Marie das Sombras

11 15 anos (parte 2)


Notas iniciais
Vocês vão querer me bater nesse capítulo xD

Caminhávamos pelo jardim contando piadas, e pouco depois conversamos sobre sua viagem e as coisas hilárias que haviam acontecido lá. Rimos tanto que ficamos sem ar e tivemos que dar uma parada, sentando embaixo de uma árvore, pois o sol estava agora brilhando muito e o clima havia esquentado.

Enquanto estávamos arfando ainda, Alex virou para mim com os olhos extremamente sérios e perguntou:

— Marie, por que você não sai daqui? Por que não vem comigo para minha casa, fugindo de todo esse confinamento?

Sua pergunta me pegou de surpresa. Óbvio que eu já havia cogitado a atraente idéia de fugir daquelas criaturas, mas isso havia sido mito tempo atrás, antes mesmo de Alex aparecer. Agora que ele a trazia a tona, um medo subitamente tocou meu coração, e a idéia não me pareceu boa. Por que será?

— Não sei, Alex... – respondi, ainda atemorizada. – Essas criaturas, mesmo que eu não possa vê-las, tem sido boas para mim... Acho que não seria certo abandoná-las.

Alex pareceu triste com a minha resposta, então insistiu:

— Mas saindo daqui, você poderia conviver com o mundo lá de fora. Poderia conhecer garotas da sua idade. Poderia viver com a minha família, que apesar de não ser muito unida, acolheria você de bom grado. Poderia ficar muito mais tempo comigo. Poderia conhecer lugares novos. Poderia conhecer muitas pessoas legais, não só garotas. Poderia viver comigo quando eu atingisse a maioridade. Poderia ir para o colégio, e depois para a faculdade, se formar, conseguir um emprego e ter seu próprio dinheiro para comprar seus livros, suas roupas. Você seria uma pessoa livre. Isso não seria maravilhoso?

Todas as coisas que ele disse pareciam tão atraentes, tão reais, tão possíveis... Que dentro de mim cresceu, a cada palavra, mais e mais a vontade de sair daquele lugar. Uma vontade que eu havia enterrado fazia muito tempo. Mas agora eu tinha quinze anos. Durante quantos anos mais eu pretendia viver sozinha naquela casa, sem conhecer pessoas novas?

Alex, vendo que suas palavras faziam efeito em mim, acrescentou:

— Você não quer ficar perto de mim mais tempo do que já fica? Poderíamos ficar juntos o dia todo, todos os dias da semana, todas as semanas de todos os meses de todos os anos – ele me abraçou.

— É... – me ouvi dizer. – Você tem razão. Seria magnífico sair daqui e conhecer o mundo lá fora...

Ficamos ali abraçados durante algum tempo, até que ele finalmente se levantou e disse:

— Que tal hoje, às onze horas, eu passar aqui para te buscar?

— Como assim? Eu nem fiz as malas ainda.

— Você faz quando eu for embora. Olha, eu posso ir embora no fim da tarde, e depois do jantar você guarda suas roupas na primeira mala que encontrar e pronto! Você nem precisa pegar muitas roupas. Mamãe pode comprar mais para você no futuro. Basta pegar algumas roupas, seus livros preferidos e vir comigo.

Sentia meu coração bater forte de ansiedade e de... Bem, de medo de que fossemos descobertos. Afinal de contas, aquelas criaturinhas viviam me seguindo, bisbilhotando.

— Bem... É um ótimo plano. Mas e se eles descobrirem.

— Você diz que só vai se ausentar alguns dias. Só o suficiente para conhecer a cidade. Tenho quase certeza de que eles vão deixar.

Pensei profundamente durante vários minutos. Alex já estava quase perdendo as esperanças quando eu finalmente respondi:

— Tudo bem. Então está combinado. Onze horas você passa aqui para me buscar.

Me arrependi da frase assim que a pronunciei. E me arrependeria dela o resto da minha vida, apesar de não imaginar isso naquele momento.

Alex sorriu como uma criancinha de cinco anos e falou:

— Combinado.

— Agora vamos, eu quero saber que tipo de presente você vai me dar – perguntei.

Foi como se eu tivesse jogado um balde de água fria em Alex. Ele havia se esquecido de me dar meu presente de aniversário.

Acompanhei-o com os olhos quando ele se levantou apressado, correu até o muro e de lá gritou:

— Venha, Marie! Seu presente está aqui!

Fiz como ele disse: levantei-me e corri até ele.

Quando finalmente o alcancei, vi que ele segurava um embrulho quadrado.

— Um... Um... – perdi a fala.

— Sim. Um livro novo. E esse é seu. Não da sua mãe, nem da minha irmã. O que acha?

Agarrei o embrulho ansiosa e abri apressadamente. Era um livro intitulado “O Morro dos Ventos Uivantes”.

— Alex... – quase chorei de felicidade. – Muito obrigada... Fala sobre o quê? – perguntei, curiosa.

— É um romance. Tem mais de cem anos que foi escrito. Minha mãe me recomendou o livro, e disse que é muito bonito. Ainda não terminei de ler o meu, mas estou gostando, e pensei que você bem que gostaria dele. Espero que nosso amor possa ser tão ardente quanto o de Heathcliff e de Catherine.

Sorri para ele, feliz por ele desejar tal coisa.

— Muito obrigada, Alex.

Passamos o resto da tarde conversando sobre os livros que eu lia e o tipo de livro que liam nesse século, e notei que a diferença era drástica. Enquanto a maioria dos livros que eu lia falava de coisas sérias, golpes, trapaças e tudo o mais, a maioria dos livros desse século falavam sobre namoro adolescente, vampiros e todo o tipo de criatura bizarra que se possa imaginar. Tinha até um, Percy Jackson, que tinha a mitologia grega toda se realizando agora, no século XXI, e nos Estados Unidos (seja lá onde isso fosse).

Quando a noite caiu, estávamos abraçados. Ele afagava minha bochecha, e eu estava passando a mão em seus braços.

— Marie, eu tenho que ir... Já está escurecendo.

Comecei a ficar triste, mas tinha uma pontada de felicidade no meio disso tudo. Alex voltaria para me ver, e eu poderia fugir com ele.

— Tudo bem. Até mais tarde – me despedi, esperançosa.

Ele me abraçou fortemente, colando seus lábios aos meus durante alguns instantes, e depois nos separamos.

— Até mais tarde – ele concordou e correu para o muro, logo pulando para o outro lado.

Suspirei, e quando estava quase me afogando nas lembranças daquela tarde, senti o ar me convidando:

— O jantar está servido, Marie.

— Sim... Estou indo — me dirigi até a cozinha.

Estava tão ansiosa com a idéia de fugir, que não notei em nada, nem mesmo no que o jantar era.

Quando terminei, corri para o meu quarto, dizendo que queria ficar sozinha por uns minutos, e rapidamente fiz o que Alex dissera para eu fazer: arrumei a mala. Coloquei lá dentro todas as roupas que ele havia me dado, o meu vestido que eu estava usando, o livro que ele me dera e o livro de minha mãe que eu não havia acabado ainda. Depois, peguei um vestido meu cor de vinho, vesti, penteei os cabelos, prendi em um rabo de cavalo e me escondi debaixo das cobertas, colocando o despertador para onze horas.

Ao adormecer, sonhei que estava embaixo d’água. Não conseguia respirar de jeito nenhum, mas também não conseguia subir para a superfície. Felizmente (ou não) fui arrancada de meu pesadelo por um grito horrendo de dor:

— Aaaaaaaaaaah!

O grito vinha lá de baixo. Alguém estava gravemente ferido perto de minha casa. E aquele grito havia me assustado tanto quanto o pesadelo, então saí da cama para olhar o que havia acontecido com o coração na boca.

Olhei de relance para o relógio: onze e cinco. Por que o despertador não havia tocado?

Xinguei de raiva quando notei que estava parado. As pilhas deviam ter acabado.

Peguei a mala e desci correndo, tanto para ver o que havia acontecido como para procurar por Alex.

Ao chegar no andar de baixo, notei que a luz que iluminava o jardim estava acesa. Aquilo era estranho.

Sem fazer barulho, apressei-me para ver o que era, e juro que preferia ter morrido sem ter presenciado aquela cena.

Lembro que desmaiei, no meio do jardim, indo de encontro ao motivo pelo qual eu acordara.

Notas finais
aaaah, eu quase chorei fazendo esse capítulo. fiquei com bolo no estômago.