Marion Blanchard.
18 Ela
Notas iniciais

Na manhã seguinte, logo cedo, Marion – novamente com os cabelos negros – e Sasuke partiram rumo ao vilarejo deixando Naruto e Jiraya em um treino bastante cansativo. O sol ameno pelo horário proporcionava um clima bastante agradável para a pequena viagem, embora quase todo o caminho tenha sido feito no mais absoluto silêncio, resultado da apreensão do moreno para a eficiência do plano que havia tido. Entretanto, para não levantar muitas suspeitas, volta e meia, dizia estar ainda com muito sono.
Chegando ao povoado, assim como da primeira vez, Sasuke ficou encarregado de falar com os comerciantes e conseguir os descontos, muito embora alguns deles ainda lembrassem da figura de Marion e tremessem por isso. As compras seguiam normalmente até que, próximo ao final das pechinchas, o moreno viu a oportunidade perfeita de pôr seu plano em prática. A feira estava consideravelmente mais movimentada e seria fácil nesse momento.
– Marion! – Chamou parando um pouco de caminhar.
– O que foi? – Questionou de forma irritadiça.
– Estou com fome e vou comprar alguns bolinhos. Pode me esperar na próxima barraca de temperos?
– Humanos! – Bufou entediada. – Vá antes que eu me arrependa.
– Não demorarei. – Disse e saiu apressado rumo a bancada onde ficavam as guloseimas.
Obviamente tudo isso fazia parte do plano, só não contava com a ajuda do destino. Em um determinado momento um grupo de feirantes passou muito próximo a Marion, fazendo assim com que ela perdesse o moreno de vista. Por Deus, Sasuke nunca correu tanto em sua vida!
Estava um pouco distante da catedral, mas contando com o fato de que o nariz da rosada ficava extremamente confuso no meio de tantos cheiros, teria uma grande vantagem. Durante a corrida esbarrou com um comerciante de pescados, escorregou em um dos peixes e quase caiu. Fora por pouco.
Chegando ao local desejado, entrou e respirou afobado. Quando parou para olhar ao redor assustou-se com a magnitude do lugar. A catedral era a coisa mais bela que já havia visto na vida. A grande nave, ladeada por corredores espaçados com arcos ogivais, abria espaço para o majestoso altar, que era iluminado por vitrais, indo do chão ao teto em um degradê harmonioso de cores, sustentando imagens esculpidas em mármore. A luminosidade do ambiente esbanjava conforto e serenidade.
Começou seu percusso meio inseguro, afinal, não sabia ao certo para que lado ficava a biblioteca, já que a explicação de Jiraya sobre sua localização havia sido muito breve. Somente depois de acessar algumas portas erradas conseguiu encontrar o tão procurado cômodo.
A biblioteca era algo colossal. As infindáveis estantes estendiam-se do chão ao teto e estavam abarrotadas de livros, porém, assim como no resto da catedral não havia uma única pessoa transitando por ali. Andou mais para o fundo e lá, sentado ao lado de um vitral exótico, cujo deixava a luz transpassar, estava um senhor de idade avançada e um longo e quase infinito bigode, seus trajes eram do mais puro branco e possuía em sua cintura uma faixa em tom de cinza fosco.
– Dorank? – Chamou receoso.
– Vá embora, humano. – Sibilou de costas, ríspido, balançando-se de trás para frente constantemente enquanto lia um livro gigantesco.
– Vim de longe a sua procura – Insistiu. – Preciso que me ajude.
– Não, não precisa. Você quer – Resmungou ainda lendo. – Precisar é diferente de querer.
– Gostaria que me desse algo que me ajudasse a encontrar meu sensei – Não desistiria, precisava de algo.
– Você se virou muito bem sem mim até agora, garoto estranho – Riu de forma esquisita.
– Certo, acho que Jiraya esqueceu de me contar que você não passava de um senhor de idade já sem o juízo.
– Jiraya? Você está aqui em nome dele? – Indagou mudando completamente de postura. Agora assumia uma séria e não mais esquizofrênica.
– Mas oq-
– Fale, menino. O que precisa de mim? – Questionou arrumando a postura desleixada para uma ereta.
– Preciso de algo que me ajude, qualquer coisa!
– Aproxime-se então – Pediu pondo o livro sobre a mesa e virando-se para o garoto. Uma pequena sombra de pavor tomou sua face, porém, fora algo tão rápido que Sasuke ao menos notou. – Você é completamente diferente de todos aqueles que já passaram por mim.
– O que isso significa? – Perguntou confuso.
– Céus, você ao menos sabe o peso do destino que carrega – Suspirou exausto. – Espere aqui – Disse levantando-se e sumindo por entre as estantes. Seu tamanho era algo realmente engraçado, não devia passar de um metro e meio.
Enquanto Dorank não regressava, Sasuke aproveitou para analisar melhor o lugar. O fato de não encontrar ninguém transitando por uma catedral daquele tamanho e, mesmo assim, não haver poeira em muitos lugares o deixou intrigado. Poucos segundos depois, o velho baixinho retornou trazendo algo em mãos.
– Tome – Disse entregando um livro de estatura média nas mãos do garoto.
O artefato era de um cinza claro, bastante adornado e com duas pedras ovais e azuis em sua capa. Possuía ainda o espaço para uma fechadura, muito embora não possuísse nenhum fecho que o impedisse de ser aberto.
Sasuke olhou maravilhado para aquilo e prontamente o abriu. A decepção ficou estampada em sua face. O livro estava com todas, isso mesmo, todas as suas folhas em branco.
– Mas, o que é isso? – Perguntou na esperança de ter ocorrido um engano.
– É um livro – Riu zombeteiro. – Se chama Sacru. Nele contém toda a história do mundo.
– Mas está em branco!
– Mas é claro! Você não usou a clave para abri-lo.
– Oh! Onde está ela então? – Questionou novamente animado.
– Você quis dizer “elas” – Sorriu vendo a confusão no rosto do rapaz – Deixe-me explicar. O Sacru funcionava através das enuntiatum claves. Existem claves de bronze, prateadas e as douradas. Cada uma abre um capítulo diferente do livro.
– E onde elas estão?
– Espalhadas por todas as dimensões, ora essa! – Gargalhou animado.
– O que? – Exaltou-se. – Como acha que eu vou encontrar todas elas?
– Você não irá. Ninguém sabe ao certo quantas claves existem. Não se preocupe. O livro irá guiá-lo apenas para aquelas que o ajudarão.
– Eu preciso de algo que me ajude agora, não nas próximas encarnações!
– Aqui, tome. – Falou entregando para ele uma pequena chave de bronze – Essa é a Heres, ela irá mostrar-lhe as primeiras revelações. Agora vá embora – Enxotou de forma meio rude, voltando a se sentar em sua poltrona e recomeçando a leitura.
– Muito obrigado, Dorank – Agradeceu escondendo o livro preso a parte traseira de sua calça e seguiu rumo a porta. Quando estava quase a fechando por completo pode ainda ouvir um grito:
– Lembre-se! O livro só mostrará aquilo que julgar o correto para você.
Sasuke fazia seu caminho de volta tranquilamente, havia conseguido aquilo que viera buscar e nada podeira lhe roubar a felicidade. Bom... Quase nada. Estava passando em frente ao altar quando, na outra extremidade, uma figura apareceu. Ela vinha caminhando de cabeça baixa, porém quando notou a presença dele a ergueu. O choque congelou sua face por breves segundos antes da ira tomar conta.
– Chrno, seu maldito! – Gritou. Seu corpo retesou enquanto concentrava uma grande quantidade de energia em suas mãos. Algumas veias saltavam de sua testa e lateral dos olhos.
Tão rápido quanto começou, a esfera de energia jazia pronta nas mãos da misteriosa pessoa. Os raios que saiam dela estalavam como madeira seca ao fogo. Aquilo emanava uma energia absurda e fora atirada contra Sasuke. Não havia tempo para fuga.
O garoto, paralisado pelo medo e confusão, apenas fechou os olhos e levou as mãos a frente do rosto quando o clarão tomou o local. Uma pequena explosão fora ouvida, mas a dor não veio. Abriu os olhos somente para sentir o medo aumentar, congelando-o. Em sua frente, com o braço esquerdo a frente do corpo esbanjando uma queimadura horrenda, estava Marion.
Quando a fumaça passou, a figura de onde o ataque partira ergueu uma sobrancelha em descrença. Afinal, quem seria aquela que fora capaz de bloquear seu ataque?
– Quem é você? – Perguntou de forma impetuosa.
– Ora, ora – Riu Marion liberando seu chakra, cancelando por completo sua transformação, deixando os cabelos rosados completamente a mostra. – Que completa falta de modos é essa, Hinata?
– VOCÊ! – O pânico era evidente no rosto da garota. Seus olhos perolados, muito semelhantes a pequenas e doces luas, estavam completamente aturdidos. – Pensei que havia morrido!
– Estou viva, como está vendo. Satanás é caprichoso, não deixaria que eu morresse – Provocou ainda em posição de luta.
– Não pronuncie o nome do Traidor em solo sagrado, sua imunda! – Gritou tremendo violentamente.
– Está com medo de mim, Hina-chan? – Debochou, sua voz era ácido puro.
– Olhe pra você, mal consegue se curar e ainda me pergunta se possuo medo – Riu nervosa enquanto via a pele da rosada fumaçar e adquirir um aspecto cinzento. – Você me dá nojo, Sakura.
– Eu farei você engasgar com o próprio sangue quando arrancar sua língua, seu pequeno pedaço de esterco! – Urrou furiosa pela menção do nome.
– Eu adoraria lutar com você e mostrar seu devido lugar, filhote de demônio – Disse erguendo o corpo e respirando fundo. – Porém dessa vez a deixarei ir.
– Você continua frouxa, é lastimável – Desdenhou enquanto virava-se de costas para ela.
– Nunca dê as costas para o inimigo, demônio – Pronunciou Hinata.
– Oh! – Riu de forma gutural. – Nunca vire as costas você para mim, chibi – Respondeu direcionando seus olhos assassinos para a figura feminina, antes que ela sumisse em um raio de luz em direção ao céu.
Passaram-se alguns minutos antes que alguma reação fosse demonstrada. Marion foi a primeira a agir apenas movendo-se em direção a saída do local. Sasuke, ainda assustado apenas a seguiu. O caminho de volta fora feito em um incomodo e pavoroso silêncio.
O moreno estava horrorizado com o aspecto que a pele da garota tinha tomado na igreja. Claro! Era por isso que Jiraya falou que ela nunca o deixaria ir até a catedral, era um demônio e não podia pisar em solo sagrado! Estava completamente ferrado.
Quando a garota parou a carroça do lado de fora da casa de Jiraya, desceu com o moreno a seu encalço e parou bruscamente. Foi quando as primeiras palavras foram ditas.
– Está ferido? – Perguntou ainda de costas para o mesmo, sua voz totalmente neutra.
– O que? Não...
Não pôde terminar de falar, quando menos esperava sentiu o gosto de ferro na boca. Marion havia dado-lhe um tapa preciso e violento, fazendo-o sangrar.
– Isso é para que aprenda a nunca sair de perto de mim – Pronunciou e tornou a andar.
Sasuke estava atônito, não sabia como reagir diante da situação em que se encontrava. Foi quando em uma torrente de medo e raiva reagiu da pior maneira possível para aquela situação.
– Sua desgraçada, quem pensa que é para agir dessa forma? – Gritou.
– Engula suas palavras, seu fedelho miserável – Sibilou contorcendo o pescoço de forma a estralá-lo.
– Eu sou um homem, pare de me tratar com desdém! – Suas mãos tremiam, embora sua voz fosse firme.
– Um homem? – Questionou parando de caminhar e soltando uma risada lateral. – Você não age como um. Fica bancando o dono de si de forma egoísta como uma criança birrenta – Respondeu raivosa.
– Não sou tão diferente de você no final das contas – Retrucou fazendo-a o observar de forma confusa. – Jiraya me contou tudo sobre você, demônio Marion. Se for do jeito que está me descrevendo, então sou completamente igual a você – Afirmou transformando sua face antes assustada para uma raivosa.
– Meça suas palavras comigo, pirralho – Disse ameaçadora semicerrando os olhos.
– Você não gosta de ouvir a verdade, Marion? – Provocou andando ao redor da garota. – No fim você não é tão difícil de ler – Sorriu vendo-a morder o lábio inferior com força. – Foi traída por alguém que confiava e por isso não acredita plenamente em mais ninguém? – Arriscou enfrentando de forma absurda a rosada que apertava os punhos controlando-se. – Deixe-me adivinhar. Tem a ver com a pessoa que pensou que eu fosse, não é? Esse tal de Chrno...
Não pode terminar de falar. Sentiu o chão tremer, a madeira das árvores estalarem e as pedras ao redor levitarem devido a alteração da gravidade. Calou-se ao virar o olhar para a garota e notar sua expressão assassina e o lábio a sangrar pela força usada na mordida. Marion era pura ira.
A pele, antes lisa de seu rosto, agora possuía um aspecto rachado na bochecha e testa, os olhos outrora verdes foram tomados pela escuridão, afetando toda a esclera e deixando apenas a íris inalterada. Um grito fino e monstruoso rasgou o espaço.
– Eu vou matar você – Sibilou em seguida com uma voz rouca e totalmente desconhecida, movendo um pé na direção do moreno que estava paralisado de pânico. Sua testa transbordava em suor enquanto a energia obscura que saia da guerreira tomava o ambiente.
Em um piscar de olhos ela estava parada a sua frente, completamente fora de si. Seria esse o tamanho de sua ira por tal misteriosa pessoa? Sem que pudesse notar, a mão direita dela cravou-se em seu pescoço o levantando no ar enquanto a esquerda, já com as unhas preparadas para perfura-lhe o coração, era erguida. Fora tudo muito rápido, em um momento estava suspenso no ar e no outro caído ao chão com as mãos protegendo a jugular.
Olhou para ver o que havia acontecido e encontrou Jiraya por trás de Marion segurando seus braços. A energia negra ainda fluía livremente quando o mais velho se pronunciou:
– Acalme-se, Marion – E, como um comando automático, a garota voltou a ter os olhos verdes de sempre. A energia cessou e as enormes pedras que flutuavam caíram com um baque estrondoso.
– Naruto, leve-o para dentro – Ordenou Jiraya para o loiro assustado ao lado de Sasuke.
– Vamos sair logo daqui – Chamou ajudando o moreno a levantar-se e o levou para dentro da casa.
Quando o silêncio pode voltar a ser ouvido, o grisalho finalmente soltou os braços da rosada.
– Somente me diga que desfez o selo para poder liberar esse tipo de energia – Pediu Jiraya massageando as têmporas.
– Você sabe que só o próprio Satanás pode removê-lo – Respondeu desinteressada.
– Eu não acredito! – Gritou irritado. – Eu deveria jogar água benta em você!
– Você não seria capaz – Bufou.
– Marion Blanchard! – Respirou fundo. – Você sabe que liberar esse poder enquanto ainda possui o selo é suicídio.
– Eu sei me virar sozinha, não preciso dos seus cuidados.
– Ótimo, exploda em um feixe de luz antes de cumprir sua maldita vingança – Exaltou-se novamente.
– Como pretende que eu lute, então? – Ralhou agressivamente.
– Você sabe muito bem que tem outra fonte de poder!
– Ela se perdeu no tempo – Gemeu de forma contrariada.
– Você sabe melhor do que ninguém onde encontrá-la, apenas engula o orgulho antes que sua ira a engula – Disse firme.
– Eu não a envolverei nisso, não novamente – Disse rosnando.
– Ela está apenas esperando seu chamado. Pare de ser orgulhosa!
– Deixe Antares fora disso – Sibilou olhando furiosamente para o grisalho.
– Minha filha... – Tentou argumentar, porém, a garota havia virado as costas e seguia rumo a cachoeira. – Será que não percebe que ela morre, cada vez mais, longe de você?
– Sim, eu sei... – Sussurrou apertando as mãos fechadas em punhos.
– Mas que ferida é essa em seu braço? – Perguntou alarmado quando olhou para a queimadura que ainda não havia cicatrizado com o poder de cura da guerreira.
– Um pequeno brinde de um encontro com uma velha conhecida mais cedo.
– Não me diga que...
– Sim, um anjo – Rosnou.
– Magia santa! Céus! – Berrou. – Volte aqui, Marion. Precisamos cuidar disso, você sabe que seu poder de cura não é o suficiente para magia de anjos.
Um sorriso de escárnio ecoou no local antes da voz sedutora e agressiva da rosada fosse ouvida:
– Preocupe-se com a criança birrenta que encontrará quando entrar em sua casa.
– Problemas! Odeio problemas! – Resmungou indo em direção ao interior de sua moradia.
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