Marie das Sombras
10 15 anos (parte 1)
Notas iniciais
Algum dia me disseram que quando nós fazemos quinze anos, viramos verdadeiramente moças. Deixamos nossa infância para trás para poder começar a viver como verdadeiras adultas. Bem, essa pessoa que me disse isso (minha mãe) estava cem por cento certa. No dia de meu aniversário acordei com uma surpresa grandiosa:
— É sangue! – berrei de susto ao ver uma poça vermelha em minha cama ao acordar.
Havia dormido depois de um reencontro lindo com Alex, cuja viagem demorara mais que o previsto, fazendo com que ele chegasse apenas na véspera de meu aniversário. Rimos, conversamos, nos abraçamos... Ele inclusive me beijou mais uma vez e falou (só de brincadeira) em um plano para me tirar dali. Jamais teria pensado que me menstruaria justamente no dia do meu aniversário. Era coincidência demais.
“Algum problema, querida?” – eles perguntaram.
— Não, não... Só acho que me menstruei. Tem sangue na minha cama, e a menos que algum serial killer tenha vindo e desistido de me matar na metade da ação, ou eu tenha sido estuprada, só menstruação é uma explicação.
“Você está menstruada. Não deixaríamos ninguém agredi-la enquanto dorme.” – foi a resposta serena, porém firme deles.
Suspirei. Não pretendia ficar menstruada justo no dia do meu aniversário de quinze anos. Isso era a última coisa que eu poderia pensar.
Levantei-me sem vontade, fui até o banheiro, tirei a roupa, tomei meu banho, sequei-me com uma toalha a parte e, ao me vestir, antes de colocar a calcinha, pedi:
— Tragam-me os absorventes que estão no quarto de minha mãe – isso foi uma ordem, apesar de eu não ter notado que havia usado o tom imperativo.
Em questão de segundos apareceram absorventes flutuando, e assim que os peguei, coloquei um imediatamente na calcinha. Logo estava pronta para descer e fazer o café da manhã, o bolo do meu aniversário e deixar o almoço semi-pronto.
Dizer que fiquei surpresa ao encontrar tudo isso pronto é pouco. Fiquei extremamente estupefata.
— Por que está tudo pronto? – perguntei ao ar.
“É seu aniversário, meu bem. Não iremos deixar você se esforçar muito. Ainda mais agora que você está menstruada. Você não pode se esforçar muito. Cuidaremos de tudo hoje. Tudo bem, querida?” – foi o que eu tive como resposta.
— Tudo bem... Mas se precisarem de ajuda, me peçam. É uma ordem – deixei claro antes de me sentar.
Pude sentir como se eles trocassem uma informação entre si, mas não consegui detectar qual era. Estavam se comunicando de um jeito estranho. Estreitei os olhos, desconfiada, mas deixei de lado. Não era hora de ficar preocupada com isso.
Olhei para a mesa servida, imaginando o que comeria. Tinha frutas, cookies, um ovo mexido e um croissant. Para beber tinha suco de laranja, leite e chá.
“Para que raios eu tomaria chá no café da manhã?” – pensei, estranhando.
Optei por tomar suco, comer algumas frutas e logo depois, ainda com fome, devorei o croissant junto com um cookie, e um pouco de leite.
Suspirei, recostando-me satisfeita na cadeira. O dia estava adorável lá fora. Uma brisa fresca entrou na cozinha, trazendo o aroma da floresta consigo, e senti como se minhas energias tivessem sido carregadas novamente: Alex viria mais tarde. Sorri com esse pensamento, levantando-me da mesa e avisando:
— Vou arrumar meu quarto, limpar um pouco o banheiro e arrumar a sala de estar, só para me distrair.
“Tudo bem. Mas tome cuidado para não se esforçar demais.” – foi o aviso delas.
Assenti enquanto corria escada acima, animada com a ideia de arrumar a casa para a chegada de Alex, embora o aniversário fosse meu.
Cheguei em meu quarto que nem um foguete e comecei a arrumar tudo com rapidez e simplicidade: arrumei a cama, deixando-a parecida com a de um hotel que havia visto uma vez em uma revista, arrumei meu guarda-roupa (que estava consideravelmente desarrumado, devido aos meus devaneios recentes com Alex), lavei o meu banheiro (que ainda estava com aquele cheirinho meio azedo de vômito), varri o chão, e tirei poeira das cortinas.
Quando finalmente terminei tudo isso, mais ou menos duas horas depois de começar, desci até o banheiro que Alex usara, limpei as paredes, varri e passei um pano, e deixei com uma aparência bem melhor do que a de antes.
Passei à sala de estar, mais ou menos meia hora depois, e lá só precisei bater um pouco as cortinas, passar uma vassoura e arrumar os sofás (que eu havia bagunçado naquelas semanas sem Alex) e pronto.
Nem preciso dizer que estava exausta quando terminei, e que já era hora do almoço, por isso corri para meu quarto, tomei um banho simples, sem lavar a cabeça, e finalmente fui me vestir.
O vestido que eu havia escolhido era um que minha mãe havia me dado de presente, dizendo que havia usado em seu aniversário de quinze anos, e como era uma data especial, ela queria me ver usando-o. Era branco, com alguns detalhes, e coube direitinho em mim. Parecia até feito sob medida.
Fui até meu espelho, e fiquei encantada com o que eu vi. Meus cabelos negros caíam suavemente pelos meus ombros, dando certo contraste com o branco do vestido. Meus olhos lilás brilhavam de alegria, e meus lábios já eram tão rosados que eu nem precisava procurar um batom de minha mãe. Naquele dia, eu me sentia mais velha. Eu conseguia sentir que algo estava para acontecer, algo que marcaria a minha vida, por mais insignificante que fosse. Eu sentia, pela primeira vez na vida, certeza de que eu estava envelhecendo um ano. Eu senti que tinha quinze naquele momento.
Olhei mais uma vez para minha imagem no espelho. Lembrei de minha mãe por causa do vestido, e curiosamente não fiquei triste, apesar de um leve tremor ter atravessado minha espinha.
Não tive tempo de tentar adivinhar o motivo daquele tremor, pois logo escutei:
— Marie, você está aí? – era Alex.
— Estou sim! – gritei pela janela. – Vou descer em um instante. Você pode entrar! – e com isso, desci as escadas correndo. Na verdade, fui tão rápida que quando cheguei lá embaixo, Alex havia acabado de aterrissar de seu pulo de cima do muro. Dava para notar que no meio tempo em que não o havia visto, ele havia crescido pelo menos dois centímetros, e estava mais moreno. Ele havia me dito que sua família viajara para outro país, mais ensolarado e quente do que este, por isso havia se bronzeado.
Balancei a cabeça levemente para me despertar do transe em que havia entrado ao observá-lo e corri para abraçá-lo com força e calorosamente.
— Alex, que bom que você veio hoje... – apertei-o mais ainda, algumas lágrimas traiçoeiras brotando em meus olhos. Estava tão aliviada e tão feliz em vê-lo, que não pude evitar.
— Marie, feliz aniversário... – ele sussurrou com a voz sedosa em meu ouvido, fazendo meu corpo tremer. Virou meu rosto para o seu, segurando-me pelo queixo e tocou seus lábios macios nos meus gentilmente.
— Hn... – soltei um gemido inconscientemente. Nem notei quando foi que aprofundamos o beijo, que rapidamente nos deixou sem ar, e tivemos que parar.
— Alex... – suspirei. Pude sentir suas mãos deslizando suavemente pelas minhas costas, mas antes que ele chegasse num ponto baixo demais, alertei-o: — Alex, aí não...
Ele corou um pouco e disse:
— Desculpe. Não era minha intenção assustá-la.
— Eu sei... – respondi, corada, mas meio arrependida de tê-lo parado. – É que, mesmo tendo quinze anos, nunca tive contato com ninguém... Desse jeito. Então eu ainda estou insegura – mordi o lábio inferior, mais arrependida do que antes. Não era uma sensação ruim. Eu apenas não estava confiante.
Ele sorriu e disse:
— Eu também sei disso. Foi indelicado de minha parte. É só que você está magnífica nesse vestido. Caiu muito bem em você.
Fiquei radiante com o elogio, e abracei-o mais fortemente.
Depois de alguns momentos assim, lembrei-me:
— Ah, entre! Vamos almoçar.
— Claro – ele sorriu, e segui-me até a cozinha, onde estava tudo preparado e mais limpo do que de manhã. Provavelmente eles haviam limpado a cozinha e feito todo o almoço que eu não tivera tempo de fazer.
A cozinha não parecia o ligar certo para se comemorar a ocasião, então tive uma idéia:
— Levem a comida para a sala. Estaremos esperando lá. Hoje, como é um dia especial, comeremos na sala.
Alex ficou um pouco confuso de início, mas mesmo assim me segui até a sala e sentou-se em um dos vários sofás que tinha em volta de uma bela mesa.
Depois de algum tempo calado, Alex comentou:
— Você gosta muito desta sala, não é mesmo, Marie?
— Sim, gosto muito dela. Apesar de ela ter um ar de que é mais antiga do que meus pais, eu ainda assim gosto dela.
— Também gosto muito dela. Parece aquelas salas de filme antigo, onde ocorre um assassinato.
Ao som da palavra “assassinato”, senti um calafrio violento correr por todo meu corpo.
— O que houve? – Alex notou.
— Um calafrio – respondi displicentemente. Não parecia algo com que eu devesse me importar. Ou será que era?
— Bem... Se é só um calafrio... – Alex ficou preocupado. Eu podia ver isso em seus olhos.
— Não se preocupe, Alex. Eu juro que foi apenas um calafrio. Não é nada demais.
— Tudo bem – ele ainda estava preocupado, mas decidiu ceder.
Logo a comida e tudo mais veio flutuando para cima da mesa, e eu e Alex comemos com gosto. Era um delicioso estrogonofe, e logo veio a sobremesa: os cookies que haviam sobrado do café da manhã. Eles haviam esquentado-os, para não termos que comer cookies frios e duros.
Sorri e mordisquei um dos cookies, feliz. Alex fez o mesmo, e logo todos os cookies haviam acabado.
— Bem, o que quer fazer agora, senhorita Marie Papillon D’Amour? – perguntou Alex, usando meu nome completo, que eu havia dito apenas uma vez no dia anterior, já que ele havia insistido para que eu contasse.
Abafei uma risada e disse:
— Meu maior desejo agora é apenas caminhar no jardim e conversar um pouco, senhor Alex Mignon Silva – respondi, também chamando-o pelo nome completo, que ele também só havia dito uma única vez, no dia anterior, quando lhe contei o meu. Não perguntem de onde era aquele sobrenome Silva. Mas com certeza não era de meu país.
Ele sorriu e, levantando-se, ofereceu o braço para mim e disse:
— Então não temos tempo a perder.
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