Marie das Sombras
12 A realidade machuca
Notas iniciais
Recobrei os sentidos, rezando para não ser verdade o que estava à minha frente, e quase desmaiei de novo ao notar que não era.
Meus olhos ficaram turvos por causa das lágrimas ao notar que tinha um cadáver no meio do meu jardim. E não era um cadáver qualquer. Era o de Alex.
Alex estava com uma faca enterrada no coração, a barriga aberta, mostrando parte dos órgãos internos, sua boca estava negra e seu rosto estava roxo e verde, como os rostos de meus pais. Com aquelas provas, não havia dúvidas do assassino. Aliás, dos assassinos.
— POR QUÊ?! – gritei, em meio às lágrimas e aos soluços. Eu estava agarrada ao corpo de Alex, prendendo a ânsia de vômito. – Por que vocês fizeram isso...? Por que ele...? Não foram vocês mesmos que deixaram ele entrar...? Não foram vocês... Que deixaram eu me apegar a ele...? Por que não me pararam antes?! POR QUE O TROUXERAM AQUI?! – tornei a berrar.
“Era necessário. Faz parte do protocolo.” – foi a resposta dos seres que, aos poucos, iam se tornando visíveis para mim.
Por um momento, esqueci parcialmente a tristeza por causa do susto: eram todos iguais ao ser esquisito do meu sonho, que estava falando com a minha mãe!
Recuperada do susto, berrei, furiosa:
— Que raio de protocolo é esse?! – eu estava começando a falar que nem Alex. Isso me deu um nó na garganta, e voltei a soluçar, enquanto três gordas lágrimas caíam de meus olhos.
“As escolhidas para serem mestras só tem permissão para nos ver quando completa quinze anos. E é indiscutivelmente proibido para elas desenvolver afeto por qualquer outro ser, a não ser nós, seus eternos servos, já que seu amor e suas ordens são tudo o que pedimos. Sua mãe havia concordado com os termos, mas se apaixonou por seu pai, apesar de ter sofrido o trauma de ter seu namorado morto por nós no passado. Ela engravidou de seu pai e, querendo fugir de nós, se meteu aqui, e teve você, que se tornou automaticamente herdeira desse fardo que sua mãe carregava. Porém, mesmo que ela fosse ao Inferno, conseguiríamos achá-la. E quando a achamos, punimos a ela e ao seu pai, e também aproveitamos para exterminar todos os empregados, para evitar que você pudesse se apegar a algum deles. Confessamos que sim, foi um erro deixar que Alex e você se apegassem tanto ao ponto de planejarem uma fuga, mas foi para o seu próprio bem.” – choquei-me ao escutar que sabiam de nossos planos de fuga.
Eu estava fervendo por dentro. Estava com ódio de minha mãe por ter me concebido, apesar de saber dos riscos. Estava com ódio daquelas criaturas, que mataram meus pais, os empregados e o ser humano que mais amei na minha vida. E estava com ódio de mim mesma por ter deixado Alex ter se aproximado tanto de mim, apesar de saber o quanto as criaturas eram perigosas.
Soltei um berro tão alto e tão cheio de dor, que acho que fez até os lobisomens se calarem e recuarem. Eu estava fervendo de raiva, ódio e tristeza. Parecia que todo o meu corpo ia se rasgar por causa da dor. Meu peito doía. Meu coração estava quase esmagado lá dentro. Agarrei mais ainda Alex, beijando sua boca negra. Seus lábios ainda eram macios, mas estavam frios como gelo e sem vida. Não correspondiam às minhas tentativas desesperadas de trazê-lo de volta. E ele nunca voltaria. E jamais saberia que o amor de Cath e Heathcliff não era um amor bonito que terminava bem.
— Não, Alex, não... – chorei. – Volta!
A culpa de tê-lo envolvido nisso me matava por dentro. As criaturas olhavam caladas o meu sofrimento. Eu sentia ódio de mim mesma de não ter entregado todo o meu corpo a ele quando tive a oportunidade. Foram tantas...! Inclusive aquela, de manhã, quando ele queria apenas passar a mão em meu bumbum.
— Vocês não tinham que matar ele! – gritei. – Alex tinha uma família que o amava! Tinha amigos que zelavam por ele! Tinha pessoas que queria estar com ele por perto! E eu só tinha ele!
“Não... Você tem a nós. E isso foi necessário. Esse trauma que causamos em você impedirá você de amar qualquer outro ser humano. Você nunca mais terá de sofrer assim se não se apaixonar novamente.” – foi a resposta deles. E estavam certos. Eu não queria mais ninguém. Ninguém além de Alex. E agora eu não o poderia ter. Ele estava morto. E eu não podia trazê-lo de volta.
Tirei minhas roupas ali mesmo, deixando as criaturas sem entender nada. Ao ficar nua, desnudei o corpo de Alex e vesti suas roupas. Inclusive a cueca. E fiquei sem sutiã.
— Aceito a oferta irresistível de vocês – abusei do tom sarcástico quando falei a palavra “irresistível”. – Mas tenho uma condição.
“Faremos o que a mestra mandar.” – eles responderam, todos se curvando em sinal de obediência absoluta.
— Vão sepultá-lo aqui, no mesmo jardim em que meus pais estão sepultados. E todos os anos, nessa mesma data, voltaremos aqui, para que eu jamais me esqueça dele. E para que eu possa rezar por sua alma.
Todas as criaturas sorriram. Era um pedido simples, não?
“Claro. Em meia hora ficará pronto.” – eles responderam.
— Ótimo. Então em meia hora partimos.
“Para onde?” – eles estranharam.
Fuzilei todos com os olhos. Eu havia perdido toda a minha ingenuidade de criança naqueles cinco minutos. Todas as coisas boas que eu tinha no coração foram para a sepultura, junto com Alex.
— Não pensem que só porque vocês estragaram meu plano de fuga eu desisti de conhecer a cidade. Eu não fico nessa casa mais nem um dia. Vou rodar as cidades desse país, entrar em cada festa, conhecer cada pessoa que puder, mas apenas por diversão. Nunca mais vou conseguir sentir esse sentimento puro que eu tinha por Alex, esse amor incondicional. Andem, sem mais perguntas!
Eles obedeceram, e em meia hora partimos. Eu com as vestes de Alex, e com a mala cheia de coisas preciosas que me lembrariam para sempre dele. E as criaturinhas feiosas apenas voavam, em silêncio.
“Mestra... Por que está tão quieta? Melhor entrar, a festa já começou.” – Chuck me cutucou. Era uma daquelas criaturinhas horrendas que me seguiam como escravos desde meus quinze anos. Aquele papo de servo leal estava me enchendo o saco. Nada mais me divertia, a não ser quando eu seduzia um homem e depois torturava-o com a ajuda daqueles diabinhos.
— Eu sei, Chuck – respondi, mal-humorada. – Tive um flashback.
“De novo? Eles estão ficando mais freqüentes, mestra. Isso é um pouco preocupante.” – Chuck perguntou, preocupado. Ele era novo, havia entrado para o grupo fazia pouco mais que cinco meses.
— Chuck, não me aborreça. É apenas porque está quase no dia do meu aniversário de vinte e sete anos. Eu começo a ter os flashbacks com mais freqüência a medida em que meu aniversário se aproxima. Você sabe... É o aniversário de morte dele – encerrei com uma carranca que fez Chuck estremecer. Isso fez com que um sorriso sádico nascesse em meus lábios. Ele parecia estar entendendo com que tipo de pessoa estava lidando.
— Sim senhora, mestra. Desculpe-me se a perturbei. Estou me retirando, então – e ele se foi.
Suspirei, ajeitando o vestido branco que eu havia usado em meu aniversário de quinze anos. Estava um pouco menor porque eu havia ficado mais alta, mas eu não havia engordado quase nenhum quilo desde aquele dia, já que não sentia vontade de comer mais. Comia por obrigação e insistência daquelas criaturinhas insuportáveis e odiáveis.
Fazia já quase doze anos desde a morte de Alex, e apesar de ter entregado minha virgindade para um bastardo qualquer, e ter conhecido milhares de outros homens, nunca fui capaz de encontrar ninguém que substituísse Alex. Encontrei garotos com personalidade idêntica, mas eles não eram Alex. E se você pensa que eu sou insuportável e irritadiça, espere até eu escutar um idiota dizendo que “nada é impossível”. Esse eu soco e assassino sem dó nem piedade, porque se nada fosse impossível, eu teria conseguido ressuscitar Alex. No entanto, ele continuava morto. Isso era fato.
Agora, com meus vinte e seis, quase vinte e sete anos, continuava com quase a mesma aparência de meus quinze anos. Apenas tinha mais olheiras, meus cabelos estavam maiores menos bem cuidados, e nunca tinha nenhum sentimento em meus olhos fora sarcasmo, irritação ou loucura. Eu só deixava meus olhos se inundarem com a tristeza quando voltava, no dia do meu aniversário, para minha antiga casa (que agora estava soterrada em poeira e empestiada com todos os tipos de animais que você possa imaginar), e ficava de frente para o túmulo de Alex. Aí sim eu chorava feito uma mula desgraçada.
Suspirei mais uma vez e adentrei a festa, mudando a expressão facial completamente, como se estivesse vestindo uma máscara, e conseguindo parecer sociável.
Mais uma noite vazia. Mais uma noite sem Alex. E assim seria até que meu coração parasse de bater.
Notas finais
Bem, vocês querem me matar, né? Mas espero que tenham se emocionado com a fic. Beijoos! Ah, e Reviews? Mandem se eu merecer
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