provocava e Sasuke reagia muito mais irritado do que deveria, seja por causa de uma lentilha a menos no prato ou por uma disputa de poder. Estava constantemente arisco, sensível a qualquer brincadeira, desde que brigara com Marion.
– Talvez seja o único jeito. – Suspirou Naruto indo até onde o moreno estava – Por que não fazemos uma aposta?
– Que tipo de aposta? – Perguntou interessado, atirando sua camisa para o lado.
– Quem perder fará tudo que o outro quiser. – Sorriu perverso.
– Ótimo, somente assim você ficará calado por dias. Aceito. – Respondeu pondo-se em posição de luta.
– Que vença o melhor. – Disse também posicionando-se.
Jiraya que estava na cozinha olhou brevemente para fora ao estranhar o silêncio e deparou-se com uma cena, no mínimo, engraçada: os dois apenas se olhavam enquanto tentavam achar uma brecha na defesa do adversário.
O grisalho parou o que fazia e ficou a olhar o desfecho do embate. Sorriu satisfeito ao notar que Sasuke agora possuía mais noção sobre o comportamento numa luta, afinal, se fosse antes ele já teria corrido – com a guarda baixa – até o adversário. Pelo jeito ele estava realmente levando as coisas a sério agora.
Enquanto isso Naruto fazia seu primeiro movimento: uma investida rápida e violenta. Sasuke desviou para o lado no último momento e tentou acertar um chute no rosto do loiro, Naruto, atento, bloqueou o golpe e saltou de volta para longe. Sasuke realmente estava centrado, a cada nova investida de Naruto um bloqueio eficaz seguido de um rápido contra-ataque era feito. Na sua mente havia apenas espaço para as memórias dos ensinamentos de Jiraya. Seu foco era vencer.
“Confunda os sentidos do seu adversário, o deixe vulnerável...”
A luta já ocorria a bons minutos e deixava seus efeitos evidentes, ambos estavam suados e ofegantes. Dessa vez foi o moreno que se moveu primeiro, executando uma sequência de selos com as mãos e atirando bolas de fogo aos pés do loiro que apenas saltou para trás e ficou desnorteado pela fumaça. Sasuke aproveitou esse momento para se mesclar a fumaça e o atacar de frente, enquanto ele ainda estava com a guarda baixa.
Quando atravessou a cortina espessa pode visualizar a silhueta de Naruto. Só não contava com a espiral de vento acumulado em uma esfera azulada nas mãos do loiro. Foi capaz de desviar da esfera atirada com força contra si, mas não da rasteira que levou, fechou os olhos com o impacto com o chão.
“Nunca subestime o oponente...”
Quando abriu os olhos deparou-se com Naruto sentado em sua barriga. Uma mão era fixada em seu pescoço e a outra estava fechada em punho a poucos centímetros de seu rosto.
– Você não foi o único que encontrou a forma do chakra. – Sorriu de canto – Te venci.
– Saia logo de cima de mim, seu idiota. – Reclamou o tirando de perto.
– Não se pode ganhar todas, teme. – Brincou tirando a poeira da roupa.
– Cale essa maldita boca. – Falou recolocando a camisa. Suspirou cansado – O que quer que eu faça?
– Quero que vá falar com a Marion-chan. – Sorriu levando as mãos à nuca.
– Hn? Enlouqueceu? – Questionou com os olhos meio arregalados.
– Ora, não foi pra isso que você veio treinando essa semana? – Indagou sentando-se no chão.
Dias atrás...
– O faz aqui fora tão tarde, garoto? – Indagou Jiraya.
– Eu... Não consigo dormir.
– É sobre Marion, não é? – Começou sentando-se ao seu lado.
– Sim. – Suspirou cansado – Eu estou arrependido de tê-la provocado com algo tão sério, eu não tinha o direito de fazer isso, não depois que ela tomou um golpe por minha culpa.
– A função dela é essa, Sasuke. Proteger o pacto é a coisa mais importante na vida de um demônio.
– Mesmo assim eu ainda me sinto culpado. – Respondeu escondendo o rosto entre os joelhos.
– Está preocupado com a ferida no braço dela que não cicatriza... Ou porque notou que seus sentimentos por ela estão em desordem?
– Hã? – Perguntou levantando a cabeça em um rompante – Que ideia maluca é essa? É claro que é por causa do ferimento!
– Bom, se o motivo é esse existe uma solução. Fique mais forte, tenha mais controle sobre seu chakra e então dê seu sangue a ela. Quanto mais forte o pacto, mas efeitos o sangue tem sobre o contratado.
– Isso é verdade? – Questionou com os olhos demonstrando empolgação.
– Sim. – Sorriu levantando-se e dando um leve tapa nas costas do moreno animado – Agora, se o motivo for o outro...
– O que há agora com essa conversa sobre sentimentos! – Disse com a face irritada.
– Estou apenas avisando. – Disse calmo antes de entrar – Demônios não amam, Sasuke...
– Como você...
– Apenas cale a boca e vá logo. – Finalizou o assunto.
Sasuke, mesmo ainda confuso, virou-se e foi rumo a cachoeira. Assim que sumiu entre as árvores Jiraya se fez presente ao lado do loiro sorridente.
– Os dois ainda precisam trilhar um longo caminho, mas estou orgulho da luta de hoje.
– Ele realmente ficou forte, Jiji. Por um momento achei que fosse perder... – Comentou Naruto.
– Quando foi que dominou o rasengan? – Perguntou sentando-se ao seu lado.
– Não dominei, aquela esfera sequer arranharia ele de tão fraca que estava. Eu só precisava ganhar tempo.
– Sabe que isso foi jogo sujo, não sabe? – Riu de forma divertida.
– Sim... Mas se não fosse desse jeito ele nunca iria procurá-la.
❈ ✝ ❈
Enquanto isso, no breve caminho até a cachoeira, Sasuke ponderava a melhor maneira de começar um diálogo, afinal, não sabia como estaria o humor da guerreira. Não pensou que teria de fazer isso tão cedo, muito menos que Naruto havia ouvido a conversa que teve com Jiraya há uns dias.
Havia treinado duro, mesmo que por pouco tempo, para que pudesse ser útil para ela, então porquê estava tão receoso? Quando se fez essa pergunta a única coisa que vinha à sua cabeça eram as palavras do grisalho. Tratou de espantar tais pensamentos e cessou os passos. Havia chegado.
Lá estava ela meditando em baixo da cachoeira, sem o traje vermelho e as fitas dos pés, apenas com faixas cobrindo os seios e o pequeno short negro. Seu braço esquerdo exibia contornos tribais em um tom de vermelho vivo. Observando mais atentamente Sasuke notou que em determinados momentos um leve brilho surgia nos contornos escarlates e rumavam para a ferida.
– Um canal de fluxo de chakra... – Pensou impressionado.
– Quanto tempo pretende ficar ai parado? – Indagou olhando profundamente para o moreno.
– Não quis interromper. – Começou receoso – Como... Como está seu braço?
– Por que se importa? – Questionou o analisando.
– Eu estou arrependido do que fiz. Não deveria ter fugido de você no vilarejo...
– Você não deveria fazer inúmeras coisas, começando por estar aqui.
– Será que até quando me preocupo com você, você será arisca dessa forma? – Bufou irritado.
– Está como deveria estar. – Respondeu ríspida virando o rosto.
– Sabe... – Mudou de assunto – Eu poderia ajudar muito mais se você começasse a me contar as coisas que sabe. Está na hora de começar a confiar em mim.
– Tudo que vejo em você é um garoto mimado procurando por colo. – Levantou-se e seguiu pelo caminho de pedras até parar ao lado do moreno – Quando começar a agir de forma responsável eu confiarei em você.
– Então me deixe provar que aprendi. – Pediu confiante – Deixe-me oferecer meu sangue a você para que essa ferida cicatrize. Jiraya me falou sobre os efeitos do sangue em um pacto, foi por isso que treinei durante a semana.
– Mesmo tendo ficado com um controle de chakra melhor – Falou recolocando o pequeno kimono vermelho – Ainda não será o suficiente.
– Então eu continuarei treinando e dando meu sangue a você. – Foi firme – Já está na hora de acabarmos com as brigas.
Marion o olhou ainda desconfiada. Aquele era realmente o pirralho imaturo que havia conhecido no calabouço? Apenas uma semana não seria o suficiente para modificar a personalidade de alguém assim, seria? Aproveitou o tempo em que terminava de amarrar as fitas dos pés para pensar se daria uma chance para ele. Respirou fundo e balançou a cabeça de forma cansada.
– Tudo bem, Sasuke. – Falou séria – Sente, tem algumas coisas que precisam ser ditas.
– Obrigado por acreditar em mim. – Sorriu sincero.
– Não pense que tem minha confiança ainda.
– Eu sei, não pretendo decepcioná-la.
❈ ✝❈
A garota de cabelos escuros andava de um lado a outro naquela sala, suas pernas ainda tremiam, não conseguia acreditar no que havia acontecido dias atrás na Terra. A ida até a Catedral deveria ser algo normal, sem maiores surpresas... Não imaginava que logo ela estaria lá.
Todos esses anos – esses longos anos – jurou que ela não mais vivia e agora, não mais que de repente a reencontra. Estava tão assustada na hora que ao menos conseguiu controlar o tom de voz, lastimável. Tantas memórias lhe perturbando a faziam quase sufocar.
Porém, outra coisa também lhe deixava aflita. Até o presente momento não fora capaz de relatar aos seus superiores sobre o encontro e não sabia se seria, precisava tomar uma decisão antes que fosse prejudicada, afinal, não se pode brincar quando o assunto é ela.
No entanto, teve os passos interrompidos por um par de mãos grandes e calorosas.
– Hinata. – Disse de forma calma.
– Oh! – Ofegou ao reconhecer a figura – Soberano Miguel, desculpe. Não o ouvi chamar.
– Não se preocupe com isso. – Sorriu de forma acolhedora – O que lhe atormenta, irmã?
– N-nada com que deva se preocupar! – Elevou o tom de voz moderadamente.
O arcanjo suspirou cansado e olhou de forma entristecida para o anjo. Sabia que ela estava ocultando algo sobre sua visita na Terra.
– Hinata, quando eu permiti que fosse até a Halled, eu confiei em você.
– Sim, não duvido disso. – Respondeu sobressaltada.
– Então, por que não confia em mim agora?
– Não é questão de confiança. – Sussurrou angustiada – Soberano...
– Sim? – Indagou com um leve sorriso na face.
– Depois daquele dia... – Pareceu ponderar o que falaria, porém achou melhor ser direta – O que aconteceu com Sakura?
Os olhos azuis arregalaram-se por breves segundos, totalmente surpresos, antes de se tornarem tranquilos novamente.
– Posso ao menos saber o motivo da pergunta?
– E-eu... A encontrei na catedral. – Respondeu abaixando a cabeça, estava completamente envergonhada.
– Na catedral? – Estranhou o local – Então ela alcançou esse nível de poder... Bom, isso torna as coisas um pouco mais complicada para nós.
– Hn? – Olhou-lhe confusa.
– Sabe, Hinata, depois daquele dia nós não tivemos muitas notícias sobre Sakura, a única coisa que sabíamos era que Lúcifer a estava protegendo de tudo enquanto a fortalecia. Não pudemos ir muito além disso, a “blindagem” era muito forte. – Revelou cauteloso, observando as reações de sua subordinada – Mas, se ela foi capaz de sair do Inferno... Isso significa que tem planos.
– Planos? Não me diga que ela quer destroná-lo?
– Só há um jeito de saber o que ela ainda tem em mente. – Disse olhando-lhe de forma sugestiva.
– Que... – Arregalou os olhos quando compreendeu o significado de tudo – Não, por favor! Não me peça para fazer isso!
– Estamos contando com você, irmã. – Sorriu um pouco acanhado.
– Miguel! – Implorou – Eu não posso... Não sou capaz...
– Desculpe, mas isso é por um bem maior. Você precisará vigiá-la de perto. – Disse depositando um cálido beijo na testa da morena e retirando-se da sala.
Hinata apenas deixou seu corpo escorregar até o chão, sem forças. Os olhos arregalados e as mãos soltas no colo, estava perdida. Que tipo de irmão era Miguel que a deixava numa bandeja pronta para ser devorada pelo lobo?
Após um longo tempo, tentando digerir o que havia acabado de acontecer, sentiu os olhos marejarem, juntou as mãos e iniciou uma prece fervorosa. Chorou como uma criança enquanto deixava seus lábios tremerem com as palavras mudas da oração.
Mesmo que houvesse treinado duro, se fortalecido e agora ocupasse um alto cargo no exército celestial, no fundo ainda era o anjo fraco e covarde de antes. Jamais superou o acontecido de séculos passados, a dor ainda era muito recente em seu frágil corpo. Se conhecia bem o bastante para saber que jamais teria coragem de se reaproximar dela. Não de Sakura...
… Sua ex-comandante.
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