Marion Blanchard.
17 Dorank
Notas iniciais

Era um cenário calmo, aconchegante. O clima agradável e ameno contrastava com o turbulento que se abateu sobre a Terra. Ao fundo, quase inaudível, podia-se perceber o som de pequenos e delicados sinos. Ali, no centro da vasta planície – rodeada por uma floresta de plantas incomuns – encontrava-se uma gigantesca edificação muito semelhante ao estilo grego, sem muros externos deixando assim que os jardins majestosos revelassem toda a delicadeza do ambiente.
Dentro, logo na entrada, havia um imenso salão circular quase vazio – apenas com uma graciosa fonte ornamentada com a estátua de um guerreiro celeste – que abria espaço para outros oito corredores compridos, além, claro, das colossais janelas intercaladas com os vitrais de tons azul, dourado, verde e branco, iluminando completamente o ambiente. Um piso de mármore branco gelo seguia por toda a extensão da construção, completamente desenhado de linhas finas e douradas, aparentemente sem formar um desenho óbvio.
E era exatamente pelo corredor central que a misteriosa figura seguia confiante. Seus passos precisos e constantes fazia o tinir da bota, do metal entrando em contato com o piso, ecoar pelo recinto. Após findar sua passagem pelo extenso vão, adentrou em outro muito semelhante, embora a parede do lado esquerdo chegasse apenas à metade de sua altura e o restante fosse ocupado pelo vazio e, em alguns momentos, por colunas arredondadas de sustentação.
Olhando dali, mais abaixo, havia um extenso pátio de treinamento e o brandir das armas e urros podiam ser ouvidos. Alheia – ou talvez somente acostumada àquilo – a figura continuou sua caminhada até estancar em frente a uma grande porta de mogno entalhada com inúmeras cenas de batalhas ancestrais. Deu duas batidas recatadas e aguardou o comando para que pudesse adentrar. Assim o fez.
– Senhor. – Cumprimentou de forma respeitosa, ajoelhando-se.
– Olá, criança. – Sorriu de forma acolhedora, mesmo mantendo-se virado para a extensa estante de livros – Então, como vai sua busca?
– É sobre ela o motivo de minha vinda aqui. – Revelou levantando-se – Gostaria de permissão para ir pessoalmente até um determinado local.
– Isso me parece muito perigoso. – Respondeu, virando-se totalmente para observar a figura – Não posso deixar um de meus melhores anjos sair assim. Explique-se melhor.
– Meus subordinados não puderam encontrar o que lhes foi ordenado, dessa forma, só me resta recorrer a um único ser para tal informação. Mas... Ele não revela seu conhecimento a qualquer um, se quero algo, devo ir buscá-lo pessoalmente. – Falou confiante.
– Isso é arriscado, a Terra é um território delicado, embora neutro. Ao contrário do que pensas, nós não podemos ver claramente o que acontece por lá devido a essa instabilidade. Se você sofrer algum ataque sabe no que isso implica, não é?
– Sim, tenho plena noção das consequências. Por favor, Soberano Miguel, permita-me ir! – Implorou deixando a aflição tomar sua face por breves segundos.
– Tenho inúmeros motivos para negar tal pedido, mas confio em você Comandante. Está bem. – Afirmou vendo a expressão de alívio do anjo.
– Peço a benção, irmão. – Curvou-se enquanto esbanjava seu melhor sorriso.
– Vá e leve a sabedoria do Pai com você. – Sorriu vendo o anjo retirar-se do local.
Quando a porta fora fechada por completo moveu os olhos para os delicados afrescos no teto e suspirou pesadamente. – Perdoe-me por esconder a verdade e deixar que vá tão longe, pequeno anjo. –Sussurrou para logo em seguida iniciar uma prece pedindo perdão por seus atos.
Ainda no corredor, direcionando-se para seu escritório, o anjo exibia um sorriso satisfeito. Estava tão feliz que poderia, a qualquer momento, rodopiar e cantar alguma melodia, entretanto, conteve-se e apenas continuou seu caminho.
– Isso é pelos seus dias de glória, sensei. – Sussurrou fechando os olhos e esbanjando um contagiante sorriso.
. . .
A tempestade que se iniciou pela manhã ainda perdurou até a noite, o que fez com que a dupla de garotos permanece dentro da casa. O que não era nem um pouco agradável para Marion, que perdeu as contas de quantas vezes socou Naruto quando ele tentava abraçá-la ainda empolgado com a demonstração de poder de mais cedo, ou somente quando aumentava o tom de voz.
Contudo, nesse exato momento a casa encontrava-se em um silêncio quase sepulcral. Marion havia saído para ir até a cachoeira meditar, Naruto se preparava para dormir – já que Jiraya havia prometido um exaustivo treino para o dia seguinte – e Sasuke parecia absorto em seus pensamentos, sentado na rede da varanda. Devido a isso, não percebeu a aproximação do grisalho. Agora não mais chovia, embora o vento gélido e algumas teimosas gotas ainda pingassem do beiral do telhado e das árvores a margem.
– Ainda acordado? – Questionou de forma amigável, sentando-se na rústica cadeira de balanço.
– Tenho pensado muito esses dias. Sabe, em como me tornar mais forte… – Resmungou suspirando derrotado.
– Pensei que tivesse encontrado o caminho quando cruzou com nossa pequena garota. – Riu da piada feita.
– Você deve ser no mínimo imortal para não ter medo de falar dessa forma sobre ela. – Sorriu. Resolveu então aproveitar a deixa e resolveu tocar em um assunto que há um tempo detinha sua atenção – Jiraya… No dia que chegamos aqui Marion me falou que você não possui coração. O que ela quis dizer com isso?
– Exatamente o que disse. Deixe-me explicar uma coisa, Sasuke. Entre os seres místicos também existe hierarquia. Quanto mais evoluído for, menos semelhanças com as características humanas ele possui.
– Então, aquela centopeia que nos atacou era de uma... Classe avançada? – Perguntou confuso.
– Não. – Riu divertido – As características as quais me referia seria a presença de coração, alma...
– Quer me dizer que você...
Não esperou que o garoto completasse a frase e o interrompeu. – Eu sou uma divindade, o que vocês chamariam de Deus protetor, embora eu recuse esse termo já que estou muito abaixo do próprio Deus e dos arcanjos. Eu só serei útil aos humanos enquanto eles desejarem que eu o seja, diferentemente dos anjos e do grande Criador.
– Está me dizendo que a partir do momento que os humanos perderem a fé em você, você… Morrerá?
– Oh, não! Eu fui criado muito antes dos mortais terem a necessidade de proteção. O que quero dizer é: Se eles não acreditam nos meus poderes, eu sou rejeitado pelo local.
– Que tipo, exatamente, de poderes você possui? – Perguntou realmente interessado no assunto.
– Sou o protetor da terra. Sou o responsável pelo bom aproveitamento das colheitas, do controle das guerras... Alguns até me fazem preces sobre matrimônio! Tudo que esteja relacionado ao meio deste plano espiritual é de minha responsabilidade. – Afirmou erguendo a mão direita e fazendo um pequeno broto nascer no canteiro de flores encostado a parede.
– Isso é fascinante! – Olhou admirado para a minúscula planta, frágil, balançando com o vento.
– Entenda, eu posso restaurar, criar, proteger e destruir o que me for de interesse, mas isso trará consequências. – Falou direcionando os olhos para frente, fazendo Sasuke fazer o mesmo. Uma árvore antiga, situada quase a margem, agora tinha suas folhas ressecadas e morria lentamente. – Não pense que é algo agradável, pelo menos não todo o tempo. – Sorriu olhando para o céu – É uma troca. Para criar a vida é preciso oferecer outra em seu lugar, só assim o equilíbrio poderá permanecer.
– Afinal, quantos anos você tem? – Indagou curioso.
– Quantos deseja que eu tenha? – Brincou – Sou imortal, como pensou, mas isso não significa que eu não possa ser morto.
– Hn? – Olhou-lhe completamente confuso.
– Ser imortal apenas quer dizer que o tempo não afeta sua vitalidade, mas isso não impede que você seja morto por uma criatura. – Suspirou cansado – Eu gostaria que Marion entendesse isso... – Sussurrou pesaroso.
– Nesse tempo todo, sempre esteve sozinho? – Arriscou.
– Oh, não. Marion me fez companhia por um longo período. – Fez uma careta lembrando-se da época – Acredite, ela não é nada comparado ao que era antes. O tempo realmente faz milagres…
– É difícil acreditar nisso. Mas o que eu quis perguntar é… Você nunca se apaixonou?
– Paixão… Sim, eu tive uma. – Fechou os olhos sentindo a brisa – Mas ela já não mais existe.
– Sinto muito. – Disse entristecido, arrependido de ter tocado no assunto.
– Não sinta. A existência dela foi a coisa mais bela que pude presenciar em toda minha vida. Nunca existirá outra, seu rosto estará para sempre intocado em minha memória.
– Sinto inveja de você. – Comentou suspirando derrotado.
– Quando você for capaz de compreender o tempo não sentirá mais isso. – Falou calmo fazendo Sasuke ficar confuso com o real significado daquilo.
O silêncio predominou por um curto período, até Jiraya voltar-se para o moreno:
– Eu farei algo por você, Sasuke. – Revelou.
– O que quer dizer?
– Existe uma determinada criatura capaz de ajudá-lo profundamente com sua busca.
– Oh! Me conte, por favor, onde posso encontrá-la! – Pediu afobado.
– Tenha paciência. Não será fácil chegar até ele e não me refiro a dificuldade para encontrá-lo, mas sim ao fato de que Marion nunca permitiria que você fosse.
– O que quer dizer com isso? Por favor, eu farei qualquer coisa!
– Acredito que tenha visto a catedral situada ao centro do vilarejo… – Esperou a confirmação do mais jovem.
– Sim! – Sorriu animado.
– Ali, na biblioteca aos fundos do corredor lateral, reside uma criatura mística que detém o poder da sabedoria. Seu nome é Dorank. – Falou fazendo uma careta, provavelmente lembrando-se de um fato específico.
– Se é tão perto assim, por que não me disse antes? – Questionou confuso.
– Acredite, não é fácil conseguir algo dele. Precisei observar muito você para decidir se é digno ou não de tal conhecimento. Dorank pode ver a essência de tudo que seus olhos tocam, se você tiver más intenções não receberá nada que irá ser útil. Mas, caso ele o aprove, terá algo realmente precioso em mãos. Basta dizer que está ali em meu nome... Mas, claro que seu maior problema será Marion.
– Ora essa! E por que ela nunca me deixaria ir até lá, sendo tão perto?
– Você não está pensando com clareza. – Respondeu levantando-se e suspirando – Amanhã utilize a ida até o vilarejo por causa dos suprimentos e aproveite a chance. Pense muito bem em como fará, Marion nunca pode saber que soube disso através de mim.
– Muito obrigado, Jiraya! – Sorriu vitorioso, sabia exatamente o que fazer.
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