Marion Blanchard.
19 Passado
Notas iniciais

O pôr do sol trazia à campina um tom alaranjado forte, com ocasionais rajadas de roxo. O vento morno e inconstante anunciava a estação que se aproximava: verão.
Jiraya estava sentado de forma desleixada, contemplando a paisagem além-penhasco, seus cabelos de coloração grisalha eram balançados esporadicamente pela brisa. Sua atenção não era detida em algo específico, apenas vagava de um ponto a outro sem a menor preocupação quando um barulho ao longe – de galhos sendo partidos – o fez olhar na direção da floresta à margem da clareira.
Pôs-se de pé logo que o barulho se tornou visivelmente maior, sendo seguido de algo pesado caindo na água. Seja lá o que estivesse ali estava emanando uma energia astral baixíssima, quase como se estivesse morrendo. Arriscou seguir o som até a pequena cachoeira ali perto. Assustou-se com o que viu.
Uma garota de cabelos róseos e estatura mediana estava caída com parte do corpo dentro da água, sua expressão era de cansaço, porém os olhos mantinham-se arredios. Aproximou-se as pressas e tentou tocar-lhe para puxá-la para fora dali, mas ao encostar seus dedos na pele alva tomou uma descarga elétrica pesada. Conhecia aquela sensação e soube na hora que ser era ela.
– O que um demônio está fazendo aqui? – Questionou afastando-se um pouco.
Não houve resposta. Pensou em perguntar novamente, entretanto ao olhar para o líquido vermelho flutuando ao redor dela compreendeu o que acontecia. Estava ferida, praticamente morta. Pela profundidade e intensidade do ferimento teve noção do quão devastadora fora a peleja e somente o fato dela ainda estar viva demonstrava o quão poderosa era.
Olhou novamente para o rosto dela e algo desconhecido lhe atingiu, os olhos verdes cristalinos faziam-no ter uma sensação de conforto, era como estar em casa depois de um longo tempo longe. Estranhou-se por isso, mas desviou sua atenção dos pensamentos conflituosos quando a viu ter uma crise violenta de tosse.
– É completamente contra as regras, mas eu vou cuidar de você. – Anunciou abaixando-se ao seu lado e a pegando no colo. O choque do primeiro toque voltou ainda mais violento, porém não a largou.
– M-me s...olte. – Gaguejou pendendo a cabeça para trás enquanto mais sangue saia por seus lábios.
– Fique quieta, vai acabar morrendo. – Ordenou voltando para sua casa na campina ao lado do penhasco.
– E-eu vou m-matar v...ocê. – Rosnou, mal se mantendo focada no caminho.
– Não, você não irá. – Afirmou e olhou profundamente para aqueles olhos de jade.
Ela não sabia o que havia acontecido, mas naquele momento compreendeu que, mesmo que quisesse, jamais conseguiria fazer mal para aquele homem estranho e antes de cair na inconsciência um pensamento lhe acertou: ele era o pior tipo de ameaça que poderia a atingir.
Estava perdida.
❈ ✝ ❈
Por breves momentos após ver Marion rumar para a cachoeira Jiraya fora acometido de recordações do dia em que a encontrou. Parecia inofensiva e estava tão ferida... Mesmo assim os olhos emanavam uma vontade quase doentia de continuar vivendo. Fora extremamente trabalhoso adequar-se ao modo de agir dela, porém, quando conseguiu não pode se sentir mais orgulhoso, mesmo que agora, depois de tanto tempo, ainda houvesse coisas sobre o passado dela que eram desconhecidas por ele.
Marion era sua criança e não deixaria que nada de mal lhe acontecesse, mesmo que para isso tivesse que dar uma boa lição numa criança humana. Ninguém, em hipótese alguma, a faria sentir toda aquela dor novamente enquanto estivesse vivo.
Um som estridente ecoou pelo local, os dois jovens que ocupavam a cozinha reconheceram como a porta da frente sendo fechada bruscamente. Pouco tempo depois um emaranhado de cabelos brancos adentrou o cômodo.
– Você tem exatos cinco minutos para me convencer de que eu realmente fiz certo ao interferir em sua morte! – A rispidez na voz do grisalho era quase palpável, sua expressão mantinha-se severa e cansada.
Não houve resposta. Sasuke permaneceu sentado e em silêncio, parecia sequer ter notado a presença do anfitrião daquela casa. Naruto apenas observava tudo, pela primeira vez calado e sem apresentar sinais de que falaria tão cedo.
– Sasuke! Quantas vezes já não disse para não provocá-la? – Perguntou andando de um lado para o outro, uma das mãos apoiada na testa – Não sei o que aconteceu, mas para que ela tenha chegado ao ponto de forçar o selo a se romper… O que você fez? – Parou e direcionou seus olhos novamente para o garoto.
Mais uma vez o silêncio permaneceu.
– Por Deus, estou falando com você! – Gritou batendo as mãos fortemente na mesa, a respiração exasperada.
– Jiji... – Chamou Naruto. Ao notar que tinha a atenção do mais velho apenas balançou negativamente a cabeça.
Jiraya voltou a olhar para o moreno e somente ai percebeu. Sasuke estava em estado de choque, seu corpo ainda tremia e, mesmo com a cabeça baixa, podia-se ver que os olhos estavam tão arregalados quanto pratos. O pânico o dominava.
– Céus... É somente uma criança! – Respirou fundo, abaixando o tom de voz voltou a falar – Está tudo bem agora, garoto. – Seus dedos encontraram a mão fria e trêmula de Sasuke.
Sabia que aquelas palavras não seriam o suficiente para fazê-lo retornar à realidade, talvez ele nem mesmo tenha as ouvido, então resolveu agir através do toque. Sutilmente sua magia era transferida para o corpo do garoto, como pequenas ondas de calor, parecendo trazê-lo de volta à si. Humanos não reagiam da melhor maneira ao frio – e ele sabia o quão gelada era a magia de Marion –, o calor os fazia ter a sensação de conforto, confiança. Algo como estar de volta ao lar e ele conhecia bem essa sensação.
Passado um curto tempo, o rosto antes pálido e amedrontado já adquiria seu aspecto corado. A respiração também havia sido normalizada, embora um leve tremor ainda balança-se seu corpo.
– Sente-se melhor? – Indagou Jiraya.
– E-eu... – Respirou fundo e finalmente conseguiu falar – Me desculpe.
– Não é a mim que deve dizer isso. – A voz novamente assumindo um tom de severidade – Agora, o que foi que aconteceu? E quando digo isso quero saber do começo!
– Eu fiz como você disse, fui até a catedral... – Seus olhos fecharam-se por breves segundos, talvez incomodado com a lembrança.
– Como Marion permitiu que fosse? – Perguntou admirado.
–Ela... Não permitiu. – Sussurrou.
– Mas co... – Parou quando se deu conta do que possivelmente havia ocorrido – Tudo bem, eu manterei a calma. – Sibilou respirando fundo e massageando as têmporas – Continue.
– Quando consegui despistá-la... – Olhou receoso para Naruto que apenas o apoiou – Fui até a catedral e encontrei Dorank.
– Mas isso é ótimo! – Suspirou aliviado.
– Ótimo? Aquele velho não dizia coisa com coisa! Como assim eu não tenho noção do destino que carrego? – Questionou confuso fazendo uma feição de desgosto – Quando eu estava saindo da igreja uma garota apareceu. Ela simplesmente me atacou.
– Por que não disse antes que está ferido? – Perguntou preocupado.
– Porque não estou. Marion apareceu e entrou na frente tomando o golpe.
– Espere ai! – Gritou ficando de pé – Marion? Está me dizendo que ela pisou em solo sagrado?
– Sim...
– Droga! – Bateu na própria cabeça. Olhou para fora da janela e respirou de forma cansada – Me diga, a garota era um anjo?
– Bom... Eu não sei exatamente, mas pelo ódio que ela tinha do nome do Diabo e o fato de não estar “fumaçando” eu acho que sim.
– Ela está viva, não está? – Perguntou receoso.
– Sim, ela teve uma conversa esquisita com Marion, até a chamou como... Sakura.
– Céus, temos um grande problema!
– O estranho mesmo – comentou –, era que ela parecia muito perturbada com a presença de Marion. Tanto é que recusou a briga e apenas foi embora.
– O que não consigo entender é o que a irritou tanto, Marion não o atacaria por tão pouco.
– Na verdade nós brigamos. Ela me bateu e eu perdi o controle. Mas... Quando falei o nome daquela pessoa ela simplesmente enlouqueceu!
– Que nome? – Perguntou rogando aos céus para que estivesse enganado.
– Chrno.
– Garoto! Você, definitivamente, me deve a sua vida. – Disse de forma estúpida – Nunca repita esse nome em sua presença! Por Deus, ainda bem que eu cheguei a tempo.
– Afinal, quem é esse Chrno? – Indagou Naruto.
– Foi o miserável que a destruiu.
❈ ✝ ❈
A cachoeira estava silenciosa até o momento que a garota de cabelo róseos chegou ao local. Ali ela descontou todo resquício de ira que ainda possuía em socos na rocha do paredão ao lado da queda d'água. Sempre que a mão era tingida pelo rubro do sangue a ferida automaticamente cicatrizava, então perdeu a conta de quantos foram, na verdade, nem se preocupou em contar.
A única coisa que não cicatrizava era o ferimento, causado por Hinata, em seu braço esquerdo. Tentou ainda fazer o processo manual de concentração de chakra mas teve a mão repelida de forma violenta. Se amaldiçoou por isto, pelo selo cujo bloqueava seus poderes, pela raiva que ainda sentia de Sasuke e por tudo aquilo que a cercava.
Agora estava sentada em posição de lótus no mesmo lugar de costume, o centro da queda d'água, seu braço ferido possuía manchas tribais em um tom vermelho aceso que seguiam em direção ao machucado. Sua expressão era de evidente descontentamento, o que indicava que não estava tendo progresso algum.
Jiraya, que fora até ali ver como ela estava, aproximou-se cauteloso e tentou iniciar um dialogo.
– Sabe que não vai funcionar, não é?
– Você costumava ser mais otimista. – Respondeu sem humor.
– E você mais controlada. Quase matou o filhote humano. – Alertou
– Não deveria ter me interrompido.
– Pare com essa brincadeira. – Ordenou sério.
– Eu não iria matá-lo.
– Como posso acreditar em você depois do que vi hoje? – Indagou aproximando-se da beira da água.
– Isso não me importa, velho idiota. – Resmungou irritada.
– Dobre sua língua, criança. – Repreendeu de forma severa
– Você sabe o que acontece àqueles que quebram um pacto, Jiraya? – Perguntou mudando completamente o tom de voz.
– Não... – Respondeu se mostrando confuso.
– Nós demônios temos nosso próprio purgatório.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou não compreendendo o rumo da conversa.
– Eles são condenados a eternidade na ala de tortura. Tendo as asas arrancadas sempre que nascem novamente, tendo o chakra sugado de forma lenta e dolorosa enquanto recebem as mais diversas mutilações... É um lugar onde nem mesmo o Diabo mereceria estar.
– Isso é...
– Terrível? – Riu sem humor – Nem mesmo nós demônios suportamos o inferno.
– Está me dizendo que...
– Eu sobrevivi naquela ala por duzentos longos anos. Acredite, eu não quero voltar até aquele lugar. Agora, me deixe só. – Finalizou fechando os olhos e dobrando a concentração de energia enviada para o machucado.
Jiraya apenas permaneceu calado ao seu lado, como sempre fazia quando ela lhe contava algo sobre o Sheol.
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