Marie das Sombras
9 iPod
Notas iniciais
Naquela noite eu tive um sonho muito estranho. Sonhei que escutava alguém chorando muito, como se tivesse perdido a coisa mais importante de sua vida para algo maligno. De repente, escutei várias vozes doces como eu imaginava que fossem as vozes de anjos sussurrarem:
“Não se preocupe. Você tem a nós. Você é nossa rainha, nossa mestra. Seguiremos todas as suas ordens a partir de agora. Não tema. Só pedimos uma coisa.”.
— E o que seria? – uma voz feminina pergunta. Estava rouca do choro, portanto irreconhecível, mas parecia a de minha mãe.
“Não ouse nutrir sentimentos de amor por um humano novamente. Você não precisa de mais ninguém, a não ser de nós, não é mesmo? Ajudamos você a conseguir tudo o que queria...”.
A garota, que estava de costas para mim, abaixou a cabeça. Seus cabelos eram lisos e castanhos como os de minha mãe. Ela estava usando uma calça branca e uma blusa de manga comprida roxa. Seu cabelo estava preso a um rabo de cavalo.
— Por que não? – a voz estava mais limpa, então pude confirmar: era minha mãe.
“Isso... É assim que se pensa, querida. Venha.” – as coisas a chamaram. Eram como duendes, ou fadinhas, não sei dizer ao certo. Eram pequeninas, voavam, mas não tinham uma cor que tivesse nome nesse mundo. Talvez fosse uma mistura de cinza, bege e vermelho, não sei ao certo. Seus cabelos eram verdes, não tinham orelhas, e suas bocas eram rosadas e carnudas. Em seres pequeninos como aqueles, chegava a ser um pouco desproporcional, mas mesmo assim ainda era bonito.
Minha mãe se levantou, deixando a vista o motivo pelo qual estava chorando: tinha um corpo no chão, manchado de sangue e com um punhal enfiado na garganta. Sua cabeça estava com a testa aberta, mostrando parte do cérebro, e seus dedos estavam cortados fora. Tinha uma poça de vômito do lado do corpo, provavelmente de minha mãe.
Senti um enjôo forte bater meu estômago, e a medida que o sonho ia ficando distante e eu voltava a sentir meu travesseiro e os lençóis de minha cama, o enjôo se fortificava, pois a imagem do cadáver não saía de minha mente.
— Preciso... – comecei a balbuciar, mas saí correndo da cama naquele mesmo instante e, aos tropeços, fui para o banheiro, onde consegui alcançar a privada a tempo para vomitar.
— O que raios foi...? – comecei a me perguntar em voz alta, mas lembrei da cena novamente e o vômito voltou, só que não tinha mais nada em meu estômago para vomitar. – Uargh... Bluargh.... – Eu me esforçava para vomitar, mas nada saía de meu estômago.
— Tragam um copo de leite! – ordenei com urgência. Podia sentir que eles estavam me observando.
Nos trinta segundos seguintes eu tive mais três tentativas de vomitar mal-sucedidas, mas assim que eles chegaram com o leite e eu coloquei três goles para dentro, consegui vomitar aquele leite antes que atingisse meu organismo direito, aliviando assim o enjôo.
“O que houve, querida?” – eles perguntaram sem som.
— Tive um pesadelo nojento. Mas... Ah, que pena, agora não lembro o que aconteceu! Só lembro daquele cadáver nojento, com o cérebro aparecendo e... – coloquei os últimos mililitros de leite para fora. – Bem, não é uma imagem muito bonita, e não quero ficar lembrando dela. Vamos, vocês podem preparar o café da manhã para mim, por favor? Não estou me sentindo bem hoje.
“Claro, querida.” – eles responderam, e pude sentir que grande parte deles desceu. Outros ficaram apenas para ver se estava tudo bem comigo.
Dei um meio sorriso, tomei um banho caprichado para tirar o cheiro do vômito, penteei os cabelos e deixei-os soltos e coloquei uma saia e uma blusa que Alex me dera, mas tive o cuidado de colocar uma meia calça por baixo, e usar um sapatinho preto que era meu mesmo. Quando estava pronta, corri para a cozinha, para ao chegar, sentir cheiro de cookies retirados do forno.
“Que delícia...” – pensei, entrando na cozinha silenciosamente. Apesar de toda a minha cautela, eles me viram e saudaram:
“Olá, querida. Notamos que você gostou dos cookies de chocolate, então fizemos cookies e deixamos o leite morno. Sente-se e prove-os, para nos dizer se gostou.”.
Sentei-me como pediram e provei um cookie de chocolate, seguido de um gole de leite morno: estava uma delícia.
— Nossa! Vocês cozinham muito bem! Eu adorei – falei, contente.
Terminei o café da manhã rapidamente, varri meu quarto e peguei o livro da irmã de Alex para devolvê-lo. Então desci e sentei-me no balanço. Vomitar havia drenado minhas forças, então só varrer o quarto me levou a exaustão.
Acabei quase cochilando, mas quando estava prestes a cair de costas, escutei:
— Marie, você está aí, não é? – era Alex, que já estava escalando o muro, pois sua cabeça começou a aparecer assim que abri os olhos. – Ah... Está sim. Olha só.
— Oi, Alex. Tudo bem? – puxei assunto.
— Sim, tudo ótimo. Trouxe hoje meu iPod novo para mostrar para você. Que escutar um pouco de música?
Meus olhos se iluminaram de alegria.
— Música do século XXI? Oh, puxa! Claro que quero escutar! – fiquei animada.
Ele correu para perto de mim e me estendeu um negocinho redondo que estava preso a um fio.
— O que é isso?
— É um fone de ouvido. Aposto que nunca viu um, não é mesmo? Olha, coloque isso no ouvido... – ele encaixou a bolotinha preta no meu ouvido. – E pronto. Você vai escutar música saindo daí. Deixa só eu abaixar o volume... – seus dedos ágeis mexeram naquele objeto meio quadrado, fazendo o que ele chamava de “abaixar o volume”. – Pronto. Play.
Começou a tocar uma música meio barulhenta, que ele disse que era “rock”. Nunca havia escutado nenhuma música daquele jeito, então de primeiro momento a música não me agradou. Porém, a medida que ele foi traduzindo o que o “vocalista” estava gritando, comecei a gostar. A música parecia ser cantada com desespero, como se a pessoa não aguentasse mais algo, e aquilo me deu um arrepio de satisfação... E logo depois arregalei os olhos. O que estava acontecendo comigo? Desde quando eu ficava feliz por ver alguém sofrendo? Algo estava realmente ficando estranho, muito estranho.
A música finalmente acabou, e ele apertou um botãozinho onde estava escrito “pause”, e a música parou.
— Gostou? – ele me perguntou?
— Para falar a verdade... Sim. Na verdade, amei. Você tem outras músicas dessas no seu iPod?
Ele sorriu largamente e respondeu, quase sem ar:
— Mas é claro que tenho! Todos na minha turma são roqueiros. Gostamos de rock acima de todos os outros gêneros.
— Posso ouvir mais algumas? – pedi, fazendo o olhar mais fofo que consegui.
Vi que ele ficou levemente corado antes de gaguejar:
— Mas é claro!
Passamos a tarde inteira escutando as músicas de rock que ele tinha, e quando enjoamos, conversei com ele sobre o livro da irmã dele, que eu havia adorado. Meu mundo era o do século XXI, eu podia sentir isso.
Quando a tarde estava acabando, ele virou para mim e disse:
— Marie, minha mãe vai fazer uma viagem com a família inteira durante um mês e meio. Não vou poder vir aqui durante um tempo, então... – ele parecia triste ao dizer isso.
— Ah, tudo bem. Pelo menos você vai estar de volta para o meu aniversário, não é mesmo?
Ele sorriu antes de responder:
— Sim.
— Então está tudo bem.
— Bom... Então eu vou logo. Sabe como é... Tenho que arrumar as malas, não é?
Assenti, meio triste.
— Então... Tchau.
Acenei tristemente para ele enquanto o via subir pelo muro e ir para o outro lado. Não o veria tão cedo, e logo descobriria que era muito doloroso ficar sem ele por perto. Muito mesmo...
Fale com o autor